quarta-feira, 30 de novembro de 2011

II DOMINGO ADVENTO Mc 1,1-8

No domingo passado, o I Domingo do Advento colocava a ênfase sobre a revelação definitiva do Senhor no fim dos tempos. Neste II Domingo do Advento e no próximo, refletiremos sobre a vinda do Senhor ao mundo, a partir da figura de João Batista, o precursor.

O evangelista Marcos assim o apresenta: “João se vestia com uma pele de camelo e comia gafanhotos e mel do campo” (Mc 1,6). João Batista age de duas maneiras: diz aos seus ouvintes como devem se preparar (Mc 1,4-5) e anuncia como vai agir Aquele que vem depois dele (1,7-8).

As pessoas a quem João se dirige devem se converter e serem batizadas, de modo que sejam perdoados os seus pecados. Devem refletir sobre sua relação com Deus e se voltar para Ele.

Isto porque nós temos uma inclinação a nos afastarmos de Deus, que está escondido e que nós não podemos ver, e, por isso, nos aproximamos mais das criaturas de Deus que estão ao nosso redor. Esquecemos Deus, nosso Criador e Salvador, e fazemos das criaturas os nossos ídolos, em quem pomos o nosso interesse e a nossa esperança. Servimos às criaturas, aos bens, ao poder, ao prazer etc, e esperamos destes, a realização de uma vida plena e feliz.

Quando nos chama à conversão, João nos convida a refletir: quem é realmente o meu Deus? O que está no centro da minha vida? Para onde estão voltados meus anseios e minhas esperanças? O que quero conseguir na vida? Gasto meu tempo e minhas forças para chegar a quê?

A conversão deve nos conduzir a Deus, de modo a não lhe virarmos mais as costas, mas a buscar a sua face. A procurar a sua vontade e reorientar o nosso comportamento. Deus deve estar de novo no centro da nossa vida, e a partir Dele devemos dar às pessoas e às coisas o seu devido lugar.

Ao nos voltarmos para Deus, reorganizamos a nossa vida e confessamos os nossos pecados. Quem reflete sobre Deus, torna-se consciente dos próprios pecados. Quem manifesta tais faltas, reconhece a própria culpa e confessa ter necessidade do perdão. Os judeus tinham muitas abluções e banhos para se purificarem para o culto. Mas João é o primeiro que batiza a outros e os submerge no rio Jordão. Por isso, ele foi chamado de o “Batista” (batizador).

Para poder encontrar Deus, é necessário ter as mãos limpas e um coração puro (Sl 24,4). Nós não podemos purificar a nós mesmos sozinhos, com a autossuficiência, mas devemos reconhecer que somos impuros e pedir o perdão a Deus. Tudo aquilo que João faz e pede, mostra que ele conta com a vinda do Senhor, e que quer preparar os seus ouvintes para o encontro com Ele.

João anuncia o Senhor para os seus ouvintes fazendo uma comparação entre ele e Aquele que virá. Ele o faz de três modos, mas sempre sublinhando a incomparável superioridade do Senhor. Aquele que virá é mais forte do que ele. É superior a ele em dignidade, João não é digno nem mesmo de desatar suas sandálias, ou seja, de fazer o mais humilde serviço como um escravo. Depois, João compara também a sua atividade: “Eu vos batizo com água, ele vos batizará com o Espírito Santo” (Mc 1,8).

A água realmente não pode purificar os pecados; tem um significado simbólico e pode indicar esta purificação. Mas aquele que vem depois de João, dispõe do Espírito e pode batizar com o Espírito Santo, que é a força e a vida de Deus. Com a purificação e o perdão dos pecados são tirados todos os obstáculos do caminho. Com o Sacramento do Batismo, nos é dada a comunhão com Deus, que é o maior de todos os dons. João pode somente preparar, convidar e anunciar Aquele que doa o Espírito Santo, já que só o próprio Deus e o Filho de Deus podem comunicar o Espírito Santo, e, por meio Dele, doar a comunhão de vida com Deus.

A missão de João conserva o seu valor e ainda continua mais válida do que nunca. Porque não podemos encontrar o Senhor a não ser nos convertendo, reconhecendo os nossos pecados, orientando nossa vida para Ele e pedindo-lhe perdão.

Portanto, que possamos nos aproximar do Santo Natal, percorrendo uma caminho novo de pureza de fé e santidade de vita, para compreender melhor a manifestação da glória do Senhor, para celebrar um bom Natal. Isto é possível porque o exílio que deriva do pecado finalmente acabou.

sábado, 26 de novembro de 2011

I DOMINGO ADVENTO: Mc 13,33-37

Ano B: Considerações iniciais sobre o evangelho de Marcos.

O evangelho de Marcos é o menor dos quatro que existem no NT. Composto de poucos capítulos, este evangelho também é o mais antigo, e, por isso, possui uma linguagem mais primitiva, e, consequentemente, mais difícil de se entender; mas, por outro lado, desde o seu início mostra a sua finalidade: “Início do Evangelho de Jesus Cristo, o Filho de Deus” (Mc 1,1). Ou seja, a obra inteira quer responder à questão: quem é Jesus? Além disso, por ser o mais antigo e por ter servido de fonte para os outros evangelistas, é o que mais se aproxima da realidade com relação aos fatos e palavras pronunciadas por Jesus.

Há muitos relatos em Mc em que se nota a preocupação de ir revelando Jesus pouco a pouco, o que se chama normalmente de “segredo messiânico”, já que faz com que o interlocutor vá descobrindo o Cristo gradativamente e de maneira correta. E, justamente por essa razão, o evangelho de Marcos continua muito atual no mundo globalizado de hoje, em que muitos admiram a figura de Jesus, mas cada um com sua visão, o que pode gerar confusão no conceito que nós, cristãos, devemos ter de sua Pessoa.

De fato, Jesus é visto como um homem muito bom segundo alguns historiadores, um revolucionário segundo outros, um espírito iluminado segundo a doutrina espírita, um profeta que virá no juízo final segundo o islamismo, uma divindade entre tantas outras segundo as religiões afro-brasileiras. Muitas visões são positivas, mas não constituem a pregada pelo cristianismo. Por isso, é de grande urgência a leitura da obra de Marcos para nós cristãos católicos: pois devemos saber que Jesus é o Filho de Deus, é o próprio Deus feito homem.

E o evangelho de Marcos faz isso de maneira ímpar: fala do homem concreto Jesus de Nazaré dentro da história da salvação, e, ao mesmo tempo, mostra que esse homem é o Cristo, o Filho de Deus. Apresenta este fato como boa notícia num sentido insuperável. Não há uma causa mais forte e mais sólida de alegria e felicidade porque não há um fundamento e uma garantia mais segura para a vida e o futuro de cada pessoa. A causa desta alegria é Deus, só Ele pode fundamentar a nossa felicidade de modo confiável e inquebrável.

Com estas considerações, saibamos que terminado mais um ano litúrgico, neste domingo, começamos um novo. Liturgicamente falando, estamos no ano B; deixamos Mateus e meditaremos a partir de agora, predominantemente o evangelho de Marcos.

É interessante notarmos como todos os anos celebramos por completo todo o mistério da salvação com os tempos litúrgicos. Portanto, ao final do ano, voltamos novamente para o início. No domingo passado, celebramos Cristo Rei do Universo e o julgamento final, estávamos falando do final dos tempos. Hoje, com o primeiro domingo do Advento, celebramos o início da nossa história de redimidos porque “advento” significa quer a vinda quer a espera, e, portanto estamos sempre na espera da vinda Daquele que vem (mesmo se já veio) e, incognitamente, sempre está presente. Mas, ao mesmo tempo, cronologicamente falando, sempre estamos caminhando para esse dia.

Podemos ver como o tempo deixa um sinal que não pode ser cancelado em nossa face, e que ninguém pode parar esse processo. Basta um espelho para entendermos quanto o tempo passa e ver os seus “sinais”... Ninguém, por mais poderoso que seja, nunca poderá fazer voltar o dia de ontem que passou.

A nossa caminhada de vida no tempo tem uma única direção: andar sempre e somente para o futuro. O passado não volta mais. Tudo acontece de passagem para o futuro. Caminhamos para o futuro. Caminhamos para o final. Tudo que tem início, terá também um fim: terra, sol, mar. A finitude é inscrita em cada realidade criada. Só Deus é incriado, portanto, infinito e eterno. E para nós que temos uma alma, o fim da vida não será um final, mas um entrar numa nova dimensão onde não existirá mais luto, nem pranto, porque as coisas dessa vida terrena já não existem mais. E faremos experiência de novos céus e nova terra porque “eu faço novas todas as coisas”. É a promessa solene de Jesus cujas palavras nunca passarão!

O fim do ano é tempo de fazer balanços. Quais questionamentos podemos fazer para entrar no Advento? Como vai a minha vida? Há algo que deve ser revisto? Qual meu objetivo principal? Sei dar grandes orientações ao meu existir ou vivo o dia recorrendo a objetivos só contingentes: trabalho, estudo, diversão, sem nunca levantar o olhar para as coisas do alto? Se a nossa vida é privada de grandes horizontes, peçamos a graça de saber orientá-la para um final eterno.

A escatologia (do grego eschatos = realidades últimas) nos convida a olhar para o nosso destino futuro que será eterno e a sermos vigilantes para nos encontrar preparados para acolher o Senhor quando vier. “Vigiai, portanto, (…) a fim de que não aconteça que, vindo de repente, ele vos encontre dormindo. O que vos digo, digo a todos: vigiai!” Lembremos que tudo passa, só Deus não passa. Quantas vezes Deus veio nos visitar com a sua graça e nós soubemos reconhecê-lo?

De fato, no seu último discurso, Jesus direciona o olhar dos seus discípulos para o futuro, mostrando de um modo geral, o que lhes aguarda. Ao final, diz: “Cuidado, ficai atentos” (13,33). Jesus repete por quatro vezes esta exortação no discurso escatológico (13,5.9.23.33). Seus discípulos necessitam de muita atenção e de inteligência aguda e crítica para não se deixarem enganar pelos falsos profetas (13,5-6.21-23), mas permanecer fiéis e firmes a Jesus e a sua palavra. Especificamente quando se trata do futuro, os falsos profetas com suas previsões e seus cálculos são particularmente articulados e por isso, são muito bem acolhidos. Mas nós devemos acreditar somente em Jesus. Ele afirma que o Filho do homem virá realmente (13,26), mas que só o Pai sabe o momento (13,32), e isso deve nos satisfazer. Mesmo quando a ansiedade ou a curiosidade nos atormentarem, não podemos saber nada além desta afirmação de Jesus. Devemos confiar na sua palavra que, por sua vez, nos dará segurança e conforto.

Outra exortação importante: “vigiai!”, Jesus a repete por quatro vezes no trecho evangélico deste I domingo do Advento. Interessante notar que na quarta vez, ele se dirige não só a seus discípulos, mas a todos: “vigiai” (13,37). Não se trata do fato que os discípulos, e todos os outros não possam dormir, mas se refere ao vínculo vivo que devemos manter com Nosso Senhor (através da oração: “vigiai e orai”) a ponto de nunca o esquecermos. Que nós o reconheçamos pela sua criação e pela sua palavra; que orientemos sempre a nossa vida de acordo com a sua palavra e o seu exemplo; que com alegria e fé nos aproximemos ao encontro com ele e à comunhão com ele. Se vivermos assim, o Senhor poderá vir em qualquer momento, e nos achará prontos para Ele.

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

FESTA DE JESUS CRISTO REI DO UNIVERSO – Mt 25,31-46

Foi a mim que o fizestes!

Com a festa de Jesus Cristo, Rei do Universo, chegamos a mais um final de ano litúrgico. Ao longo deste, a cada domingo acolhemos os ensinamentos de Jesus através dos escritos do evangelista Mateus. Hoje, a liturgia apresenta uma mensagem clara de recapitulação, que se projeta sobre o passado, o presente e o futuro da vida humana.

A festa que celebramos tem a finalidade não tanto de nos dizer que Jesus é rei, mas de nos mostrar que a natureza do seu reinado é completamente diferente daquela que já temos formada em nossa mente.

Vejamos: na I leitura, Ezequiel, decepcionado com os pastores de Israel (reis, sacerdotes e mestres) que só pensam em si mesmos e deixam o rebanho se perder, sonha com um pastor diferente: um pastor que não “disperse”, mas “reúna”; um pastor que conduza ao pasto as suas ovelhas e as faça repousar; que procure a ovelha perdida e faça os curativos naquela que se encontra ferida.

São traços de um pastor que encontramos no Evangelho, em Jesus, Rei Messias. Um rei que é rei para os outros: sua realeza é dom de si mesmo e serviço, não domínio, prefere os pobres e fracos, não os fortes. Quanto ao Evangelho, o do domingo passado nos dizia que tudo o que somos e tudo o que temos é um bem que nos foi confiado; que não devemos desperdiçá-lo, mas empregá-lo com bom senso e de acordo com a vontade de Deus. Qual seja a vontade de Deus e qual serviço ele nos pede, nos diz Jesus hoje com as suas palavras sobre o “juízo final”: toda ajuda que prestarmos ao próximo necessitado é a ele mesmo que estamos fazendo. E quando ele fala em juízo final, ele não quer nos impor medo, só quer que tenhamos um comportamento correto encaminhado para o futuro, para a vida eterna e não para a ruína eterna.

Pois bem, o texto evangélico começa mostrando uma imagem escatológica da vinda gloriosa do Filho do Homem que se assentará no seu trono. Em seguida, mostra a convocação de todas as pessoas e a separação dos que herdaram o reino e dos que ficaram de fora.
Quanto a esta separação entre os que são bem vindos no reino, figurados por ovelhas (direita) e aos que se autoexcluíram, os cabritos (esquerda), a grande insistência cai sobre as obras de misericórdia (a acolhida ou a rejeição aos necessitados), que o texto enumera quatro vezes.

O juiz é chamado “Filho do Homem” e “Rei” e os interlocutores o reconhecem como “Senhor”. A apresentação é, portanto, solene e gloriosa, e ninguém pode negar que este rei seja Jesus de Nazaré, aquele que foi perseguido e crucificado, rejeitado, e que na sua vida partilhou em tudo a fraqueza da condição humana: a fome, a nudez, a solidão, a prisão, a calúnia. Um rei que se identifica com os mais humildes, os mais fracos. É um rei que vive sob os despojos dos desconhecidos: sob roupas esfarrapadas de seus pequenos irmãos. Jesus é um Rei glorioso, mas a sua glória não é o triunfo da glória, do poder e do domínio, mas da cruz como símbolo da vitória do amor e da doação de si mesmo pelo próximo.

Quem tiver ajudado Jesus numa situação de necessidade, será aprovado por ele no juízo final; quem o tiver deixado na sua situação de necessidade, deverá calar-se diante do seu juízo. Por um instante, todos nós no juízo final, diz o texto escrito no futuro, perguntaríamos ao próprio Jesus onde foi que o encontramos nestas condições. E ele nos responderá: em cada pessoa necessitada que tivermos encontrado. Por isso, toda ajuda feita a um necessitado, tem um valor imortal. Por trás de cada pessoa, e exatamente por trás de cada pessoa pequena, fraca, provada, aí está Jesus.
Ajudar o próximo necessitado é uma tarefa fácil, segundo a capacidade de cada um. O que não podemos é passar de lado se afastando ou recuando diante de quem está na precisão. É interessante notar também que Jesus não diz: eu estava enfermo e vocês me curaram; eu estava na prisão e vocês me libertaram. Às vezes, ele nos pede só uma palavra de conforto, e até isto nós nos recusamos fazer.
Há tantos tipos de necessidades: corporais, psíquicas ou espirituais. A primeira coisa que temos que fazer é perceber a necessidade de cada pessoa que se apresenta diante de nós. Cada empenho nosso desinteressado de ajuda, de serviço, de encorajamento é feito ao próprio Jesus e é plenamente reconhecido por ele. Madre Teresa, um dos maiores exemplos da nossa atualidade, sabia identificar Jesus nos mais pobres entre os pobres e dizia sempre, que de todas as necessidades, a maior doença do mundo atual é a falta de amor. O nosso amor ao próximo, e, em especial, aquele necessitado, é a medida do nosso amor a Deus.

Enfim, ainda é bom lembrar que pela parábola, pudemos ver que nenhum daqueles que praticou obras de caridade em favor do próximo se deu conta de tê-las feito a Jesus. Isto é muito importante: é um convite do Evangelho para que pratiquemos o bem ao irmão necessitado movidos por um amor desinteressado, já que se atuarmos sempre em vista de uma recompensa, de uma vantagem, o nosso amor ainda não é verdadeiro.

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

XXXIII DOMINGO COMUM – Mt 25,14-30

DEUS CONFIA A NÓS O SEU PATRIMÔNIO

A liturgia de hoje, propõe-nos a parábola dos talentos. A palavra “talento” chegou ao nosso vocabulário como indicativo das habilidades e capacidades de cada pessoa, por exemplo, o talento para pintar, para esculpir, para compor, para cantar.

Mas, na época de Jesus, o talento era a unidade monetária grega (também adotada pelo império romano), e representava o valor de uma quantia em ouro ou prata (o peso do talento = equivalia a 6.000 dracmas). Portanto, não significa automaticamente que os talentos são os dotes naturais, as qualidades destes servos da parábola. Mas se referem ao patrimônio do patrão que é confiado aos servos. Trata-se de uma linguagem bancária, especificamente de um depósito, um investimento que faça render. Na linguagem teológica, tantas vezes nos deparamos no próprio Catecismo da Igreja Católica com o termo “depósito da fé” ou o “depósito da tradição”.

Os talentos são o patrimônio do Evangelho, a riqueza que o Senhor deixou para seus discípulos, levando em conta que há pessoas que tem mais capacidades e outras menos, mas todas têm: “deu a cada qual de acordo com a sua capacidade”. Assim, significava na parábola as responsabilidades e os deveres para com esse patrimônio que nos são confiados e em torno dos quais gira a nossa vida.

Por exemplo, quais as responsabilidades de um pai de família, uma mãe de família, um padre, um agente de pastoral, um missionário, um governante, um médico. Há responsabilidades grandes e pequenas. Deus nos confia vários talentos, ele nos entrega a vida não como um peso nem como um castigo, mas como um dom, uma graça, uma bênção e uma grande oportunidade para nós e para os outros.

Na parábola do evangelho de Mateus, a atenção cai sobre o modo como este patrimônio é utilizado. Estes talentos que Deus nos dá significam a nossa responsabilidade como cristãos. Sermos testemunhas do Evangelho, vivermos esse Evangelho com garra dentro da realidade da nossa vida diária. Entretanto, muitas pessoas hoje convivem com o problema de uma sociedade que exige tanto que elas se sentem inúteis, inadequadas e incapacitadas. Deus nos conhece profundamente e não nos dá tarefas que não possamos realizá-las. Por isso, devemos ter uma estima sadia de nós mesmos antes de tudo porque existimos e somos fruto de um amor que quer que olhemos a vida como o nosso maior empreendimento.

Deste modo, vemos que o Evangelho deste domingo é muito claro: Jesus quer chamar a nossa atenção para o terceiro servo. Mas vamos falar também um pouco dos dois primeiros. No geral, a parábola nos mostra que somos dependentes de Deus e que somos obrigados a prestar-lhe contas; tudo o que temos é um bem que nos foi confiado, que não podemos usá-lo do jeito que bem entendermos, mas que devemos empregá-lo da maneira como Deus quer que o usemos. Através do comportamento e do destino dos dois servos bons e fiéis que empregaram, investiram, duplicaram, Jesus nos faz ver como devemos lidar com a nossa situação atual.

Entretanto, através do comportamento e do destino do servo mau que enterrou o talento conservado, mas não o fez crescer, podemos dizer que já é algo não ter perdido, mas não lhe serviu para nada. Jesus nos esclarece como uma pessoa com estas características vai acabar. Isso deve nos convencer a se afastar de um comportamento semelhante.

Também é importante ver como o texto diz: “depois de muito tempo, o patrão voltou e foi acertar as contas com os empregados”. Aqui trata-se claramente da demora da parusia, da vinda do Senhor, onde o prêmio será entrar na alegria do Senhor. Se tivermos a atitude do servo mau, é como se disséssemos a Deus: Senhor, me deste o Evangelho, a fé, a Igreja, os sacramentos, tantos dons, graças. Eu te restituo, não me serviram para nada. Vivi como se não os tivesse. Isto é literalmente encontrar-se na escuridão, nas trevas do mundo, onde se chora e se range os dentes de remorso por não ter aproveitado o presente que Deus nos deu. É a falta de fecundidade evangélica.

A este servo mau se opõe também claramente a sabedoria do livro dos Provérbios (I leitura), mostrando a figura admirável da mulher forte. Uma mãe de família é habilidosa e generosa. Trabalha e se empenha em tudo o que faz sem se deixar levar pela beleza externa (passageira). À luz do Evangelho podemos dizer que a ela Deus confiou o talento da vida familiar. Um talento que tantos consideram pequeno, dona do lar, mas que na verdade todos sabem que é um talento enorme.

No Sl 127, encontramos a beleza de uma família. Feliz é o homem que teme o Senhor, o servo fiel frutifica o patrimônio de graça, a esposa é uma videira bem fecunda e os filhos são rebentos de oliveira. Na II leitura, coloca-se novamente o problema escatológico. Não devemos especular sobre o tempo e o momento, ele virá de surpresa, o que importa é que estejamos prontos. Não somos filhos das trevas, estamos acordados e sóbrios, prontos para acolher o Senhor quando vier.

Tudo o que Deus nos confia nesta vida não pode ser enterrado nem desperdiçado. Os nossos “talentos” devem ser investidos em favor de todos, não só de nós mesmos. E temos que enfrentar os riscos, pois seja lá o que fizermos, sempre haverá seus riscos e provações. Mas se não nos arriscarmos, não avançaremos nem cresceremos nunca na vida, ficaríamos como o terceiro servo.

O coração da parábola e a chave que poderia desbloquear a situação do terceiro empregado é justamente a relação entre ele e o patrão, entre cada um de nós e Deus. Enquanto os dois primeiros servos se sentiram estimulados para agir e não tiveram medo do patrão porque o conheciam e confiavam nele, o terceiro permaneceu condicionado somente pelo medo e ficou paralisado. Ele tem uma relação falsa com o seu patrão, uma imagem errada de um Deus como um juiz duro e implacável. Teve medo de perder o talento, de ser julgado e condenado por isso. E assim não quis sujar suas mãos, teve medo de errar, de se arriscar, ficou preguiçoso, acomodado, fechou-se.

Mas o amor tem a capacidade de mover a vida, e o amor de Deus pode nos levantar para assumirmos a responsabilidade de uma vida sem fugas e sem temores, com coragem, paixão e iniciativa. A consciência de que Deus no final nos pedirá contas dos frutos da nossa vida não deve nos encher de medo, mas pode ser uma justa provocação para não nos acomodarmos e podermos participar da alegria de Deus.

sábado, 5 de novembro de 2011

SOLENIDADE DE TODOS OS SANTOS - Mt 5,1-12

 

Queridos irmãos e irmãs:

A solenidade de Todos os Santos é ocasião propícia para elevar o olhar das realidades terrenas, marcadas pelo tempo, à dimensão de Deus, à dimensão da eternidade e da santidade. A liturgia nos recorda hoje que a santidade é a vocação originária de todo batizado (cf. (cf. Lumen gentium, 40). Com efeito, Cristo, que com o Pai e com o Espírito é o único Santo (cf. Ap 15, 4), amou a Igreja como a sua esposa e se entregou por ela com a finalidade de santificá-la (cf. Ef 5, 25-26). Por esta razão, todos os membros do povo de Deus estão chamados a ser santos, segundo a afirmação do apóstolo São Paulo: “Esta é a vontade de Deus: vossa santificação” (1 Ts 4, 3). Portanto, somos convidados a olhar para a Igreja não só no seu aspecto temporal e humano, marcado pela fragilidade, mas sim como Cristo quis, isto é, como “comunhão dos santos” (Catecismo da Igreja católica, n. 946). No Credo professamos a Igreja «santa», santa enquanto que é o Corpo de Cristo, é instrumento de participação nos santos Mistérios – em primeiro lugar, a Eucaristia – e família dos santos, a cuja proteção somos confiados no dia do Batismo. Hoje veneramos precisamente a esta inumerável comunidade de Todos os Santos, os quais, através de seus diferentes itinerários de vida, nos indicam diversos caminhos de santidade, unidos por um único denominador: seguir a Cristo e configurar-se com ele, fim último de nossa história humana. De fato, todos os estados de vida podem chegar a ser, com a ação da graça e com o esforço e a perseverança de cada um, caminhos de santificação. (SOLENIDADE DE TODOS OS SANTOS, BENTO XVI, ANGELUS, Praça de São Pedro, 1 de novembro de 2011).

O Evangelho de hoje nos apresenta um caminho de santidade humana que abraça todas as etapas da nossa vida, abarcando cada situação e considerando os desafios que a cada dia estamos sujeitos: Deus não quer que fiquemos passivos, há um caminho a seguir. As bem-aventuranças indicam que caminho é este, mostrando o caráter do cristão enquanto herdeiro do Reino de Deus, da alegria perfeita.

Ser pobre em espírito é ser humilde. É quando reconhecemos nossa necessidade, nossa insuficiência e nossa dependência, nossos limites, e, nos dirigimos a Deus na oração com confiança. Para tal, é necessário arrancar de nós toda soberba, orgulho, presunção, egoísmo, autossuficiência, superioridade, intolerância. Esta bem-aventurança não diz respeito só aos que são pobres materialmente: um milionário pode reconhecer e confessar que a riqueza material não é tudo para ele e que ele depende de Deus; enquanto, um pobre materialmente pode ser cheio de ganância e esperar tudo da riqueza terrena.

A segunda bem-aventurança parece contraditória, pois o pranto é o contrário de alegria. Os motivos podem ser vários: a morte, a doença, as desgraças, o pecado e a fraqueza, as mudanças drásticas da vida. O aflito é aquele que sofre por sua situação ou pela dor alheia, movido pela compaixão. O pecado contrário é quando somos indiferentes e almejamos uma “vida boa”, cheia de prazeres, confortos, tranquilidades; é o pecado da indiferença com o próximo, da dureza de coração.

Jesus era manso. Ele chama felizes os mansos, que deixemos toda grosseria, desrespeito, desamor, agressões. A santidade deve mostrar-se no modo como tratamos as pessoas. É preciso trabalhar o autocontrole, aceitar o próximo, não querer dominá-lo, controlá-lo, humilhá-lo nem impor-lhe nossas ideias.

Fome e sede são uma necessidade natural, fundamental para vivermos. Felizes são os que tem fome e sede de justiça: ser justo significa ser reto, honesto, correto com relação ao próximo, a Deus e às coisas materiais.

Ser feliz significa ser misericordioso. Significa não ficar indiferente perante o sofrimento alheio nem mostrar um coração duro perante as ofensas que nos foram causadas. Sentir a miséria do outro e perdoá-lo. Só perdoando, seremos perdoados.

O que busca a santidade busca a pureza. Humanamente falando, nos damos conta que é impossível ser totalmente puro, mas o sangue de Jesus nos lava de todo o pecado. O caminho da santidade é uma busca constante de paz. Deus é um Deus da paz. Ele quer que nós também sejamos pessoas de paz. Temos que aprender a lidar com o pecado da maledicência, da intriga, da vingança, da provocação. Somos felizes quando não só fizermos as pazes com os outros, mas também quando formos instrumentos de paz entre duas pessoas ou grupos etc.

Ser bem-aventurado implica ser perseguido ou até morrer por causa de Jesus Cristo. Talvez seja esta uma questão das mais difíceis da santidade: conviver com isto enquanto se segue a Jesus. Talvez alguém possa se enganar pensando que quanto mais próximos a Deus estivermos, mais amados seremos por todos. Errado! Nem sempre é assim, pois, seremos cada vez mais invejados, contrariados, insultados e perseguidos. O diabo fica desconcertado com os que, sinceramente, buscam seguir Cristo. O próprio Jesus Cristo foi odiado e crucificado.

Enfim, o caminho indicado por Jesus para nossa felicidade parece ser uma restrição, uma limitação da liberdade humana. Mas, Jesus não veio prender, veio libertar. Na verdade, as bem-aventuranças são um caminho para a liberdade, para a salvação, para a suprema e eterna felicidade que todos sem exceção poderão herdá-la.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

MISSA DOS FIÉIS DEFUNTOS – Jo 6,37-40

 

Morte: acreditar na ressurreição e almejá-la faz toda a diferença

A liturgia deste 2 de novembro nos convida a rezar a Deus pelos nossos falecidos. Refletir sobre a morte é refletir sobre a vida que estamos vivendo, refletir sobre o seu significado. Isto porque a morte nos obriga a morrer um pouquinho cada dia: o envelhecimento e as enfermidades nos provam isso. Se pensarmos bem, na verdade, cada aniversário nosso significa que estamos mais próximos da morte. Mas, se tivermos a persistência de olhar pra ela com outros olhos, podemos direcionar a nossa vida, fazendo escolhas que valem a pena estar vivos e acreditar na grande boa notícia de Jesus trazida ao mundo, a morte foi vencida. Ela não é o ponto final, mas é uma porta.

Quando nós cristãos, damo-nos conta de que a morte nos educa ao verdadeiro sentido da vida, não à vida que nós queremos, mas à vida que Deus quer que vivamos, que ela tem um valor bem maior, então não temos mais porque nos desesperarmos diante dela, mas sim nos enchermos de esperança.

Existe tanta injustiça nesse mundo terreno, e a morte ensina que todos somos iguais: dela ninguém pode escapar, nem com poder, nem com dinheiro, nem com amizades. Não há nada que se possa fazer. Nada pode fugir ao seu toque. Aqueles que não têm fé, também têm que enfrentar este medo e mistério que é a morte. Mas há uma diferença: enquanto aqueles que não creem a veem como o fim de tudo, nós que temos fé encontramos o seu sentido em Jesus Cristo, no Deus da Vida Eterna.

Assim, o momento da morte não será um dia de tristeza nem de desespero, mas de esperança, porque a morte não é o fim, mas um confim, uma fronteira; a morte não separa, ela nos reúne com Deus e com todos aqueles que já fizeram esta passagem; Jesus, com a sua morte, pagou um preço caríssimo para nos libertar do pecado e da morte e trazer da morte para cada um de nós, a vida, a ressurreição.

Diz-nos o salmista neste dia: “O Senhor é minha luz e salvação. De quem eu terei medo? O Senhor é a proteção da minha vida. Perante quem eu tremerei?” (Sl 26). É esta a verdade que brota no nosso coração, e que nos faz por toda a nossa esperança no Senhor: “ao Senhor eu peço apenas uma coisa, e é só isto que eu desejo, habitar no santuário do Senhor, por toda a minha vida, saborear a suavidade do Senhor e contemplá-lo no seu templo”.

Às vezes, podemos até cair na besteira de pensar que sozinhos nos bastamos, ou que só os outros morrem ou que a nossa morte vai demorar muito ainda para chegar; pensar que não precisamos de horizontes que encham de sentido o nosso morrer ou nos iludirmos de que o ter a vida signifique parecer, ter, poder. Mas a luz que a revelação de Deus estende sobre a nossa existência, a luz que sai do túmulo de Cristo Ressuscitado, a orientação luminosa que Deus pôs no nosso coração, mesmo que os olhos se encham de lágrimas pela sensação de perca que a morte inclui, nos faz dizer como Jó, o homem que bebeu até o fim o cálice amargo da dor, da solidão, da falência: “depois que tiverem destruído esta minha pele, na minha carne (e, portanto o nosso “eu”), verei a Deus. Eu mesmo o verei, meus olhos o contemplarão, e não os olhos de outro”.

Esta luz se faz plena nas palavras de Jesus, aquele que veio revelar os segredos do Pai, comunicar a vida de Deus e executar a vontade do Pai: “Esta é a vontade do meu Pai: que eu não perca nenhum daqueles que ele me deu, nada, nem mesmo o nosso ser de carne, mas o ressuscite no último dia”. Deus nos chamou à vida não pela morte, mas passando através do Filho que é a porta, nós recebemos o prêmio da liberdade para acolhê-lo, a sua Palavra, o seu chamado, os seus dons que ele pôs na vida de cada um e que significam felicidade suprema e eterna.

“Deus”, diz São Paulo, dá uma prova de amor por nós “porque quando ainda éramos pecadores, Cristo deu a sua vida para que tivéssemos a vida”. “Fomos reconciliados com Ele pela morte de seu Filho”; quanto mais agora, estando já reconciliados, seremos salvos por sua vida!”.

Hoje é dia de lembrarmos dos nossos mortos com saudade e com esperança, lembrarmos a vida que Deus dá a todos quantos ele chamou a si. Hoje podemos sentir a paz, a plenitude dos bens de Deus. Hoje cada um dos nossos caros é acolhido além dos seus limites, na sua verdadeira dimensão de amado por Deus e na sua fidelidade ao amor. “Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, mesmo que morra, viverá”.