quinta-feira, 25 de agosto de 2011

XXII DOMINGO COMUM - Mt 16,21-27

Que adianta ao homem ganhar o mundo inteiro, mas perder a sua vida?
Logo após a profissão de fé do apóstolo Pedro, Jesus começa a dizer abertamente aos seus discípulos que devia ir a Jerusalém e sofrer muito.
Pedro já tinha afirmado que Jesus era o Cristo, o Messias, o Filho do Deus vivo. Jesus além de confirmar o que Pedro dissera, chamou-o de beato por receber esta revelação de Deus e lhe confiou as chaves, constituindo-o “pedra” de fundamento da nova comunidade que pretendia construir. Desde esse instante, dá-se início a esta construção, mas com uma mudança no ministério de Jesus.
Pois, “Jesus começou a mostrar a seus discípulos que devia ir a Jerusalém e sofrer muito da parte dos anciãos, dos sumos sacerdotes e dos mestres da lei e que devia ser morto e ressuscitar no terceiro dia”. É precisamente aqui que começa a segunda etapa da missão de Jesus. Ele apresenta de que modo se apresentará. E um modo nada esperado, completamente sem lógica aos olhos humanos.
Por isso, Pedro enxerga uma contradição entre aquilo que ele mesmo acabou de professar e aquilo que Jesus acaba de anunciar de maneira tão solene. De fato, como pode Jesus, depois de operar tantos prodígios e pregar que veio trazer vida plena, agora falar de sofrimento e de morte? (parece uma derrota). Para os discípulos, isto não é apenas decepcionante, mas significa a queda de um mundo de esperanças. E, por isso, Pedro não quer aceitar este destino de Jesus e se defende como pode, repreendendo-o, protestando.
Certamente, a repreensão de Pedro é a normal reação do homem diante da perspectiva da dor e da morte; mais, é a reação do amigo, que defende o amigo, e que quer protegê-lo de qualquer perigo; mesmo quando, neste caso, Pedro parece ter esquecido que o seu amigo é o Filho do Deus vivo. De fato, ele volta a pensar em Jesus como um messias triunfante no campo político (pensamento da teologia da libertação), para liberar o povo da opressão inimiga.
Mais uma vez, parece voltar atrás, lembra os quarenta dias no deserto, quando Jesus enfrentou Satanás, que lhe propunha tal messianismo terreno, feito de prestígio, poder e riqueza. A tentação diabólica parece representar-se com força nas palavras de Pedro que não queria aceitar o fim doloroso do Mestre.
Assim, Jesus o repreende com muita firmeza. Pouco antes, Ele tinha chamado Pedro de “pedra”, coluna sustentável sobre a qual edificaria a sua Igreja; agora, chama-o de “satanás” (em aramaico significa obstaculador, aquele que impede o caminho, pedra de tropeço, o que fazer cair, tentador) e pede que o mesmo se coloque “no seu lugar” que é aquele de discípulo. Não cabe ao discípulo colocar-se à frente do mestre, para dar-lhe instruções. É o contrário, o discípulo é quem tem que ficar atrás do mestre, confiar a ele sua vida e segui-lo. Por isso, a tradução correta não é afasta-te de mim, mas “vá para trás de mim”, ou seja, ponha-te no teu lugar, seja discípulo, me siga, deixe de me tentar para que eu abandone minha missão salvadora.
Com isto, Jesus deixa claro que embora a confissão de Pedro viesse por revelação de Deus Pai; agora, ele já não está mais falando assim. O que Pedro está fazendo é deixar-se dominar pelos pensamentos humanos: “Satanás! Tu és para mim uma pedra de tropeço, porque não pensas as coisas de Deus, mas, sim, as coisas dos homens”, diz Jesus.
Deste contraste de pensamentos, isto é, entre a forma de pensar de Deus e a dos homens, é que o Evangelho suscita questões fundamentais sobre a vida humana: qual é o valor e o significado da nossa vida? A nossa vida terrena é a única vida? Como devemos usar esta vida para nos sentir plenos? O que podemos esperar dela? Devemos nos apegar a ela a qualquer preço e por isso, procurar tirar tudo dela?
A resposta a tais questionamentos é o próprio Jesus quem nos dá. Por meio do seu caminho, Ele mostra que a nossa vida atual não é a única vida, o valor último e mais alto, e esta não tem em si mesma o próprio significado e o próprio fim. Jesus sabe que Deus estabeleceu para Ele um caminho através da rejeição, do sofrimento e da morte, e Ele acolhe este caminho das mãos do Pai. Jesus perderá a sua vida com uma morte cruel e injusta.
Na verdade, Jesus nunca disse que a plenitude da vida indicasse uma vida fácil, tranquila, em meio à riqueza, privilégios, privada de sofrimentos. A sua própria vida não foi assim, nem Ele pôde garantir isso a seus discípulos. Por isso, Ele ensina aos discípulos o seu próprio caminho: “quem perder a própria vida por causa de mim, vai encontrá-la”.
O valor mais alto, ao qual tudo está subordinado, não é a vida terrena, mas a união com Jesus. Esta é preferível a todo o resto. Esta união se manifesta numa ilimitada confiança em Jesus, no esforço de modelar a própria vida segundo o seu exemplo e os seus ensinamentos. Quem na sua vida terrena procurou a união com Ele, pertencerá a Ele também na sua glória. Tomar a cruz de Jesus é estar unido a Ele, e seguindo o seu caminho, provar o que significa plenitude de vida.
Na I leitura, nos é proposta a figura do profeta Jeremias, que viveu profundamente este drama. Do cap. 20, lemos uma espécie de confissão de Jeremias: “Seduziste-me, Senhor e eu deixei-me seduzir; foste mais forte, tiveste mais poder (como um amante decepcionado). Enganaste-me, enrolaste-me. Veja a que ponto cheguei por ter me deixado levar por você. “Tornei-me alvo de irrisão o dia inteiro, todos zombam de mim. Todas as vezes que levanto a voz, clamando contra a maldade e invocando calamidades; a palavra do Senhor tonou-se para mim fonte de vergonha e de chacota o dia inteiro”.
O profeta afirma: “não quero mais lembrar-me disso nem falar mais em nome dele”; mas, ao mesmo tempo, admite: senti, então, dentro de mim um fogo ardente a penetrar-me o corpo todo: desfaleci, sem forças para suportar”. É a sede que nossa alma tem de Deus, nossa carne como terra deserta e sem água. E que provoca uma busca ansiosa desde a aurora como diz o salmista. O fato de seguir o Senhor trouxe grande dificuldades para Jeremias e para Pedro também. Mas, não obstante isso, eles seguiram por causa deste fogo ardente. É interessante como na II leitura, Paulo falando aos romanos e a todos nós cristãos, diz: “exorto a vos oferecerdes em sacrifício vivo, santo e agradável a Deus: este é o vosso culto espiritual. Não vos conformeis com o mundo, mas transformai-vos, renovando vossa maneira de pensar e de julgar, para que possais distinguir o que é da vontade de Deus, isto é, o que é bom, o que lhe agrada”.
É o convite para que sejamos discípulos que não pensam segundo os homens, mas segundo Deus. Pra sermos autênticos e dizer não aos próprios pensamentos. E de seguir fielmente e firmemente Jesus, mesmo se a cruz é pesada. É um convite a não sermos obstaculadores de seu projeto, mas discípulos que o realizam com grande desejo.
Neste sentido, há uma preocupação atual da Igreja com todos os fiéis nesta época de secularismo, de materialismo, de individualismo, mas de modo especial, com todos os sacerdotes como podemos perceber pelas palavras do cardeal emérito de Milão, Carlo Maria Martini, quando afirmou em 2008 que a inveja é o vício clerical, por excelência, e os outros pecados capitais mais presentes no interior da Igreja são a vaidade e a calúnia. Martini ainda citou o carreirismo na Igreja, onde “cada um quer ser mais que o outro”.
Neste sentido, o Papa Bento XVI, por ocasião do ano sacerdotal, abordou em vários momentos este assunto: “convido os padres e os seminaristas a estimar, no seguimento de São Domingos, o valor espiritual do estudo das verdades reveladas, das quais depende a qualidade do seu ministério presbiteral”. Bento XVI destacou de São Domingos sua renúncia aos privilégios pessoais, frisando que poderia ter conseguido em uma promissora carreira eclesiástica, à qual renunciou, dedicando-se humildemente às tarefas que lhe foram confiadas. “Não seria talvez uma tentação a da carreira, do poder, uma tentação da qual nem sequer estão imunes aqueles que têm um papel de animação e de governo na Igreja?”, perguntou. Bento XVI defendeu que não se pode ser sacerdote visando “fazer carreira” ou “ocupar um alto cargo na Igreja”, apelando a uma vida de serviço aos outros, à imagem de Jesus Cristo.
Em outra ocasião, durante a homilia da celebração eucarística, na Basílica de São Pedro, em que ordenou 15 novos sacerdotes da Diocese de Roma, o Papa criticou “o homem que, pelo sacerdócio, quer ser importante”, repudiando que se possa ter como objetivo, na vida sacerdotal, “a exaltação pessoal e não o servir humildemente Jesus Cristo”. Ele ainda ressaltou que o sacerdote deve “existir para os outros, para Cristo, e assim através dele e com Ele existir para os homens”. Para o Papa, “o único acesso legítimo ao ministério pastoral é a cruz. Essa é a porta”.

sábado, 20 de agosto de 2011

Solenidade da Assunção da Bem-Aventurada Virgem Maria

Castel Gandolfo Igreja Paroquial de São Tomás de Villanova

Caros irmãos e irmãs,

Encontramo-nos reunidos, mais uma vez, para celebrar uma das mais antigas e amadas festas dedicadas a Maria Santíssima: a festa da sua assunção à glória do Céu em alma e corpo, isto é, em todo o seu ser humano, na integridade da sua pessoa. Nos é dada assim a graça de renovar o nosso amor a Maria, de admirá-la e de louvá-la pelas “grandes coisas” que o Onipotente fez por Ela e que realizou Nela.

Contemplando a Virgem Maria, nos é dada outra graça: aquela de poder ver em profundidade também a nossa vida. Sim, porque também a nossa existência cotidiana, com os seus problemas e as suas esperanças, recebe luz da Mãe de Deus, do seu percurso espiritual, do seu destino de glória: um caminho e uma meta que podem e devem se tornar, de certo modo, também o nosso caminho e a nossa meta. Deixemo-nos guiar pelos trechos da Sagrada Escritura que a liturgia hoje nos propõe. Queria refletir, particularmente, sobre uma imagem que encontramos na primeira leitura, tirada do Apocalipse, e a qual faz eco o evangelho de Lucas: isto é, aquela da arca.

Na primeira leitura, escutamos: “Abriu-se o Templo de Deus que está no céu e apareceu no Templo a Arca da Aliança” (Ap 11,19). Qual é o significado da arca? O que aparece? Para o Antigo Testamento, essa é o símbolo da presença de Deus em meio a seu povo. Mas o símbolo já cedeu o lugar à realidade. Assim o Novo Testamento nos diz que a verdadeira arca da aliança é uma pessoa viva e concreta: é a Virgem Maria. Deus não habita num móvel, Deus habita numa pessoa, num coração: Maria, Aquela que carregou no seu ventre o Filho eterno de Deus feito homem, Jesus nosso Senhor e Salvador. Na arca – como sabemos – eram conservadas as duas tábuas da lei de Moisés, que manifestavam a vontade de Deus de manter a aliança com o seu povo, indicando as condições para ser fiel ao pacto de Deus, para se conformar à vontade de Deus e assim também à nossa verdade profunda. Maria é a arca da aliança, porque acolheu em si Jesus; acolheu em si a Palavra viva, todo o conteúdo da vontade de Deus, da verdade de Deus; acolheu em si Aquele que é a nova e eterna aliança, culminada com a oferta do seu corpo e do seu sangue: corpo e sangue recebidos de Maria. Com razão, portanto, a piedade cristã, nas ladainhas em honra de Nossa Senhora, dirige-se a Ela invocando-a como Foederis Arca, ou seja, “arca da aliança”, arca da presença de Deus, arca da aliança do amor que Deus quis contrair de modo definitivo com toda a humanidade em Cristo.

O trecho do Apocalipse quer indicar um outro aspecto importante da realidade de Maria. Ela, arca viva da aliança, tem um destino de glória extraordinária, porque é tão estreitamente unida ao Filho que acolheu na fé e gerou na carne, que compartilha plenamente a glória do céu. É quanto nos sugerem as palavras ouvidas: “Apareceu no céu um grande sinal: uma mulher vestida de sol, tendo a lua debaixo dos pés e sobre a cabeça uma coroa de doze estrelas. Estava para dar à luz... Ela deu à luz um filho homem, que veio para governar todas as nações...” (12,1-2; 5). A grandeza de Maria, Mãe de Deus, cheia de graça, plenamente dócil à ação do Espírito Santo, vive já no Céu de Deus com todo o seu ser, alma e corpo. São João Damasceno referindo-se a este mistério numa famosa Homilia afirma: “Hoje a santa e única Virgem é conduzida ao templo celeste... Hoje a arca sacra e animada pelo Deus Vivo, [a arca] que carregou no ventre o próprio Artífice, repousa no templo do Senhor, não constituído por mão humana” (Homilia II sobre a Dormição, 2, PG 96, 723) e continua: “Era preciso que aquela que tinha recebido no seu ventre o Logos divino, se transferisse para os tabernáculos do seu Filho… Era preciso que a Esposa que o Pai tinha escolhido, habitasse no quarto nupcial do Céu” (ibid., 14, PG 96, 742). Hoje a Igreja canta o amor imenso de Deus por esta sua criatura: a escolheu como verdadeira “arca da aliança”, como Aquela que continua a gerar e a doar Cristo Salvador à humanidade, como Aquela que no céu compartilha a plenitude da glória e goza da felicidade mesma de Deus e, ao mesmo tempo, convida também a nos tornarmos, no nosso modo modesto, “arca” na qual está presente a Palavra de Deus, que é transformada e vivificada pela sua presença, lugar da presença de Deus a fim de que os homens possam encontrar no outro homem a proximidade de Deus e assim viver em comunhão com Deus e conhecer a realidade do Céu.

O Evangelho de Lucas apenas ouvido (cfr Lc 1,39-56), nos mostra esta arca vivente, que é Maria, em movimento: deixando a sua casa de Nazaré, Maria se põe a caminho para a montanha para chegar às pressas a uma cidade de Judá e ficar na casa de Zacarias e de Isabel. Parece-me importante sublinhar a expressão “às pressas”: as coisas de Deus merecem pressa, antes, as únicas coisas do mundo que merecem pressa são próprio aquelas de Deus, que têm a verdadeira urgência para a nossa vida. Então Maria entra nesta casa de Zacarias e de Isabel, mas não entra sozinha. Entra levando no ventre o Filho, que é o próprio Deus feito homem. Certamente, havia uma espera por ela e pela sua ajuda naquela casa, mas o evangelista nos guia a compreender que esta espera remete a uma outra, mais profunda. Zacarias, Isabel e o pequeno João Batista são, de fato, o símbolo de todos os justos de Israel, cujo coração, rico de esperança, espera a vinda do Messias Salvador. E é o Espírito Santo a abrir os olhos de Isabel e a fazer-lhe reconhecer em Maria a verdadeira arca da aliança, a Mãe de Deus, que vem a visitá-la. E assim a anciã parente a acolhe dizendo-lhe “com grande grito”: “Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre! Como posso merecer que a mãe do meu Senhor me venha visitar? ?” (Lc 1,42-43). E é o mesmo Espírito Santo que diante dela leva o Deus feito homem, apre o coração de João Batista no ventre de Isabel. Isabel exclama: “Logo que a tua saudação chegou aos meus ouvidos, a criança saltou de alegria no meu ventre. ” (v. 44). Aqui o evangelista Lucas usa o termo “skirtan”, isto é, “saltar”, o mesmo vocábulo que encontramos numa das antigas traduções gregas do Antigo Testamento para descrever a dança do Rei Davi diante da arca santa que é finalmente torna à pátria (2Sam 6,16). João Batista no ventre da mãe dança diante da arca da aliança, como Davi; e reconhece assim: Maria é a nova arca da aliança, diante da qual o coração exulta de alegria, a Mãe de Deus presente no mundo, que não guarda para si esta divina presença, mas a oferece compartilhando a graça de Deus. E assim – como diz a oração – Maria realmente é causa nostrae laetitiae” (causa da nossa alegria), a “arca” na qual realmente o Salvador está presente entre nós.

Caros irmãos! Estamos falando de Maria, mas, num certo sentido, estamos falando também de nós, de cada um de nós: também nós somos destinatários daquele amor imenso que Deus reservou – certo, numa maneira absolutamente única e irrepetível – a Maria. Nesta Solenidade da Assunção olhamos para Maria: Ela nos abre à esperança, a um futuro cheio de alegria e nos ensina o caminho para alcançá-lo: acolher na fé, o seu Filho; não perder nunca a amizade com Ele, mas deixar-se iluminar e guiar pela sua palavra; segui-lo cada dia, também nos momentos em que sentimos que as nossas cruzes se tornam pesadas. Maria, a arca da aliança que está no santuário do Céu, nos indica com luminosa clareza que estamos em caminho para a nossa verdadeira Casa, a comunhão de alegria e de paz com Deus. Amém!

Papa Bento XVI

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

XX DOMINGO COMUM - Mt 15,21-28 (EXEGESE SOBRE A POSSESSÃO DEMONÍACA)

Grande é a tua fé!

O tema central das leituras da liturgia deste domingo é a salvação que Deus oferece livremente, sem exclusão, a cada pessoa, a todos os povos. Esta afirmação, que para nós hoje é clara e fora de discussão, foi uma conquista muito difícil para a comunidade dos judeu-cristãos, para quem Mateus escrevia o seu evangelho. É evidente o quanto Israel antigo e aquele contemporâneo de Jesus vivessem a salvação e a aliança como propriedades privadas, quase exclusivas do povo eleito, diante dos “pagãos”, que aos olhos dos judeus eram considerados “cães” (desprezo).

O livro dos Atos dos Apóstolos dá prova do difícil percurso e da lenta abertura da primeira comunidade (At 10-11), o debate no Concílio de Jerusalém (At 15), as controvérsias de Paulo com os judeu-cristãos são claros testemunhos de quanto tenha sido árduo para a Igreja primitiva admitir novos membros provenientes do mundo pagão, isto é, de origem não judia. E ainda mais inconcebível era aceitar-lhes sem passar sob o jugo da antiga Lei.

O texto de Isaías (I leitura) oferece um respiro de universalidade: os estrangeiros entram com alegria na casa de oração, seus sacrifícios são agradáveis a Deus no Templo que Ele abrirá para todos os povos (v. 7). Tal abertura universal, cantada com alegria pelo salmista, ficava ainda condicionada à observância do sábado e à subida ao monte santo (Is 56,6-7), elementos que se tornarão ultrapassados depois da ressurreição de Jesus. A ideia da abertura da salvação para a universalidade (catolicidade) é patente no diálogo e no milagre de Jesus para com a filha da mulher cananeia (Evangelho), originária de Tiro e de Sidônia (v. 21). A superação do exclusivismo aparece claramente, no final, na admiração de Jesus pela fé daquela mulher pagã e estrangeira: ela é consciente de não ser filha, mas “cachorrinhos”, que esperam pelo menos pelas migalhas dos patrões (v. 26-27). Jesus exalta a grande fé daquela mãe, cura naquele instante (a distância) a sua filha adoentada (v. 28). Exatamente como tinha curado o servo do centurião pagão de Cafarnaum, louvando a fé como primícia dos novos comensais do Reino, que “virão do oriente e do ocidente" (Mt 8,10-13).

Depois de fatos como estes, é claro que a pertença ao povo de Deus não acontecerá mais por raça, mas pela fé, que é sempre e somente dom misericordioso e gratuito de Deus, Pai de todos. Pai dos judeus antes, e depois dos pagãos, ensina Paulo aos Romanos (II leitura): a prioridade, ou primogenitura dos judeus é verdadeira, mas só temporária; não significa exclusão dos outros povos. Pois para Paulo, todos os povos foram igualmente desobedientes, rebeldes e infiéis a Deus: os pagãos por primeiros e agora também os judeus: mas agora Deus quer “ser misericordioso para com todos” (v. 32): é o dom e o mistério do amor misericordioso de Deus por todos. Esta é a boa notícia missionária que o mundo precisa urgentemente.

“-minha filha está terrivelmente endemoninhada!”

Falar da possessão diabólica é algo ainda muito complicado, porque ainda há muito a ser estudado e discutido. A própria Igreja Católica ainda não deu um parecer definitivo sobre este assunto, mas vai deixando a coisa rolar, quer por parte da exegese bíblica, da teologia, da parapsicologia, da psiquiatria, e daqueles que praticam os exorcismos.

Entretanto, exegeticamente falando, podemos dizer alguma coisa sobre os endemoninhados do NT e as expulsões feitas por Jesus e seus Apóstolos. Primeiramente, é relevante notar que numa literatura vastíssima como a do AT, não encontramos um relato sequer de possessão diabólica. E é porque muitos relatos do AT são assimilações e adaptações dos mitos da Mesopotâmia, Babilônia, Ugarit entre outros, quando os autores sagrados para revelarem o único e verdadeiro Deus, usaram esses mitos transformando o deus principal em YHWH, e os deuses secundários, incluindo os bons e os maus, respectivamente em anjos bons e em anjos rebeldes como o Satanás, o elemento aquático caótico, o Leviatã entre outros.

Depois dessas transformações que aconteceram na história primitiva de Israel, a tradição judaica se manteve firme e até o judaísmo tardio não aceitava a inserção de nenhum elemento pagão para se manter fiel ao único Deus, embora saibamos das várias infidelidades. Mas, a coisa começou a mudar mesmo quando provavelmente começou a diáspora e os judeus que viveram na dispersão da babilônia, sob o império grego e depois romano, foram assimilando outras ideias. Inclusive, vale ressaltar que Jesus falava aramaico. E todas as suas obras foram postas por escritos por um autor que interpretou o evento e escreveu em língua grega, ou seja, com metáforas, expressões idiomáticas, gêneros literários próprios desta língua.

Assim que fica explicado porque enquanto no AT, não temos relato de possessão demoníaca, no NT, vemos inúmeros relatos. Essas outras ideias que foram assimiladas, pois, eram as que para as religiões pagãs, como a grega e a romana, as doenças internas, ou sejam, aquelas de causa não aparente como a loucura, a epilepsia, a esquizofrenia, a depressão, a histeria, e até a surdez, já que constatamos a presença de ouvidos sem problema aparente, estas doenças eram atribuídas a presença de um daimon, uma espécie de deus de segunda categoria, isto porque eram doenças inobserváveis e misteriosas para a medicina da época, a resposta era essa.

Obviamente, isso não muda em nada o caráter prodigioso do evento de Jesus. Verdadeiramente, Ele curou todas aquelas pessoas que o Evangelho narra como “possuídas”. Entretanto, devemos lembrar sempre que na época, para doenças de causa aparente como a lepra, falava-se de cura, e de causas não aparentes, se falava de expulsão de demônios.

Alguém pode perguntar, mas se Jesus sabia tudo isso, porque ele empregaria estes termos errados? Primeiro, porque o Espírito Santo, o autor das Sagradas Escrituras, inspirou tudo aquilo que devia ser revelado, mas respeitando as faculdades e capacidades dos autores sagrados (por exemplo, quando o autor do livro de Josué escreveu que o sol parou, vemos o respeito de Deus pela limitação humana que naquela época achava que o sol realmente nascia e se punha, ora, o sol sempre esteve parado). Assim, o autor sagrado pôs nestes relatos todo o seu conhecimento, a sua bagagem cultural e linguística grega popular (koiné) da época.

A Igreja primitiva, e aquela posterior foi desenvolvendo essa prática do exorcismo cada vez mais frequente. Mas à medida que a ciência, a medicina ia avançando, a própria Igreja foi fechando os critérios do que se poderia tratar de uma possessão demoníaca. Até que o Concílio Vaticano II finalmente aboliu a ordem menor de exorcista. Enfim, com muita prudência, a Igreja limitou-se a prescrever que só pode exorcizar quem tiver licença peculiar e expressa do Ordinário local. E que o Ordinário só pode prescrever essa licença a um presbítero que se distinga pela piedade, ciência, prudência e integridade de vida (Cân. 1172). Isto porque a Igreja depende do avanço da ciência para se pronunciar definitivamente sobre estas questões.

Claro, o diabo existe e ele atua negativamente no mundo. “Engana os homens fazendo-lhes crer que a felicidade se encontra no dinheiro, no poder, na perversão sexual. Engana os homens persuadindo-os de que não têm necessidade de Deus e que são auto-suficientes, sem necessidade da graça e da salvação. Justamente engana os homens diminuindo ou até fazendo desaparecer o senso do pecado, substituindo à Lei de Deus, como critério de moralidade, os hábitos ou convenções da maioria. [...] Por detrás das mentiras e falsidades, que estampam a imagem do Grande Mentiroso, se desenvolvem as incertezas, as dúvidas, um mundo onde não mais segurança nem Verdade, e onde reina o relativismo e a convicção de que a liberdade consiste em fazer o que se quer; assim, não se compreende mais que a verdadeira liberdade é a identificação com a vontade de Deus, fonte do bem e da única felicidade possível(Boletim da Sala Stampa da Santa Sé, 26-1-1999).

Como bem atesta o Catecismo da Igreja Católica no número 395: “o poder de Satanás não é infinito. Ele não passa de uma criatura, poderosa pelo fato de ser puro espírito, mas sempre criatura; não é capaz de impedir a edificação do Reino de Deus. Embora Satanás atue no mundo por ódio contra Deus e seu Reino em Jesus Cristo, e embora a sua ação cause graves danos – de natureza espiritual e, indiretamente, até de natureza física – para cada homem e para a sociedade, esta ação é permitida pela Divina Providência, que com vigor e doçura dirige a história do homem e do mundo. A permissão divina da atividade diabólica é um grande mistério, mas “nós sabemos que Deus coopera em tudo para o bem daqueles que o amam” (Rm 8,28).

Com certeza, ele exerce uma influência negativa sobre nós, através da distração, da confusão, da dúvida, do medo, da preocupação, do julgamento, tudo isso na base da mentira, mas jamais ele terá domínio sobre a nossa inteligência e vontade. E, obviamente, se ele consegue mexer com a cabeça de alguém que é “normal”, imagine com quem sofre de algum problema mental. Por isso, eu entendo que quando o Catecismo fala de graves danos e, indiretamente, até de natureza física, significa que o demônio não pode ter o controle total, domínio absoluto sobre uma pessoa, possuir um corpo de uma pessoa que já tem seu espírito.

Falo disso porque cada vez mais está na moda esta ideia vinda da macumba, do vudu, do espiritismo, e do movimento pentecostal e neo-pentecostal principalmente presente nas seitas: de que o demônio se apodera de um corpo, sendo necessária a sua expulsão através de alguma prática ritual.

A esta altura do campeonato, acreditar em possessão demoníaca é ler a Bíblia ao pé da letra, é fazer uma leitura fundamentalista das Escrituras. Não podemos ler a Bíblia sob a ótica do fundamentalismo, isto é, sem levar em conta a linguagem e a fraseologia condicionadas por uma época. Como diz a Verbum Domini n. 44, a “leitura fundamentalista constitui uma traição tanto do sentido literal como do espiritual, abrindo caminho a instrumentalizações de variada natureza, recusando ter em conta o caráter histórico da revelação bíblica”. Esta leitura induz à crença no ocultismo, em feitiços, maldições, maus-olhados, vodu, macumba, uma ideia não aceita pela Igreja de que dois espíritos podem ocupar o mesmo corpo, querer nos fazer voltar a era das bruxas.

Ultimamente, com a publicação do novo ritual de exorcismos REFEITO pela Igreja Católica, a discussão cresceu mais ainda. Na verdade, a Igreja não se pronunciou oficialmente sobre o exorcismo. O Papa não oficializou nada, apenas saudou uma comissão de exorcistas em 2005 que há muito lutavam por essa audiência. E o Papa disse unicamente que continuassem a estudar tais fenômenos: “saúdo também os participantes no congresso nacional dos Exorcistas italianos, e encorajo-os a prosseguir no seu importante ministério ao serviço da Igreja, amparados pela vigilante atenção dos seus Bispos e da oração incessante da Comunidade cristã” (14 de setembro de 2005). Tanto é que o novo ritual não agradou aos exorcistas, quem já leu pode ver que praticamente a Igreja querendo tirar todo o caráter mágico e supersticioso como mostra a insatisfação do Pe. Gabriel Amorth, exorcista da Diocese de Roma.

Numa entrevista, ele diz: “No ponto 15 fala-se dos malefícios e de como comportar-se nesse caso. O malefício é um mal causado a uma pessoa recorrendo ao diabo. Pode ser feito em diversas formas, como feitiços, maldições, maus-olhados, vodu, macumba. O Ritual Romano explicava como enfrentá-lo. O novo Ritual, ao contrário, afirma categoricamente que há uma proibição absoluta de fazer exorcismos nesses casos. Absurdo. Os malefícios são de longe a causa mais frequente de possessões e males causados pelo demônio: não menos de 90 por cento. É como dizer aos exorcistas que não ajam mais. O ponto 16 então afirma que não se devem fazer exorcismos se não existe a certeza da presença diabólica. Esta é uma obra-prima de incompetência, pois se tem a certeza da presença do demônio numa pessoa só fazendo o exorcismo”

Em outro ponto da entrevista, ele diz: “Também dentro da Igreja, temos um clero e um episcopado que já não crêem no demônio, nos exorcismos, nos males extraordinários que o diabo pode fazer, e tampouco no poder que Jesus concedeu de expulsar os demônios. Há três séculos que a Igreja latina - ao contrário dos orientais e de várias confissões protestantes - abandonou quase completamente o ministério dos exorcismos. Sem praticá-los, estudá-los nem vê-los, o clero já não crê”. O Pe. Gabriel fala que foram tiradas as orações de libertação e que até o exorcismo no ritual do batismo praticamente desapareceu.

Pois é, desapareceu porque não existe dessa forma supersticiosa, pois se for por falta de oração poderosa contra o mal, o Pai Nosso foi ensinado para isso: “não nos deixeis cair em tentação, mas livrai-nos do mal”, sem contar a oração de “exorcismo” feita pelo sacerdote durante a Missa depois da oração do Pai Nosso. Acreditar na possessão demoníaca é o mesmo que acreditar em encosto, mau olhado, feitiço, bruxaria, incorporação. Como fala o próprio Pe. Gabriel Amorth: “o conselho número um consiste em ter fé. Depois, viver na graça de Deus. Se se vive em estado de graça, está-se protegido, é mais difícil que a macumba nos atinja. Porém, se se é realmente atingido, é necessário recorrer-se aos exorcismos, a muitas orações, a muitos sacramentos e, com a graça de Deus, se é libertado” ou seja, ele acredita em macumba.

Tenho plena certeza de que o diabo existe e tem um poder no mundo, agindo através da mentira. Mas ele nunca irá tirar a nossa liberdade. Essa ideia supersticiosa na realidade gera um lucro muito grande a começar pelas grandes produções cinematográficas até a venda de um simples amuleto.

Livrai-nos de todos os males, Senhor!

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

XIX DOMINGO COMUM - Mt 14,22-33

ALIMENTE A SUA FÉ E SEUS MEDOS MORRERÃO DE FOME
O Evangelho deste domingo fala de Jesus que anda sobre as águas e acalma o vento. Este Evangelho nos mostra como Deus se faz presente na nossa vida também nas horas difíceis, nos momentos nos quais mais nos sentimos sozinhos, abandonados e impotentes. Também indica como por meio da fé podemos descobrir e recuperar aqueles sentimentos de calma, paz, serenidade e segurança que só Jesus é capaz de nos conceder para superar todas as adversidades.
No domingo passado, vimos que a partilha dos pães foi um acontecimento na vida dos discípulos e da multidão. O povo cansado da corrupção e opressão pelos chefes políticos da época, já começa a sonhar com Jesus como um líder político que o libertaria de tudo isso. Por isso, é que Jesus obriga os discípulos a se afastarem imediatamente. Ele não quer colocar em risco a correta compreensão da sua missão. Ele sabe que o ser humano tem uma facilidade enorme para deixar-se levar pela ilusão, pela satisfação efêmera que proporciona a fama e o poder, o sentir-se admirado, querido, elogiado e estar acima dos outros.
O seu reino não é de cunho político, mas espiritual. Assim, depois de se despedir da multidão e mandar os discípulos atravessarem o lago, Jesus subiu ao monte para orar a sós e aí ficou até as três horas da manhã. A este momento, a barca dos discípulos já estava longe e era agitada pelas ondas, por causa de um forte vento que soprava em direção contrária.
A barca sem Jesus corria grande perigo. Mesmo não nos encontrando numa barca, nem atravessando um lago, frequentemente, nos encontramos numa situação semelhante àquela dos discípulos. Também nossa barca é agitada por mil preocupações, angústias, provações; vivemos cercados pelas ondas da instabilidade em todos os campos: econômico, afetivo, político, social, atmosférico e religioso; tudo ao nosso redor sopra como um vento contrário. Usamos todas as nossas forças e fatigamos para chegar à terra firme, mas não conseguimos avançar, continuamos parados diante das mesmas dificuldades. É como se estivéssemos completamente sozinhos, sem a ajuda de ninguém.
Sem dúvida, o próprio fato de Jesus ter mandado os discípulos sozinhos na barca mostrava que eles deviam se acostumar ao fato de que Ele nem sempre estaria presente de maneira visível; mas, mesmo não estando presente visivelmente, Ele estava com eles.
Quando sentimos que estamos em perigo, confusos, encurralados... Jesus vem ao nosso encontro, mas de um modo diverso do que esperamos; pode até parecer que não seja Ele, pode parecer uma ilusão (os discípulos pensavam que fosse um fantasma), existe sempre o medo de se ter uma nova desilusão. Mas Jesus vem ao nosso encontro exatamente nesta situação de perigo, de sofrimento. Ele caminha conosco sobre as águas agitadas, sobre as nossas contradições, sobre os nossos pecados. Podemos afundar nos nossos pecados, como se afunda nas águas, mas podemos também ir mais adiante, confiar no Senhor que nos estende a mão. É um desafio que Jesus nos lança: superar o recuo que fazemos quando temos medo para nos lançarmos numa experiência que nos supera, que supera o nosso pecado, a nossa fragilidade.
Assim como o gesto de alimentar o povo no deserto no domingo passado evocava o tema sapiencial de Deus que sacia a fome da humanidade, assim o gesto de Jesus de andar sobre as águas não é uma simples exibição de poder, pelo contrário, é um tema sapiencial onde é demonstrada a divindade de Jesus. Jesus se apresenta como Aquele capaz de controlar o mundo do mal, o elemento aquático, caótico que evoca o monstro primordial (Gênesis).
Os discípulos ficam atormentados, com medo das águas. Mas quem nunca sentiu medo de, por exemplo, afogar-se? Quando aprendemos a nadar, no início, o medo nos leva a afundar, só quando nos abandonamos com confiança, é que começamos realmente a seguir adiante. Há muitas pessoas que nunca aprenderam a nadar por causa do medo. Eis, pois, o convite de Jesus: “Coragem! Sou eu, não tenhais medo!”.
Este “coragem” se identifica com “sou eu”: o nome próprio divino revelado no Antigo Testamento a Moisés. Jesus se revela como Deus e diz: “Sou eu mesmo. Eu estou aqui convosco”. É Ele que nos sustenta; nós devemos ter a coragem de confiar Nele para a situação na qual estamos vivendo por mais instável que ela seja. De fato, a presença de Jesus afasta todo tipo de medo. O medo se vence com a fé. Os discípulos têm todos os motivos para ter coragem, esperança e confiança. Quando Jesus diz: “sou eu!”, Ele assegura que não é um fantasma, mas aquele que eles conhecem e que onde Ele está, aí há segurança e vida e não há lugar para medo e perigo.
Pedro está até disposto a experimentar, a se arriscar caminhando sobre as águas. Ele acredita na Palavra de Jesus que diz: “Vem!”. O discípulo é capaz de fazer aquilo que fez Jesus, dominar o elemento negativo, se confiar em Jesus. Mas, se tem medo, arrisca afundar. Porque quando sente o vento, distrai-se, não está mais concentrado em Jesus, mas no vento. Assim, o medo novamente prevalece sobre ele e ele começa a afundar, e, com muito medo, grita: “Senhor, me salve”. Imediatamente, Jesus estende a mão. E diz: “homem de pouca fé, porque duvidaste?”
Em Pedro, manifesta-se aquilo que nos coloca em perigo e aquilo que nos faz superar o perigo. Tudo depende de para onde fixamos a nossa atenção, do que domina nosso coração. Podemos ter o olhar voltado para Jesus e ter confiança Nele e nas suas palavras, ou podemos estar dominados pela ameaça e o medo diante do perigo. Quando mais nos deixamos dominar pelo medo, afundamos nele. Quanto mais fixamos o olhar em Jesus, mais cheios de tranquilidade e confiança seremos. Se nós olharmos somente pra Ele e tivermos a coragem de pegar na mão que Ele estende, teremos um sustento seguro e venceremos todo e qualquer desafio.
O relato que a I leitura (I Reis 19) nos propõe apresenta algo semelhante, o profeta Elias, que num momento difícil da sua história, foge e chega ao Sinai, ao monte de Deus, o Horeb, para ver o Senhor que vai passar. O Horeb foi o lugar onde Moisés tinha encontrado o Senhor. Mas eis que antes do Senhor chegar, são apresentadas a Elias situações difíceis: vento impetuoso e forte, terremoto, fogo. Mas Deus não se encontrava aí. Só depois disso, ouviu-se o murmúrio de uma leve brisa. Elias percebeu uma presença de paz, uma voz silenciosa, a presença de Deus. E saiu da gruta.
Como diz o salmista hoje: “Quero ouvir o que o Senhor irá falar, é a paz que ele vai anunciar. A verdade e o amor se encontrarão, a justiça e a paz se abraçarão. No Salmo, vemos o encontro do desejo do homem por paz e a oferta de Deus.
E, finalmente, na II leitura, Paulo sente que muitos dos seus consanguíneos não aceitaram Jesus como Cristo, e alerta os cristãos provenientes do mundo pagão para não os desprezarem, isto é, os judeus, mas sim reconhecer a dignidade já que possuem: a filiação adotiva, a glória, as alianças, as leis, o culto, as promessas e também os patriarcas. Deles, é que descende Cristo segundo a carne. Portanto, reconhecer que Israel é a raiz santa que conduz ao cristianismo, é reconhecer a dignidade não revogável da escolha de Deus. Paulo confessa sua grande tristeza e dor contínua porque há muitos irmãos de sua raça que não aceitaram Cristo. A oferta da salvação é dada, mas é necessária aquela mão que nos tira da água.

ENSINAMENTOS DE SUA SANTIDADE BENTO XVI - O LUGAR DO SACRÁRIO NA IGREJA

Ainda relacionado com a importância da reserva eucarística e da adoração e reverência diante do sacramento do sacrifício de Cristo, o Sínodo dos Bispos interrogou-se sobre a devida colocação do sacrário dentro das nossas igrejas. Com efeito, uma correta localização do mesmo ajuda a reconhecer a presença real de Cristo no Santíssimo Sacramento; por isso, é necessário que o lugar onde são conservadas as espécies eucarísticas seja fácil de individuar por qualquer pessoa que entre na igreja, graças nomeadamente à lâmpada do Santíssimo perenemente acesa. Tendo em vista tal objetivo, é preciso considerar a disposição arquitetônica do edifício sagrado: nas igrejas, onde não existe a capela do Santíssimo Sacramento mas perdura o altar-mor com o sacrário, convém continuar a valer-se de tal estrutura para a conservação e adoração da Eucaristia, evitando porém colocar a cadeira do celebrante na sua frente. Nas novas igrejas, bom seria predispor a capela do Santíssimo nas proximidades do presbitério; onde isso não for possível, é preferível colocar o sacrário no presbitério, em lugar suficientemente elevado, no centro do fecho absidal ou então noutro ponto onde fique de igual modo bem visível. Estas precauções concorrem para conferir dignidade ao sacrário que deve ser cuidado sempre também sob o perfil artístico. Obviamente, é necessário ter em conta também o que diz a propósito a Instrução Geral do Missal Romano. Em todo o caso, o juízo último sobre esta matéria compete ao bispo diocesano.

(EXORTAÇÃO APOSTÓLICA PÓS-SINODAL SACRAMENTUM CARITATIS SOBRE A EUCARISTIA, FONTE E ÁPICE DA VIDA E DA MISSÃO DA IGREJA, n. 69, Roma, junto de São Pedro, no dia 22 de Fevereiro — festa da Cátedra de São Pedro — de 2007).