domingo, 30 de outubro de 2011

XXXI DOMINGO COMUM Mt 23,1-12

HOJE APRESENTO A HOMILIA DO SITE PAULINAS.ORG.BR POR NÃO TER TIDO TEMPO DE ESCREVER MEU COMENTÁRIO PESSOAL, JÁ QUE ESTAVA VIAJANDO. PRÓXIMO DOMINGO TUDO VOLTA À NORMALIDADE.

No capítulo 23 do evangelho de Mateus encontramos um conjunto de contundentes denúncias às práticas farisaicas, originadas de pronunciamentos de Jesus e aí agrupadas pelo evangelista. Nos outros dois evangelistas sinóticos, Marcos e Lucas, estas denúncias estão dispersas ao longo de seus textos. A leitura de hoje é a primeira parte deste conjunto. A ela, segue-se uma série de sete "ai de vós" extremamente desmistificadores sobre a hipocrisia dos fariseus, fechando com uma terrível imprecação (13, 13-36). A última parte é uma lamentação sobre "Jerusalém que matas os profetas" (13,37-39). Mateus adapta para suas comunidades, na década de oitenta, sentenças proferidas por Jesus em seu ministério denunciando o sistema opressor das sinagogas e do Templo. Naquela década o conflito com os fariseus é mais abrangente e Mateus quer persuadir suas comunidades a se diferenciarem da prática deles. Esta ênfase de Mateus reforçando a denúncia de Jesus aos fariseus tem dois sentidos, no contexto em que vivia. Os discípulos de Jesus oriundos do judaísmo, a princípio continuaram freqüentando o Templo e as sinagogas (At 2,46; 17,1-2; 21,26). Em torno do ano 80, após a destruição do Templo de Jerusalém, os fariseus que formavam a cúpula do judaísmo, enrijecendo suas observâncias decidiram expulsar das sinagogas os judeus convertidos ao cristianismo. Certamente muitos deles devem ter abandonado o cristianismo para permanecer sob o abrigo da sinagoga que contava com a proteção do império romano. Mateus, com seu evangelho, quer demonstrar que em Jesus se realizam as promessas do Primeiro Testamento, procurando convencer os convertidos a não retornarem à sinagoga. Alem disso, Mateus tem e intenção de remover da mente dos discípulos originárias do judaísmo os resquícios da incoerente e ambígua prática farisaica (23,8-12). Nos profetas já se encontravam denúncias à prática dos líderes religiosos (primeira leitura). Estes líderes usavam da autoridade como meio de prestígio, bem como para privilégios pessoais, oprimindo o povo. Contudo, no texto de Mateus, chama a atenção a contraditória recomendação de "fazer tudo o que eles vos disserem", o que implicaria em suportar os "fardos pesados e insuportáveis" amarrados por estes fariseus. Pode-se pensar que tal recomendação seja um reflexo da mentalidade de discípulos convertidos do judaísmo, ainda apegados às tradições judaicas. Percebe-se, com evidência, que tanto a ostensiva prática dos escribas e fariseus como suas exigências doutrinais e legais ferem a proposta de Jesus, anteriormente anunciada, de viver humildemente, no "segredo do Pai". Nas comunidades deve predominar a humildade, a igualdade em dignidade e o amor, embora na diversidade dos dons e carismas. Paulo apóstolo é uma testemunha desta humildade e de carinho.

José Raimundo Oliva

domingo, 23 de outubro de 2011

XXX DOMINGO COMUM A


Somavam um total de 613 as prescrições, mandamentos e proibições do AT que os fariseus observavam rigorosamente. Por isso, no Evangelho de hoje, não é de se estranhar que alguns fariseus confusos com tantas leis e ao saberem que Jesus tinha feito calar muito bem os saduceus que o tentaram pegar no debate sobre a ressurreição dos mortos, dirijam-se aoMestrepara que lhes diga finalmente qual seja o mandamento mais importante de todos eles.
            Jesus responde: “Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento”, onde cita o Shemá Israel (Dt 6); e o segundo é semelhante ao primeiro: “Amarás ao teu próximo como a ti mesmo”, onde cita Lv 19. E, Jesus completa, destes mandamentos dependem toda a Escritura.
            A novidade de Jesus aqui não está no preceito do amor. Ele citou dois mandamentos que já estavam presentes no AT. Mas, a novidade é que lhe perguntaram um mandamento, ele respondeu com dois e disse que havia uma semelhança entre eles. O amor a Deus é semelhante ao amor ao próximo e a si mesmo.
            De fato, no AT, havia um empenho de amor para com o próximo (I leitura); no Salmo, vemos que esse amor vem fundamentalmente do Senhor que é nossa rocha. Deus é a possibilidade de amar, Ele oferece a possibilidade de amar. A novidade de Jesus não é tanto a ordem: amai!, mas Ele é o dom do amor que nos diz que somos capazes de amar. Assim, como os tessalonicenses se tornaram imitadores do Senhor imitando Paulo, assim também podemos amar seguindo o exemplo de tantos santos.
            Dada a explicação da mensagem, lembramos um detalhe do segundo mandamento que é bastante importante. Amar o próximo como a si mesmo. Você parou para pensar se você ama a si mesmo? E de verdade? Hoje mais do que nunca, vemos tantas pessoas magoadas, feridas, insatisfeitas, mal amadas, tristes, amargas, doentes emocionalmente, mentalmente e espiritualmente. que, de fato, na nossa sociedade, um grande número de pessoas não se amam, não gostam delas mesmas, não se sentem satisfeitas com elas mesmas; e o pior, muitas se odeiam. Odeiam seu jeito de ser, odeiam seu corpo, etc. Umas têm isso bem claro em suas mentes, enquanto outras não. E quase todas nem sonham que isto é com certeza a raiz de muitos dos problemas de suas vidas: é falta de amor-próprio, diferente de egoísmo (quer tudo para si e exclui) e de egocentrismo (se acha o centro).
            Deus criou o mundo e as pessoas para que nós tenhamos ótimas relações com elas; mas quando nós nos rejeitamos ou nos odiamos, isso provoca em nós muitos problemas de relacionamentos. Se somos pessoas feridas, nossa tendência é ferir o outro.
Se pegarmos o mandamento de Jesus do Evangelho deste domingo vamos ver que três tipos relações: minha relação com Deus, com o próximo e comigo mesmo. Como é a nossa relação com o nosso próximo? Com os nossos pais? Com os nossos amigos? Vizinhos? Colegas? E com Deus? Enfim, e a relação que nós temos com nós mesmos? Você gosta de estar com você mesmo? Você se sente bem em sua companhia? Ou você acha que tudo que possa lhe preencher vem de algum outro ser humano? Às vezes, gastamos muito tempo sozinhos pensando como é bom estar na companhia de outras pessoas e como é ruim ficarmos sozinhos, quando poderíamos muito bem gastarmos este tempo para aprendermos a nos sentirmos bem com nós mesmos. Quer queiramos ou não, o único ser humano com quem estaremos 24 horas neste mundo é com nós mesmos.
           
Nós todos sabemos como é chato conviver, por exemplo, todo dia no trabalho com alguém que nutramos algum tipo de antipatia, não vemos a hora daquele trabalho encerrar para descansarmos um pouco daquela convivência. Pois é, mas de nós não podemos fugir, nem mesmo por um único segundo, então é de suma importância que nós tenhamos paz conosco mesmos, é preciso que nos amemos.
            Mas porque é que tantos não se amam? Porque caem no que podemos chamar auto-rejeição quando sentem que as pessoas não as aceitam como realmente são. Se sentirmos que ninguém nos ama nem nos aceita, porque deveríamos nos amar? Isso é uma mentira que quanto mais acreditarmos, mais as coisas vão piorar pro nosso lado.
            Assim, o Evangelho mostra uma lógica, uma sequência de como devemos nos comportar com relação a tudo isso. Deus é amor. Deus nos ama em primeiro lugar. Ele tem a iniciativa. Ele nos aceita, mesmo que os outros não nos aceitem. E isso basta para encher o nosso ser. Ninguém pode dar aquilo que não tem. Assim, nós podemos dar amor ao nosso próximo se aceitarmos esse amor de Deus na nossa vida e consequentemente nos amarmos, amando o próximo. Nós temos que nos amar, não de modo egoísta nem egocentrista, mas de maneira equilibrada.
            Nós devemos ter um tipo de amor por nós mesmos no qual sabemos que Deus nos ama e que dessa maneira podemos amar o que ele escolheu amar. Podemos até não estarmos de acordo com todas as coisas erradas que nós fazemos, mas devemos aceitar a nós mesmos com os nossos defeitos porque Deus nos aceita assim. Nós devemos amadurecer o nosso amor a ponto de dizer: eu sei que eu preciso mudar e eu quero mudar. De fato, eu acredito que Deus está mudando meu ser, mas durante este processo, eu não me rejeitarei porque Deus me aceita exatamente como sou.
Que todos nós saibamos acolher o amor imenso que Deus tem por cada um de nós, para que assim possamos amá-lo, amar a nós mesmos e assim, cheios de amor, amar de coração sincero o nosso próximo.



sexta-feira, 14 de outubro de 2011

XXIX DOMINGO COMUM - Mt 22,15-21

Dai a Deus o que é de Deus
No Evangelho deste domingo, os fariseus tentam apanhar Jesus com um plano muito bem articulado. Mas antes de começar a nossa reflexão, é bom lembrar que nem todos os fariseus do tempo de Jesus eram iguais, como também não somos nós cristãos no mundo de hoje e isso conta na aplicação da mensagem de Jesus. De fato, o que a palavra de Deus quer é nos convidar a viver coerentemente com os princípios morais e religiosos, mas também com aqueles civis. O cristão não vive fora do mundo, mas vive inserido no mundo com a sua fé.
Pois bem, havia cinco tipos negativos de fariseus: o fariseu “exibido” (que leva suas boas obras sobre seus ombros, para mostrá-las a todos); o fariseu “presunçoso” (que diz “espere por mim. Eu estou ocupado usando meu tempo para cumprir os mandamentos! Eu não tenho tempo para você”); o fariseu “contador” (que paga cada dívida, isto é, cada pecado, realizando uma boa obra correspondente); o fariseu “parcimonioso” (que diz “do pouco que eu tenho, o que eu posso deixar de lado para cumprir os mandamentos?”) e o fariseu que “compensa” (que diz “conte-me que pecado eu cometi, e eu cumprirei um mandamento para ofuscá-lo”).
Mas também havia dois tipos positivos de fariseus: o fariseu “temente a Deus” que vivia a própria fé com autenticidade, pela qual as práticas externas derivavam da observância da lei de Deus como fruto de uma vida plasmada pela escuta obediente da Palavra de Deus; e outro tipo ainda mais admirável, o fariseu que “ama” (que sabia ser acolhedor, misericordioso e certamente teria prestado socorro ao samaritano perseguido e caído pela estrada de Jerusalém a Jericó. Cfr. Talmude).
Mas os fariseus que encontramos no Evangelho de hoje são do primeiro tipo: hipócritas. Chamam Jesus de “mestre”, mas não o seguem. Interrogam-no sobre qual seja o caminho para conhecer a verdade, mas não o percorrem. Depois, perguntam sobre a verdade, mas querem aquela cômoda, a verdade subjetiva, aquela que pode ser dominada, manipulada a seu bel prazer. A visão parcial destes fariseus ligada ao culto, mas desligada da vida, e portanto, não incidente na vida mesma, impossibilita-lhes compreender e conhecer a verdade.
É a esperteza cruel de quem busca os próprios interesses: eliminar Jesus porque Ele incomoda. Jesus não deve ser acolhido pois atrapalha os planos. Então, armam de tudo para confundi-lo e prendê-lo com a célebre pergunta feita por uma delegação composta de fariseus e herodianos: “é lícito ou não pagar imposto a César?” Precedido de uma grande ironia: “sabemos que és verdadeiro e que, de fato, ensinas o caminho de Deus. Não te deixas influenciar pela opinião dos outros, pois não julgas pelas aparências”.
Na verdade, estes fariseus elaboraram a cilada para si mesmos. Na resposta, Jesus desmascara a mesquinharia da fé deles. Ora, o povo de Israel vivia sob o domínio dos romanos. Um sinal de domínio dos romanos sobre o povo era exatamente o excesso de impostos (como acontece no Brasil em que cada trabalhador paga 40% de sua renda anual em tributos ao governo, fora outros impostos). César era o nome genérico com o qual se indicava o imperador. No tempo de Jesus, Tibério César.
E então? Deus quer ou não que se pague o imposto a César? Os fariseus eram contra esse pagamento porque na moeda estava impressa a figura do imperador e isso para eles indicava submissão a outro que não fosse Deus. Já os herodianos, simpatizantes de Herodes Antipas, colaboravam com o império romano e gozavam de alguns privilégios (sempre interesseiros), portanto, favoráveis aos tributos. Se Jesus tivesse respondido “não”, ficaria contra os herodianos, podendo ser acusado como rebelde ao império e ser condenado, tornando-se um revolucionário político. Se dissesse “sim”, colocar-se-ia contra os fariseus. Mostrar-se-ia contra o povo que era sobrecarregado pelas taxas, como um colaborador dos romanos, e assim, inimigo do povo. Assim, eles pensaram. “Dessa vez, qualquer resposta, Jesus está sem saída. Ofenderá qualquer um e se comprometerá”.
Mas, Jesus conhecendo a malícia deles, não cai na armadilha, não se deixa determinar pela pergunta como ela foi formulada. Responde-lhes, chamando-os de hipócritas (falsos, impostores) e vai mais além. Com a sua resposta, Jesus evita tal cilada, recuperando integralmente os dados da realidade. Ele revela às pessoas a sua identidade. “Vocês fingem estarem interessados nessa questão, mas na verdade querem me tentar. Me mostrem uma moeda”. “De quem é a figura e a inscrição desta moeda?” O denário era uma moeda romana com o qual eram pagas as taxas. E no tempo de Jesus, o denário de prata tinha a imagem do imperador Tibério César. Então, que se devolva a César aquilo que é de César, isso não representa problema nenhum pra Jesus.
Por outro lado, Jesus acrescenta: mas, devolva a Deus o que é de Deus. Com isso, Jesus quer fazer entender que a pergunta sobre o imposto não diz respeito diretamente a Deus e que neste âmbito César não está em concorrência com Deus. Mas, que as disposições e exigências de César podem ser respeitadas desde que não contradigam a vontade de Deus. Significa superar os esquemas políticos na religião. Pagar as taxas e obedecer a César não nos exonera de reconhecer que o nosso Senhor é Deus. Isso significa que toda pessoa que vive numa civilização organizada com as próprias instituições políticas, sociais, econômicas, deve ser respeitada, sua dignidade de pessoa enquanto criada por Deus a sua imagem e semelhança. É no amor por cada pessoa humana que se dá a Deus aquilo que é de Deus e a César o que é de César.
Não se pode separar fé, vida econômica, política e social. A pessoa cristã não pode estar dividida, de outro modo corre o risco de se tornar como os fariseus hipócritas do Evangelho de hoje. Hoje sentimos falar tanto de liberdade religiosa, ou seja, que podemos ser cristãos e que podemos manifestar nossa fé abertamente e protegidos pela lei. Mas, infelizmente, há também tantas pessoas no mundo impossibilitadas de praticar sua fé, como na China, onde, por exemplo, o governo obriga a abortar o segundo filho; como fica a situação dos cristãos desse país para obedecer a Deus e lutar em favor da vida? Com relação a este tema, estamos de olho nos nossos caros deputados que elegemos para defenderem em nosso nome os nossos valores em favor da vida e contra a legalização do aborto ou da maconha, por exemplo.
Que tenhamos a consciência de devolver a Deus o que é Dele, colocá-lo em primeiro lugar na nossa vida, e abrirmos o nosso coração à escuta acolhedora da sua Palavra que nos liberta e nos faz capazes de entender que somos profundamente amados por ele.
Com a I leitura, temos a grande lição de que o Senhor escolheu um estrangeiro, Ciro da Pérsia, para que fosse o libertador do seu povo. A história não foi feita nem pelos babilônicos nem pelos persas, mas é Deus quem a escreve. É assim que interpreta o profeta Isaías. Por isso, o Sl 95 nos convida a reconhecer que o Senhor é grande e muito digno de louvor. Reconhecei que o Senhor é Deus. Que Ele reina. Restituí a Ele aquilo o que lhe é devido. É o que faz a comunidade dos tessalonicenses (II leitura), o mais antigo texto da tradição cristã, 51 d.C., que restituiu a Deus aquilo que era Dele. Reconheceu isso mediante a força do Espírito Santo.
“O sagrado Concílio declara igualmente que tais deveres atingem e obrigam a consciência humana e que a verdade não se impõe de outro modo senão pela sua própria forca, que penetra nos espíritos de modo ao mesmo tempo suave e forte. Ora, visto que a liberdade religiosa, que os homens exigem no exercício do seu dever de prestar culto a Deus, diz respeito à imunidade de coação na sociedade civil, em nada afeta a doutrina católica tradicional acerca do dever moral que os homens e as sociedades têm para com a verdadeira religião e a única Igreja de Cristo. Além disso, ao tratar desta liberdade religiosa, o sagrado Concílio tem a intenção de desenvolver a doutrina dos últimos Sumos Pontífices acerca dos direitos invioláveis da pessoa humana e da ordem jurídica da sociedade” (Declaração Dignitatis Humanae sobre a liberdade religiosa)