sexta-feira, 16 de setembro de 2011

XXV DOMINGO COMUM – Mt 20,1-16A

A lógica do amor de Deus: justiça e bondade

No Evangelho deste domingo, Jesus nos propõe uma outra longa parábola, para revelar com uma imagem viva e concreta, a partir de uma experiência de vida, a riqueza infinita do amor generoso do Pai: “Deus Caritas est”. É aqui que se concentra todo o significado daquele patrão que “saiu de madrugada para contratar trabalhadores para a sua vinha...”, sinal da solicitude de Deus, que não “aguenta” ficar esperando que os filhos que estão afastados voltem (Lc 15); Ele mesmo os procura, chama-os, e os envolve no seu projeto de vida: a salvação eterna que é a comunhão feliz com Ele.

É este o trabalho que o Senhor oferece em troca de uma simbólica moeda de prata (o pagamento por uma dia de trabalho), que será dada, não com base nas efetivas horas de trabalho, contadas a partir de um relógio, mas pela intensidade de fé com a qual, também a pessoa mais afastada se dirige a Ele.

À primeira vista, a parábola parece ser desconcertante. De fato, segundo a nossa comum medida de justiça, seria impensável que a retribuição pelo trabalho seja idêntica, para quem tiver trabalhado uma hora ou poucas horas, e para quem tiver completado as suas oito horas, ou quem sabe, até algumas horas extras.

Dar a cada um o que é seu, é o princípio mais elementar da justiça distributiva, que obviamente, Jesus não rejeita; porém, Ele mostra que há uma justiça mais alta, com finalidades bem maiores daquelas exclusivamente temporais, e é a justiça que regula a nossa relação com o nosso Deus e Pai, e diz respeito ao fim último da existência humana, que não se acaba com a morte, mas caminha para a eternidade, onde não há limites, e não pode ser avaliada em termos econômicos, como uma moeda de prata ou dez mil talentos.

A chave interpretativa da parábola é esta verdade, proclamada por Cristo, verdade que supera toda lógica puramente humana. Há uma causa bem maior, pela qual o homem é chamado a colocar em jogo a sua vida, que é a causa da salvação, que vem de Deus, um dom de misericórdia, para ser acolhido com humildade e fé; para ser vivido com empenho, e que, na sua dinâmica mais profunda, foge ao nosso pensamento, porque é determinada pela lógica insondável do amor de Deus, que é Pai, e que não quer que ninguém se perca.

Deus é misericórdia, como nos diz o profeta Isaías na I leitura; ele nos apresenta um Deus que por amor, revira toda lógica humana para realizar uma outra bem superior: “abandone o ímpio seu caminho, e o homem injusto, suas maquinações, volte para o Senhor que terá piedade dele; volte para nosso Deus que é generoso no perdão. Meus pensamentos não são como os vossos pensamentos e vossos caminhos não são como os meus caminhos. Estão meus caminhos tão acima dos vossos caminhos e meus pensamentos acima dos vossos pensamentos quanto o céu está acima da terra”. Deus pensa de modo diferente de nós e quantas vezes caímos no erro de querer que Deus se adeque aos nossos pensamentos! Se o pensamento de Deus é diferente do nosso, o nosso é o errado.

É nessa lógica que devemos interpretar a parábola. O patrão sai de casa para procurar trabalhadores, para envolvê-los no seu projeto, quantos não o conhecem, por causa diversas, ou porque são indiferentes. Ele sai em diferentes horas do dia, inclusive na última hora útil: lá pelas cinco da tarde. É a busca que Deus faz do homem, destinado a salvação, é uma busca apaixonada, frequente, incansável. Uma busca que terminou por enviar entre nós, Jesus Cristo, o nosso bom Pastor que dá a vida pelo seu rebanho.

O tempo de Deus não é como o tempo do homem, porque a justiça de Deus é uma justiça que é unida ao amor: o amor que salva, e o cálculo de Deus está no amor. De fato, aquele trabalhador que reclamava dizendo ter sido injustiçado, recebe a seguinte resposta do patrão: “por acaso não tenho o direito de fazer o que quero com aquilo que me pertence? Ou estás com inveja porque estou sendo bom?”

Dirigida aos fariseus, escrupulosos, presunçosos de serem os melhores, quando ouvimos esta parábola, arriscamos de ouvir como fariseus que por trabalharem desde muito tempo se acham merecedores a ganhar mais. E, neste caso, a parábola se volta contra nós. Mas se olharmos os santos que viveram uma fé tão intensa, um testemunho tão grande, muitas vezes até ao martírio e saber que Deus me paga igual a eles que fizeram tanto e eu quase nada, a parábola está a nosso favor. A moeda é o símbolo do prêmio: Deus mesmo, o encontro com Ele, a amizade com Ele. O mesmo prêmio que é dado a São Pedro e a todos os santos.

Na carta de São Paulo aos Filipenses, este agradece as ofertas recebidas enquanto está preso. E relata que é melhor estar morto para estar com Cristo. Mas é importante Cristo ser glorificado, por isso, viver “pra mim é Cristo”, por causa dos que ainda devem ser evangelizados e confirmados na fé.

Para finalizar, lembremos do malfeitor que estava junto da cruz de Jesus e foi salvo por Ele como um trabalhador de última hora. “Ainda hoje estarás comigo no paraíso”. O hoje de Deus é um hoje de fé e de amor que não segue os ponteiros do relógio, mas a intensidade do desejo, que nasce do coração que acolhe com humilde reconhecimento o dom da graça. Talvez não sejamos trabalhadores de última hora; mas, neste caso, o Evangelho nos chama a atenção para não nos distrairmos, o Senhor repetidamente nos chama a uma vida mais intensa de comunhão e de amor, a um testemunho mais coerente, claro e decisivo de Cristo.

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