sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

III DOMINGO ADVENTO - Evangelho Jo 1,6-8.19-28.

 

Alegrar-se? Por quê?

Neste III Domingo do Advento, fazemos uma pausa na leitura do evangelho de Marcos. De fato, a liturgia de hoje nos propõe um trecho do evangelho de João, mas continuamos a refletir sobre a figura de João Batista. A diferença é que enquanto nos outros três evangelhos (sinóticos), João Batista é apresentado como o batizador, na obra de João, há uma característica a mais e muito importante, ele é apresentado como “aquele que veio como testemunha, para dar testemunho da luz, para que todos chegassem à fé por meio dele” (Jo 1,7). A Igreja oriental chama João de “o precursor”, o que deixa em aberto tanto para o sentido de batizador como de testemunha.

Mas a ênfase que a Igreja celebra hoje neste domingo denominado gaudete é o convite à alegria, ao júbilo. De fato, quer na I leitura quer na II, vemos claramente esta exortação. Mas a pergunta que imediatamente nos vem a mente é: como podemos nos alegrar com tantos perigos que nos ameaçam, com tantas desgraças que acontecem e as provações da vida que nos angustiam? A resposta é tríplice e se encontra nas três leituras.

Na primeira leitura, a liturgia nos propõe um texto do livro do profeta Isaías e enfatiza o papel do Espírito Santo na vida daquele que tem fé. É um texto muito famoso porque o próprio Jesus usou na sua primeira aparição na sinagoga de Nazaré. É tirado do capítulo 61 de Isaías. Trata-se de um poema com o qual este profeta se apresenta, relatando a própria vocação para a missão: “O Espírito do Senhor Deus está sobre mim, porque o Senhor me ungiu; enviou-me para dar a boa-nova aos humildes, curar as feridas da alma, pregar a redenção para os cativos e a liberdade para os que estão presos; para proclamar o ano da graça do Senhor” (Is 61,1-2a).

É o profeta que está falando de si mesmo. O Espírito do Senhor, de fato, consagrou-o com a unção. E a unção era reservada aos sacerdotes. É o sacerdote que inicia uma nova época depois do fim do exílio. E o Espírito lhe delega um serviço: levar o alegre anúncio aos pobres, proclamar a liberdade aos escravos. Curar as feridas, curar os corações despedaçados que é indicativo de uma pessoa triste, que foi ferida, que está passando por grandes tribulações. Os miseráveis não são simplesmente os pobres economicamente falando. Mas, principalmente, são aqueles que tem fome de amor.

Assim explicava Madre Teresa sobre os mais pobres: “são os solitários e os famintos, não só de pão, mas da palavra de Deus; os ignorantes e os sedentos, não só de água, mas de conhecimento, paz, verdade, justiça e amor; os não amados e os desnudos, não só de vestes mas também de dignidade humana; os não queridos, as crianças não nascidas, os que são discriminados, os sem-teto, não só os que não têm uma morada, mas os que têm necessidade de um coração que os entenda, os proteja, os ame; os enfermos, os prisioneiros não só no corpo, mas também na mente e no espírito: todos aqueles que perderam qualquer esperança e fé na vida, os alcoólatras e os toxicodependentes, e todos aqueles que perderam Deus e qualquer esperança no poder do Espírito” (Madre Teresa em O Caminho Simples).

A bela notícia anunciada pelo profeta é que Deus intervém. Deus concede a graça. Na última parte do capítulo 61 de Is, o profeta declara: “Exulto de alegria no Senhor e minh'alma regozija-se em meu Deus; ele me vestiu com as vestes da salvação, envolveu-me com o manto da justiça e adornou-me como um noivo com sua coroa, ou uma noiva com suas joias”. É uma clara referência às vestes sacerdotais, aos paramentos do Sumo Sacerdote que leva aos seus fiéis essa alegria profunda. No período do deserto, não acabou tudo. A terra germinou. Celebra-se o retorno dos jardins. Onde o Senhor faz germinar a justiça e a sua glória diante de todas as nações. Eis o motivo da nossa alegria: fomos justificados e salvos. A nossa condenação foi revogada: fomos alcançados pela graça.

O inimigo foi derrotado e o Senhor tomou o seu lugar. É este que agora está no meio de nós: eis a fonte da alegria que afasta toda tristeza e toda desgraça; e Ele não somente está no meio de nós, mas nos renova com o seu amor.

Na segunda leitura, o apóstolo Paulo exorta: “irmãos, estai sempre alegres!” Eis o segundo motivo por que nos alegramos: não estamos sozinhos, temos um Pai que escuta as nossas preces, nos consola, nos perdoa e nos dá a sua paz que ultrapassa todas as outras.

Mas a razão principal pela qual nos alegramos nos dá o Evangelho. João Batista promete nada menos que a chegada daquele que batizará no Espírito Santo e no fogo. Eis a razão máxima pela qual nos alegramos: nos é dado o Espírito Santo. O Espírito de Deus é uma força irresistível que pode cancelar num instante todas as nossas tristezas e angústias e pode nos tornar, num instante, exultantes, jubilosos, alegres, por dentro e por fora.

Enquanto cristãos, somos chamados a testemunhar a alegria. Devemos fazer aparecer a chama da alegria sobre as nuvens obscuras da tristeza e do desencorajamento. Mas como fazer isso quando a vida nos apresenta efetivamente tantas provas, dificuldades, doenças, desgraças, tentações, incompreensões, traições, decepções e uma lista sem fim de coisas ruins?

Até enquanto na nossa vida está tudo bem, é ótimo. Mas quando chegam as adversidades, estas inevitavelmente danificam e reduzem aquela luz boa que tínhamos inicialmente. O duro desafio da vida não é igual para todos: tem quem é mais provado, outros menos. Existem os “sortudos” para quem tudo vai bem e aqueles para quem vai mais mal do que bem. Então, o que fazer nestes casos? Viver sem alegria? Não, obviamente! Mas é preciso buscar essa alegria não das realidades contingentes, mas de uma fonte escondida e inesgotável que há dentro de nós: a alegria de Deus que habita em nossos corações.

Na prática: mesmo quando não temos a alegria porque estamos vivendo uma situação difícil, devemos dá-la assim mesmo, esta alegria, a quem está ao nosso redor, porque é justamente partilhando a alegria que a reconstruiremos e contribuiremos para restabelecer aquela que veio nos faltar. E Deus fará o restante! A verdadeira alegria é um fruto do Espírito Santo. É este o dom por excelência que devemos pedir: a atualização constante do nosso batismo no Espírito Santo que recebemos de uma vez para sempre com seu caráter indelével, porque teremos verdadeiramente a plenitude da alegria. A fonte da alegria é descobrir continuamente a presença do Senhor em meio a nós que faz florescer uma nova esperança.

Que a exemplo de Maria, a Virgem Mãe do Salvador, possamos cantar: “A minha alma engrandece o Senhor, e o meu espírito se alegra em Deus, meu Salvador” (Cântico de Maria no Sl de resposta).

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