sábado, 26 de novembro de 2011

I DOMINGO ADVENTO: Mc 13,33-37

Ano B: Considerações iniciais sobre o evangelho de Marcos.

O evangelho de Marcos é o menor dos quatro que existem no NT. Composto de poucos capítulos, este evangelho também é o mais antigo, e, por isso, possui uma linguagem mais primitiva, e, consequentemente, mais difícil de se entender; mas, por outro lado, desde o seu início mostra a sua finalidade: “Início do Evangelho de Jesus Cristo, o Filho de Deus” (Mc 1,1). Ou seja, a obra inteira quer responder à questão: quem é Jesus? Além disso, por ser o mais antigo e por ter servido de fonte para os outros evangelistas, é o que mais se aproxima da realidade com relação aos fatos e palavras pronunciadas por Jesus.

Há muitos relatos em Mc em que se nota a preocupação de ir revelando Jesus pouco a pouco, o que se chama normalmente de “segredo messiânico”, já que faz com que o interlocutor vá descobrindo o Cristo gradativamente e de maneira correta. E, justamente por essa razão, o evangelho de Marcos continua muito atual no mundo globalizado de hoje, em que muitos admiram a figura de Jesus, mas cada um com sua visão, o que pode gerar confusão no conceito que nós, cristãos, devemos ter de sua Pessoa.

De fato, Jesus é visto como um homem muito bom segundo alguns historiadores, um revolucionário segundo outros, um espírito iluminado segundo a doutrina espírita, um profeta que virá no juízo final segundo o islamismo, uma divindade entre tantas outras segundo as religiões afro-brasileiras. Muitas visões são positivas, mas não constituem a pregada pelo cristianismo. Por isso, é de grande urgência a leitura da obra de Marcos para nós cristãos católicos: pois devemos saber que Jesus é o Filho de Deus, é o próprio Deus feito homem.

E o evangelho de Marcos faz isso de maneira ímpar: fala do homem concreto Jesus de Nazaré dentro da história da salvação, e, ao mesmo tempo, mostra que esse homem é o Cristo, o Filho de Deus. Apresenta este fato como boa notícia num sentido insuperável. Não há uma causa mais forte e mais sólida de alegria e felicidade porque não há um fundamento e uma garantia mais segura para a vida e o futuro de cada pessoa. A causa desta alegria é Deus, só Ele pode fundamentar a nossa felicidade de modo confiável e inquebrável.

Com estas considerações, saibamos que terminado mais um ano litúrgico, neste domingo, começamos um novo. Liturgicamente falando, estamos no ano B; deixamos Mateus e meditaremos a partir de agora, predominantemente o evangelho de Marcos.

É interessante notarmos como todos os anos celebramos por completo todo o mistério da salvação com os tempos litúrgicos. Portanto, ao final do ano, voltamos novamente para o início. No domingo passado, celebramos Cristo Rei do Universo e o julgamento final, estávamos falando do final dos tempos. Hoje, com o primeiro domingo do Advento, celebramos o início da nossa história de redimidos porque “advento” significa quer a vinda quer a espera, e, portanto estamos sempre na espera da vinda Daquele que vem (mesmo se já veio) e, incognitamente, sempre está presente. Mas, ao mesmo tempo, cronologicamente falando, sempre estamos caminhando para esse dia.

Podemos ver como o tempo deixa um sinal que não pode ser cancelado em nossa face, e que ninguém pode parar esse processo. Basta um espelho para entendermos quanto o tempo passa e ver os seus “sinais”... Ninguém, por mais poderoso que seja, nunca poderá fazer voltar o dia de ontem que passou.

A nossa caminhada de vida no tempo tem uma única direção: andar sempre e somente para o futuro. O passado não volta mais. Tudo acontece de passagem para o futuro. Caminhamos para o futuro. Caminhamos para o final. Tudo que tem início, terá também um fim: terra, sol, mar. A finitude é inscrita em cada realidade criada. Só Deus é incriado, portanto, infinito e eterno. E para nós que temos uma alma, o fim da vida não será um final, mas um entrar numa nova dimensão onde não existirá mais luto, nem pranto, porque as coisas dessa vida terrena já não existem mais. E faremos experiência de novos céus e nova terra porque “eu faço novas todas as coisas”. É a promessa solene de Jesus cujas palavras nunca passarão!

O fim do ano é tempo de fazer balanços. Quais questionamentos podemos fazer para entrar no Advento? Como vai a minha vida? Há algo que deve ser revisto? Qual meu objetivo principal? Sei dar grandes orientações ao meu existir ou vivo o dia recorrendo a objetivos só contingentes: trabalho, estudo, diversão, sem nunca levantar o olhar para as coisas do alto? Se a nossa vida é privada de grandes horizontes, peçamos a graça de saber orientá-la para um final eterno.

A escatologia (do grego eschatos = realidades últimas) nos convida a olhar para o nosso destino futuro que será eterno e a sermos vigilantes para nos encontrar preparados para acolher o Senhor quando vier. “Vigiai, portanto, (…) a fim de que não aconteça que, vindo de repente, ele vos encontre dormindo. O que vos digo, digo a todos: vigiai!” Lembremos que tudo passa, só Deus não passa. Quantas vezes Deus veio nos visitar com a sua graça e nós soubemos reconhecê-lo?

De fato, no seu último discurso, Jesus direciona o olhar dos seus discípulos para o futuro, mostrando de um modo geral, o que lhes aguarda. Ao final, diz: “Cuidado, ficai atentos” (13,33). Jesus repete por quatro vezes esta exortação no discurso escatológico (13,5.9.23.33). Seus discípulos necessitam de muita atenção e de inteligência aguda e crítica para não se deixarem enganar pelos falsos profetas (13,5-6.21-23), mas permanecer fiéis e firmes a Jesus e a sua palavra. Especificamente quando se trata do futuro, os falsos profetas com suas previsões e seus cálculos são particularmente articulados e por isso, são muito bem acolhidos. Mas nós devemos acreditar somente em Jesus. Ele afirma que o Filho do homem virá realmente (13,26), mas que só o Pai sabe o momento (13,32), e isso deve nos satisfazer. Mesmo quando a ansiedade ou a curiosidade nos atormentarem, não podemos saber nada além desta afirmação de Jesus. Devemos confiar na sua palavra que, por sua vez, nos dará segurança e conforto.

Outra exortação importante: “vigiai!”, Jesus a repete por quatro vezes no trecho evangélico deste I domingo do Advento. Interessante notar que na quarta vez, ele se dirige não só a seus discípulos, mas a todos: “vigiai” (13,37). Não se trata do fato que os discípulos, e todos os outros não possam dormir, mas se refere ao vínculo vivo que devemos manter com Nosso Senhor (através da oração: “vigiai e orai”) a ponto de nunca o esquecermos. Que nós o reconheçamos pela sua criação e pela sua palavra; que orientemos sempre a nossa vida de acordo com a sua palavra e o seu exemplo; que com alegria e fé nos aproximemos ao encontro com ele e à comunhão com ele. Se vivermos assim, o Senhor poderá vir em qualquer momento, e nos achará prontos para Ele.

Um comentário:

Anônimo disse...

Parabéns, Carlos pelo serviço da evangelização.