sábado, 17 de dezembro de 2011

IV DOMINGO ADVENTO – Lc 1,26-38

Maria, a torre de Davi

Celebramos hoje o IV domingo do Advento, onde a liturgia é dedicada a Mãe do Senhor que se fez serva humilde e obediente ao projeto de Deus para a salvar a humanidade. Este é o domingo que antecede imediatamente o Natal e, por isso, somos convidados a contemplar a figura de Maria de Nazaré que “acolheu o Verbo da vida e se alegrou como mãe de uma estirpe santa e incorruptível”.

O Evangelho, segundo Lucas, nos apresenta a esplêndida narração do anúncio do anjo Gabriel que aparece a esta jovem e digna filha de Israel para revelar-lhe o projeto de Deus e pedir a sua colaboração no plano da redenção, que inicia especificamente com o sim de Maria dado a Deus com todo o seu ser, com alegria e a beleza de ser a serva do Senhor, instrumento desta grandiosíssima obra de salvação.

No anúncio que o anjo faz a Maria, ele lembra que o menino que dela nascerá, “será grande, será chamado Filho do Altíssimo, e o Senhor Deus lhe dará o trono de seu pai Davi. Ele reinará para sempre sobre os descendentes de Jacó, e o seu reino não terá fim”. Estas palavras do anjo Gabriel a Maria depende de um importante texto presente no AT que a liturgia nos propõe como I leitura.

Tal leitura é tirada de 2Sm 7. Depois que Davi conquistou Jerusalém, e construiu a sua casa, após ter vencido os vários inimigos que tinha a seu redor, recebendo de Deus finalmente um tempo de paz e segurança, teve a ideia de construir uma casa para o Senhor, isto é, um templo. O profeta Natã, porta-voz da antiga tradição de Israel, a princípio concorda com Davi. Mas, depois tem uma revelação naquela mesma noite: não é Davi quem construirá a casa e sim seu filho.

Há um duplo sentido aqui para a palavra “casa”. No primeiro sentido, indica o templo (igreja). No segundo, a família (Igreja). Não é Davi que dá algo a Deus, mas é Deus que se empenha para fazer nascer de Davi uma família, e promete que a sua descendência durará pelos séculos. Estamos falando do famoso oráculo do profeta Natã: o oráculo fundador da dinastia davídica em Jerusalém. Aquela família que por muito tempo guiou o povo.

Assim diz o Senhor: “vai dizer a meu servo Davi: 'Assim fala o Senhor: porventura és tu que me construirás uma casa para eu habitar? Fui eu que te tirei do pastoreio, do meio das ovelhas, para que fosses o chefe do meu povo, Israel. Estive contigo em toda parte por onde andaste e exterminei diante de ti todos os teus inimigos, fazendo o teu nome tão célebre como o dos homens mais famosos da terra. Vou preparar um lugar para o meu povo, Israel: eu o implantarei, de modo que possa morar lá sem jamais ser inquietado. Os homens violentos não tornarão a oprimi-lo como outrora, no tempo em que eu estabelecia juízes sobre o meu povo, Israel. Concedo-te uma vida tranquila, livrando-te de todos os teus inimigos. E o Senhor te anuncia que te fará uma casa'”.

Davi não construirá uma casa para o Senhor, pois Ele não tem necessidade de uma casa para morar. Tudo aquilo que o Senhor fez por Davi, este deve recordar e saber que o Senhor se empenha a construir para ele uma casa, não de pedras, mas de pessoas vivas.

O texto continua: “quando chegar o fim dos teus dias e repousares com teus pais, então suscitarei, depois de ti, um filho teu e confirmarei a sua realeza. Eu serei para ele um pai e ele será para mim um filho”. Natã, em nome do Senhor, não pretendia simplesmente prometer a Davi que este teria um filho como sucessor sobre seu trono. Historicamente, sabemos que foi Salomão. E depois, Roboão e assim por diante por séculos. Mas dentro dessa promessa de Deus, tem um horizonte muito maior. Um descendente de Davi, muitos séculos depois, será o próprio Messias prometido: o Filho nascido do ventre da Virgem Maria. Eis porque o anjo Gabriel lhe diz: “o Senhor Deus lhe dará o trono de seu pai Davi. Ele reinará para sempre sobre os descendentes de Jacó, e o seu reino não terá fim”. Deus tinha prometido: “eu serei para ele um pai e ele será para mim um filho”, não se tratava somente de uma imagem, mas na plenitude dos tempos, a encarnação do Filho de Deus revelou plenamente que Deus é Pai. E este menino é filho de Davi segundo a carne, mas é Filho de Deus segundo o Espírito. E a casa e o reino de Davi serão estáveis para sempre.

Nós reconhecemos que mil anos depois do oráculo de Davi, o Senhor manteve a promessa e reconhecemos que aquele menino que nasceu é aquele que reina eternamente tal qual recitamos no Credo: “e o seu reino não terá fim”. Ele inaugurou um reino que é eterno e nós fazemos parte desse reino. Maria entrou neste reino acolhendo-o com grande generosidade. Coisa que nós também podemos fazer: reinar com Cristo, colocando-nos a sua disposição.

O texto de Lucas que nos fala da Anunciação já nos introduz no clima do Natal e no breve trecho da II leitura de hoje, encontramos o significado teológico desta nossa espera e esperança no Senhor. Paulo, na sua carta aos romanos, escreve com grande simplicidade, mas também com profundidade, palavras maravilhosas para indicar um percurso de vida espiritual e moral para fazer com que encontremos Deus verdadeiramente e para sempre na pessoa de Cristo.

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