sábado, 20 de agosto de 2011

Solenidade da Assunção da Bem-Aventurada Virgem Maria

Castel Gandolfo Igreja Paroquial de São Tomás de Villanova

Caros irmãos e irmãs,

Encontramo-nos reunidos, mais uma vez, para celebrar uma das mais antigas e amadas festas dedicadas a Maria Santíssima: a festa da sua assunção à glória do Céu em alma e corpo, isto é, em todo o seu ser humano, na integridade da sua pessoa. Nos é dada assim a graça de renovar o nosso amor a Maria, de admirá-la e de louvá-la pelas “grandes coisas” que o Onipotente fez por Ela e que realizou Nela.

Contemplando a Virgem Maria, nos é dada outra graça: aquela de poder ver em profundidade também a nossa vida. Sim, porque também a nossa existência cotidiana, com os seus problemas e as suas esperanças, recebe luz da Mãe de Deus, do seu percurso espiritual, do seu destino de glória: um caminho e uma meta que podem e devem se tornar, de certo modo, também o nosso caminho e a nossa meta. Deixemo-nos guiar pelos trechos da Sagrada Escritura que a liturgia hoje nos propõe. Queria refletir, particularmente, sobre uma imagem que encontramos na primeira leitura, tirada do Apocalipse, e a qual faz eco o evangelho de Lucas: isto é, aquela da arca.

Na primeira leitura, escutamos: “Abriu-se o Templo de Deus que está no céu e apareceu no Templo a Arca da Aliança” (Ap 11,19). Qual é o significado da arca? O que aparece? Para o Antigo Testamento, essa é o símbolo da presença de Deus em meio a seu povo. Mas o símbolo já cedeu o lugar à realidade. Assim o Novo Testamento nos diz que a verdadeira arca da aliança é uma pessoa viva e concreta: é a Virgem Maria. Deus não habita num móvel, Deus habita numa pessoa, num coração: Maria, Aquela que carregou no seu ventre o Filho eterno de Deus feito homem, Jesus nosso Senhor e Salvador. Na arca – como sabemos – eram conservadas as duas tábuas da lei de Moisés, que manifestavam a vontade de Deus de manter a aliança com o seu povo, indicando as condições para ser fiel ao pacto de Deus, para se conformar à vontade de Deus e assim também à nossa verdade profunda. Maria é a arca da aliança, porque acolheu em si Jesus; acolheu em si a Palavra viva, todo o conteúdo da vontade de Deus, da verdade de Deus; acolheu em si Aquele que é a nova e eterna aliança, culminada com a oferta do seu corpo e do seu sangue: corpo e sangue recebidos de Maria. Com razão, portanto, a piedade cristã, nas ladainhas em honra de Nossa Senhora, dirige-se a Ela invocando-a como Foederis Arca, ou seja, “arca da aliança”, arca da presença de Deus, arca da aliança do amor que Deus quis contrair de modo definitivo com toda a humanidade em Cristo.

O trecho do Apocalipse quer indicar um outro aspecto importante da realidade de Maria. Ela, arca viva da aliança, tem um destino de glória extraordinária, porque é tão estreitamente unida ao Filho que acolheu na fé e gerou na carne, que compartilha plenamente a glória do céu. É quanto nos sugerem as palavras ouvidas: “Apareceu no céu um grande sinal: uma mulher vestida de sol, tendo a lua debaixo dos pés e sobre a cabeça uma coroa de doze estrelas. Estava para dar à luz... Ela deu à luz um filho homem, que veio para governar todas as nações...” (12,1-2; 5). A grandeza de Maria, Mãe de Deus, cheia de graça, plenamente dócil à ação do Espírito Santo, vive já no Céu de Deus com todo o seu ser, alma e corpo. São João Damasceno referindo-se a este mistério numa famosa Homilia afirma: “Hoje a santa e única Virgem é conduzida ao templo celeste... Hoje a arca sacra e animada pelo Deus Vivo, [a arca] que carregou no ventre o próprio Artífice, repousa no templo do Senhor, não constituído por mão humana” (Homilia II sobre a Dormição, 2, PG 96, 723) e continua: “Era preciso que aquela que tinha recebido no seu ventre o Logos divino, se transferisse para os tabernáculos do seu Filho… Era preciso que a Esposa que o Pai tinha escolhido, habitasse no quarto nupcial do Céu” (ibid., 14, PG 96, 742). Hoje a Igreja canta o amor imenso de Deus por esta sua criatura: a escolheu como verdadeira “arca da aliança”, como Aquela que continua a gerar e a doar Cristo Salvador à humanidade, como Aquela que no céu compartilha a plenitude da glória e goza da felicidade mesma de Deus e, ao mesmo tempo, convida também a nos tornarmos, no nosso modo modesto, “arca” na qual está presente a Palavra de Deus, que é transformada e vivificada pela sua presença, lugar da presença de Deus a fim de que os homens possam encontrar no outro homem a proximidade de Deus e assim viver em comunhão com Deus e conhecer a realidade do Céu.

O Evangelho de Lucas apenas ouvido (cfr Lc 1,39-56), nos mostra esta arca vivente, que é Maria, em movimento: deixando a sua casa de Nazaré, Maria se põe a caminho para a montanha para chegar às pressas a uma cidade de Judá e ficar na casa de Zacarias e de Isabel. Parece-me importante sublinhar a expressão “às pressas”: as coisas de Deus merecem pressa, antes, as únicas coisas do mundo que merecem pressa são próprio aquelas de Deus, que têm a verdadeira urgência para a nossa vida. Então Maria entra nesta casa de Zacarias e de Isabel, mas não entra sozinha. Entra levando no ventre o Filho, que é o próprio Deus feito homem. Certamente, havia uma espera por ela e pela sua ajuda naquela casa, mas o evangelista nos guia a compreender que esta espera remete a uma outra, mais profunda. Zacarias, Isabel e o pequeno João Batista são, de fato, o símbolo de todos os justos de Israel, cujo coração, rico de esperança, espera a vinda do Messias Salvador. E é o Espírito Santo a abrir os olhos de Isabel e a fazer-lhe reconhecer em Maria a verdadeira arca da aliança, a Mãe de Deus, que vem a visitá-la. E assim a anciã parente a acolhe dizendo-lhe “com grande grito”: “Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre! Como posso merecer que a mãe do meu Senhor me venha visitar? ?” (Lc 1,42-43). E é o mesmo Espírito Santo que diante dela leva o Deus feito homem, apre o coração de João Batista no ventre de Isabel. Isabel exclama: “Logo que a tua saudação chegou aos meus ouvidos, a criança saltou de alegria no meu ventre. ” (v. 44). Aqui o evangelista Lucas usa o termo “skirtan”, isto é, “saltar”, o mesmo vocábulo que encontramos numa das antigas traduções gregas do Antigo Testamento para descrever a dança do Rei Davi diante da arca santa que é finalmente torna à pátria (2Sam 6,16). João Batista no ventre da mãe dança diante da arca da aliança, como Davi; e reconhece assim: Maria é a nova arca da aliança, diante da qual o coração exulta de alegria, a Mãe de Deus presente no mundo, que não guarda para si esta divina presença, mas a oferece compartilhando a graça de Deus. E assim – como diz a oração – Maria realmente é causa nostrae laetitiae” (causa da nossa alegria), a “arca” na qual realmente o Salvador está presente entre nós.

Caros irmãos! Estamos falando de Maria, mas, num certo sentido, estamos falando também de nós, de cada um de nós: também nós somos destinatários daquele amor imenso que Deus reservou – certo, numa maneira absolutamente única e irrepetível – a Maria. Nesta Solenidade da Assunção olhamos para Maria: Ela nos abre à esperança, a um futuro cheio de alegria e nos ensina o caminho para alcançá-lo: acolher na fé, o seu Filho; não perder nunca a amizade com Ele, mas deixar-se iluminar e guiar pela sua palavra; segui-lo cada dia, também nos momentos em que sentimos que as nossas cruzes se tornam pesadas. Maria, a arca da aliança que está no santuário do Céu, nos indica com luminosa clareza que estamos em caminho para a nossa verdadeira Casa, a comunhão de alegria e de paz com Deus. Amém!

Papa Bento XVI

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