sexta-feira, 5 de agosto de 2011

XIX DOMINGO COMUM - Mt 14,22-33

ALIMENTE A SUA FÉ E SEUS MEDOS MORRERÃO DE FOME
O Evangelho deste domingo fala de Jesus que anda sobre as águas e acalma o vento. Este Evangelho nos mostra como Deus se faz presente na nossa vida também nas horas difíceis, nos momentos nos quais mais nos sentimos sozinhos, abandonados e impotentes. Também indica como por meio da fé podemos descobrir e recuperar aqueles sentimentos de calma, paz, serenidade e segurança que só Jesus é capaz de nos conceder para superar todas as adversidades.
No domingo passado, vimos que a partilha dos pães foi um acontecimento na vida dos discípulos e da multidão. O povo cansado da corrupção e opressão pelos chefes políticos da época, já começa a sonhar com Jesus como um líder político que o libertaria de tudo isso. Por isso, é que Jesus obriga os discípulos a se afastarem imediatamente. Ele não quer colocar em risco a correta compreensão da sua missão. Ele sabe que o ser humano tem uma facilidade enorme para deixar-se levar pela ilusão, pela satisfação efêmera que proporciona a fama e o poder, o sentir-se admirado, querido, elogiado e estar acima dos outros.
O seu reino não é de cunho político, mas espiritual. Assim, depois de se despedir da multidão e mandar os discípulos atravessarem o lago, Jesus subiu ao monte para orar a sós e aí ficou até as três horas da manhã. A este momento, a barca dos discípulos já estava longe e era agitada pelas ondas, por causa de um forte vento que soprava em direção contrária.
A barca sem Jesus corria grande perigo. Mesmo não nos encontrando numa barca, nem atravessando um lago, frequentemente, nos encontramos numa situação semelhante àquela dos discípulos. Também nossa barca é agitada por mil preocupações, angústias, provações; vivemos cercados pelas ondas da instabilidade em todos os campos: econômico, afetivo, político, social, atmosférico e religioso; tudo ao nosso redor sopra como um vento contrário. Usamos todas as nossas forças e fatigamos para chegar à terra firme, mas não conseguimos avançar, continuamos parados diante das mesmas dificuldades. É como se estivéssemos completamente sozinhos, sem a ajuda de ninguém.
Sem dúvida, o próprio fato de Jesus ter mandado os discípulos sozinhos na barca mostrava que eles deviam se acostumar ao fato de que Ele nem sempre estaria presente de maneira visível; mas, mesmo não estando presente visivelmente, Ele estava com eles.
Quando sentimos que estamos em perigo, confusos, encurralados... Jesus vem ao nosso encontro, mas de um modo diverso do que esperamos; pode até parecer que não seja Ele, pode parecer uma ilusão (os discípulos pensavam que fosse um fantasma), existe sempre o medo de se ter uma nova desilusão. Mas Jesus vem ao nosso encontro exatamente nesta situação de perigo, de sofrimento. Ele caminha conosco sobre as águas agitadas, sobre as nossas contradições, sobre os nossos pecados. Podemos afundar nos nossos pecados, como se afunda nas águas, mas podemos também ir mais adiante, confiar no Senhor que nos estende a mão. É um desafio que Jesus nos lança: superar o recuo que fazemos quando temos medo para nos lançarmos numa experiência que nos supera, que supera o nosso pecado, a nossa fragilidade.
Assim como o gesto de alimentar o povo no deserto no domingo passado evocava o tema sapiencial de Deus que sacia a fome da humanidade, assim o gesto de Jesus de andar sobre as águas não é uma simples exibição de poder, pelo contrário, é um tema sapiencial onde é demonstrada a divindade de Jesus. Jesus se apresenta como Aquele capaz de controlar o mundo do mal, o elemento aquático, caótico que evoca o monstro primordial (Gênesis).
Os discípulos ficam atormentados, com medo das águas. Mas quem nunca sentiu medo de, por exemplo, afogar-se? Quando aprendemos a nadar, no início, o medo nos leva a afundar, só quando nos abandonamos com confiança, é que começamos realmente a seguir adiante. Há muitas pessoas que nunca aprenderam a nadar por causa do medo. Eis, pois, o convite de Jesus: “Coragem! Sou eu, não tenhais medo!”.
Este “coragem” se identifica com “sou eu”: o nome próprio divino revelado no Antigo Testamento a Moisés. Jesus se revela como Deus e diz: “Sou eu mesmo. Eu estou aqui convosco”. É Ele que nos sustenta; nós devemos ter a coragem de confiar Nele para a situação na qual estamos vivendo por mais instável que ela seja. De fato, a presença de Jesus afasta todo tipo de medo. O medo se vence com a fé. Os discípulos têm todos os motivos para ter coragem, esperança e confiança. Quando Jesus diz: “sou eu!”, Ele assegura que não é um fantasma, mas aquele que eles conhecem e que onde Ele está, aí há segurança e vida e não há lugar para medo e perigo.
Pedro está até disposto a experimentar, a se arriscar caminhando sobre as águas. Ele acredita na Palavra de Jesus que diz: “Vem!”. O discípulo é capaz de fazer aquilo que fez Jesus, dominar o elemento negativo, se confiar em Jesus. Mas, se tem medo, arrisca afundar. Porque quando sente o vento, distrai-se, não está mais concentrado em Jesus, mas no vento. Assim, o medo novamente prevalece sobre ele e ele começa a afundar, e, com muito medo, grita: “Senhor, me salve”. Imediatamente, Jesus estende a mão. E diz: “homem de pouca fé, porque duvidaste?”
Em Pedro, manifesta-se aquilo que nos coloca em perigo e aquilo que nos faz superar o perigo. Tudo depende de para onde fixamos a nossa atenção, do que domina nosso coração. Podemos ter o olhar voltado para Jesus e ter confiança Nele e nas suas palavras, ou podemos estar dominados pela ameaça e o medo diante do perigo. Quando mais nos deixamos dominar pelo medo, afundamos nele. Quanto mais fixamos o olhar em Jesus, mais cheios de tranquilidade e confiança seremos. Se nós olharmos somente pra Ele e tivermos a coragem de pegar na mão que Ele estende, teremos um sustento seguro e venceremos todo e qualquer desafio.
O relato que a I leitura (I Reis 19) nos propõe apresenta algo semelhante, o profeta Elias, que num momento difícil da sua história, foge e chega ao Sinai, ao monte de Deus, o Horeb, para ver o Senhor que vai passar. O Horeb foi o lugar onde Moisés tinha encontrado o Senhor. Mas eis que antes do Senhor chegar, são apresentadas a Elias situações difíceis: vento impetuoso e forte, terremoto, fogo. Mas Deus não se encontrava aí. Só depois disso, ouviu-se o murmúrio de uma leve brisa. Elias percebeu uma presença de paz, uma voz silenciosa, a presença de Deus. E saiu da gruta.
Como diz o salmista hoje: “Quero ouvir o que o Senhor irá falar, é a paz que ele vai anunciar. A verdade e o amor se encontrarão, a justiça e a paz se abraçarão. No Salmo, vemos o encontro do desejo do homem por paz e a oferta de Deus.
E, finalmente, na II leitura, Paulo sente que muitos dos seus consanguíneos não aceitaram Jesus como Cristo, e alerta os cristãos provenientes do mundo pagão para não os desprezarem, isto é, os judeus, mas sim reconhecer a dignidade já que possuem: a filiação adotiva, a glória, as alianças, as leis, o culto, as promessas e também os patriarcas. Deles, é que descende Cristo segundo a carne. Portanto, reconhecer que Israel é a raiz santa que conduz ao cristianismo, é reconhecer a dignidade não revogável da escolha de Deus. Paulo confessa sua grande tristeza e dor contínua porque há muitos irmãos de sua raça que não aceitaram Cristo. A oferta da salvação é dada, mas é necessária aquela mão que nos tira da água.

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