quinta-feira, 10 de novembro de 2011

XXXIII DOMINGO COMUM – Mt 25,14-30

DEUS CONFIA A NÓS O SEU PATRIMÔNIO

A liturgia de hoje, propõe-nos a parábola dos talentos. A palavra “talento” chegou ao nosso vocabulário como indicativo das habilidades e capacidades de cada pessoa, por exemplo, o talento para pintar, para esculpir, para compor, para cantar.

Mas, na época de Jesus, o talento era a unidade monetária grega (também adotada pelo império romano), e representava o valor de uma quantia em ouro ou prata (o peso do talento = equivalia a 6.000 dracmas). Portanto, não significa automaticamente que os talentos são os dotes naturais, as qualidades destes servos da parábola. Mas se referem ao patrimônio do patrão que é confiado aos servos. Trata-se de uma linguagem bancária, especificamente de um depósito, um investimento que faça render. Na linguagem teológica, tantas vezes nos deparamos no próprio Catecismo da Igreja Católica com o termo “depósito da fé” ou o “depósito da tradição”.

Os talentos são o patrimônio do Evangelho, a riqueza que o Senhor deixou para seus discípulos, levando em conta que há pessoas que tem mais capacidades e outras menos, mas todas têm: “deu a cada qual de acordo com a sua capacidade”. Assim, significava na parábola as responsabilidades e os deveres para com esse patrimônio que nos são confiados e em torno dos quais gira a nossa vida.

Por exemplo, quais as responsabilidades de um pai de família, uma mãe de família, um padre, um agente de pastoral, um missionário, um governante, um médico. Há responsabilidades grandes e pequenas. Deus nos confia vários talentos, ele nos entrega a vida não como um peso nem como um castigo, mas como um dom, uma graça, uma bênção e uma grande oportunidade para nós e para os outros.

Na parábola do evangelho de Mateus, a atenção cai sobre o modo como este patrimônio é utilizado. Estes talentos que Deus nos dá significam a nossa responsabilidade como cristãos. Sermos testemunhas do Evangelho, vivermos esse Evangelho com garra dentro da realidade da nossa vida diária. Entretanto, muitas pessoas hoje convivem com o problema de uma sociedade que exige tanto que elas se sentem inúteis, inadequadas e incapacitadas. Deus nos conhece profundamente e não nos dá tarefas que não possamos realizá-las. Por isso, devemos ter uma estima sadia de nós mesmos antes de tudo porque existimos e somos fruto de um amor que quer que olhemos a vida como o nosso maior empreendimento.

Deste modo, vemos que o Evangelho deste domingo é muito claro: Jesus quer chamar a nossa atenção para o terceiro servo. Mas vamos falar também um pouco dos dois primeiros. No geral, a parábola nos mostra que somos dependentes de Deus e que somos obrigados a prestar-lhe contas; tudo o que temos é um bem que nos foi confiado, que não podemos usá-lo do jeito que bem entendermos, mas que devemos empregá-lo da maneira como Deus quer que o usemos. Através do comportamento e do destino dos dois servos bons e fiéis que empregaram, investiram, duplicaram, Jesus nos faz ver como devemos lidar com a nossa situação atual.

Entretanto, através do comportamento e do destino do servo mau que enterrou o talento conservado, mas não o fez crescer, podemos dizer que já é algo não ter perdido, mas não lhe serviu para nada. Jesus nos esclarece como uma pessoa com estas características vai acabar. Isso deve nos convencer a se afastar de um comportamento semelhante.

Também é importante ver como o texto diz: “depois de muito tempo, o patrão voltou e foi acertar as contas com os empregados”. Aqui trata-se claramente da demora da parusia, da vinda do Senhor, onde o prêmio será entrar na alegria do Senhor. Se tivermos a atitude do servo mau, é como se disséssemos a Deus: Senhor, me deste o Evangelho, a fé, a Igreja, os sacramentos, tantos dons, graças. Eu te restituo, não me serviram para nada. Vivi como se não os tivesse. Isto é literalmente encontrar-se na escuridão, nas trevas do mundo, onde se chora e se range os dentes de remorso por não ter aproveitado o presente que Deus nos deu. É a falta de fecundidade evangélica.

A este servo mau se opõe também claramente a sabedoria do livro dos Provérbios (I leitura), mostrando a figura admirável da mulher forte. Uma mãe de família é habilidosa e generosa. Trabalha e se empenha em tudo o que faz sem se deixar levar pela beleza externa (passageira). À luz do Evangelho podemos dizer que a ela Deus confiou o talento da vida familiar. Um talento que tantos consideram pequeno, dona do lar, mas que na verdade todos sabem que é um talento enorme.

No Sl 127, encontramos a beleza de uma família. Feliz é o homem que teme o Senhor, o servo fiel frutifica o patrimônio de graça, a esposa é uma videira bem fecunda e os filhos são rebentos de oliveira. Na II leitura, coloca-se novamente o problema escatológico. Não devemos especular sobre o tempo e o momento, ele virá de surpresa, o que importa é que estejamos prontos. Não somos filhos das trevas, estamos acordados e sóbrios, prontos para acolher o Senhor quando vier.

Tudo o que Deus nos confia nesta vida não pode ser enterrado nem desperdiçado. Os nossos “talentos” devem ser investidos em favor de todos, não só de nós mesmos. E temos que enfrentar os riscos, pois seja lá o que fizermos, sempre haverá seus riscos e provações. Mas se não nos arriscarmos, não avançaremos nem cresceremos nunca na vida, ficaríamos como o terceiro servo.

O coração da parábola e a chave que poderia desbloquear a situação do terceiro empregado é justamente a relação entre ele e o patrão, entre cada um de nós e Deus. Enquanto os dois primeiros servos se sentiram estimulados para agir e não tiveram medo do patrão porque o conheciam e confiavam nele, o terceiro permaneceu condicionado somente pelo medo e ficou paralisado. Ele tem uma relação falsa com o seu patrão, uma imagem errada de um Deus como um juiz duro e implacável. Teve medo de perder o talento, de ser julgado e condenado por isso. E assim não quis sujar suas mãos, teve medo de errar, de se arriscar, ficou preguiçoso, acomodado, fechou-se.

Mas o amor tem a capacidade de mover a vida, e o amor de Deus pode nos levantar para assumirmos a responsabilidade de uma vida sem fugas e sem temores, com coragem, paixão e iniciativa. A consciência de que Deus no final nos pedirá contas dos frutos da nossa vida não deve nos encher de medo, mas pode ser uma justa provocação para não nos acomodarmos e podermos participar da alegria de Deus.

Um comentário:

Idevam disse...

Otimo Edificante Parabens