sexta-feira, 9 de setembro de 2011

XXIV DOMINGO COMUM – Mt 18,21-35

Não devias tu também ter compaixão do teu companheiro?

Como faz várias vezes ao longo da sua pregação, no final do discurso eclesial em Mateus, Jesus fala da necessidade de perdoar àqueles que nos ofenderam. E, nestas frequentes vezes, Ele deixa claro que o obter o perdão de Deus está vinculado de certo modo à nossa disponibilidade para perdoar, como encontramos já na quinta bem-aventurança: “Bem-aventurados os misericordiosos porque encontrarão misericórdia”. Aqui Ele faz uma referência clara à misericórdia do perdão e anuncia o perdão de Deus para aqueles que perdoam (Mt 5,7 e Mt 18,33).

Assim, no final do seu quarto grande discurso (Mt 18,1-19,1), encontramos esta série de indicações de Jesus sobre o comportamento recíproco no interior da comunidade dos discípulos, de modo particular, ensinamentos sobre o perdão. Pedro já sabe que os discípulos estão obrigados a perdoar, mas ele quer saber se este perdão tem um limite. Por isso, ele pergunta a Jesus, querendo saber até que ponto se deve tolerar ou suportar as ofensas do próximo: “quantas vezes devo perdoar se meu irmão pecar contra mim? Até sete vezes?”

Jesus responde de modo paradoxal, multiplicando o número proposto por Pedro: “não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete”. É evidente que aqui não se trata de fazer uma conta e dizer que são exatamente 490 vezes o limite, mas é um modo exagerado para dizer que se deve perdoar sem medida; é o dever do amor mútuo como nos exortava Paulo na II leitura do domingo passado. Com a sua resposta, Jesus alarga o horizonte, motiva e desperta a compreensão do porquê somos obrigados a perdoar sem limite algum. Nunca poderemos dizer que perdoamos o bastante e que depois de um determinado número de vezes, estamos livre do dever de perdoar.

Para compreendermos este ensinamento, Jesus nos propõe uma parábola muito longa e dramática, com contraposições de personagens. Um rei quer acertar as contas com os seus empregados. Um destes lhe deve dez mil talentos, uma cifra enorme, algo impagável. Mas este empregado não pagou o que devia evidentemente porque não pôde pagar. Corria o risco de perder tudo, a família e até a liberdade. E mesmo assim não podia nem de longe se ver livre da tal dívida.

Mas, suplicando ao rei para prorrogar o prazo, este lhe perdoa toda a dívida.

O episódio não termina aqui, porque sublinha o comportamento deste empregado que foi perdoado desta enorme dívida. Este homem diante de um seu semelhante que lhe devia apenas 100 moedas, uma cifra muito pequena e facilmente pagável, não aceita as suas súplicas e manda jogar na prisão o companheiro. Desta forma, Jesus introduz nesta consideração: Deus e o perdão que já recebemos dele. A relação é entre Deus, eu enquanto devedor seu, e o meu próximo que se tornou meu devedor. A parábola quer mostrar qual débito temos com Deus e com quanta misericórdia Ele age conosco. Só assim, é que podemos avaliar o comportamento não misericordioso com relação ao meu próximo tornado devedor.

É quando o rei convoca novamente o empregado e o reprova: “empregado perverso, eu te perdoei toda a dívida porque tu me suplicaste. Não devias tu também ter compaixão do teu companheiro, como eu tive compaixão de ti?” Este é o ponto central da parábola e nós somos os destinatários desta pergunta de Deus. O ponto de partida é a bondade do rei que perdoa porque lhe foi pedido. Consequentemente, aquele que foi perdoado, além de ter se livrado de uma grande desgraça, e da perda de sua liberdade, deveria ser cheio de uma ilimitada gratidão para com o rei e de uma disponibilidade a seguir o seu exemplo, a ter um coração como o seu, a ser misericordioso. E, por sua vez, perdoar o próprio companheiro. Vemos aqui uma clara aplicação concreta da oração do Pai Nosso: “perdoai as nossas ofensas assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido”.

Jesus vê claramente a relação entre o débito que nós temos com Deus e o débito que o nosso próximo tem conosco. Mas o empregado esqueceu tudo. É assim que é descrito por Jesus a rejeição do perdão. Na última parte da parábola, o rei se comporta sem misericórdia. Este recorda ao empregado a dívida perdoada e a obrigação de transmitir com uma atitude misericordiosa a misericórdia recebida.

Obviamente, não somos nós a medida do perdão. Deus sempre está disposto a nos perdoar. Mas, esse perdão que vem de Deus deve nos mover a perdoar o próximo. Ele nos perdoa não porque o mereçamos, mas porque Ele é bondoso. O perdão de Deus não é simplesmente deixar ir, mas é doar uma nova capacidade, a capacidade de perdoar. Assim, se fomos perdoados por Deus, nosso coração se torna capaz de perdoar. Se não o usarmos, este dom é retirado. E o perdemos porque inutilizado.

Nós temos uma inclinação muito grande para relembrar ofensas, rejeições, danos que sofremos do nosso próximo, levar sempre em conta isto e voltar continuamente sobre este assunto. Este relembrar pode penetrar profundamente nosso coração e envenenar nossas relações, inclusive as futuras. Óbvio que o perdão é difícil, por isso Jesus não se cansa de falar sobre o tema. Assim, na nossa relação com aqueles que nos ofenderam, temos que relembrar nossa relação com Deus. O reconhecimento da culpa perdoada e o exemplo da misericórdia devem nos impulsionar a perdoar com todo coração o nosso próximo.

Na I leitura, encontramos uma antologia de ditados sapienciais do livro do Eclesiástico, mais precisamente de Sirácide, professor da escola de Jerusalém. Ali, ele ensina a perdoar a ofensa, a não cultivar o rancor, a não nutrir desejos de vingança. Mas consciente da própria fraqueza, adverte para que cada um esteja atento e tenha compaixão do próximo. Ou seja, vemos que este critério de misericórdia e de perdão do qual Jesus nos fala já tinha suas raízes no AT.

De fato, o Salmo 102 nos apresenta o retrato de Deus que perdoa todas as nossas culpas e cura todas as enfermidades. Quanto os céus por sobre a terra se elevam, assim é grande a sua misericórdia. E afasta de nós a nossa culpa assim como é longe o nascente do poente. O Senhor é grande e bom no amor. Ele é a origem, ele começa este dom e nós vivemos a sua consequência. Como nos explica São Paulo na II leitura, ninguém vive para si mesmo, vivemos para o Senhor porque somos do Senhor. Não posso dizer como cristão, eu vivo para mim mesmo. Mas eu existo para o próximo e para o Senhor; na verdade, o que seria de nós se não dependêssemos totalmente desse Senhor bondoso, amoroso e misericordioso?

Um comentário:

Rubens Brotto disse...

Obrigado pela clareza com que expõe sua analise em relação a esse texto.
Sabemos que mesmo não tendo nós pedido perdão a Deus por nossas dívidas Ele nos enviou o Seu perdão incalculável (Jesus Cristo). Assim, como Jesus nos ensina, Seu exemplo é nosso caminho de retorno ao Senhor. Por isso, o perdão deve ser parte integrante do nosso caminhar, ninguém consegue amar se não perdoar!

Rubens Brotto