sexta-feira, 2 de setembro de 2011

XXIII DOMINGO COMUM – Mt 18,15-20

O Evangelho deste domingo nos propõe um trecho tirado de Mt 18, capítulo que é inteiramente dedicado aos ensinamentos dados por Jesus a seus discípulos para serem praticados no interior da comunidade que é a Igreja. O texto fala sobre a correção fraterna como uma aplicação da parábola da ovelha perdida, trecho imediatamente anterior ao da liturgia de hoje.
Como agir com relação a um irmão que está tomando uma estrada errada? Há um pedido a ir atrás do irmão que cometeu o erro a fim de corrigi-lo. Para isto, Jesus indica algumas etapas a seguir.
Sem dúvida, o tema da correção fraterna é um tema muito importante, belo, mas também muito delicado e difícil de ser abordado e vivido. Jesus vê o seu grupo não como uma associação de pessoas onde cada um pode fazer aquilo que quiser e que ninguém se interessa pelo que o outro faz, mas como uma comunidade de irmãos que comunga das mesmas verdades reveladas e que está sujeita ao erro. Por isso, temos a necessidade de ser corrigidos por alguém e o dever de corrigir os outros também, já que todo comportamento positivo concorre positivamente para o bem de toda a comunidade e todo comportamento errado incide negativamente na comunidade. Temos a responsabilidade de fazer o possível para que ninguém se perca, é o mandamento contido na parábola da ovelha perdida.
A partir dessa preocupação fraterna que é uma manifestação de amor ao próximo e que deve estar submissa à vontade de Deus, é que temos a obrigação de corrigir um irmão que errou e chamá-lo à conversão. Certamente, toda correção vem do Senhor; por isso, só é justo falar de correção fraterna num contexto de caminho de santidade que queremos partilhar com o próximo. Convém esclarecer logo de imediato que este caminho não consiste na lógica daquele farisaísmo mais acentuado, que através de uma capa, pretende mostrar-se perfeito, quando no privado, pratica-se todo tipo de desvio e de imoralidade (apontar o cisco do olho do outro enquanto se tem uma trave no próprio olho); pelo contrário, à forma externa correta do nosso agir deve corresponder uma conscientização do bem que devemos fazer sempre e do mal que devemos evitar sempre.
E, se na nossa fragilidade humana, frequentemente erramos, quem tem o dever moral de nos chamar a atenção deve fazê-lo com coragem, no respeito da nossa pessoa, na verdade, com informações verdadeiras, sem dar ouvidos a: fofocas, calúnias, suspeitas, prejulgamentos, enfim, a tudo o que possa ofender e prejudicar injustamente a nossa fama. Cada um de nós tem a chance de se corrigir, rever a própria vida e as próprias decisões. Só os cabeças duras, os orgulhosos, aqueles que pensam estar sempre com a razão, não sabem se corrigir, mesmo cometendo tantos erros, causando dano a eles mesmos e aos outros.
Diante de uma ofensa feita a nós, Jesus tem uma proposta diferente daquela da vingança: a correção e a reconciliação, o perdão. O cristão não pode dizer: “to nem aí para a desgraça de tal pessoa”. Pelo contrário, somos obrigados a interessar-nos por um irmão que está desviado, pois o Pai que está nos céus não quer que ninguém se perca e temos responsabilidade nesta missão.
Mas, temos que entender bem, nenhum de nós deve ser juiz dos outros. Mas às vezes recebemos um ofício na Igreja, na sociedade, ou mesmo em casa, que requer de nós capacidade de humana e fraterna correção. Um pai que diante de um filho que se comporta de modo errado não toma posição e até mesmo é indiferente perante o seu comportamento, ou pior, apoia tal comportamento, tem uma parte de responsabilidade diante de Deus pelos atos do filho e pelas consequências trágicas na vida do filho.
A correção fraterna é certamente uma forma de caridade rara exatamente porque é muito difícil praticá-la. Requer-se antes de tudo um verdadeiro amor, sensatez e delicadeza. A prudência deve nos ajudar nesse sentido a não sermos injustos nem “donos da verdade”.
A humilde invocação ao Espírito Santo em comunidade nos consente conseguir a luz necessária para formular a nossa correção do modo melhor possível sem ofender, mas só para salvar o irmão do seu mal, quer às vezes somente com o irmão para evitar o escândalo, a vergonha e a difamação (1º fase), quer com a ajuda de outros irmãos para evitar a subjetividade (2ª fase), ou até mesmo com a ajuda da hierarquia da Igreja, quando nenhuma das duas anteriores resultou (3ª fase). Entretanto, é bom que fique claro que esta correção fraterna de que o Senhor fala e exorta que pratiquemos deve ser sempre um ato de caridade e de amor fraterno, nunca um mero gesto de autoridade e ainda menos de condenação, nunca podemos perder de vista a intenção de buscar a ovelha perdida (incansavelmente até encontrá-la).
A estas etapas, Mateus depois acrescenta outros dois fatores importantíssimos pronunciados por Jesus. Introduzidas pela fórmula “em verdade vos digo”: “tudo o que ligardes na terra será ligado no céu, e tudo o que desligardes na terra será desligado no céu”. Vemos que é uma resposta análoga àquela que já encontramos na resposta de Jesus a Pedro. Agora, Ele diz a todos os discípulos, confiando a eles com uma linguagem tipicamente judaica a tarefa de ligar e desligar. Isto é, de interpretar com autoridade as Escrituras e portanto, que tipo de atitude deve ser acolhida ou excluída.
Em seguida, Jesus pronuncia uma sentença sobre a oração que é fundamental para a correção fraterna: “se dois de vocês estiverem de acordo na terra sobre qualquer coisa que quiserem pedir, isso lhes será concedido por meu Pai que está nos céus. Pois onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, eu estou aí, no meio deles”. Uma afirmação forte, porém que não podemos banalizá-la. É preciso lê-la no contexto de todo o texto e entender que somente numa autêntica união entre pessoas, isto é, onde há uma correspondência afetiva, um empenho comunitário, uma comunhão vivida onde existem pessoas que vivem esta intensa comunhão entre si, o Senhor está presente e a oração é acolhida. “Eu estou aí no meio deles”, diz Jesus. É uma fórmula importante porque evoca o próprio nome de Deus: “Eu sou, Eu estou, Emanuel”. Jesus é o Deus conosco, presente na nossa vida, na nossa comunidade.
Na I leitura, nos é proposto um trecho do profeta Ezequiel constituído como vigia para os israelitas. Encarregado de repassar a Palavra de Deus para estes e adverti-los diante dos perigos. O vigia deve fazer exatamente isso, dar o alarme se houver algo negativo que possa destruir toda a comunidade. Aquilo que Jesus aconselha aos discípulos, a correção fraterna, torna-se realmente clara na imagem do vigia que aciona o alarme enquanto os outros dormem. O profeta “vigia” de Deus tem a tarefa de admoestar o que está em perigo para que se converta e viva.
O salmo 94 repete com insistência a importância de não endurecer o coração como em Meriba, como em Massa no deserto aquele dia (referindo-se ao ataque dos amalequitas nestas cidades por sua rebelião, murmuração e infidelidade ao Senhor). É exatamente o que somos convidados a fazer, não simplesmente a ser pessoas que corrigem os outros, mas como sábios que escutam as correções. Quando os outros tem algo a dizer de nós, pode ser Palavra de Deus que devemos escutar seriamente.
Na II leitura, continuamos a ler a Carta aos Romanos. No cap. 13, Paulo nos apresenta uma síntese teológica, onde “o amor é o cumprimento perfeito da lei”. Ele cita os principais mandamentos, mas sobretudo oferece o critério interpretativo que é o amor ao próximo. É o modo para realizar plenamente o projeto de Deus. Podemos ajudar os outros a corrigirem-se e escutar as correções que nos são dirigidas para dar cumprimento à nossa vida cristã no amor. Portanto, que sintamos o dever do amor mútuo.

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