sexta-feira, 23 de setembro de 2011

XXVI DOMINGO COMUM - Mt 21,28-32

As prostitutas vos precedem no Reino de Deus
Como contexto do Evangelho deste domingo, Jesus encontra vários chefes judaicos no pátio do templo onde debatiam teologia. Estes eram os expertos na doutrina e se consideravam os justos, enquanto desprezavam os outros. Jesus propõe três parábolas para que estes senhores reflitam sobre suas atitudes. A primeira parábola que trata o tema do desprezo é a que a liturgia de hoje nos propõe.
Jesus começa com uma pergunta? “O que vos parece?” Os chefes e os sacerdotes tinham que responder. Com a parábola do domingo passado, já tínhamos a ideia de que os últimos trabalharam menos e ganharam por primeiro. Hoje, essa ideia se torna mais clara ainda. Enquanto os primeiros, os chefes do povo de Israel “trabalharam por primeiro”, ou seja, por palavras diziam aceitar a aliança; os últimos, membros também desse povo e os de fora, os que estavam entrando agora, sendo acolhidos por Jesus, de fato, cumpriam a vontade do Pai.
Por isso, “as prostituas vos precedem no Reino dos Céus”. É o que Jesus diz a estes chefes.
Podemos imaginar o escândalo que estas palavras causaram aos ouvidos dos “justos” de Israel! Ser precedido nos céus por uma prostituta ou um cobrador de impostos? Não se poderia ouvir ofensa maior. Ser colocado para trás logo por quem? Por pessoas de má fama e desonestas?
Mas por que Jesus reprova tanto estes sacerdotes e anciãos? Onde foi que eles erraram? Exatamente na incoerência entre o “falar” e o “fazer” deles. E Jesus mostra isso claramente com a parábola dos dois filhos. Nela, para ambos os filhos, o pai pede cordialmente que trabalhem na vinha. O primeiro se prontifica imediatamente: “Sim, Senhor!”, mas não move uma palha. O segundo está decidido: “não quero!”, mas pensa melhor e aparece lá para trabalhar.
No primeiro filho, as palavras são boas e gentis, mas falta a sua realização. No segundo, as palavras até parecem brutas, mas a ação é boa. As palavras por si só não salvam, é preciso praticá-las. O próprio Jesus já havia alertado: “Não quem me diz: Senhor, Senhor, entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade do meu Pai que está nos céus (Mt 7,21). Já o exemplo do segundo filho é autêntico: ele cumpre a vontade do pai não com palavras, mas com ações.
Os chefes judaicos até que estavam de acordo que a vontade do Pai só pudesse ser cumprida com ações, mas não estavam de acordo de jeito nenhum com a aplicação que Jesus fizera desta parábola. Assim, percebemos que tipo de distância abismal havia entre o dizer e o fazer na religiosidade farisaica e que é tão viva ainda hoje. A reprovação de Jesus é dirigida a quem dá mais valor às aparências do que à essência, mais às palavras que à prática, mas ao exterior que o interior.
Se formos fazer um exame de consciência bem feito, vamos perceber imediatamente como muitas vezes somos fariseus, como o primeiro filho pronto a dizer sim com os lábios, mas a não fazer quase nada quando o assunto é cumprir a vontade de Deus. A exortação de Jesus se torna ainda mais provocante, como já dissemos acima, porque contrapõe aos seus interlocutores os publicanos e as prostitutas.
Para os chefes dos judeus, o fato de serem mencionados juntamente com pessoas dessa classe era muito ofensivo. Eles desprezavam e excluíam totalmente estas pessoas. Jesus, pelo contrário, vê nelas o segundo filho. Num primeiro momento, deram um não, mas depois se arrependeram e fizeram a vontade do Pai. Jesus não aprova o modo de vida delas, mas reconhece a acolhida que elas deram à mensagem de conversão de João Batista e a julga como o cumprimento da vontade de Deus.
Nós, também podemos agir como os de fora, quando escutamos a palavra de Deus, nos arrependemos e mudamos de vida, somos essas “prostitutas” e esses “cobradores de impostos”. As autoridades daquela época não acreditaram. E os pecadores sim. Aqueles que pareciam estar longe acolheram Jesus verdadeiramente.
Jesus afirma que só aquele que reconhece o seu pecado pode se arrepender; aquele que se acha justo, um autossuficiente, seguro de sua justiça, nunca vai reconhecer que erra. De fato, foi isto o que aconteceu pela pregação de João Batista: os fariseus o rejeitaram, enquanto os pecadores se arrependeram e se converteram. Aqueles, de fato, não se agradaram em ouvi-lo, estavam fechados ao Evangelho e só quem se deixa tocar pelo Evangelho, afasta-se de si mesmo (já que, no fundo, a religiosidade farisaica é o agradar a si mesmo, pelo próprio comportamento, pelas próprias ações) e se abandona à vontade de Deus.
Até que os fariseus faziam boas e muitas ações, pois observavam a lei de Moisés, mas esqueciam a parte fundamental: reconhecer os sinais da presença de Deus, primeiramente em João Batista, depois em Jesus. Descobrimos assim que a manifestação concreta da vontade de Deus não coincide nunca com aquilo que nós desejamos e que já preestabelecemos como o nosso bem, mas tem sempre a ver com a fé, uma fé que envolve todo o nosso ser e se concretiza numa pequena, simples, mas dificílima ação. O importante não é, portanto, fazer alguma coisa, mas fazer aquilo que Deus quer que nós façamos pela obediência da fé.
É o que encontramos na II leitura de hoje. Na carta aos filipenses, encontramos o vértice do hino cristológico: “Jesus Cristo, existindo em condição divina, não fez do ser igual a Deus uma usurpação, mas esvaziou-se a si mesmo, assumindo a condição de escravo e tornando-se igual aos homens. Encontrado com aspecto humano, humilhou-se a si mesmo, fazendo-se obediente até à morte, e morte de cruz”. Por isso, à descida corresponde a subida. Ele se abaixou, por isso, Deus o elevou. Jesus é o Filho obediente, é a medida do amor. Queremos escutá-lo e sermos filhos obedientes como Ele o foi.

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