sexta-feira, 30 de setembro de 2011

XXVII DOMINGO COMUM - Mt 21,33-43

Neste 27o domingo do tempo comum, encontramos a segunda parábola sobre a temática da rejeição a Jesus. A liturgia de hoje nos propõe a parábola dos vinhateiros (cultivadores de vinhas) homicidas, imediatamente depois de nos ter proposto a parábola dos dois filhos de atitudes diferentes e na espera de escutar no próximo domingo a parábola do banquete de casamento.
Na I leitura, o profeta Isaías dedica um dos seus mais apaixonantes cânticos poéticos à vinha de um amigo seu. Trata-se de uma vinha plantada com amor, protegida, podada com muito cuidado e cheia de tantas esperanças. A vinha do Senhor é o seu povo: “a vinha do Senhor dos exércitos é a casa de Israel, e o povo de Judá, sua dileta plantação”. Plantar uma vinha na linguagem bíblica é como casar-se: a vinha do Senhor é o povo de Israel. E espera-se muito desta vinha: uvas boas. Mas ela produziu uvas selvagens. O Senhor esperava lealdade e encontrou deslealdade. O Senhor espera o direito e o povo respondeu com o delito.
Infelizmente, esta vinha, isto é, este povo foi infiel. No tempo da colheita, as expectativas deixam lugar para decepções e amarguras: uvas selvagens em vez de uvas de verdade; em vez de frutos de justiça e retidão, o povo produziu derramamento de sangue e gritos de opressão.
Partindo desse texto, Jesus, bom parabolista, conta a parábola dos vinhateiros homicidas e faz os chefes judaicos caírem na sua própria armadilha. Os cultivadores da vinha (vinhateiros) além do fato de se apropriarem injustamente da colheita, tornam-se homicidas: espancam, apedrejam, matam, não somente os enviados do patrão, mas até mesmo seu filho. Aqui, já percebemos a ligação evidente com a morte de Jesus. O Filho de Deus tem muitas coisas em comum com os seus servos: também Ele foi enviado, e será morto de modo violento. Mas a sua relação pessoal com Deus é completamente diferente. Só ele é o Filho de Deus; todos aqueles que foram enviados antes Dele eram servos de Deus. Assim, depois que matam o Filho, Deus intervém.
Neste momento, o Jesus contador de parábolas passa da linguagem figurada da vinha para a construção de um edifício e já não se refere mais somente à sua morte, mas também à sua ressurreição. Os vinhateiros que matam o filho correspondem aos construtores que rejeitam a pedra. Deus agora opera de modo espetacular em favor da pedra rejeitada e lhe dá uma missão nova e fundamental. Através da morte e rejeição, os homens parecem ter acabado com Ele.
Porém, Deus é mais forte do que todos eles, e é Ele a determinar o destino de seu Filho. Eles, por outro lado, se não se converterem, correm o perigo de destruir a si mesmos com o seu comportamento e de perder a posição privilegiada que Deus determinou pra eles no campo da salvação: “quando o dono da vinha voltar, o que fará com esses vinhateiros?”. O que Jesus diz é uma advertência final e muito séria. Ele mostra a seus interlocutores o que está em jogo nesta discussão. Se eles não escutarem, então acontecerá tudo o que está descrito: “o Reino de Deus vos será tirado e será entregue a um povo que produzirá frutos”.
De fato, o amor de Deus pelo seu povo supera qualquer maldade. Deus, que se inseriu na história, dá um sentido novo aos fatos humanos: recupera a pedra (Jesus), rejeitada pelos construtores e faz dela a pedra angular, isto é, a base da salvação para todos os povos. Agora fica claro: quem rejeita a Deus condena-se à improdutividade; só quem O aceita e permanece Nele pode dar muitos frutos. Porque sem Ele não podemos fazer nada. Deus quer firmemente o nosso bem, e, portanto, não cansa, não desanima, não renuncia aos frutos.
Deus ficou sempre tentando e depois de cada rejeição, propondo a novos povos o mesmo Salvador, a fim de que, unidos a Ele, deem frutos de vida.
O interessante no modo de ensinar de Jesus é que Ele não fala de modo obscuro e não age com palavras ambíguas. Ele claramente mostra às autoridades judaicas quem Ele é, qual o lugar Dele no plano da salvação e qual é o peso do comportamento deles. É como se ele dissesse: “os vinhateiros são vocês. Os delinquentes são vocês. O patrão é o Senhor e não vocês chefes judaicos. Vocês são só vinhateiros. Vocês usaram a vinha do Senhor, mas não destes frutos. Será preciso tirar de vocês e dar a outro povo que fará frutificar”.
Também nós devemos saber claramente quem é a pessoa de Jesus Cristo e quais são as consequências para nós pelo nosso comportamento em relação a Ele. Que o nosso comportamento seja como nos pede São Paulo na II leitura aos filipenses: ocupando-nos com tudo o que é verdadeiro, respeitável, justo, puro, amável, honroso, tudo o que é virtude ou de qualquer modo mereça louvor. Assim, o Deus da paz estará conosco. Não nos inquietemos por nada, mas apresentemos as nossas necessidades a Deus. E peçamos a Deus que venha visitar a sua vinha e protegê-la. Pois foi a sua mão direita que a plantou, protegei-nos, Senhor Deus!

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

XXVI DOMINGO COMUM - Mt 21,28-32

As prostitutas vos precedem no Reino de Deus
Como contexto do Evangelho deste domingo, Jesus encontra vários chefes judaicos no pátio do templo onde debatiam teologia. Estes eram os expertos na doutrina e se consideravam os justos, enquanto desprezavam os outros. Jesus propõe três parábolas para que estes senhores reflitam sobre suas atitudes. A primeira parábola que trata o tema do desprezo é a que a liturgia de hoje nos propõe.
Jesus começa com uma pergunta? “O que vos parece?” Os chefes e os sacerdotes tinham que responder. Com a parábola do domingo passado, já tínhamos a ideia de que os últimos trabalharam menos e ganharam por primeiro. Hoje, essa ideia se torna mais clara ainda. Enquanto os primeiros, os chefes do povo de Israel “trabalharam por primeiro”, ou seja, por palavras diziam aceitar a aliança; os últimos, membros também desse povo e os de fora, os que estavam entrando agora, sendo acolhidos por Jesus, de fato, cumpriam a vontade do Pai.
Por isso, “as prostituas vos precedem no Reino dos Céus”. É o que Jesus diz a estes chefes.
Podemos imaginar o escândalo que estas palavras causaram aos ouvidos dos “justos” de Israel! Ser precedido nos céus por uma prostituta ou um cobrador de impostos? Não se poderia ouvir ofensa maior. Ser colocado para trás logo por quem? Por pessoas de má fama e desonestas?
Mas por que Jesus reprova tanto estes sacerdotes e anciãos? Onde foi que eles erraram? Exatamente na incoerência entre o “falar” e o “fazer” deles. E Jesus mostra isso claramente com a parábola dos dois filhos. Nela, para ambos os filhos, o pai pede cordialmente que trabalhem na vinha. O primeiro se prontifica imediatamente: “Sim, Senhor!”, mas não move uma palha. O segundo está decidido: “não quero!”, mas pensa melhor e aparece lá para trabalhar.
No primeiro filho, as palavras são boas e gentis, mas falta a sua realização. No segundo, as palavras até parecem brutas, mas a ação é boa. As palavras por si só não salvam, é preciso praticá-las. O próprio Jesus já havia alertado: “Não quem me diz: Senhor, Senhor, entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade do meu Pai que está nos céus (Mt 7,21). Já o exemplo do segundo filho é autêntico: ele cumpre a vontade do pai não com palavras, mas com ações.
Os chefes judaicos até que estavam de acordo que a vontade do Pai só pudesse ser cumprida com ações, mas não estavam de acordo de jeito nenhum com a aplicação que Jesus fizera desta parábola. Assim, percebemos que tipo de distância abismal havia entre o dizer e o fazer na religiosidade farisaica e que é tão viva ainda hoje. A reprovação de Jesus é dirigida a quem dá mais valor às aparências do que à essência, mais às palavras que à prática, mas ao exterior que o interior.
Se formos fazer um exame de consciência bem feito, vamos perceber imediatamente como muitas vezes somos fariseus, como o primeiro filho pronto a dizer sim com os lábios, mas a não fazer quase nada quando o assunto é cumprir a vontade de Deus. A exortação de Jesus se torna ainda mais provocante, como já dissemos acima, porque contrapõe aos seus interlocutores os publicanos e as prostitutas.
Para os chefes dos judeus, o fato de serem mencionados juntamente com pessoas dessa classe era muito ofensivo. Eles desprezavam e excluíam totalmente estas pessoas. Jesus, pelo contrário, vê nelas o segundo filho. Num primeiro momento, deram um não, mas depois se arrependeram e fizeram a vontade do Pai. Jesus não aprova o modo de vida delas, mas reconhece a acolhida que elas deram à mensagem de conversão de João Batista e a julga como o cumprimento da vontade de Deus.
Nós, também podemos agir como os de fora, quando escutamos a palavra de Deus, nos arrependemos e mudamos de vida, somos essas “prostitutas” e esses “cobradores de impostos”. As autoridades daquela época não acreditaram. E os pecadores sim. Aqueles que pareciam estar longe acolheram Jesus verdadeiramente.
Jesus afirma que só aquele que reconhece o seu pecado pode se arrepender; aquele que se acha justo, um autossuficiente, seguro de sua justiça, nunca vai reconhecer que erra. De fato, foi isto o que aconteceu pela pregação de João Batista: os fariseus o rejeitaram, enquanto os pecadores se arrependeram e se converteram. Aqueles, de fato, não se agradaram em ouvi-lo, estavam fechados ao Evangelho e só quem se deixa tocar pelo Evangelho, afasta-se de si mesmo (já que, no fundo, a religiosidade farisaica é o agradar a si mesmo, pelo próprio comportamento, pelas próprias ações) e se abandona à vontade de Deus.
Até que os fariseus faziam boas e muitas ações, pois observavam a lei de Moisés, mas esqueciam a parte fundamental: reconhecer os sinais da presença de Deus, primeiramente em João Batista, depois em Jesus. Descobrimos assim que a manifestação concreta da vontade de Deus não coincide nunca com aquilo que nós desejamos e que já preestabelecemos como o nosso bem, mas tem sempre a ver com a fé, uma fé que envolve todo o nosso ser e se concretiza numa pequena, simples, mas dificílima ação. O importante não é, portanto, fazer alguma coisa, mas fazer aquilo que Deus quer que nós façamos pela obediência da fé.
É o que encontramos na II leitura de hoje. Na carta aos filipenses, encontramos o vértice do hino cristológico: “Jesus Cristo, existindo em condição divina, não fez do ser igual a Deus uma usurpação, mas esvaziou-se a si mesmo, assumindo a condição de escravo e tornando-se igual aos homens. Encontrado com aspecto humano, humilhou-se a si mesmo, fazendo-se obediente até à morte, e morte de cruz”. Por isso, à descida corresponde a subida. Ele se abaixou, por isso, Deus o elevou. Jesus é o Filho obediente, é a medida do amor. Queremos escutá-lo e sermos filhos obedientes como Ele o foi.

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

XXV DOMINGO COMUM – Mt 20,1-16A

A lógica do amor de Deus: justiça e bondade

No Evangelho deste domingo, Jesus nos propõe uma outra longa parábola, para revelar com uma imagem viva e concreta, a partir de uma experiência de vida, a riqueza infinita do amor generoso do Pai: “Deus Caritas est”. É aqui que se concentra todo o significado daquele patrão que “saiu de madrugada para contratar trabalhadores para a sua vinha...”, sinal da solicitude de Deus, que não “aguenta” ficar esperando que os filhos que estão afastados voltem (Lc 15); Ele mesmo os procura, chama-os, e os envolve no seu projeto de vida: a salvação eterna que é a comunhão feliz com Ele.

É este o trabalho que o Senhor oferece em troca de uma simbólica moeda de prata (o pagamento por uma dia de trabalho), que será dada, não com base nas efetivas horas de trabalho, contadas a partir de um relógio, mas pela intensidade de fé com a qual, também a pessoa mais afastada se dirige a Ele.

À primeira vista, a parábola parece ser desconcertante. De fato, segundo a nossa comum medida de justiça, seria impensável que a retribuição pelo trabalho seja idêntica, para quem tiver trabalhado uma hora ou poucas horas, e para quem tiver completado as suas oito horas, ou quem sabe, até algumas horas extras.

Dar a cada um o que é seu, é o princípio mais elementar da justiça distributiva, que obviamente, Jesus não rejeita; porém, Ele mostra que há uma justiça mais alta, com finalidades bem maiores daquelas exclusivamente temporais, e é a justiça que regula a nossa relação com o nosso Deus e Pai, e diz respeito ao fim último da existência humana, que não se acaba com a morte, mas caminha para a eternidade, onde não há limites, e não pode ser avaliada em termos econômicos, como uma moeda de prata ou dez mil talentos.

A chave interpretativa da parábola é esta verdade, proclamada por Cristo, verdade que supera toda lógica puramente humana. Há uma causa bem maior, pela qual o homem é chamado a colocar em jogo a sua vida, que é a causa da salvação, que vem de Deus, um dom de misericórdia, para ser acolhido com humildade e fé; para ser vivido com empenho, e que, na sua dinâmica mais profunda, foge ao nosso pensamento, porque é determinada pela lógica insondável do amor de Deus, que é Pai, e que não quer que ninguém se perca.

Deus é misericórdia, como nos diz o profeta Isaías na I leitura; ele nos apresenta um Deus que por amor, revira toda lógica humana para realizar uma outra bem superior: “abandone o ímpio seu caminho, e o homem injusto, suas maquinações, volte para o Senhor que terá piedade dele; volte para nosso Deus que é generoso no perdão. Meus pensamentos não são como os vossos pensamentos e vossos caminhos não são como os meus caminhos. Estão meus caminhos tão acima dos vossos caminhos e meus pensamentos acima dos vossos pensamentos quanto o céu está acima da terra”. Deus pensa de modo diferente de nós e quantas vezes caímos no erro de querer que Deus se adeque aos nossos pensamentos! Se o pensamento de Deus é diferente do nosso, o nosso é o errado.

É nessa lógica que devemos interpretar a parábola. O patrão sai de casa para procurar trabalhadores, para envolvê-los no seu projeto, quantos não o conhecem, por causa diversas, ou porque são indiferentes. Ele sai em diferentes horas do dia, inclusive na última hora útil: lá pelas cinco da tarde. É a busca que Deus faz do homem, destinado a salvação, é uma busca apaixonada, frequente, incansável. Uma busca que terminou por enviar entre nós, Jesus Cristo, o nosso bom Pastor que dá a vida pelo seu rebanho.

O tempo de Deus não é como o tempo do homem, porque a justiça de Deus é uma justiça que é unida ao amor: o amor que salva, e o cálculo de Deus está no amor. De fato, aquele trabalhador que reclamava dizendo ter sido injustiçado, recebe a seguinte resposta do patrão: “por acaso não tenho o direito de fazer o que quero com aquilo que me pertence? Ou estás com inveja porque estou sendo bom?”

Dirigida aos fariseus, escrupulosos, presunçosos de serem os melhores, quando ouvimos esta parábola, arriscamos de ouvir como fariseus que por trabalharem desde muito tempo se acham merecedores a ganhar mais. E, neste caso, a parábola se volta contra nós. Mas se olharmos os santos que viveram uma fé tão intensa, um testemunho tão grande, muitas vezes até ao martírio e saber que Deus me paga igual a eles que fizeram tanto e eu quase nada, a parábola está a nosso favor. A moeda é o símbolo do prêmio: Deus mesmo, o encontro com Ele, a amizade com Ele. O mesmo prêmio que é dado a São Pedro e a todos os santos.

Na carta de São Paulo aos Filipenses, este agradece as ofertas recebidas enquanto está preso. E relata que é melhor estar morto para estar com Cristo. Mas é importante Cristo ser glorificado, por isso, viver “pra mim é Cristo”, por causa dos que ainda devem ser evangelizados e confirmados na fé.

Para finalizar, lembremos do malfeitor que estava junto da cruz de Jesus e foi salvo por Ele como um trabalhador de última hora. “Ainda hoje estarás comigo no paraíso”. O hoje de Deus é um hoje de fé e de amor que não segue os ponteiros do relógio, mas a intensidade do desejo, que nasce do coração que acolhe com humilde reconhecimento o dom da graça. Talvez não sejamos trabalhadores de última hora; mas, neste caso, o Evangelho nos chama a atenção para não nos distrairmos, o Senhor repetidamente nos chama a uma vida mais intensa de comunhão e de amor, a um testemunho mais coerente, claro e decisivo de Cristo.

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

BELÍSSIMA CATEQUESE DO PAPA BENTO XVI: DEUS SEMPRE ESTÁ PERTO – Sobre o Salmo 3

CIDADE DO VATICANO, quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Queridos irmãos e irmãs:

Retomamos hoje as audiências na Praça de São Pedro e a “escola de oração” que estamos vivendo juntos nestas catequeses das quartas-feiras. Eu gostaria de começar meditando sobre alguns salmos que, como comentei no mês de junho, formam o “livro de oração” por excelência. O primeiro salmo no qual eu gostaria de me deter é um salmo de lamentação e de súplica, imbuído de uma profunda confiança, no qual a certeza da presença de Deus é o fundamento da oração que se produz em uma condição de extrema dificuldade do orante. Trata-se do salmo 3, que a tradição judaica atribui a Davi no momento em que ele foge de Absalão (cf. vers. 1). É um dos episódios mais dramáticos e sofrentes da vida do rei, quando seu próprio filho usurpa o trono real e o obriga a abandonar Jerusalém para salvar a vida (cf. 2 Sam, 15 ss). A situação de angústia e de perigo experimentada por Davi é o pano de fundo desta oração e uma ajuda para a sua compreensão, apresentando-se como a situação típica em que um salmo é recitado. No grito do salmista, todo homem pode reconhecer estes sentimentos de dor, de amargura, e ao mesmo tempo de confiança em Deus, que, segundo a narração bíblica, acompanhou Davi em sua fuga da cidade. O salmo começa com uma invocação ao Senhor.

“Ó, Senhor, como são numerosos meus adversários! São muitos os que se erguem contra mim; muitos dizem a meu respeito: 'Deus não vai lhe dar a salvação!'” (v. 2-3).

A descrição que o salmista faz da sua situação está marcada, portanto, por tons fortemente dramáticos. Ele afirma três vezes a ideia da multidão - “numerosos”, “muitos”, “muitos” – que, no texto original, se realiza com a mesma raiz hebraica, para destacar mais ainda a enormidade do perigo, de forma repetitiva, quase maçante. Esta insistência no número e grandeza dos inimigos serve para expressar a percepção, por parte do salmista, da desproporção total existente entre ele e seus perseguidores, uma desproporção que justifica a urgência da sua petição de ajuda: os opressores são muitos, têm o controle da situação, enquanto o orante está sozinho e indefeso, à mercê dos seus agressores. E a primeira palavra que o salmista pronuncia é “Senhor”; seu grito começa com uma invocação a Deus. Uma multidão surge e se levanta contra ele, provocando-lhe um medo que aumenta a ameaça, fazendo-a parecer ainda maior e terrível; mas o salmista não se deixa vencer por esta visão de morte, mas mantém firme sua relação com o Deus da vida e é a Ele a quem se dirige, em primeiro lugar, buscando sua ajuda. No entanto, os inimigos tentam também destruir este vínculo com Deus e destruir a fé da sua vítima. Estes insinuam que o Senhor não pode intervir, afirmam que nem Deus pode salvá-lo. A agressão, portanto, não é somente física, mas afeta também a dimensão espiritual: “Deus não vai lhe dar a salvação” – dizem –, agredindo o núcleo central da alma do salmista. É a última tentação que o crente sofre, a tentação de perder a fé, a confiança na proximidade de Deus. O justo supera a última prova, permanece firme na fé, na certeza da verdade e na confiança plena em Deus. Assim encontra a vida e a verdade.

Parece que o salmo nos afeta pessoalmente: são muitos os problemas em que sentimos a tentação de que Deus não me salva, não me conhece, talvez não tenha a possibilidade; a tentação contra a fé é a última agressão do inimigo e devemos resistir a ela porque assim nos encontramos com Deus e encontramos a vida.

O salmista do nosso salmo está chamado, portanto, a responder com fé aos ataques dos ímpios: os inimigos, como comentei, negam que Deus possa ajudá-lo, mas ele, no entanto, o invoca, o chama pelo seu nome – “Senhor” – e depois se dirige a Ele com um “tu” enfático, que expressa uma relação firme, sólida e recolhe em si a certeza da resposta divina: “Mas tu, ó Senhor, és minha defesa, és a minha glória, tu que ergues a minha cabeça. Quando com minha voz eu invoquei o Senhor, ele me respondeu do seu santo monte” (v. 4-5). A visão dos inimigos desaparece agora, não venceram porque quem crê em Deus está certo de que Deus é seu amigo: resta somente o “Tu” de Deus; aos “muitos” se contrapõe somente um, mas que é muito maior e potente que muitos adversários. O Senhor é ajuda, defesa, salvação; como escudo, protege quem confia n'Ele, fazendo-o levantar a cabeça com gesto de triunfo e de vitória. O homem já não está só, os inimigos já não são tão imbatíveis como pareciam, porque o Senhor escuta o grito do oprimido e responde do lugar da sua presença, do seu monte santo. O homem grita na angústia, no perigo, na dor; o homem pede ajuda e Deus responde. Este entrelaçar-se do grito humano e da resposta divina é a dialética da oração e a chave de leitura de toda a história da salvação. O grito expressa a necessidade de ajuda e interpela à fidelidade do Deus que escuta. A oração expressa a certeza de uma presença divina que já se experimentou e na qual se acreditou, e se manifesta plenamente na resposta salvífica de Deus. Isso é importante: que, na nossa oração, esteja presente a certeza da presença de Deus. Assim, o salmista que se sente assediado pela morte, confessa sua fé no Deus da vida que, como escudo, o cerca com uma proteção invulnerável; quem pensava estar perdido pode levantar a cabeça porque o Senhor o salva; o orante, ameaçado e humilhado, está na glória porque Deus é a sua glória. A resposta divina que acolhe a oração dá ao salmista uma segurança total; termina também o medo e o grito se aquieta na paz, na profunda tranquilidade interior: “Eis que me deito e durmo, e me acordo, pois o Senhor me sustenta. Não tenho medo da multidão de gente que se lança contra mim de todo lado” (v. 6-7).

O orante, inclusive no meio do perigo e da batalha, pode dormir tranquilo, em uma atitude inequívoca de abandono confiante. Ao seu redor, os adversários acampam, assediam-no, são muitos, erguem-se contra ele, zombam dele e procuram derrubá-lo, mas ele, no entanto, se deita e dorme tranquilo e sereno, certo da presença de Deus. E, ao despertar, encontra Deus ao seu lado, como guardião que não dorme (cf. Sal 121,3-4), que o segura pela mão, que não o abandona jamais. O medo da morte é vencido pela presença d'Aquele que não morre. É justamente a noite, povoada de medos ancestrais, a noite dolorosa da solidão e da espera angustiante, que se transforma: o que evoca a morte se converte em presença do Eterno.

À visão do assalto inimigo, enorme, imponente, contrapõe-se a invisível presença de Deus, com toda a sua invencível potência. E é a Ele a quem, novamente, o salmista, depois das suas frases de confiança, dirige sua oração: “Levanta-te, Senhor, salva-me, ó Deus!” (v. 8a). Os agressores “se levantavam” contra a sua vítima, mas quem, no entanto, “se levantará” é o Senhor, e o fará para destruí-los. Deus o salvará respondendo ao seu grito. Por isso, o salmo termina com a visão da libertação do perigo que mata e da tentação que pode fazer-nos perecer. Depois da petição dirigida ao Senhor para que se levante e nos salve, o orante descreve a vitória divina: os inimigos, que, com sua injusta e cruel opressão, são símbolo de tudo o que se opõe a Deus e ao seu plano de salvação, são derrotados. Atingidos na boca, não poderão agredir mais com a sua violência destrutiva e não poderão insinuar o mal da dúvida sobre a presença e a ação de Deus: seu falar insensato e blasfemo é desmentido finalmente e reduzido ao silêncio pela intervenção salvífica de Deus (cf. v. 8bc). Assim, o salmista pode concluir sua oração com uma frase com as conotações litúrgicas que celebra, na gratidão e no louvor, o Deus da vida: “Do Senhor é a salvação. Sobre o seu povo desça a sua bênção!” (v.9).

Queridos irmãos e irmãs, o salmo 3 nos apresenta uma súplica repleta de confiança e consolo. Rezando este salmo, podemos fazer nossos os sentimentos do salmista, figura do justo perseguido que, em Jesus, encontra seu cumprimento. Na dor, no perigo, na amargura da incompreensão e da ofensa, as palavras do salmo abrem o nosso coração à certeza consoladora da fé. Deus sempre está perto – escuta, responde e salva do seu jeito. Mas é necessário saber reconhecer sua presença e aceitar seus caminhos, como Davi fugindo humilhado do seu filho Absalão, como o justo perseguido do Livro da Sabedoria, como o Senhor Jesus no Gólgota. E quando, aos olhos dos ímpios, Deus parece não intervir e o Filho morre, então é quando se manifesta a todos os crentes a verdadeira glória e o cumprimento definitivo da salvação. Que o Senhor nos dê fé, nos ajude na nossa fraqueza e nos torne capazes de crer e de rezar em toda angústia, nas noites dolorosas da dúvida e nos longos dias de dor, abandonando-nos com confiança n'Ele, que é o nosso “escudo” e a nossa “glória”. Obrigado.

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

XXIV DOMINGO COMUM – Mt 18,21-35

Não devias tu também ter compaixão do teu companheiro?

Como faz várias vezes ao longo da sua pregação, no final do discurso eclesial em Mateus, Jesus fala da necessidade de perdoar àqueles que nos ofenderam. E, nestas frequentes vezes, Ele deixa claro que o obter o perdão de Deus está vinculado de certo modo à nossa disponibilidade para perdoar, como encontramos já na quinta bem-aventurança: “Bem-aventurados os misericordiosos porque encontrarão misericórdia”. Aqui Ele faz uma referência clara à misericórdia do perdão e anuncia o perdão de Deus para aqueles que perdoam (Mt 5,7 e Mt 18,33).

Assim, no final do seu quarto grande discurso (Mt 18,1-19,1), encontramos esta série de indicações de Jesus sobre o comportamento recíproco no interior da comunidade dos discípulos, de modo particular, ensinamentos sobre o perdão. Pedro já sabe que os discípulos estão obrigados a perdoar, mas ele quer saber se este perdão tem um limite. Por isso, ele pergunta a Jesus, querendo saber até que ponto se deve tolerar ou suportar as ofensas do próximo: “quantas vezes devo perdoar se meu irmão pecar contra mim? Até sete vezes?”

Jesus responde de modo paradoxal, multiplicando o número proposto por Pedro: “não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete”. É evidente que aqui não se trata de fazer uma conta e dizer que são exatamente 490 vezes o limite, mas é um modo exagerado para dizer que se deve perdoar sem medida; é o dever do amor mútuo como nos exortava Paulo na II leitura do domingo passado. Com a sua resposta, Jesus alarga o horizonte, motiva e desperta a compreensão do porquê somos obrigados a perdoar sem limite algum. Nunca poderemos dizer que perdoamos o bastante e que depois de um determinado número de vezes, estamos livre do dever de perdoar.

Para compreendermos este ensinamento, Jesus nos propõe uma parábola muito longa e dramática, com contraposições de personagens. Um rei quer acertar as contas com os seus empregados. Um destes lhe deve dez mil talentos, uma cifra enorme, algo impagável. Mas este empregado não pagou o que devia evidentemente porque não pôde pagar. Corria o risco de perder tudo, a família e até a liberdade. E mesmo assim não podia nem de longe se ver livre da tal dívida.

Mas, suplicando ao rei para prorrogar o prazo, este lhe perdoa toda a dívida.

O episódio não termina aqui, porque sublinha o comportamento deste empregado que foi perdoado desta enorme dívida. Este homem diante de um seu semelhante que lhe devia apenas 100 moedas, uma cifra muito pequena e facilmente pagável, não aceita as suas súplicas e manda jogar na prisão o companheiro. Desta forma, Jesus introduz nesta consideração: Deus e o perdão que já recebemos dele. A relação é entre Deus, eu enquanto devedor seu, e o meu próximo que se tornou meu devedor. A parábola quer mostrar qual débito temos com Deus e com quanta misericórdia Ele age conosco. Só assim, é que podemos avaliar o comportamento não misericordioso com relação ao meu próximo tornado devedor.

É quando o rei convoca novamente o empregado e o reprova: “empregado perverso, eu te perdoei toda a dívida porque tu me suplicaste. Não devias tu também ter compaixão do teu companheiro, como eu tive compaixão de ti?” Este é o ponto central da parábola e nós somos os destinatários desta pergunta de Deus. O ponto de partida é a bondade do rei que perdoa porque lhe foi pedido. Consequentemente, aquele que foi perdoado, além de ter se livrado de uma grande desgraça, e da perda de sua liberdade, deveria ser cheio de uma ilimitada gratidão para com o rei e de uma disponibilidade a seguir o seu exemplo, a ter um coração como o seu, a ser misericordioso. E, por sua vez, perdoar o próprio companheiro. Vemos aqui uma clara aplicação concreta da oração do Pai Nosso: “perdoai as nossas ofensas assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido”.

Jesus vê claramente a relação entre o débito que nós temos com Deus e o débito que o nosso próximo tem conosco. Mas o empregado esqueceu tudo. É assim que é descrito por Jesus a rejeição do perdão. Na última parte da parábola, o rei se comporta sem misericórdia. Este recorda ao empregado a dívida perdoada e a obrigação de transmitir com uma atitude misericordiosa a misericórdia recebida.

Obviamente, não somos nós a medida do perdão. Deus sempre está disposto a nos perdoar. Mas, esse perdão que vem de Deus deve nos mover a perdoar o próximo. Ele nos perdoa não porque o mereçamos, mas porque Ele é bondoso. O perdão de Deus não é simplesmente deixar ir, mas é doar uma nova capacidade, a capacidade de perdoar. Assim, se fomos perdoados por Deus, nosso coração se torna capaz de perdoar. Se não o usarmos, este dom é retirado. E o perdemos porque inutilizado.

Nós temos uma inclinação muito grande para relembrar ofensas, rejeições, danos que sofremos do nosso próximo, levar sempre em conta isto e voltar continuamente sobre este assunto. Este relembrar pode penetrar profundamente nosso coração e envenenar nossas relações, inclusive as futuras. Óbvio que o perdão é difícil, por isso Jesus não se cansa de falar sobre o tema. Assim, na nossa relação com aqueles que nos ofenderam, temos que relembrar nossa relação com Deus. O reconhecimento da culpa perdoada e o exemplo da misericórdia devem nos impulsionar a perdoar com todo coração o nosso próximo.

Na I leitura, encontramos uma antologia de ditados sapienciais do livro do Eclesiástico, mais precisamente de Sirácide, professor da escola de Jerusalém. Ali, ele ensina a perdoar a ofensa, a não cultivar o rancor, a não nutrir desejos de vingança. Mas consciente da própria fraqueza, adverte para que cada um esteja atento e tenha compaixão do próximo. Ou seja, vemos que este critério de misericórdia e de perdão do qual Jesus nos fala já tinha suas raízes no AT.

De fato, o Salmo 102 nos apresenta o retrato de Deus que perdoa todas as nossas culpas e cura todas as enfermidades. Quanto os céus por sobre a terra se elevam, assim é grande a sua misericórdia. E afasta de nós a nossa culpa assim como é longe o nascente do poente. O Senhor é grande e bom no amor. Ele é a origem, ele começa este dom e nós vivemos a sua consequência. Como nos explica São Paulo na II leitura, ninguém vive para si mesmo, vivemos para o Senhor porque somos do Senhor. Não posso dizer como cristão, eu vivo para mim mesmo. Mas eu existo para o próximo e para o Senhor; na verdade, o que seria de nós se não dependêssemos totalmente desse Senhor bondoso, amoroso e misericordioso?

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

XXIII DOMINGO COMUM – Mt 18,15-20

O Evangelho deste domingo nos propõe um trecho tirado de Mt 18, capítulo que é inteiramente dedicado aos ensinamentos dados por Jesus a seus discípulos para serem praticados no interior da comunidade que é a Igreja. O texto fala sobre a correção fraterna como uma aplicação da parábola da ovelha perdida, trecho imediatamente anterior ao da liturgia de hoje.
Como agir com relação a um irmão que está tomando uma estrada errada? Há um pedido a ir atrás do irmão que cometeu o erro a fim de corrigi-lo. Para isto, Jesus indica algumas etapas a seguir.
Sem dúvida, o tema da correção fraterna é um tema muito importante, belo, mas também muito delicado e difícil de ser abordado e vivido. Jesus vê o seu grupo não como uma associação de pessoas onde cada um pode fazer aquilo que quiser e que ninguém se interessa pelo que o outro faz, mas como uma comunidade de irmãos que comunga das mesmas verdades reveladas e que está sujeita ao erro. Por isso, temos a necessidade de ser corrigidos por alguém e o dever de corrigir os outros também, já que todo comportamento positivo concorre positivamente para o bem de toda a comunidade e todo comportamento errado incide negativamente na comunidade. Temos a responsabilidade de fazer o possível para que ninguém se perca, é o mandamento contido na parábola da ovelha perdida.
A partir dessa preocupação fraterna que é uma manifestação de amor ao próximo e que deve estar submissa à vontade de Deus, é que temos a obrigação de corrigir um irmão que errou e chamá-lo à conversão. Certamente, toda correção vem do Senhor; por isso, só é justo falar de correção fraterna num contexto de caminho de santidade que queremos partilhar com o próximo. Convém esclarecer logo de imediato que este caminho não consiste na lógica daquele farisaísmo mais acentuado, que através de uma capa, pretende mostrar-se perfeito, quando no privado, pratica-se todo tipo de desvio e de imoralidade (apontar o cisco do olho do outro enquanto se tem uma trave no próprio olho); pelo contrário, à forma externa correta do nosso agir deve corresponder uma conscientização do bem que devemos fazer sempre e do mal que devemos evitar sempre.
E, se na nossa fragilidade humana, frequentemente erramos, quem tem o dever moral de nos chamar a atenção deve fazê-lo com coragem, no respeito da nossa pessoa, na verdade, com informações verdadeiras, sem dar ouvidos a: fofocas, calúnias, suspeitas, prejulgamentos, enfim, a tudo o que possa ofender e prejudicar injustamente a nossa fama. Cada um de nós tem a chance de se corrigir, rever a própria vida e as próprias decisões. Só os cabeças duras, os orgulhosos, aqueles que pensam estar sempre com a razão, não sabem se corrigir, mesmo cometendo tantos erros, causando dano a eles mesmos e aos outros.
Diante de uma ofensa feita a nós, Jesus tem uma proposta diferente daquela da vingança: a correção e a reconciliação, o perdão. O cristão não pode dizer: “to nem aí para a desgraça de tal pessoa”. Pelo contrário, somos obrigados a interessar-nos por um irmão que está desviado, pois o Pai que está nos céus não quer que ninguém se perca e temos responsabilidade nesta missão.
Mas, temos que entender bem, nenhum de nós deve ser juiz dos outros. Mas às vezes recebemos um ofício na Igreja, na sociedade, ou mesmo em casa, que requer de nós capacidade de humana e fraterna correção. Um pai que diante de um filho que se comporta de modo errado não toma posição e até mesmo é indiferente perante o seu comportamento, ou pior, apoia tal comportamento, tem uma parte de responsabilidade diante de Deus pelos atos do filho e pelas consequências trágicas na vida do filho.
A correção fraterna é certamente uma forma de caridade rara exatamente porque é muito difícil praticá-la. Requer-se antes de tudo um verdadeiro amor, sensatez e delicadeza. A prudência deve nos ajudar nesse sentido a não sermos injustos nem “donos da verdade”.
A humilde invocação ao Espírito Santo em comunidade nos consente conseguir a luz necessária para formular a nossa correção do modo melhor possível sem ofender, mas só para salvar o irmão do seu mal, quer às vezes somente com o irmão para evitar o escândalo, a vergonha e a difamação (1º fase), quer com a ajuda de outros irmãos para evitar a subjetividade (2ª fase), ou até mesmo com a ajuda da hierarquia da Igreja, quando nenhuma das duas anteriores resultou (3ª fase). Entretanto, é bom que fique claro que esta correção fraterna de que o Senhor fala e exorta que pratiquemos deve ser sempre um ato de caridade e de amor fraterno, nunca um mero gesto de autoridade e ainda menos de condenação, nunca podemos perder de vista a intenção de buscar a ovelha perdida (incansavelmente até encontrá-la).
A estas etapas, Mateus depois acrescenta outros dois fatores importantíssimos pronunciados por Jesus. Introduzidas pela fórmula “em verdade vos digo”: “tudo o que ligardes na terra será ligado no céu, e tudo o que desligardes na terra será desligado no céu”. Vemos que é uma resposta análoga àquela que já encontramos na resposta de Jesus a Pedro. Agora, Ele diz a todos os discípulos, confiando a eles com uma linguagem tipicamente judaica a tarefa de ligar e desligar. Isto é, de interpretar com autoridade as Escrituras e portanto, que tipo de atitude deve ser acolhida ou excluída.
Em seguida, Jesus pronuncia uma sentença sobre a oração que é fundamental para a correção fraterna: “se dois de vocês estiverem de acordo na terra sobre qualquer coisa que quiserem pedir, isso lhes será concedido por meu Pai que está nos céus. Pois onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, eu estou aí, no meio deles”. Uma afirmação forte, porém que não podemos banalizá-la. É preciso lê-la no contexto de todo o texto e entender que somente numa autêntica união entre pessoas, isto é, onde há uma correspondência afetiva, um empenho comunitário, uma comunhão vivida onde existem pessoas que vivem esta intensa comunhão entre si, o Senhor está presente e a oração é acolhida. “Eu estou aí no meio deles”, diz Jesus. É uma fórmula importante porque evoca o próprio nome de Deus: “Eu sou, Eu estou, Emanuel”. Jesus é o Deus conosco, presente na nossa vida, na nossa comunidade.
Na I leitura, nos é proposto um trecho do profeta Ezequiel constituído como vigia para os israelitas. Encarregado de repassar a Palavra de Deus para estes e adverti-los diante dos perigos. O vigia deve fazer exatamente isso, dar o alarme se houver algo negativo que possa destruir toda a comunidade. Aquilo que Jesus aconselha aos discípulos, a correção fraterna, torna-se realmente clara na imagem do vigia que aciona o alarme enquanto os outros dormem. O profeta “vigia” de Deus tem a tarefa de admoestar o que está em perigo para que se converta e viva.
O salmo 94 repete com insistência a importância de não endurecer o coração como em Meriba, como em Massa no deserto aquele dia (referindo-se ao ataque dos amalequitas nestas cidades por sua rebelião, murmuração e infidelidade ao Senhor). É exatamente o que somos convidados a fazer, não simplesmente a ser pessoas que corrigem os outros, mas como sábios que escutam as correções. Quando os outros tem algo a dizer de nós, pode ser Palavra de Deus que devemos escutar seriamente.
Na II leitura, continuamos a ler a Carta aos Romanos. No cap. 13, Paulo nos apresenta uma síntese teológica, onde “o amor é o cumprimento perfeito da lei”. Ele cita os principais mandamentos, mas sobretudo oferece o critério interpretativo que é o amor ao próximo. É o modo para realizar plenamente o projeto de Deus. Podemos ajudar os outros a corrigirem-se e escutar as correções que nos são dirigidas para dar cumprimento à nossa vida cristã no amor. Portanto, que sintamos o dever do amor mútuo.