sexta-feira, 14 de outubro de 2011

XXIX DOMINGO COMUM - Mt 22,15-21

Dai a Deus o que é de Deus
No Evangelho deste domingo, os fariseus tentam apanhar Jesus com um plano muito bem articulado. Mas antes de começar a nossa reflexão, é bom lembrar que nem todos os fariseus do tempo de Jesus eram iguais, como também não somos nós cristãos no mundo de hoje e isso conta na aplicação da mensagem de Jesus. De fato, o que a palavra de Deus quer é nos convidar a viver coerentemente com os princípios morais e religiosos, mas também com aqueles civis. O cristão não vive fora do mundo, mas vive inserido no mundo com a sua fé.
Pois bem, havia cinco tipos negativos de fariseus: o fariseu “exibido” (que leva suas boas obras sobre seus ombros, para mostrá-las a todos); o fariseu “presunçoso” (que diz “espere por mim. Eu estou ocupado usando meu tempo para cumprir os mandamentos! Eu não tenho tempo para você”); o fariseu “contador” (que paga cada dívida, isto é, cada pecado, realizando uma boa obra correspondente); o fariseu “parcimonioso” (que diz “do pouco que eu tenho, o que eu posso deixar de lado para cumprir os mandamentos?”) e o fariseu que “compensa” (que diz “conte-me que pecado eu cometi, e eu cumprirei um mandamento para ofuscá-lo”).
Mas também havia dois tipos positivos de fariseus: o fariseu “temente a Deus” que vivia a própria fé com autenticidade, pela qual as práticas externas derivavam da observância da lei de Deus como fruto de uma vida plasmada pela escuta obediente da Palavra de Deus; e outro tipo ainda mais admirável, o fariseu que “ama” (que sabia ser acolhedor, misericordioso e certamente teria prestado socorro ao samaritano perseguido e caído pela estrada de Jerusalém a Jericó. Cfr. Talmude).
Mas os fariseus que encontramos no Evangelho de hoje são do primeiro tipo: hipócritas. Chamam Jesus de “mestre”, mas não o seguem. Interrogam-no sobre qual seja o caminho para conhecer a verdade, mas não o percorrem. Depois, perguntam sobre a verdade, mas querem aquela cômoda, a verdade subjetiva, aquela que pode ser dominada, manipulada a seu bel prazer. A visão parcial destes fariseus ligada ao culto, mas desligada da vida, e portanto, não incidente na vida mesma, impossibilita-lhes compreender e conhecer a verdade.
É a esperteza cruel de quem busca os próprios interesses: eliminar Jesus porque Ele incomoda. Jesus não deve ser acolhido pois atrapalha os planos. Então, armam de tudo para confundi-lo e prendê-lo com a célebre pergunta feita por uma delegação composta de fariseus e herodianos: “é lícito ou não pagar imposto a César?” Precedido de uma grande ironia: “sabemos que és verdadeiro e que, de fato, ensinas o caminho de Deus. Não te deixas influenciar pela opinião dos outros, pois não julgas pelas aparências”.
Na verdade, estes fariseus elaboraram a cilada para si mesmos. Na resposta, Jesus desmascara a mesquinharia da fé deles. Ora, o povo de Israel vivia sob o domínio dos romanos. Um sinal de domínio dos romanos sobre o povo era exatamente o excesso de impostos (como acontece no Brasil em que cada trabalhador paga 40% de sua renda anual em tributos ao governo, fora outros impostos). César era o nome genérico com o qual se indicava o imperador. No tempo de Jesus, Tibério César.
E então? Deus quer ou não que se pague o imposto a César? Os fariseus eram contra esse pagamento porque na moeda estava impressa a figura do imperador e isso para eles indicava submissão a outro que não fosse Deus. Já os herodianos, simpatizantes de Herodes Antipas, colaboravam com o império romano e gozavam de alguns privilégios (sempre interesseiros), portanto, favoráveis aos tributos. Se Jesus tivesse respondido “não”, ficaria contra os herodianos, podendo ser acusado como rebelde ao império e ser condenado, tornando-se um revolucionário político. Se dissesse “sim”, colocar-se-ia contra os fariseus. Mostrar-se-ia contra o povo que era sobrecarregado pelas taxas, como um colaborador dos romanos, e assim, inimigo do povo. Assim, eles pensaram. “Dessa vez, qualquer resposta, Jesus está sem saída. Ofenderá qualquer um e se comprometerá”.
Mas, Jesus conhecendo a malícia deles, não cai na armadilha, não se deixa determinar pela pergunta como ela foi formulada. Responde-lhes, chamando-os de hipócritas (falsos, impostores) e vai mais além. Com a sua resposta, Jesus evita tal cilada, recuperando integralmente os dados da realidade. Ele revela às pessoas a sua identidade. “Vocês fingem estarem interessados nessa questão, mas na verdade querem me tentar. Me mostrem uma moeda”. “De quem é a figura e a inscrição desta moeda?” O denário era uma moeda romana com o qual eram pagas as taxas. E no tempo de Jesus, o denário de prata tinha a imagem do imperador Tibério César. Então, que se devolva a César aquilo que é de César, isso não representa problema nenhum pra Jesus.
Por outro lado, Jesus acrescenta: mas, devolva a Deus o que é de Deus. Com isso, Jesus quer fazer entender que a pergunta sobre o imposto não diz respeito diretamente a Deus e que neste âmbito César não está em concorrência com Deus. Mas, que as disposições e exigências de César podem ser respeitadas desde que não contradigam a vontade de Deus. Significa superar os esquemas políticos na religião. Pagar as taxas e obedecer a César não nos exonera de reconhecer que o nosso Senhor é Deus. Isso significa que toda pessoa que vive numa civilização organizada com as próprias instituições políticas, sociais, econômicas, deve ser respeitada, sua dignidade de pessoa enquanto criada por Deus a sua imagem e semelhança. É no amor por cada pessoa humana que se dá a Deus aquilo que é de Deus e a César o que é de César.
Não se pode separar fé, vida econômica, política e social. A pessoa cristã não pode estar dividida, de outro modo corre o risco de se tornar como os fariseus hipócritas do Evangelho de hoje. Hoje sentimos falar tanto de liberdade religiosa, ou seja, que podemos ser cristãos e que podemos manifestar nossa fé abertamente e protegidos pela lei. Mas, infelizmente, há também tantas pessoas no mundo impossibilitadas de praticar sua fé, como na China, onde, por exemplo, o governo obriga a abortar o segundo filho; como fica a situação dos cristãos desse país para obedecer a Deus e lutar em favor da vida? Com relação a este tema, estamos de olho nos nossos caros deputados que elegemos para defenderem em nosso nome os nossos valores em favor da vida e contra a legalização do aborto ou da maconha, por exemplo.
Que tenhamos a consciência de devolver a Deus o que é Dele, colocá-lo em primeiro lugar na nossa vida, e abrirmos o nosso coração à escuta acolhedora da sua Palavra que nos liberta e nos faz capazes de entender que somos profundamente amados por ele.
Com a I leitura, temos a grande lição de que o Senhor escolheu um estrangeiro, Ciro da Pérsia, para que fosse o libertador do seu povo. A história não foi feita nem pelos babilônicos nem pelos persas, mas é Deus quem a escreve. É assim que interpreta o profeta Isaías. Por isso, o Sl 95 nos convida a reconhecer que o Senhor é grande e muito digno de louvor. Reconhecei que o Senhor é Deus. Que Ele reina. Restituí a Ele aquilo o que lhe é devido. É o que faz a comunidade dos tessalonicenses (II leitura), o mais antigo texto da tradição cristã, 51 d.C., que restituiu a Deus aquilo que era Dele. Reconheceu isso mediante a força do Espírito Santo.
“O sagrado Concílio declara igualmente que tais deveres atingem e obrigam a consciência humana e que a verdade não se impõe de outro modo senão pela sua própria forca, que penetra nos espíritos de modo ao mesmo tempo suave e forte. Ora, visto que a liberdade religiosa, que os homens exigem no exercício do seu dever de prestar culto a Deus, diz respeito à imunidade de coação na sociedade civil, em nada afeta a doutrina católica tradicional acerca do dever moral que os homens e as sociedades têm para com a verdadeira religião e a única Igreja de Cristo. Além disso, ao tratar desta liberdade religiosa, o sagrado Concílio tem a intenção de desenvolver a doutrina dos últimos Sumos Pontífices acerca dos direitos invioláveis da pessoa humana e da ordem jurídica da sociedade” (Declaração Dignitatis Humanae sobre a liberdade religiosa)

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