sexta-feira, 29 de julho de 2011

XVIII DOMINGO COMUM - Mt 14,13-21

Depois de sermos introduzidos na compreensão do mistério do Reino dos Céus, escondido como um tesouro aos sábios deste mundo, mas revelado aos pequeninos através das parábolas narradas por Jesus e apresentadas por Mateus no capítulo 13 da sua obra, a liturgia deste domingo nos conduz a nos sentarmos com Jesus e os seus discípulos à mesa preparada para nós pelo Pai que quer nos alimentar com o pão do seu reino.

Na I leitura (Is 55,1-3), Deus prepara um banquete gratuito e aberto para todos nós. Ele ensina e mostra o segredo do saber viver bem: discernir entre aquilo que dá vida e satisfaz o desejo de vida (o verdadeiro tesouro) e aquilo que pelo contrário, sob falsas aparências de vida e felicidade, conduz à morte. Israel sofre no exílio a fadiga de se alimentar do pão do inimigo que não sacia, além de recordar que isso está acontecendo graças à sua desobediência. Pois só o pão da terra da promessa, fruto e sinal de uma vida vivida na relação com Deus, na escuta livre e obediente da sua Palavra, consegue satisfazer a fome de vida de Israel. Quem escuta Deus, acolhe o seu convite e se põe a caminho para voltar à própria terra e ao próprio Deus.

A Palavra de Deus da I leitura mostra uma sabedoria de vida que revela quem tem fome de compreender: “ouvi-me com atenção e alimentai-vos bem, para deleite e revigoramento do vosso corpo”. E ao mesmo tempo provoca em nós uma pergunta: de qual pão estamos nos alimentando? Será que estamos gastando dinheiro, tempo e energia por um pão que não sacia, esquecendo do pão da Palavra de Deus, que sacia gratuitamente a verdadeira fome que temos nós: fome de conhecer o rosto daquele que nos fala na sua Palavra e sede da sua presença para encontrar plenitude e sentido para a nossa vida.

A resposta ao convite de Deus vem do nosso coração que à luz da Palavra proclamada, descobre estar com sede e com fome de vida. Eis o que diz o salmista a Deus: “abris a vossa mão prodigamente e saciais todo ser vivo com fartura”. A nossa invocação deve ser plena de confiança, certos de ser ouvidos, pois o Senhor é paciente e misericordioso, Pai bom e providente para todos.

Mas é no texto evangélico de hoje que podemos finalmente saborear o pão que Deus nos oferece. O texto nos diz que Jesus apenas soube da morte de seu parente João Batista, se retirou num lugar deserto e afastado. O texto não diz nada sobre o que Jesus foi fazer neste local; talvez refletir sobre alguns fracassos de sua missão, como a rejeição por parte dos conterrâneos, a morte de seu profeta. O que nos impressiona é que diante de tudo isso, vendo as multidões que vinham ao seu encontro, ele não fica na retaguarda, desiludido ou desencorajado, mas responde com uma renovada abertura e atenção misericordiosa aos necessitados: “encheu-se de compaixão por eles e curou os que estavam doentes”.

Muito importante na leitura é o diálogo entre Jesus e os discípulos. Ao entardecer, estes ficam inquietos porque as pessoas já começam a ter fome, e isto pode ser um problema. Então, fazem a seguinte proposta a Jesus: “despede as multidões, para que possam ir aos povoados comprar comida”. Jesus, porém, rejeita esta proposta lógica, quer revelar algo novo e faz uma contraproposta na qual envolve os discípulos nessa missão: “dai-lhes vós mesmos de comer”. Jesus quer manifestar a eles o seu poder, mas, sobretudo deseja que eles saciando-se do pão do reino, experimentem a sua lógica, que é a da superabundância de Deus. Para isso, Jesus convida os próprios discípulos a dar de comer e a colocar a disposição aquilo que tem. É pouco? É. Mas dividam e verão o milagre da multiplicação.

O sabor do reino é aquele da comunhão, da partilha, do cuidado de uns para com os outros. Jesus pega os pães, abençoa-os e divide-os com todos. E sobram doze cestos cheios. É o milagre que provêm da partilha: a abundância. É a lógica do Evangelho. Deus em Jesus partilha a sua vida conosco, para que nós também possamos ser uma comunidade capaz de partilhar a mesma vida que recebemos dele e que ele sabe multiplicar para que todos sejam saciados. Finalmente, é bom lembrar que estes textos sagrados que nos ensinam tão bem sobre a importância do pão da Palavra, lembram também o pão da Eucaristia. O banquete deve unir-nos a Jesus e a nós mesmos. Por isso, quem comunga o corpo do Senhor está em comunhão com toda a Igreja.

quinta-feira, 21 de julho de 2011

XVII DOMINGO COMUM – Mt 13,44-52

O essencial é invisível aos olhos

Já vimos na parábola do semeador que a boa semente só pode produzir bom fruto se cair em terra boa; assim, a eficácia da Palavra de Deus depende fundamentalmente da disponibilidade daqueles que a acolhem e a praticam.

Com a parábola da semente de mostarda e a do fermento, vimos que se no início quando a Palavra é semeada em nós o fruto pareça ser pequeno ou mesmo nem o vejamos, isto não é o caso de ficarmos desanimados, pois sendo ela de Deus, depois de todo o processo de desenvolvimento, terá uma grande eficácia.

Também vimos com a parábola do joio e do trigo uma verdade que será reforçada por uma das parábolas que veremos hoje, a da rede de pesca: a ideia de que a convivência entre bons e maus permanece nesta vida; e, principalmente, o duelo entre bem e mal que existe dentro de nós pode permanecer, mas não é definitivo; pois, sobretudo com a sua paciência, Deus vai tolerando o nosso pecado, sempre dando uma nova chance até compreendermos que Ele é a razão última da nossa vida.

E o Evangelho deste domingo explica tudo isto quando fala do valor do Reino, da alegria infinita proveniente da descoberta deste valor e do esforço para se abrir a este Reino e aceitá-lo. Na verdade, as quatro breves parábolas de hoje concluem o ciclo de ensinamentos sobre o “Reino dos Céus” que Jesus relata para suscitar no nosso coração o desejo do encontro com Deus. Tais parábolas convidam a uma decisão responsável da nossa parte com relação ao nosso seguimento a Cristo.

Com toda certeza, todos nós de vez em quando passamos pela experiência de terminar o dia com a mente totalmente cansada e o coração angustiado. Passamos o dia correndo de lá pra cá para dar conta de tantas ocupações. Trabalhamos, nos cansamos, fazemos muitas coisas, mas no final de tudo sentimos que nos falta algo, percebemos um vazio, ao qual não sabemos dar um nome. É justamente para essa sensação de vazio, de falta de plenitude, que Jesus nos conta a parábola do tesouro e da pérola. “O reino dos céus é como um tesouro escondido no campo. Um homem o encontra e o mantém escondido. Cheio de alegria, ele vai, vende todos os seus bens e compra aquele campo” e “o reino dos céus também é como um comprador que procura pérolas preciosas. Quando encontra uma pérola de grande valor, ele vai, vende todos os seus bens e compra aquela pérola”.

Na primeira parábola, o homem fica repleto de alegria quando acha o tesouro. E nós? Continuamos cheios de tantas ocupações e preocupações? Não devemos esquecer que aquele homem antes era assim também. Tinha a mente confusa e o coração atormentado, exatamente como talvez possa estar acontecendo conosco hoje. Num belo dia, o homem encontrou o tesouro, e a sua vida mudou completamente. Tinha descoberto algo tão grande e maravilhoso, tão único e essencial, tão significativo pra ele a ponto de sacrificar todos os outros bens e sonhos para comprar aquele campo onde estava o tesouro. Na realidade, a partir daquele momento, todas as outras coisas tinham perdido o seu valor.

Com o comprador que encontra uma pérola de grande valor acontece o mesmo.
Não serão as nossas tantas ocupações que nos tornarão felizes nem o encontro com os outros nos realizará plenamente; como nem mesmo a nossa família corresponderá em tudo às nossas expectativas. Somente se descobrirmos (já que o tesouro está escondido) também algo de grande (Deus), somente então nos será doada a plenitude da alegria. Daí o esforço que temos que fazer para descobri-lo, ele não está à mostra como as outras riquezas, nem é atraente, muitas vezes nós o desconsideramos (Jesus nasceu num estábulo e morreu pendurado numa cruz). Mas não devemos nos enganar, só este tesouro é que dá pleno significado à nossa vida.

No lago da Galileia, há varias espécies de peixes que nadam indistintamente até serem pescados. Aqui na terra parece que dá no mesmo se nos interessamos por Deus ou não, mas nem sempre será assim. Haverá sim o momento do juízo final. Mas Ele tem paciência para esperar nossa conversão. Que tenhamos a mesma disposição do jovem rei Salomão, que não pediu a Deus saúde, nem riqueza nem poder, mas pediu um coração compreensivo (I leitura). Também nós peçamos um coração sábio para que deixemos de nos lamentar por aquilo que nos falta e nos dedicarmos ao que de fato é importante para nossa vida, a comunhão com Deus.

É muito interessante notar que na parábola da rede de pesca e na sucessiva, a do pai de família, há uma chamada de atenção para a responsabilidade nossa diante da proposta de Jesus. Somos convidados a reconhecer a presença de Deus na nossa vida e extrairmos coisas novas e antigas do seu tesouro, que é a sua Palavra feita carne, Jesus.

Sabedoria, conhecimento e compreensão! Eis o que significa ser discípulos. Saber ver! E não basta ter olhos maleáveis, acolher o novo, guardando o antigo! Há quem não quer vender nada para comprar o campo onde está o tesouro! Há quem não se dá conta nem mesmo do tesouro! E há quem rouba aquele alheio! Há quem acredita já ter um tesouro! Há quem se arrependa de ter jogado fora os peixes que não prestam.

Que o Senhor nos dê humildade, um coração sábio e inteligente, dócil para praticar a justiça, para discernir o bem do mal e governar com sabedoria a nossa vida.

Obrigado, Jesus, tu és a minha pedra preciosa. Perdão por todas as vezes que esqueço isso e te troco por bijuterias!

sábado, 16 de julho de 2011

XVI DOMINGO COMUM – Mt 13,24-43

A paciência de Deus na construção do Reino

Na liturgia de hoje, rezamos a Deus na oração “coleta”: “sede generoso para com vossos filhos e filhas e multiplicai em nós os dons da vossa graça”. Estes dons da Graça de Deus é o que compreendemos pelas três parábolas que o Evangelho de hoje nos propõe ao descrever o Reino de Deus.

Estas três parábolas estão interligadas pelo verbo “crescer”: o grão de trigo e o joio crescem juntos para depois serem separados, a semente de mostarda cresce até se tornar uma grande árvore, o fermento na farinha que faz crescer a massa.

Característica fundamental desse Reino é que não é algo parado, mas é dinâmico, que cresce a cada dia. Diante das dificuldades e da fraqueza humana, Jesus conta a primeira parábola, a do joio, para expressar a grandeza de Deus diante de tudo isto. Aos empregados que pedem para arrancarem o joio que está crescendo junto com o trigo, Jesus diz “não”. “Pode acontecer que, arrancando o joio, arranqueis também o trigo. Deixai crescer um e outro até a colheita!”. Os empregados ficam surpresos com o mandamento de Jesus por sofrerem de uma impaciência tal (atualíssima nos dias de hoje) que resultava sempre em medo, pouca reflexão, e muitas decisões tomadas pelo ímpeto da coisa, que no final, perdia-se muito. Interessante notar que Jesus não coloca a culpa simplesmente no joio, mas constata que foi “algum inimigo que fez isso”!

O que vemos nesta parábola de Jesus servindo-se de imagens da vida do campo é que quando deixamos espaço para a iniciativa e à paciência infinita de Deus, encontramos a misericórdia que transforma tudo, Jesus.

Mas é verdade! Vivemos num mundo cada vez mais inquieto e confuso, onde tudo é descartável e tudo tem que ser feito às pressas. Jesus nunca se apresentou como o máximo de tudo. Pelo contrário, apesar de todo o cansaço e perseverança que teve para evangelizar, acabou rejeitado e condenado à morte de cruz. Isto nos responde porque os discípulos se impacientaram e ficaram desanimados ao ver que o Reino que Jesus acabara de instaurar não tinha conseguido eliminar o mal do mundo.

Podemos desanimar também nós, mas devemos ficar tranquilos, pois Deus conhece muito bem toda esta situação pela qual o mundo e a Igreja, em particular, está passando. Como disse o ano passado o Papa Bento XVI: “O joio também existe dentro da Igreja e entre aqueles que Deus trouxe para seu serviço de modo particular. Mas a luz de Deus não diminuiu, o grão bom não foi sufocado pela semeadura da injustiça”. Deus permite tudo isso, pois o modo de se comportar dele é diferente. Aqui na terra as coisas podem mesmo estar confusas: bondade e maldade, gente boa e gente má. Para alguns, isto provoca a pergunta: onde está Deus? Por que ele não interveio nas últimas guerras, por exemplo?

Jesus afirma que é necessário suportar esta situação aqui na terra. Nem ele pode separar os bons dos maus, deve ter paciência e o mesmo vale para seus discípulos. Joio (erva daninha) e trigo mostram duas realidades muito diferentes e podem até passarem muito tempo juntas, mas serão apartadas.

Entretanto, não será Deus a excluir os maus do seu Reino, mas somos nós mesmos que com nossas escolhas, nos excluímos dele. Mas, temos que ter esperança que a paciência de Cristo torne possível a vitória na luta contra o mal. A expressão “fogo, choro e ranger de dentes” nada mais é do que um simbolismo para indicar a dor e a raiva proveniente do remorso por ter se excluído de Deus. Se nessa vida, livremente escolhemos rejeitá-lo, isto significa que não queremos estar em comunhão com ele na outra. E como vimos na parábola do semeador, ele respeita a nossa liberdade.

Na verdade, a presença do joio no campo do trigo, mesmo se os servos mostrem espanto, não é o traço mais inesperado e surpreendente da parábola. Tanto é verdade que aos servos que pedem explicações, o patrão responde simplesmente: “foi algum inimigo que fez isso”. E menos surpresa é a afirmação que ao tempo da colheita trigo e joio serão cuidadosamente separados: o trigo colhido no celeiro e o joio jogado ao fogo.

O ponto enfático da parábola está no fato de que o joio não deve ser arrancado agora, pois caso contrário, há o risco (acrescenta ironicamente o patrão) de que arrancando o joio, se arranque também o trigo. O centro da parábola, pois, é este: a paciência de Deus, a tolerância de Deus. No tempo de Jesus, havia o movimento farisaico, que pretendia ser o povo santo, separado da multidão dos pecadores. Jesus vem e faz o contrário. Não se separa dos pecadores, mas acolhe-os. Não os abandona, mas perdoa-os. Tolera até mesmo no círculo dos doze um traidor, e de qualquer modo, está rodeado de discípulos que estão prontos a negá-lo e abandoná-lo. A esta altura, compreendemos toda a força da parábola. Há um sólido contraste entre o pensamento de Deus (paciente e tolerante) e a intolerante rigidez de muitos servos seus, muitas vezes nós, não somente com o nosso próximo, com a nossa comunidade, mas também conosco, já que até dentro de nós o bem e o mal lutam incessantemente.
Somos convidados à paciência e à tolerância. É verdade! Às vezes, cansamos. Mas lembremo-nos que embora nossos esforços sejam tantos e os resultados tão mínimos, só poderemos ver a grande planta que se tornará a pequeníssima semente de mostarda e o bonito bolo feito com fermento no final de todo processo. E, olhe, que na maioria das vezes, nem veremos todo o resultado, mas só parte dele. Mesmo assim, façamos o que nos pede o Senhor, se a semente e o fermento representam o seu Reino, com toda certeza, atingirá o seu cume.

Assim, sendo nosso coração o terreno onde a semente de Deus é plantada, tenhamos paciência e misericórdia conosco e com o próximo. Tenhamos muito cuidado no modo como tratamos as pessoas, podemos colocar a perder todo um trabalho, na tentativa apressada para eliminar o mal. Temos que esperar o crescimento. Se condenarmos o pecador que há no outro e em mim, há um perigo muito grande de perdermos o que de bom há em nós e que no final é o que transbordará.

As três parábolas do joio, da semente de mostarda e do fermento relatam o amor com o qual Deus cura todas as coisas; da surpreendente iniciativa Divina que com mansidão, com justiça oferece ao homem a capacidade de conter toda a sua Graça. Que Maria, a “cheia de graça” possa ser um exemplo para nós de paciência, tolerância e de confiança total em Deus.

quinta-feira, 7 de julho de 2011

XV DOMINGO COMUM A - Mt 13,1-23

SEMEADORES SEMEADOS

Por mais que o Evangelho seja anunciado, e hoje nas mais variadas formas, podemos constatar que muitas pessoas não o escutam, nem o acolhem, inclusive, acreditam que a mensagem de Jesus seja algo ultrapassado. Talvez este fato possa até suscitar em alguns de nós o seguinte questionamento: se o Evangelho significa boa notícia e se todo o mundo gosta de uma boa notícia, por que ela não está tocando o coração das pessoas?

Em primeiro lugar, devemos admitir que este problema não é de hoje; já no tempo de Jesus e mesmo bem antes, oito séculos antes, como o próprio Jesus cita o profeta Isaías, já havia essa dureza, esse fechamento em não acolher a Palavra de Deus. No tempo de Jesus, isto tocava mais aos doutores da Lei, que o criticavam e o rejeitavam. Mas, enfim, o que pensar de tudo isso, desse relativismo e secularismo que envolve cada vez mais um grande número de pessoas que não dá crédito algum à Palavra de Jesus e quer fazer pensar que a religião está com os dias contados?

No evangelho de hoje, com a parábola do semeador que lança sementes nos mais diferentes terrenos, dando frutos em quantidades diferentes, Jesus quer opor-se a esta opinião e nos mostrar que tal conclusão está errada. Na parábola do semeador, cada um é capaz de entender de imediato que o sucesso ou não do plantio depende de maneira decisiva da qualidade do terreno em que a semente caiu. Quem tem ouvidos, ouça! Jesus convida os seus ouvintes a refletirem que não podem atribuir o sucesso limitado de sua missão a uma insuficiência da sua mensagem (semente), mas devem bater no peito e descobrir que a causa do possível fracasso está na sua carente disposição a acolher a Palavra.

A mensagem de Jesus é boa. Quando esta é bem acolhida, muda a vida de quem a ouviu de modo que se percebe a força e a bênção que essa provoca. Isto se entende melhor ainda quando vemos que o semeador joga as sementes em qualquer lugar, tanto sobre terrenos bons quanto lugares não apropriados para plantar. Ele simplesmente não faz distinção. Talvez com a esperança de que brote algo dali, como às vezes vemos uma bela planta brotar num terreno pedregoso e que persiste ali. Assim, lida do ponto de vista do semeador, a parábola aparece dirigida aos anunciadores do Evangelho. Não temos o direito de escolher onde lançar a semente e onde não. Nós anunciadores da Palavra de Deus, devemos plantar a semente sem fazer distinção de pessoas e esperar pelo tempo de Deus; porque ninguém pode prever o que acontecerá.

A figura do semeador aparece no início do Evangelho e somente no final: o verdadeiro protagonista da parábola é, na realidade, a semente que aparece do início até o fim. A situação suposta da parábola é aquela na qual pareça (veja a insistência sobre isto) que tudo vai se perder, que o mau êxito da Palavra seja total. Pelo contrário, afirma Jesus com a sua palavra, não é assim. É verdade que há os maus resultados, especialmente devido a não abertura à escuta da Palavra de Deus. Mas é certo também que o êxito existe e de acordo com o acolhimento que se dá a Palavra (trinta, sessenta ou cem). Portanto, uma lição de confiança.

Já na explicação dada por Jesus aos discípulos a atenção se concentra não mais sobre a semente, mas sobre os diferentes terrenos. O discurso não parece mais dirigido aos anunciadores do Evangelho, mas aqueles que o escutam e o acolhem. E a explicação se detém não tanto sobre o primeiro ou o quarto tipo de terreno. No primeiro porque a semente desaparece por completo e no outro porque o sucesso é garantido. A ênfase está no segundo e no terceiro tipo de terreno. E o motivo é claro. É exatamente nestes dois tipos de terrenos que são evidenciadas as razões históricas e concretas pelas quais muitos na comunidade desanimavam diante das exigências da Palavra de Deus. São as mesmas dificuldades de hoje: o medo diante do sofrimento ou da perseguição por causa da Palavra e, sobretudo o fascínio pelas riquezas e as preocupações do mundo.

“A pessoa que tem será dado ainda mais, e terá em abundância; mas a pessoa que não tem será tirado até o pouco que tem”. Este provérbio da vida comercial no qual quem já tem algo merece crédito para receber mais e quem não tem a tendência é falir mostra que os que se abrem ao Reino, produzirão frutos sempre mais e em abundância, já os que se fecham perderão até aquilo que têm.
Mas enfim, como explicar que a Palavra de Deus seja realmente rejeitada por muitos? A resposta é verdadeiramente surpreendente: justamente por ser de Deus, deixa ao homem a liberdade de abrir-se ou de fechar-se. A Palavra de Deus tem uma sua fraqueza, que em realidade é a sua grandeza: o respeito pela liberdade do homem. Abramos o nosso coração à Palavra do Senhor.

sexta-feira, 1 de julho de 2011

SOLENIDADE DE SÃO PEDRO E SÃO PAULO – Jo 21,15-19

Neste domingo, celebramos a Solenidade de São Pedro e São Paulo. O que podemos destacar destes dois grandes apóstolos, do testemunho de cada um deles? Pedro e Paulo são bastante diferentes quanto à personalidade, mas idênticos no amor a Cristo e à Sua Igreja. Ambos dão a vida por Jesus Cristo até o martírio em Roma. Dois santos, podemos dizer, que nunca estão parados. Homens como nós, com tantas fraquezas, medos, capazes de trair, de perseguir, mas que tiveram plena confiança em Jesus, o que mudou completamente as suas vidas. Jesus aposta tudo neles. Dá sempre uma nova chance a Pedro, e Paulo não se cansa de repetir que se tornou apóstolo somente pela graça (Gl 1,15).
Falando de Pedro e Paulo, podemos falar da grandeza e santidade que eles representam, mas podemos também falar das suas fraquezas e dos seus pecados; e é justamente aqui que descobrimos que uma coisa leva à outra, pois é exatamente a bondade e a misericórdia do Senhor que muda o coração deles e os transforma até se tornarem de pecadores a grandes santos e a transformar suas vidas num amor humilde e apaixonado pelo Senhor.
Pedro demonstrou várias vezes o seu caráter, a sua fraqueza, o seu cansaço para entender o coração de Jesus. Lembremo-nos quando Jesus lhe diz: “afasta-te de mim, Satanás!”; ou quando caminhando sobre as águas, duvida e Jesus lhe diz: “homem de pouca fé!” Mas, sobretudo é humano e fraco no momento da paixão de Jesus. Ele que tinha afirmado: “mesmo que todos os outros te abandonem, eu jamais te abandonarei”, é o mesmo que na sua fraqueza nega por três vezes a Jesus, jurando nunca tê-lo visto. Entretanto, é esta pobreza de Pedro que encontra o olhar misericordioso de Jesus e por ele se deixa curar.
Depois da ressurreição, às perguntas repetidas de Jesus se ele o ama, responde: “sim, Senhor, tu sabes tudo, tu sabes que eu te amo, tu sabes como te amo”. Até na resposta, Pedro finalmente é sincero, respondendo com um verbo diferente do perguntando por Jesus, demonstra que ama a Jesus, mas ainda não do tanto nem do tipo quanto Jesus pede (de fato, Jesus pergunta por duas vezes: Pedro, tu me amas (ágape = amor incondicional)? O qual responde: tu sabes que te amo (fileo = amor de amizade). Jesus sabia que Pedro estava sendo sincero e por isso, na terceira vez, usa o verbo empregado por Pedro, pois sabia que este não estava ainda maduro para dar sua vida até a morte por Ele. E o amor de Pedro por Jesus a partir deste momento é um contínuo crescer, mesmo em meio às dificuldades e fraquezas, até a prisão, às viagens, e, finalmente, ao martírio pela causa do Reino.
Também Paulo, fariseu convicto, fanático, perseguidor ferrenho dos cristãos, colaborador do martírio de Estevão, é transformado por Jesus, e, assim, vive o resto de sua vida numa missão contínua dirigida aos vários povos que ele pode alcançar. Até o momento no qual pode afirmar: “combati o bom combate, terminei a corrida, guardei a fé. Não me resta outra coisa senão esperar a coroa da justiça que o Senhor, o justo juiz, preparou para mim. O Senhor veio em meu auxílio e me deu forças” (2Tm 4,7-8.17).
Homens frágeis, pecadores, transformados pela misericórdia do Senhor e pela força do seu Espírito. Deram a vida pelo Senhor e estabeleceram as bases da comunidade cristã, a Igreja Católica Apostólica Romana, destinada a se espalhar por todo o mundo. Aquela de Pedro e de Paulo é a nossa humanidade resgatada; também nós não devemos nunca ficar desencorajados diante das nossas fraquezas, de nossas dúvidas, de nossa falta de fé, mas sempre renovar o nosso amor ao Senhor. Dois apóstolos diferentes, colunas fundamentais da Igreja, garantindo a unidade desta. Pedro recebe o carisma, isto é, o dom e a tarefa, de ser referência para a unidade e a comunhão entre os que acreditam em Cristo, através do serviço à Verdade.
Pedro é a pedra sobre a qual Cristo quis edificar a sua Igreja, a sua comunidade e a ele confia as chaves do Reino. Paulo recebeu a tarefa de difundir a palavra de Verdade, o Evangelho, até os confins da terra, pregando e fundando comunidades cristãs. São santos que encontram no Papa o continuador e o testemunho da missão de Cristo que continua em meio a nós. No Papa, encontra-se a autoridade de Pedro, chefe visível da Igreja e centro de unidade, e no Papa, encontramos o ardor missionário de Paulo.
A festa de hoje nos ajuda a renovar a nossa fé. A fé cristã católica não é simplesmente uma fé em Deus ou em Cristo, mas é fé na Igreja. Dizemos no Credo: “Creio na Igreja, una, santa, católica e apostólica”. É na Igreja que nós podemos ter uma relação autêntica com Cristo, único salvador e com Deus, o Pai, que Cristo nos revelou. A solenidade deste domingo nos chama a ser presença ativa, assumindo a nossa responsabilidade na Igreja, para que sejamos sempre mais “comunhão” no interior dela e sejamos sempre mais “missão” no mundo de hoje.
Pedro e Paulo. Simão e Saulo. Dois novos nomes, dois percursos de novidade. Quem encontra Jesus não pode permanecer como era. Porque o Senhor toma aquilo que mais detestamos em nós e nos transforma. A cabeça dura do pescador Simão se faz rocha sobre a qual é construída a Igreja. Pedro é a pedra. A fé de Pedro em Deus foi tão firme, que Jesus o chamou de “a pedra”, o discípulo sobre cujos ombros Jesus construiria sua Igreja. Toda a fé católica foi erguida, literalmente, sobre São Pedro, a Pedra”.
Já a paixão exagerada de Paulo pela lei se transforma em ardor por Jesus Cristo. Mas o que então une estas duas figuras tão diferentes? O amor por Jesus Cristo. É Cristo quem coloca os dois em estreita colaboração porque a diversidade de carismas é o que faz crescer.
Em que sentido a trajetória da nossa vida espiritual se identifica com a de Pedro e a de Paulo? Meus atos dão testemunho de que eu realmente amo a Jesus Cristo? Meu serviço na minha Igreja local faz crescer a união e o amor na comunidade ou divide-a ainda mais? Eu amo, reconheço, respeito, obedeço e rezo pelo nosso Papa Bento XVI, sucessor de Pedro? Parabéns ao Santo Padre que completa seus 60 anos de sacerdócio ministerial a serviço do Evangelho!