quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

MENSAGEM DE SUA SANTIDADE BENTO XVI PARA A CELEBRAÇÃO DO DIA MUNDIAL DA PAZ

1 DE JANEIRO DE 2012

EDUCAR OS JOVENS PARA A JUSTIÇA E A PAZ

1. O INÍCIO DE UM NOVO ANO, dom de Deus à humanidade, induz-me a desejar a todos, com grande confiança e estima, de modo especial que este tempo, que se abre diante de nós, fique marcado concretamente pela justiça e a paz.

Com qual atitude devemos olhar para o novo ano? No salmo 130, encontramos uma imagem muito bela. O salmista diz que o homem de fé aguarda pelo Senhor « mais do que a sentinela pela aurora » (v. 6), aguarda por Ele com firme esperança, porque sabe que trará luz, misericórdia, salvação. Esta expectativa nasce da experiência do povo eleito, que reconhece ter sido educado por Deus a olhar o mundo na sua verdade sem se deixar abater pelas tribulações. Convido-vos a olhar o ano de 2012 com esta atitude confiante. É verdade que, no ano que termina, cresceu o sentido de frustração por causa da crise que aflige a sociedade, o mundo do trabalho e a economia; uma crise cujas raízes são primariamente culturais e antropológicas. Quase parece que um manto de escuridão teria descido sobre o nosso tempo, impedindo de ver com clareza a luz do dia.

Mas, nesta escuridão, o coração do homem não cessa de aguardar pela aurora de que fala o salmista. Esta expectativa mostra-se particularmente viva e visível nos jovens; e é por isso que o meu pensamento se volta para eles, considerando o contributo que podem e devem oferecer à sociedade. Queria, pois, revestir a Mensagem para o XLV Dia Mundial da Paz duma perspectiva educativa: « Educar os jovens para a justiça e a paz », convencido de que eles podem, com o seu entusiasmo e idealismo, oferecer uma nova esperança ao mundo.

A minha Mensagem dirige-se também aos pais, às famílias, a todas as componentes educativas, formadoras, bem como aos responsáveis nos diversos âmbitos da vida religiosa, social, política, económica, cultural e mediática. Prestar atenção ao mundo juvenil, saber escutá-lo e valorizá-lo para a construção dum futuro de justiça e de paz não é só uma oportunidade mas um dever primário de toda a sociedade.

Trata-se de comunicar aos jovens o apreço pelo valor positivo da vida, suscitando neles o desejo de consumá-la ao serviço do Bem. Esta é uma tarefa, na qual todos nós estamos, pessoalmente, comprometidos.

As preocupações manifestadas por muitos jovens nestes últimos tempos, em várias regiões do mundo, exprimem o desejo de poder olhar para o futuro com fundada esperança. Na hora actual, muitos são os aspectos que os trazem apreensivos: o desejo de receber uma formação que os prepare de maneira mais profunda para enfrentar a realidade, a dificuldade de formar uma família e encontrar um emprego estável, a capacidade efectiva de intervir no mundo da política, da cultura e da economia contribuindo para a construção duma sociedade de rosto mais humano e solidário.

É importante que estes fermentos e o idealismo que encerram encontrem a devida atenção em todas  as componentes da sociedade. A Igreja olha para os jovens com esperança, tem confiança neles e encoraja-os a procurarem a verdade, a defenderem o bem comum, a possuírem perspectivas abertas sobre o mundo e olhos capazes de ver « coisas novas » (Is 42, 9; 48, 6).

Os responsáveis da educação

2. A educação é a aventura mais fascinante e difícil da vida. Educar – na sua etimologia latina educere – significa conduzir para fora de si mesmo ao encontro da realidade, rumo a uma plenitude que faz crescer a pessoa. Este processo alimenta-se do encontro de duas liberdades: a do adulto e a do jovem. Isto exige a responsabilidade do discípulo, que deve estar disponível para se deixar guiar no conhecimento da realidade, e a do educador, que deve estar disposto a dar-se a si mesmo. Mas, para isso, não bastam meros dispensadores de regras e informações; são necessárias testemunhas autênticas, ou seja, testemunhas que saibam ver mais longe do que os outros, porque a sua vida abraça espaços mais amplos. A testemunha é alguém que vive, primeiro, o caminho que propõe.

E quais são os lugares onde amadurece uma verdadeira educação para a paz e a justiça? Antes de mais nada, a família, já que os pais são os primeiros educadores. A família é célula originária da sociedade. « É na família que os filhos aprendem os valores humanos e cristãos que permitem uma convivência construtiva e pacífica. É na família que aprendem a solidariedade entre as gerações, o respeito pelas regras, o perdão e o acolhimento do outro ».[1] Esta é a primeira escola, onde se educa para a justiça e a paz.

Vivemos num mundo em que a família e até a própria vida se vêem constantemente ameaçadas e, não raro, destroçadas. Condições de trabalho frequentemente pouco compatíveis com as responsabilidades familiares, preocupações com o futuro, ritmos frenéticos de vida, emigração à procura dum adequado sustentamento se não mesmo da pura sobrevivência, acabam por tornar difícil a possibilidade de assegurar aos filhos um dos bens mais preciosos: a presença dos pais; uma presença, que permita compartilhar de forma cada vez mais profunda o caminho para se poder transmitir a experiência e as certezas adquiridas com os anos – o que só se torna viável com o tempo passado juntos. Queria aqui dizer aos pais para não desanimarem! Com o exemplo da sua vida, induzam os filhos a colocar a esperança antes de tudo em Deus, o único de quem surgem justiça e paz autênticas.

Quero dirigir-me também aos responsáveis das instituições com tarefas educativas: Velem, com grande sentido de responsabilidade, por que seja respeitada e valorizada em todas as circunstâncias a dignidade de cada pessoa. Tenham a peito que cada jovem possa descobrir a sua própria vocação, acompanhando-o para fazer frutificar os dons que o Senhor lhe concedeu. Assegurem às famílias que os seus filhos não terão um caminho formativo em contraste com a sua consciência e os seus princípios religiosos.

Possa cada ambiente educativo ser lugar de abertura ao transcendente e aos outros; lugar de diálogo, coesão e escuta, onde o jovem se sinta valorizado nas suas capacidades e riquezas interiores e aprenda a apreciar os irmãos. Possa ensinar a saborear a alegria que deriva de viver dia após dia a caridade e a compaixão para com o próximo e de participar activamente na construção duma sociedade mais humana e fraterna.

Dirijo-me, depois, aos responsáveis políticos, pedindo-lhes que ajudem concretamente as famílias e as instituições educativas a exercerem o seu direito-dever de educar. Não deve jamais faltar um adequado apoio à maternidade e à paternidade. Actuem de modo que a ninguém seja negado o acesso à instrução e que as famílias possam escolher livremente as estruturas educativas consideradas mais idóneas para o bem dos seus filhos. Esforcem-se por favorecer a reunificação das famílias que estão separadas devido à necessidade de encontrar meios de subsistência. Proporcionem aos jovens uma imagem transparente da política, como verdadeiro serviço para o bem de todos.

Não posso deixar de fazer apelo ainda ao mundo dos media para que prestem a sua contribuição educativa. Na sociedade actual, os meios de comunicação de massa têm uma função particular: não só informam, mas também formam o espírito dos seus destinatários e, consequentemente, podem concorrer notavelmente para a educação dos jovens. É importante ter presente a ligação estreitíssima que existe entre educação e comunicação: de facto, a educação realiza-se por meio da comunicação, que influi positiva ou negativamente na formação da pessoa.

Também os jovens devem ter a coragem de começar, eles mesmos, a viver aquilo que pedem a quantos os rodeiam. Que tenham a força de fazer um uso bom e consciente da liberdade, pois cabe-lhes em tudo isto uma grande responsabilidade: são responsáveis pela sua própria educação e formação para a justiça e a paz.

Educar para a verdade e a liberdade

3. Santo Agostinho perguntava-se: « Quid enim fortius desiderat anima quam veritatem – que deseja o homem mais intensamente do que a verdade? ».[2] O rosto humano duma sociedade depende muito da contribuição da educação para manter viva esta questão inevitável. De facto, a educação diz respeito à formação integral da pessoa, incluindo a dimensão moral e espiritual do seu ser, tendo em vista o seu fim último e o bem da sociedade a que pertence. Por isso, a fim de educar para a verdade, é preciso antes de mais nada saber que é a pessoa humana, conhecer a sua natureza. Olhando a realidade que o rodeava, o salmista pôs-se a pensar: « Quando contemplo os céus, obra das vossas mãos, a lua e as estrelas que Vós criastes: que é o homem para Vos lembrardes dele, o filho do homem para com ele Vos preocupardes? » (Sal 8, 4-5). Esta é a pergunta fundamental que nos devemos colocar: Que é o homem? O homem é um ser que traz no coração uma sede de infinito, uma sede de verdade – não uma verdade parcial, mas capaz de explicar o sentido da vida –, porque foi criado à imagem e semelhança de Deus. Assim, o facto de reconhecer com gratidão a vida como dom inestimável leva a descobrir a dignidade profunda e a inviolabilidade própria de cada pessoa. Por isso, a primeira educação consiste em aprender a reconhecer no homem a imagem do Criador e, consequentemente, a ter um profundo respeito por cada ser humano e ajudar os outros a realizarem uma vida conforme a esta sublime dignidade. É preciso não esquecer jamais que « o autêntico desenvolvimento do homem diz respeito unitariamente à totalidade da pessoa em todas as suas dimensões »,[3] incluindo a transcendente, e que não se pode sacrificar a pessoa para alcançar um bem particular, seja ele económico ou social, individual ou colectivo.

Só na relação com Deus é que o homem compreende o significado da sua liberdade, sendo tarefa da educação formar para a liberdade autêntica. Esta não é a ausência de vínculos, nem o império do livre arbítrio; não é o absolutismo do eu. Quando o homem se crê um ser absoluto, que não depende de nada nem de ninguém e pode fazer tudo o que lhe apetece, acaba por contradizer a verdade do seu ser e perder a sua liberdade. De facto, o homem é precisamente o contrário: um ser relacional, que vive em relação com os outros e sobretudo com Deus. A liberdade autêntica não pode jamais ser alcançada, afastando-se d’Ele.

A liberdade é um valor precioso, mas delicado: pode ser mal entendida e usada mal. « Hoje um obstáculo particularmente insidioso à acção educativa é constituído pela presença maciça, na nossa sociedade e cultura, daquele relativismo que, nada reconhecendo como definitivo, deixa como última medida somente o próprio eu com os seus desejos e, sob a aparência da liberdade, torna-se para cada pessoa uma prisão, porque separa uns dos outros, reduzindo cada um a permanecer fechado dentro do próprio “eu”. Dentro de um horizonte relativista como este, não é possível, portanto, uma verdadeira educação: sem a luz da verdade, mais cedo ou mais tarde cada pessoa está, de facto, condenada a duvidar da bondade da sua própria vida e das relações que a constituem, da validez do seu compromisso para construir com os outros algo em comum ».[4]

Por conseguinte o homem, para exercer a sua liberdade, deve superar o horizonte relativista e conhecer a verdade sobre si próprio e a verdade acerca do que é bem e do que é mal. No íntimo da consciência, o homem descobre uma lei que não se impôs a si mesmo, mas à qual deve obedecer e cuja voz o chama a amar e fazer o bem e a fugir do mal, a assumir a responsabilidade do bem cumprido e do mal praticado.[5] Por isso o exercício da liberdade está intimamente ligado com a lei moral natural, que tem carácter universal, exprime a dignidade de cada pessoa, coloca a base dos seus direitos e deveres fundamentais e, consequentemente, da convivência justa e pacífica entre as pessoas.

Assim o recto uso da liberdade é um ponto central na promoção da justiça e da paz, que exigem a cada um o respeito por si próprio e pelo outro, mesmo possuindo um modo de ser e viver distante do meu. Desta atitude derivam os elementos sem os quais paz e justiça permanecem palavras desprovidas de conteúdo: a confiança recíproca, a capacidade de encetar um diálogo construtivo, a possibilidade do perdão, que muitas vezes se quereria obter mas sente-se dificuldade em conceder, a caridade mútua, a compaixão para com os mais frágeis, e também a prontidão ao sacrifício.

Educar para a justiça

4. No nosso mundo, onde o valor da pessoa, da sua dignidade e dos seus direitos, não obstante as proclamações de intentos, está seriamente ameaçado pela tendência generalizada de recorrer exclusivamente aos critérios da utilidade, do lucro e do ter, é importante não separar das suas raízes transcendentes o conceito de justiça. De facto, a justiça não é uma simples convenção humana, pois o que é justo determina-se originariamente não pela lei positiva, mas pela identidade profunda do ser humano. É a visão integral do homem que impede de cair numa concepção contratualista da justiça e permite abrir também para ela o horizonte da solidariedade e do amor.[6]

Não podemos ignorar que certas correntes da cultura moderna, apoiadas em princípios económicos racionalistas e individualistas, alienaram das suas raízes transcendentes o conceito de justiça, separando-o da caridade e da solidariedade. Ora « a “cidade do homem” não se move apenas por relações feitas de direitos e de deveres, mas antes e sobretudo por relações de gratuidade, misericórdia e comunhão. A caridade manifesta sempre, mesmo nas relações humanas, o amor de Deus; dá valor teologal e salvífico a todo o empenho de justiça no mundo ».[7]

« Felizes os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados » (Mt 5, 6). Serão saciados, porque têm fome e sede de relações justas com Deus, consigo mesmo, com os seus irmãos e irmãs, com a criação inteira.

Educar para a paz

5. « A paz não é só ausência de guerra, nem se limita a assegurar o equilíbrio das forças adversas. A paz não é possível na terra sem a salvaguarda dos bens das pessoas, a livre comunicação entre os seres humanos, o respeito pela dignidade das pessoas e dos povos e a prática assídua da fraternidade ».[8] A paz é fruto da justiça e efeito da caridade. É, antes de mais nada, dom de Deus. Nós, os cristãos, acreditamos que a nossa verdadeira paz é Cristo: n’Ele, na sua Cruz, Deus reconciliou consigo o mundo e destruiu as barreiras que nos separavam uns dos outros (cf. Ef 2, 14-18); n’Ele, há uma única família reconciliada no amor.

A paz, porém, não é apenas dom a ser recebido, mas obra a ser construída. Para sermos verdadeiramente artífices de paz, devemos educar-nos para a compaixão, a solidariedade, a colaboração, a fraternidade, ser activos dentro da comunidade e solícitos em despertar as consciências para as questões nacionais e internacionais e para a importância de procurar adequadas modalidades de redistribuição da riqueza, de promoção do crescimento, de cooperação para o desenvolvimento e de resolução dos conflitos. « Felizes os pacificadores, porque serão chamados filhos de Deus » – diz Jesus no sermão da montanha (Mt 5, 9).

A paz para todos nasce da justiça de cada um, e ninguém pode subtrair-se a este compromisso essencial de promover a justiça segundo as respectivas competências e responsabilidades. De forma particular convido os jovens, que conservam viva a tensão pelos ideais, a procurarem com paciência e tenacidade a justiça e a paz e a cultivarem o gosto pelo que é justo e verdadeiro, mesmo quando isso lhes possa exigir sacrifícios e obrigue a caminhar contracorrente.

Levantar os olhos para Deus

6. Perante o árduo desafio de percorrer os caminhos da justiça e da paz, podemos ser tentados a interrogar-nos como o salmista: « Levanto os olhos para os montes, de onde me virá o auxílio? » (Sal 121, 1).

A todos, particularmente aos jovens, quero bradar: « Não são as ideologias que salvam o mundo, mas unicamente o voltar-se para o Deus vivo, que é o nosso criador, o garante da nossa liberdade, o garante do que é deveras bom e verdadeiro (…), o voltar-se sem reservas para Deus, que é a medida do que é justo e, ao mesmo tempo, é o amor eterno. E que mais nos poderia salvar senão o amor? ».[9] O amor rejubila com a verdade, é a força que torna capaz de comprometer-se pela verdade, pela justiça, pela paz, porque tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta (cf. 1 Cor 13, 1-13).

Queridos jovens, vós sois um dom precioso para a sociedade. Diante das dificuldades, não vos deixeis invadir pelo desânimo nem vos abandoneis a falsas soluções, que frequentemente se apresentam como o caminho mais fácil para superar os problemas. Não tenhais medo de vos empenhar, de enfrentar a fadiga e o sacrifício, de optar por caminhos que requerem fidelidade e constância, humildade e dedicação.

Vivei com confiança a vossa juventude e os anseios profundos que sentis de felicidade, verdade, beleza e amor verdadeiro. Vivei intensamente esta fase da vida, tão rica e cheia de entusiasmo.

Sabei que vós mesmos servis de exemplo e estímulo para os adultos, e tanto mais o sereis quanto mais vos esforçardes por superar as injustiças e a corrupção, quanto mais desejardes um futuro melhor e vos comprometerdes a construí-lo. Cientes das vossas potencialidades, nunca vos fecheis em vós próprios, mas trabalhai por um futuro mais luminoso para todos. Nunca vos sintais sozinhos! A Igreja confia em vós, acompanha-vos, encoraja-vos e deseja oferecer-vos o que tem de mais precioso: a possibilidade de levantar os olhos para Deus, de encontrar Jesus Cristo – Ele que é a justiça e a paz.

Oh vós todos, homens e mulheres, que tendes a peito a causa da paz! Esta não é um bem já alcançado mas uma meta, à qual todos e cada um deve aspirar. Olhemos, pois, o futuro com maior esperança, encorajemo-nos mutuamente ao longo do nosso caminho, trabalhemos para dar ao nosso mundo um rosto mais humano e fraterno e sintamo-nos unidos na responsabilidade que temos para com as jovens gerações, presentes e futuras, nomeadamente quanto à sua educação para se tornarem pacíficas e pacificadoras! Apoiado em tal certeza, envio-vos estas refl exões que se fazem apelo: Unamos as nossas forças espirituais, morais e materiais, a fim de « educar os jovens para a justiça e a paz ».

BENEDICTUS PP XVI

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

NATAL DO SENHOR - Lc 2,1-14

 

A GLÓRIA DA SIMPLICIDADE
É Natal! O Evangelho que nos é proposto nesta noite narra o grande acontecimento esperado por toda a humanidade: o nascimento do Salvador, o Cristo Senhor. O texto bíblico é fortemente caracterizado por um grande contraste. Enquanto se esperava uma vinda majestosa, o Salvador veio ao mundo de uma forma inesperada. É neste contraste, pois, que vamos descobrir um dos maiores ensinamentos que o Natal de Senhor nos pode dar. Logo no início do Evangelho, lemos as seguintes informações históricas: em primeiro lugar, aparece o imperador César Augusto, dominador do mundo Mediterrâneo da época, o qual impõe um censo de toda a terra, ou seja, de todos os habitantes submetidos à dominação romana, entre os quais se encontravam os da Palestina. Em seguida, o texto diz que quando ocorreu este censo, o governador da Síria era Quirino, procurador de Augusto na tetrarquia que compreendia a Iduméia, a Samaria e a Judéia, onde está localizada Belém. Longe, porém, de ter provas para estes dados históricos, além de uma diferença notável entre o relato do nascimento do Messias narrado neste texto e no evangelho de Mateus, ficamos com o que nos interessa: este decreto é o que liga José e Maria, residentes em Nazaré da Galiléia a Belém da Judéia. De fato, Lucas sublinha que Belém é a cidade natal de Davi, de onde descende José. Desta maneira, temos uma referência à promessa e à espera messiânica ligada a Belém e a família de Davi: “Grande será o seu reino, e a paz não há de ter fim sobre o trono de Davi e sobre o seu reinado” (Is 9,6). Chegando o tempo devido, Maria dá a luz o seu “primogênito” (este termo não quer indicar que Maria teve outros filhos, mas que Jesus é o primeiro filho de Maria, e por isso, tem todos os direitos de primogenitura; para se ter uma idéia da importância da primogenitura, basta lembrar as incansáveis trapaças feitas por Jacó contra seu irmão Esaú até tomar-lhe este direito). Maria, como toda mulher, passa naturalmente por essa experiência. Nem pode escolher o momento, nem esperar uma circunstância melhor. Ela não encontrou um lugar adequado para o seu menino, por isso, deu à luz num estábulo, pondo o menino numa manjedoura. São pobres e sem pretensões. É verdade! O primeiro lugar a receber o Salvador foi um lugar pobre e sujo onde as vacas e os outros animais faziam suas necessidades! Assim, o que, imediatamente, chama a nossa atenção neste acontecimento é a simplicidade. Na sua grandeza infinita, Deus se abaixa não só à condição humana, mas em qual condição Seu Filho veio ao mundo! O Salvador entrou na nossa condição humana, a partir da fraqueza de um menino enrolado em panos, está do nosso lado e nos acompanha. Em contraste com essa pobreza, aparece o esplendor da luz celeste e a aparição do anjo de Deus aos pastores que tomavam conta de seus rebanhos, mas o sinal que recebem é simplesmente: “encontrareis um recém-nascido envolvido em faixas e deitado numa manjedoura”. Aos pastores que estão com muito medo, o anjo anuncia uma grande alegria. Realmente, eles têm um grande motivo para se alegrarem: nasceu para eles e para todo o mundo o Salvador. A maravilha do Natal reside neste contraste: sem a revelação dos anjos nunca entenderíamos que aquele menino na manjedoura é o Senhor. E sem o menino na manjedoura não entenderíamos que a glória do verdadeiro Deus é diferente da glória a qual estamos acostumados. Que possamos ser humildes e simples para que o Senhor, neste Natal, venha ao estábulo do nosso coração e assim, possamos amá-Lo na pessoa do próximo como nos ensina tão bem Madre Teresa de Calcutá: “Da humildade sempre emanam a grandeza e a glória de Deus. Devemos estar vazios do orgulho se quisermos que Deus nos preencha com a sua plenitude. No Natal, vemos Deus como um recém-nascido, pobre e necessitado, que veio para amar e ser amado. Como podemos amar a Deus no mundo de hoje? Amando-o em meu marido, em minha mulher, nos meus filhos, nos meus irmãos, nos meus pais, nos meus vizinhos, nos pobres, nos bêbados, nos presos, nos doentes de lepra, nos excluídos, em todos aqueles que encontramos todos os dias.”

FELIZ NATAL A TODOS!

sábado, 17 de dezembro de 2011

IV DOMINGO ADVENTO – Lc 1,26-38

Maria, a torre de Davi

Celebramos hoje o IV domingo do Advento, onde a liturgia é dedicada a Mãe do Senhor que se fez serva humilde e obediente ao projeto de Deus para a salvar a humanidade. Este é o domingo que antecede imediatamente o Natal e, por isso, somos convidados a contemplar a figura de Maria de Nazaré que “acolheu o Verbo da vida e se alegrou como mãe de uma estirpe santa e incorruptível”.

O Evangelho, segundo Lucas, nos apresenta a esplêndida narração do anúncio do anjo Gabriel que aparece a esta jovem e digna filha de Israel para revelar-lhe o projeto de Deus e pedir a sua colaboração no plano da redenção, que inicia especificamente com o sim de Maria dado a Deus com todo o seu ser, com alegria e a beleza de ser a serva do Senhor, instrumento desta grandiosíssima obra de salvação.

No anúncio que o anjo faz a Maria, ele lembra que o menino que dela nascerá, “será grande, será chamado Filho do Altíssimo, e o Senhor Deus lhe dará o trono de seu pai Davi. Ele reinará para sempre sobre os descendentes de Jacó, e o seu reino não terá fim”. Estas palavras do anjo Gabriel a Maria depende de um importante texto presente no AT que a liturgia nos propõe como I leitura.

Tal leitura é tirada de 2Sm 7. Depois que Davi conquistou Jerusalém, e construiu a sua casa, após ter vencido os vários inimigos que tinha a seu redor, recebendo de Deus finalmente um tempo de paz e segurança, teve a ideia de construir uma casa para o Senhor, isto é, um templo. O profeta Natã, porta-voz da antiga tradição de Israel, a princípio concorda com Davi. Mas, depois tem uma revelação naquela mesma noite: não é Davi quem construirá a casa e sim seu filho.

Há um duplo sentido aqui para a palavra “casa”. No primeiro sentido, indica o templo (igreja). No segundo, a família (Igreja). Não é Davi que dá algo a Deus, mas é Deus que se empenha para fazer nascer de Davi uma família, e promete que a sua descendência durará pelos séculos. Estamos falando do famoso oráculo do profeta Natã: o oráculo fundador da dinastia davídica em Jerusalém. Aquela família que por muito tempo guiou o povo.

Assim diz o Senhor: “vai dizer a meu servo Davi: 'Assim fala o Senhor: porventura és tu que me construirás uma casa para eu habitar? Fui eu que te tirei do pastoreio, do meio das ovelhas, para que fosses o chefe do meu povo, Israel. Estive contigo em toda parte por onde andaste e exterminei diante de ti todos os teus inimigos, fazendo o teu nome tão célebre como o dos homens mais famosos da terra. Vou preparar um lugar para o meu povo, Israel: eu o implantarei, de modo que possa morar lá sem jamais ser inquietado. Os homens violentos não tornarão a oprimi-lo como outrora, no tempo em que eu estabelecia juízes sobre o meu povo, Israel. Concedo-te uma vida tranquila, livrando-te de todos os teus inimigos. E o Senhor te anuncia que te fará uma casa'”.

Davi não construirá uma casa para o Senhor, pois Ele não tem necessidade de uma casa para morar. Tudo aquilo que o Senhor fez por Davi, este deve recordar e saber que o Senhor se empenha a construir para ele uma casa, não de pedras, mas de pessoas vivas.

O texto continua: “quando chegar o fim dos teus dias e repousares com teus pais, então suscitarei, depois de ti, um filho teu e confirmarei a sua realeza. Eu serei para ele um pai e ele será para mim um filho”. Natã, em nome do Senhor, não pretendia simplesmente prometer a Davi que este teria um filho como sucessor sobre seu trono. Historicamente, sabemos que foi Salomão. E depois, Roboão e assim por diante por séculos. Mas dentro dessa promessa de Deus, tem um horizonte muito maior. Um descendente de Davi, muitos séculos depois, será o próprio Messias prometido: o Filho nascido do ventre da Virgem Maria. Eis porque o anjo Gabriel lhe diz: “o Senhor Deus lhe dará o trono de seu pai Davi. Ele reinará para sempre sobre os descendentes de Jacó, e o seu reino não terá fim”. Deus tinha prometido: “eu serei para ele um pai e ele será para mim um filho”, não se tratava somente de uma imagem, mas na plenitude dos tempos, a encarnação do Filho de Deus revelou plenamente que Deus é Pai. E este menino é filho de Davi segundo a carne, mas é Filho de Deus segundo o Espírito. E a casa e o reino de Davi serão estáveis para sempre.

Nós reconhecemos que mil anos depois do oráculo de Davi, o Senhor manteve a promessa e reconhecemos que aquele menino que nasceu é aquele que reina eternamente tal qual recitamos no Credo: “e o seu reino não terá fim”. Ele inaugurou um reino que é eterno e nós fazemos parte desse reino. Maria entrou neste reino acolhendo-o com grande generosidade. Coisa que nós também podemos fazer: reinar com Cristo, colocando-nos a sua disposição.

O texto de Lucas que nos fala da Anunciação já nos introduz no clima do Natal e no breve trecho da II leitura de hoje, encontramos o significado teológico desta nossa espera e esperança no Senhor. Paulo, na sua carta aos romanos, escreve com grande simplicidade, mas também com profundidade, palavras maravilhosas para indicar um percurso de vida espiritual e moral para fazer com que encontremos Deus verdadeiramente e para sempre na pessoa de Cristo.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

III DOMINGO ADVENTO - Evangelho Jo 1,6-8.19-28.

 

Alegrar-se? Por quê?

Neste III Domingo do Advento, fazemos uma pausa na leitura do evangelho de Marcos. De fato, a liturgia de hoje nos propõe um trecho do evangelho de João, mas continuamos a refletir sobre a figura de João Batista. A diferença é que enquanto nos outros três evangelhos (sinóticos), João Batista é apresentado como o batizador, na obra de João, há uma característica a mais e muito importante, ele é apresentado como “aquele que veio como testemunha, para dar testemunho da luz, para que todos chegassem à fé por meio dele” (Jo 1,7). A Igreja oriental chama João de “o precursor”, o que deixa em aberto tanto para o sentido de batizador como de testemunha.

Mas a ênfase que a Igreja celebra hoje neste domingo denominado gaudete é o convite à alegria, ao júbilo. De fato, quer na I leitura quer na II, vemos claramente esta exortação. Mas a pergunta que imediatamente nos vem a mente é: como podemos nos alegrar com tantos perigos que nos ameaçam, com tantas desgraças que acontecem e as provações da vida que nos angustiam? A resposta é tríplice e se encontra nas três leituras.

Na primeira leitura, a liturgia nos propõe um texto do livro do profeta Isaías e enfatiza o papel do Espírito Santo na vida daquele que tem fé. É um texto muito famoso porque o próprio Jesus usou na sua primeira aparição na sinagoga de Nazaré. É tirado do capítulo 61 de Isaías. Trata-se de um poema com o qual este profeta se apresenta, relatando a própria vocação para a missão: “O Espírito do Senhor Deus está sobre mim, porque o Senhor me ungiu; enviou-me para dar a boa-nova aos humildes, curar as feridas da alma, pregar a redenção para os cativos e a liberdade para os que estão presos; para proclamar o ano da graça do Senhor” (Is 61,1-2a).

É o profeta que está falando de si mesmo. O Espírito do Senhor, de fato, consagrou-o com a unção. E a unção era reservada aos sacerdotes. É o sacerdote que inicia uma nova época depois do fim do exílio. E o Espírito lhe delega um serviço: levar o alegre anúncio aos pobres, proclamar a liberdade aos escravos. Curar as feridas, curar os corações despedaçados que é indicativo de uma pessoa triste, que foi ferida, que está passando por grandes tribulações. Os miseráveis não são simplesmente os pobres economicamente falando. Mas, principalmente, são aqueles que tem fome de amor.

Assim explicava Madre Teresa sobre os mais pobres: “são os solitários e os famintos, não só de pão, mas da palavra de Deus; os ignorantes e os sedentos, não só de água, mas de conhecimento, paz, verdade, justiça e amor; os não amados e os desnudos, não só de vestes mas também de dignidade humana; os não queridos, as crianças não nascidas, os que são discriminados, os sem-teto, não só os que não têm uma morada, mas os que têm necessidade de um coração que os entenda, os proteja, os ame; os enfermos, os prisioneiros não só no corpo, mas também na mente e no espírito: todos aqueles que perderam qualquer esperança e fé na vida, os alcoólatras e os toxicodependentes, e todos aqueles que perderam Deus e qualquer esperança no poder do Espírito” (Madre Teresa em O Caminho Simples).

A bela notícia anunciada pelo profeta é que Deus intervém. Deus concede a graça. Na última parte do capítulo 61 de Is, o profeta declara: “Exulto de alegria no Senhor e minh'alma regozija-se em meu Deus; ele me vestiu com as vestes da salvação, envolveu-me com o manto da justiça e adornou-me como um noivo com sua coroa, ou uma noiva com suas joias”. É uma clara referência às vestes sacerdotais, aos paramentos do Sumo Sacerdote que leva aos seus fiéis essa alegria profunda. No período do deserto, não acabou tudo. A terra germinou. Celebra-se o retorno dos jardins. Onde o Senhor faz germinar a justiça e a sua glória diante de todas as nações. Eis o motivo da nossa alegria: fomos justificados e salvos. A nossa condenação foi revogada: fomos alcançados pela graça.

O inimigo foi derrotado e o Senhor tomou o seu lugar. É este que agora está no meio de nós: eis a fonte da alegria que afasta toda tristeza e toda desgraça; e Ele não somente está no meio de nós, mas nos renova com o seu amor.

Na segunda leitura, o apóstolo Paulo exorta: “irmãos, estai sempre alegres!” Eis o segundo motivo por que nos alegramos: não estamos sozinhos, temos um Pai que escuta as nossas preces, nos consola, nos perdoa e nos dá a sua paz que ultrapassa todas as outras.

Mas a razão principal pela qual nos alegramos nos dá o Evangelho. João Batista promete nada menos que a chegada daquele que batizará no Espírito Santo e no fogo. Eis a razão máxima pela qual nos alegramos: nos é dado o Espírito Santo. O Espírito de Deus é uma força irresistível que pode cancelar num instante todas as nossas tristezas e angústias e pode nos tornar, num instante, exultantes, jubilosos, alegres, por dentro e por fora.

Enquanto cristãos, somos chamados a testemunhar a alegria. Devemos fazer aparecer a chama da alegria sobre as nuvens obscuras da tristeza e do desencorajamento. Mas como fazer isso quando a vida nos apresenta efetivamente tantas provas, dificuldades, doenças, desgraças, tentações, incompreensões, traições, decepções e uma lista sem fim de coisas ruins?

Até enquanto na nossa vida está tudo bem, é ótimo. Mas quando chegam as adversidades, estas inevitavelmente danificam e reduzem aquela luz boa que tínhamos inicialmente. O duro desafio da vida não é igual para todos: tem quem é mais provado, outros menos. Existem os “sortudos” para quem tudo vai bem e aqueles para quem vai mais mal do que bem. Então, o que fazer nestes casos? Viver sem alegria? Não, obviamente! Mas é preciso buscar essa alegria não das realidades contingentes, mas de uma fonte escondida e inesgotável que há dentro de nós: a alegria de Deus que habita em nossos corações.

Na prática: mesmo quando não temos a alegria porque estamos vivendo uma situação difícil, devemos dá-la assim mesmo, esta alegria, a quem está ao nosso redor, porque é justamente partilhando a alegria que a reconstruiremos e contribuiremos para restabelecer aquela que veio nos faltar. E Deus fará o restante! A verdadeira alegria é um fruto do Espírito Santo. É este o dom por excelência que devemos pedir: a atualização constante do nosso batismo no Espírito Santo que recebemos de uma vez para sempre com seu caráter indelével, porque teremos verdadeiramente a plenitude da alegria. A fonte da alegria é descobrir continuamente a presença do Senhor em meio a nós que faz florescer uma nova esperança.

Que a exemplo de Maria, a Virgem Mãe do Salvador, possamos cantar: “A minha alma engrandece o Senhor, e o meu espírito se alegra em Deus, meu Salvador” (Cântico de Maria no Sl de resposta).