sexta-feira, 27 de maio de 2011

VI DOMINGO DA PÁSCOA – Jo 14,15-21

Se me amais, observareis os meus mandamentos

Continuamos neste VI domingo da Páscoa a leitura do cap. 14 do Evangelho de João, um texto singular onde é mostrada a cara da comunidade joanina que vive a experiência da fé, encontrando cada vez mais com maior clareza a própria identidade dentro do vasto mundo no qual se encontra inserida e, às vezes, perdida diante das dificuldades que deve enfrentar, em particular, uma comunidade que é chamada a viver uma lógica que diante da qual reagiram negativamente os chefes da época e as autoridades religiosas, a saber, a lógica da cruz.

Mas esta pequena comunidade recebe um mandamento muito forte do Senhor, sobre o qual se baseia toda a sua vida e identidade: “Não se perturbe o vosso coração. Tendes fé em Deus, tende fé em mim também”. A fé liberta o homem do medo radical que este prova na experiência cotidiana da própria fragilidade: é uma coisa cada vez mais evidente como nós naturalmente buscamos na experiência religiosa, nas suas formas mais diversas, um refúgio para os nossos “turbamentos”. E, a novidade cristã é que a sua coragem, “escandalizou” os chefes políticos e religiosos: “tendes fé em Deus, tende fé em mim”, diz o Senhor aos seus discípulos. “Ele propõe um duplo mandamento sobre a fé: ter fé em Deus e ter fé em Jesus... Não são dois atos separados, mas um único ato de fé” (Bento XVI).

Os discípulos sentem a dor da separação e se perguntam como serão as coisas depois da partida de Jesus. Nós também na nossa caminhada de relação pessoal com o Senhor, podemos muitas vezes senti-lo longe, inalcançável. Mas Jesus demonstra que ele não abandona nunca os seus. Ele nunca nos abandonará. No Evangelho deste domingo, ele anuncia a vinda de um auxílio, um defensor, um consolador, um advogado, o paráclito, o Espírito de Verdade (14,15-17) e a sua própria vinda (14,18-21). E, por fim, declara que todos os ensinamentos que ele deu até aquele momento nunca serão ultrapassados, mas serão válidos para sempre. Somente quem se deixa guiar por seus mandamentos pode receber o Espírito Santo e se abrir ao amor de Jesus e do Pai.

A primeira consideração a ser levada em conta na leitura deste texto é que no seu início e no seu final Jesus fala respectivamente do amor por ele e da necessidade de seguir os seus mandamentos. Na dor que os discípulos sentem por separar-se de Jesus, revela-se o amor deles por ele. Por isso, se querem demonstrar que este sentimento é verdadeiro, este desejo de tê-lo presente sempre, deverão fazê-lo, mantendo esta comunhão através da observância dos seus mandamentos.

Observar os mandamentos significa acolher com fé o conjunto da sua Palavra (14,23-24), sendo guiado por ela. Jesus permanece presente na sua palavra e no seu chamamento. Quem se deixa guiar por esses, segue Jesus, permanece unido a ele e demonstra assim o seu amor por ele. Pois o amor não consiste em palavras, sentimentos ou recordações, mas em dar ouvidos, acreditar e em atos.

Na verdade, a quem permanece unido a Jesus desta forma, Deus concede o Espírito Santo como novo socorro, a pedido de Jesus. Até agora, os discípulos sempre contaram com a ajuda de Jesus, com a sua proteção, o seu cuidado, a sua guia, a sua força. Em nenhum momento, foram deixados de lado ou rejeitados por Jesus, sempre o tiveram presente. Agora que Jesus vai embora, os discípulos começam a sentir medo de ficar sozinhos, desamparados, mas Jesus promete um outro auxílio: o Pai lhes dará o Espírito Santo.

A ação do Espírito Santo é descrita em seguida com mais precisão. Ele virá como auxiliador no lugar de Jesus. É o Espírito de Verdade que faz os discípulos permanecerem na verdade transmitida por Jesus e os protege dos maus mestres e das escolhas erradas. Só se acreditarmos em Jesus cumprindo os seus mandamentos, poderemos estar abertos ao Espírito, percebê-lo e experimentar a sua ação em nossas vidas.

O importante para os discípulos e para nós, é que Jesus não nos deixa sozinhos, nunca. Ele vai morrer, mas ele retorna aos discípulos quando os encontrará como o Senhor Vivo, Ressuscitado. De fato, com a sua morte, ele desaparece para sempre do mundo. Jesus faz-se ver (diferente de aparecer) somente aos discípulos. O mundo conhece somente a sua morte de cruz. E Jesus volta exclusivamente aos discípulos e mostra-lhes que ele está Vivo.

De fato, João já acenou que só depois da ressurreição é que os discípulos entenderão o real significado daquilo que Jesus havia dito sobre o templo (2,21-22) e o significado da sua entrada em Jerusalém num jumento (12,6). Agora Jesus anuncia aos seus discípulos que somente depois da ressurreição, eles compreenderão verdadeiramente a sua comunhão com o Pai e com eles. Porque com a ressurreição, demonstra-se que Deus está junto a Jesus com todo o seu amor e o seu poder, confirmando assim suas palavras e obras. Mas a ressurreição também torna evidente a relação especial que Jesus tem com os seus discípulos: ele mostra-se como o Vivente somente a eles. De forma que o seu encontro com Jesus é um novo impulso e um fundamento duradouro para acreditar naquilo que Jesus já falou sobre a perfeita relação com o Pai (14,10-11) e sobre sua relação indissolúvel com eles.

Finalmente, alargando o olhar além dos seus, Jesus convida à perfeita comunhão com ele toda a humanidade de todos os tempos: “quem acolhe os meus mandamentos, esse me ama. Ora, quem me ama será amado por meu Pai, e eu o amarei e me manifestarei a ele” (14,21). Os seus mandamentos permanecem válidos para sempre. Assim, buscar nesta vida a relação com Jesus consiste em conhecer seus mandamentos e deixar-se determinar por eles. Se nos voltarmos para ele desta maneira, encontraremos o amor de Jesus, que se revelará a nós, a fim de que o reconheçamos sempre melhor e com mais profundidade nos unindo a ele de modo cada vez mais sólido e vivo.

Assim, concluindo todo o pensamento deste cap. 14, podemos dizer que só Jesus é o caminho para se chegar ao Pai. Todos os apelos que ele fez enquanto estava neste mundo continuam sendo a única via de acesso ao Pai. Somente se conhecermos estes e nos deixarmos guiar por eles, nos uniremos a ele e nos prepararemos para receber o dom do Espírito Santo e a plenitude da comunhão de amor com o Pai e com o Filho.

quinta-feira, 19 de maio de 2011

V DOMINGO DA PÁSCOA – Jo 14,1-14

Jesus é o único caminho e a única verdade que leva à vida plena

Quando se despede, Jesus explica aos seus discípulos que ele não se separará para sempre deles; pelo contrário, sua partida estabelece uma união ainda mais forte com eles. Logo no início do discurso, Jesus fala da atitude fundamental com a qual os seus discípulos devem enfrentar a situação da separação pelo fato de ele morrer na cruz: “Não se perturbe o vosso coração! Tendes fé em Deus, tende fé em mim também!” (14,1). Tal exortação vale não apenas para aqueles discípulos para os quais ele dirigiu estas palavras, mas para todos aqueles que acreditarão nele, para nós. De fato, nós nos encontramos na mesma situação daqueles discípulos, já que não somente Deus, mas também Jesus agora é invisível aos nossos olhos mortais.

Mais do que nunca, é hora de mantermos o nosso mais sólido fundamento e sustento inquebrantável em Deus e em Jesus: a fé. Não podemos perder o rumo, ficar preocupados ou inquietos. Só na fé, seremos capazes de enfrentar esta situação. Várias vezes Jesus fala da fé como resposta aos sinais realizados por ele e como via de acesso para a vida eterna.

Exatamente agora que Jesus não está mais presente como homem, a fé dos discípulos e a nossa fé é chamada a manifestar-se. Sem ver, os discípulos devem abandonar-se com ilimitada confiança ao Pai e ao Filho. Para o próprio Jesus, sua morte é o retorno para a casa do Pai (13,1). Também nós teremos a pátria perene não nessa terra, mas junto de Deus. A vida comum na sua forma terrena chega ao fim. Jesus não parte para nos deixar abandonados, mas para preparar um “lugar” junto do Pai, ele nos toma consigo para estarmos em eterna união com Ele. Não podemos ficar parados olhando a cruz, mas devemos ver com fé o fim, a sua finalidade, ou seja, como tudo aquilo que Jesus cumpriu foi endereçado à comunhão eterna com o Pai.

Assim, não podemos ficar passivos, inativos, esperando ser conduzidos ao Pai. Pelo contrário, Jesus responde a Tomé e nos instrui sobre o caminho de acesso ao Pai: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida, ninguém vai ao Pai senão por mim” (14,6). Os discípulos não são simplesmente levados ao Pai, mas devemos nós mesmos colocar-nos a caminho do Pai. O caminho é somente um: Jesus. Na parábola do bom pastor, ele tinha dito: “eu sou a porta, quem entrar por mim será salvo” (10,9).

É impossível para nós salvar-nos da corrupção, pois há um muro impenetrável e insuperável, inacessível. Mas há uma porta, uma brecha neste muro, um único acesso à salvação: Jesus. A salvação consiste na união com Deus. Como é única a porta, assim Jesus é também o único caminho para o Pai, enquanto é Verdade e Vida.

“Jesus é a Verdade” significa que somente por meio dele se pode conhecer o mistério de Deus. Somente por meio dele, na sua realidade de Filho, é revelado que Deus é realmente Pai e vive desde sempre em afetuosa comunhão com este Filho (1,18). “Jesus é a Vida” significa que nós temos a união com Deus Pai, e portanto, a verdadeira vida eterna, somente através da união com Jesus. Somente por meio dele nos são concedidos o conhecimento do Pai e a união com o Pai. Por isso, Jesus é o único caminho para o Pai. Deus é inacessível a nós na sua verdadeira realidade de Pai. Com as nossas forças, nós não podemos chegar por nenhum caminho a Deus: devemos recorrer a Jesus, no qual nos é dado acesso a Deus.

Sempre que Jesus diz: “eu sou”, ele demonstra que na sua pessoa está presente Deus como doador de salvação para nós. Deus está escondido e inacessível; mas no Filho nos doa a porta e o caminho, tornando-nos possível a união com ele. E justamente porque só Jesus é o Filho unigênito igual ao Pai, somente ele é a porta e o caminho de acesso ao Pai. Todos os outros caminhos não levam ao Pai. Jesus é a única via que conduz à meta. Nós não podemos chegar ao Pai com nenhum outro guia, nem com o exercício do pensamento e da meditação, nem por meio de técnicas espirituais ou de métodos, nem com qualquer outro meio que exclua Jesus. Só por meio de Jesus temos o conhecimento de Deus e a união com ele na sua verdadeira realidade de Pai.

Em resposta a Felipe, Jesus esclarece de que modo ele é o caminho que leva ao Pai. Felipe lhe pede: “Senhor, mostra-nos o Pai, isso nos basta” (14,8). Ele pensa certamente a uma teofania, a uma visão direta de Deus, a uma manifestação extraordinária de Deus. Mas Jesus não é “o caminho” enquanto transmite fenômenos e experiências excepcionais, ele é o caminho com as suas palavras, com as suas obras, com a vida em comum com os discípulos. E a única possibilidade de entrar e de percorrer esta via é a fé. Para quem tem fé, Jesus diz: “quem me viu, viu o Pai” (14,9).

Quem pela fé, reconhece Jesus como Filho, chega através da fé ao Pai. Somente para quem crê nele, Jesus é o caminho, e continuará sendo mesmo quando não será mais presente visivelmente entre os seus discípulos. O único vínculo necessário e firme com Jesus é a fé, por meio da qual o reconhecemos como o Filho de Deus, nos confiamos a ele e somos guiados por ele. Não existe nenhum outro vínculo válido com ele fora deste. Na hora da despedida, Jesus mostra ainda uma vez aos discípulos como eles permanecem unidos a ele, e através dele, ao Pai somente por meio da fé, e em qualquer situação por meio da fé.

Na resposta a Felipe, Jesus dá a razão pela qual quem acredita no Filho vê o Pai e chega a ele. O Filho está no Pai e o Pai está no Filho (14,10-11). Mesmo após a separação deste mundo, Jesus permanece unidos a nós; prova disso é que ele escuta as nossas preces e cumpre através dos seus discípulos as suas obras. Tais discípulos que receberam a missão deixada por ele de revelar o Pai e que o fazem em nome de Jesus, receberão resultados ainda maiores porque é ele que glorificado e ressuscitado age por meio deles, por meio de nós.

Jesus é o único mediador entre Deus e nós, entretanto, como afirma o Catecismo da Igreja Católica n. 956: “pelo fato que os do céu estão mais intimamente unidos com Cristo, consolidam mais firmemente a toda a Igreja na santidade... Não deixam de interceder por nós ante o Pai. Apresentam por meio do único Mediador entre Deus e os homens, Cristo Jesus, os méritos que adquiriram na terra... Sua solicitude fraterna ajuda, pois, muito a nossa debilidade. Muitos cristãos pensam que os Santos e todos os que morrem já não podem rezar. É um engano incrível pensar que Deus não permita que o amor dos santos siga vivendo ao rezar por seus seres amados, pois se esquece que nosso Pai é Deus de vivos, e não de mortos. "Os quatro viventes e os vinte e quatro anciões se prostraram diante do Cordeiro. Tinha cada um uma cítara e taças de ouro cheias de perfumes, que são as orações dos santos" (Ap 5,8). A mediação dos Santos como intercessores e estímulo é real e verdadeiramente forte já que eles vivem a Glória de estar com Cristo nos Céus, e seguindo de novo o apóstolo Paulo quando diz: "Exorto, pois, acima de tudo que se façam pedidos, orações, intercessões e ações de graças por todos os homens (1 Tim 2,1)", os cristãos têm a necessidade de orar para viver o amor reconciliador que nos ensinou Jesus ao nos abrir as portas da Casa do Pai.

terça-feira, 3 de maio de 2011