segunda-feira, 25 de abril de 2011

II DOMINGO DA PÁSCOA – Jo 20,19-31

Do medo à paz, da dúvida à fé

O Evangelho deste II Domingo de Páscoa nos informa que “ao anoitecer daquele dia, o primeiro da semana”, os discípulos se encontravam num lugar a portas fechadas por MEDO dos judeus.

Quem nunca sentiu um medinho ou um medão na vida? Todos nós sem exceção temos medo de algumas coisas. Pode ser o medo de cair, de andar de avião, de dirigir, de uma bala perdida, de ser assaltado, de perder algo, de ser traído, de mudar, do escuro, de feitiço, de ventania, relâmpago e trovão, da morte, de terroristas, de envelhecer, do fracasso, de ouvir a verdade, de adoecer, da solidão, da rejeição, da indiferença, da arrogância, do preconceito, da ignorância, da corrupção, da inveja, do futuro, da responsabilidade, de falar em público, de ter que lidar com gente de má índole, de casar, de que o casamento não dê certo, de errar, de enchentes, de tremores de terra, de perder o emprego, de rã, de aranha, de rato, de guerra, e, enfim, medo de ter medo.

O medo sempre existiu e é um sentimento que proporciona um estado de alerta e que provoca reações físicas como descarga de adrenalina, aceleração cardíaca, suor, entre outros. Deve ser considerado como algo normal na nossa vida, e de modo equilibrado necessitamos dele.

O problema é quando o medo vira doença, e o mundo está ficando assim. A resposta anterior ao medo é conhecida por ansiedade. Na ansiedade, a pessoa teme antecipadamente o encontro com a situação ou objeto que lhe causa medo. Sendo assim, é possível se traçar uma escala de graus de medo, no qual, o máximo seria o pavor, o pânico, sofrimento psíquico.

Mas o medo faz parte do cotidiano de todos nós. Não há quem escape do medo, nem mesmo Jesus. Fazendo-se homem em tudo, menos no pecado, ele experimentou no jardim do Getsêmani um ataque de pânico tão grande que chegou a suar sangue (hematridose: a emoção, o medo, o terror, o susto, a angústia, a tensão é tão extrema que produz o rompimento das finíssimas veias capilares que estão sob as glândulas sudoríparas, o sangue se mistura ao suor e se concentra sobre a pele). 
Jesus passou por tudo isso, primeiramente para nos mostrar que não devemos ter vergonha de ter medo, o que piora ainda mais a situação; depois, para nos ensinar que nunca devemos fugir do medo, mas olhá-lo com consciência e enfrentá-lo. Cada um conhece os seus medos. Todo mundo tem medo de alguma coisa. O medo não pode simplesmente desaparecer, mas também não podemos deixar que ele nos domine. E a primeira reação que nos vem à mente é fugir. Entretanto, Jesus não fugiu da cruz, foi reconhecendo a sua fraqueza humana de medo, de angústia, de pavor, que obteve de Deus a paz para abraçar o seu destino com toda serenidade.

É preciso permitir-se sentir medo. E, no final de contas, compreender que o que importa não é o fato de não sentir medo, mas de deixar que ele nos leve a Deus. É o medo, que, no fundo, nos convence que só podemos nos sustentar em Deus. Nós, os continuadores da missão de Jesus, não devemos nos fechar no medo diante das provações, dos desafios, das perseguições do mundo, mas devemos nos abrir ao dom que o Ressuscitado vem nos trazer: “A paz esteja convosco!” Não é uma saudação, mas é a PAZ que Ele tinha prometido quando eles se encontravam aflitos por causa de Sua partida.

Jesus Ressuscitado não liberta os discípulos das aflições do mundo, mas lhes oferece segurança e serena confiança. É uma paz diferente da que o mundo oferece. É uma paz que resiste aos problemas, às provações, vence o medo. É a paz messiânica, o cumprimento das promessas de Deus, uma força para fazermos as coisas mesmo com medo, é a vitória sobre o pecado e sobre a morte, a reconciliação com Deus, tudo isto como fruto de sua paixão e morte de cruz.

Jesus mostra suas chagas nas mãos e no lado, comprovando assim que Ele é verdadeiramente aquele que foi crucificado. Não precisa ter medo, ele não é um fantasma. Os discípulos devem ver que Ele efetivamente passou pela morte, e venceu-a. Mostrando as feridas, Jesus quer também evidenciar que a paz que Ele dá vem da cruz. Jesus torna-se para sempre o fundamento seguro da paz. E novamente, ele concede a paz aos seus discípulos e associa este gesto a sua missão. Somente se estes forem repletos de sua paz, poderão cumprir a missão a eles confiada, vencendo a rejeição e o ódio que deverão enfrentar. Para esta missão, Jesus sopra nos discípulos o Espírito Santo. Este gesto recorda o sopro de Deus que dá a vida ao homem. É sinal de uma nova criação: “Recebei o Espírito Santo!” 
Aqui se trata da transmissão do Espírito Santo para uma missão particular. Enquanto no Pentecostes é a descida do Espírito Santo sobre todo o povo de Deus, aqui, Jesus concede o poder de perdoar ou não perdoar os pecados a um grupo específico de pessoas. É Deus quem tem o poder de perdoar os pecados. Jesus concede este poder e o transmite à sua Igreja através dos discípulos. Convém lembrar que trata-se aqui do “sacramento da reconciliação” praticado em diversas formas no curso da história da Igreja.

O “reter os pecados” não é uma condenação, mas é um renovado apelo à conversão. 
Num segundo momento do relato, nos deparamos com Tomé, chamado Dídimo (=gêmeo). Este não estava presente quando Jesus apareceu por primeira vez ao grupo. Estes lhe relatam: “Vimos o Senhor!”. Mas Tomé não acreditara no que eles tinham dito, ele mesmo quer comprovar. 
É muito importante esta parte do Evangelho para nós, leitores de hoje, pois, de fato, não vimos Jesus Ressuscitado. E neste ponto, somos irmãos gêmeos de Tomé. Frequentemente, na nossa vida, os outros nos contam o que fazem de bom ou o que viram de bom e muitas vezes não acreditamos. Por que acontece isto? Quando temos uma facilidade impressionante para acreditarmos em difamações muitas sem pé nem cabeça.

Pois é, as coisas boas sempre queremos comprová-las para confiar. Tomé escuta dos outros que Jesus está vivo. E se não for verdade? Se fosse uma ilusão pelo desejo ardente de ver Jesus? Ele é prudente. Pensa aí se nenhum dos discípulos tivesse tocado nem tivesse dito que viu Jesus depois da sua morte. Acreditaríamos? Parte daí o interesse para buscar provas. Jesus não vê em Tomé uma pessoa totalmente descrente, mas um homem que na sua dúvida, busca a VERDADE. E Jesus ajuda Tomé. Ele tem compaixão de Tomé porque sabe que este ainda não tem a paz que vem da fé, por isso o satisfaz plenamente: “põe, Tomé, o teu dedo nas minhas chagas”.

Bom pra nós que hoje sabemos que os apóstolos viram e tocaram as feridas das mãos e do lado de Jesus; portanto, Ele ressuscitou verdadeiramente! E Ele nos deixa um recado precioso: “Bem aventurados aqueles acreditarem sem me terem visto!” De fato, os últimos dois versículos do Evangelho afirmam que este foi escrito para que creiamos que Jesus é o Messias e para que, acreditando, tenhamos vida por meio Dele!

1. Permito que o medo me feche, me paralise e me impeça de crescer? Me abro aos outros?

2. Procuro receber a paz que Jesus quer me dar?

3. Reconheço que o mesmo Jesus crucificado é o mesmo Ressuscitado?

4. Imploro a ação do Espírito Santo na minha vida?

5. Sinto-me enviado por Jesus?

6. Me abro ao perdão? Tenho dificuldade em perdoar o próximo?

7. O que há de Tomé em meu coração neste momento da minha vida: desânimo, falta de fé, dúvida, soberba?

8. Como me esforço para dizer como Tomé: “Meu Senhor e Meu Deus”? Sou consciente e aceito que a fé diz respeito a coisas que não posso ver, pegar etc?

sábado, 23 de abril de 2011

VIGÍLIA PASCAL – פסחא - PASSAGEM PARA A VIDA

Sempre é bom relembrar o que está por trás da liturgia da Vigília Pascal para que ela seja bem compreendida e bem vivida. Por isso, apresento novamente o comentário acerca da III leitura (Ex 14,15-15,1) desta liturgia magnífica a fim de ajudar a colhermos ao máximo os frutos que ela nos propõe.
Antes de tudo, devemos notar que no Evangelho da vigília (Mc 16,1-7), Marcos nos dá a informação de que “bem cedo, no primeiro dia da semana, ao nascer do sol, elas (Maria Madalena, Maria, a mãe de Tiago, e Salomé) foram ao túmulo”. Portanto, a ressurreição foi constatada na manhã do primeiro dia da semana e por isso, está para sempre ligada a este momento.
Em Gn 1, Deus criou a luz no primeiro dia da primeira semana do universo. No primeiro dia da primeira semana da nova criação, Jesus Cristo, a luz do mundo, venceu a morte. Deste modo, o Evangelho religa a ressurreição de Jesus Cristo à criação do mundo.
Depois, em Gn 1, mostra que no princípio, só havia trevas. Deus cria a luz e a partir daí, há uma alternância entre luz e trevas, entre dia e noite. No Apocalipse, no final das Escrituras, já não há trevas, mas um dia sem ocaso, a noite não existe mais na Nova Jerusalém (Ap 21). Assim, das trevas fixas de Gn 1 à luz total do Apocalipse, o dia da ressurreição marca a vitória definitiva da luz sobre as trevas e antecipa o dia sem ocaso da Jerusalém celeste.
Outra particularidade desta liturgia é o valor simbólico do sol e da sua trajetória cotidiana (os antigos achavam que era o sol que se movia). Este simbolismo tem duas caras: o percurso diurno do sol, no qual nasce a cada manhã a leste (nascente) e se põe a oeste (poente), tornando-se espontaneamente em muitas religiões símbolo da vida humana; e o percurso noturno onde todas as tardes, o sol desaparece a oeste e a cada manhã reaparece a leste, isto é, vai da morte para o nascimento; portanto, símbolo de RESSURREIÇÃO.
Neste itinerário misterioso e invisível, inacessível e escondido se cumpre o mistério de regeneração do sol. Trata-se, certo, de uma ressurreição cíclica. A ressurreição de Jesus, porém, é única e não se repete. O simbolismo solar presente em Ex 14 é aquele do percurso noturno do sol, porque Israel atravessa o mar durante a noite, transformando-se num caminho de ressurreição. Começa à tardinha e acaba “ao romper da manhã”. À aurora, Israel pode contemplar a derrota dos seus inimigos e celebrar a sua SALVAÇÃO.
Para ir do Egito em direção ao deserto do Sinai, é necessário caminhar do oeste para o leste. Duas vezes, o texto de Ex 14 afirma que os israelitas atravessaram o mar que formava duas muralhas, uma à direita e a outra à esquerda. Ora, na Bíblia, a direita corresponde ao sul e a esquerda ao norte. De fato, para se orientar, como diz a palavra mesma (orient-ar), os antigos viam no leste o oriente, que era o ponto de referência. Quando se olha para o oriente, o sul esta à direita e o norte à esquerda. Assim, Israel foi do Egito para o deserto, do oeste para o leste, da escravidão para a liberdade, das trevas para a aurora da salvação.
Outro simbolismo é o da passagem do mar. Para os israelitas, a marcha através do mar, torna-se uma experiência de transformação, isto é, de morte e de ressurreição, no sentido amplo da palavra. Entraram no mar, escravos e temerosos (Ex 14,10b-12), saíram livres e acreditando em Javé (14,31).
O mundo do mar é o mundo da morte. Israel atravessa o mar durante a noite, ou seja, atravessa o mundo da morte e “morre”. Porém, aquilo que morre é o Israel escravo, assustado pelo exército egípcio e que quer retornar ao Egito (v.10b-12). O Israel que sai do mar já não teme o faraó, mas o Senhor. O Israel que contempla a aurora, sobre a outra orla do mar não é mais o mesmo. É um Israel transformado, transfigurado, regenerado pela sua experiência, como o sol se regenera a cada noite.
O mesmo simbolismo é expresso pelo batismo: quem entra nas águas batismais é prisioneiro das forças do pecado, morre e é sepultado com Cristo, depois, sai das águas, redimido e renovado, ressuscita com Cristo para entrar na vida nova do Cristo ressuscitado.Enfim, a liturgia da vigília pascal retomou no seu desenvolvimento todo o simbolismo inerente à passagem do mar que é descrito em Ex 14.
A liturgia começa fora da igreja, no escuro. Se as igrejas são “orientadas”, a entrada da igreja se coloca a oeste. Entrar numa igreja significa, portanto, ir do ocidente ao oriente e fazer um percurso de ressurreição. Ali, a oeste, acende-se o fogo, símbolo da ressurreição de Cristo. Este fogo guia os fiéis para a igreja e finalmente o círio pascal é celebrado (“Exultet”). A procissão do círio pascal vai do oeste ao leste, como o sol durante a noite e como os israelitas que atravessavam o mar, para aclamar enfim, Cristo, morto e ressuscitado, vitorioso da morte.
Além do simbolismo da marcha do ocidente ao oriente, a vigília pascal retoma o simbolismo das águas. O momento mais claro a propósito é a bênção da água. E há um gesto muito significativo: a imersão do círio pascal na água. Ora, esse gesto queria simbolizar a entrada de Jesus Cristo nas águas da morte e a sua ressurreição. Além disso, como Jesus Cristo saiu vitorioso da morte, fez da morte não o fim da vida, mas a passagem para a vida. O círio pascal, imerso nas águas, transforma as águas mortíferas em águas regeneradoras.
Nesta noite, no mar, Israel passa da escravidão à liberdade, do medo diante do exército do faraó ao temor do Senhor, da servidão no Egito ao serviço do Senhor, da covardia à fé. Peçamos ao Senhor para nós e para toda a Igreja que o caminho de Páscoa seja uma experiência semelhante, isto é, uma passagem das trevas à luz e que Deus possa transformar qualquer morte numa via para a ressurreição. Feliz Páscoa! חג פסחא שמח

sexta-feira, 22 de abril de 2011

UM BEIJO DE ADORAÇÃO

“Que a nossa inteligência, iluminada pelo Espírito da Verdade, acolha, com o coração puro e liberto, a glória da cruz que se irradia pelo céu e a terra” (S. Leão Magno).

O mesmo santo nos diz que a santa cruz “é fonte de todas as bênçãos e origem de todas as graças. Por ela, os que creem recebem na sua fraqueza a força; na humilhação, a glória; na morte, a vida”. Cantemos, nós também, a glória da Santa Cruz.

A liturgia da sexta-feira santa ao referir-se ao culto à Cruz se expressa dizendo que se trata de uma “solene adoração da santa Cruz”, deixando inclusive a possibilidade de dobrar o joelho diante dela. Penso que essas palavras calaram no coração de mais de um cristão deixando-o pensativo, com maior razão se refletimos naquilo que realizamos: aproximamo-nos da imagem do Cristo crucificado e o beijamos; adoramos a Cristo, a sua Cruz. Na verdade, Cristo e a sua Cruz são identificados nesta liturgia solene de hoje.

Duas perguntas: porque adoramos a Cruz? Porque a beijamos? No Brasil, devido a influência de teorias provindas de ambientes evangélicos não é raro encontrar também entre católicos certa desconfiança e aversão pelo culto às imagens. Hoje eu gostaria de conversar com você sobre esse tema sem uma finalidade defensiva, apologética, mas simplesmente observando o que a liturgia da Igreja nos diz no dia de hoje. Tendo em conta que qualquer conseqüência apologética será colateral, quero dialogar especialmente com aqueles católicos que aceitam com toda paz a sua fé celebrada na liturgia de hoje.

Nós adoramos a Santa Cruz porque ela foi o madeiro no qual o próprio Deus feito homem retirou a maldição do pecado que pesava sobre nós. A cruz era sinal de maldição, suplicio dos culpados e grandes marginais da sociedade. Cristo quis transformar esse sinal de maldição em sinal de benção. Mas, contudo, para entender melhor por que adoramos a Santa Cruz é preciso que compreendamos uma realidade: as coisas contêm um significado. Por exemplo: beijar uma pessoa tem distintos significados quando realizado em diversas circunstâncias. Uma criança que dá um beijo na sua mãe quer significar todo o carinho e agradecimento que sente por ela; duas pessoas que se dão os dois beijinhos sociais quando se conhecem não querem significar mais que o prazer que sentem em conhecer-se e celebrar dessa maneira ritual essa nova relação de amizade que começa; dois namorados que se beijam querem expressar o amor que sentem mutuamente. Há beijos que significam pura sensualidade, outros são exposições das escórias e dos desvios humanos. Enfim, um beijo pode significar muito! No caso do beijo à Santa Cruz, trata-se de um beijo que se pode interpretar em relação a outro beijo, aquele que o sacerdote dá ao altar todos os dias ao começar e ao terminar a Santa Missa: um beijo cheio de amor, de respeito, de admiração. O Altar representa a Cristo como a Cruz também o representa.

Como as coisas têm um significado, também é preciso que entendamos esse significado em relação à nossa capacidade de captá-lo e de dar significação aos nossos gestos. Uma pessoa que abre o facebook ou o orkut e vê as fotos dos seus amigos e familiares não começa a pensar se essa foto ocupa 300 KB ou 2 MB, nem nos seus pixels, tampouco na materialidade ou imaterialidade dessa foto em concreto. Ao contrário, ao ver uma determinada foto, a nossa mente se dirige naturalmente à pessoa que a foto representa. Hoje em dia, ainda que as fotos em papel sejam mais incomuns, talvez o leitor se lembre daquele beijo que deu numa foto de alguém querido. Nem passa pela minha mente que você queria dar um beijo à foto em si, tenho certeza que você queria dá-lo à pessoa querida representada por ela.

Dessas considerações, podemos concluir que há pelo menos duas maneiras de olhar uma imagem: vê-la simplesmente enquanto imagem, na sua mera materialidade, ou vê-la enquanto significativa de realidades que ela expressa. A mente humana não fica na primeira maneira de ver uma imagem a não ser que esteja fazendo um estudo sobre a qualidade do papel, a tonalidade das cores etc. A mente humana vê a realidade material e, abstraindo totalmente da matéria que tem diante de si, vai diretamente à realidade que ela representa. Trata-se de uma “viagem” que a mente faz desde a imagem à realidade. Sendo assim, quando nós contemplamos umas flores diante do Santíssimo, umas velas acendidas a algum santo, umas toalhas mais vistosas no altar do Senhor, nós não podemos parar na simples materialidade dessas coisas.

Deus conhece melhor que nós mesmos como funcionamos. Ele sabe que nós conhecemos e amamos as realidades que não vemos a partir das que vemos. Condescendente com essa nossa maneira de conhecer e de amar é que o Senhor Deus, desde o Antigo Testamento, aborrecendo a idolatria – que consiste em dar às criaturas o lugar que corresponde ao Criador –, foi permitindo pouco a pouco representações materiais de realidades espirituais. Nesse sentido, lembremo-nos dos dois querubins de ouro colocados nas extremidades da Arca da Aliança (Ex 25,18-22), da serpente de bronze (Nm 21,1-10), das várias imagens que Deus permitiu que Salomão pusesse no Templo para adorná-lo (I Re 6,23-35.7,29), daquele signo misterioso de Ezequiel (Ez 9,1-7) etc.

No entanto, Deus, apaixonado pelo ser humano, não se contentou em permitir representações materiais das realidades espirituais, mas ele mesmo quis ser visto fisicamente pelo homem, “e o Verbo se fez carne” (Jo 1,14). Quem poderia ir contra a materialidade da religião quando o próprio Deus se fez matéria? Quem ainda poderia ir contra as imagens se Cristo é a imagem perfeita do Pai (cf. Cl 1,13-16)? Quem se atreveria a professar um cristianismo puramente espiritual quando Deus quis um sadio materialismo da fé? A pessoa humana é imagem de Deus, compreende através de imagens e as venera, não por causa da sua materialidade, mas porque são expressões das realidades espirituais. Há casos em que essa veneração se identifica com a adoração. Por exemplo, no caso da “solene adoração da Santa Cruz”. Não adoramos, no entanto, a materialidade da Cruz, mas tudo o que ela significa: Cristo crucificado nela, nosso único Senhor e Salvador. Esse contato com a Santa Cruz nesta sexta-feira santa deveria fazer com que pensássemos que estamos entrando em contato com o Mistério do Gólgota, estamos beijando o Senhor no ato central da nossa Redenção. Estamos aderindo-nos à Cruz, ao sofrimento, às ignomínias, às afrontas, aos desprezos que Cristo sofre na Cruz. Beijar a Cruz e adorá-la significa entrar em contato com uma realidade muito exigente: pensemos no Cristo sofredor e glorioso e nos submetamos ao seu reinado. Paradoxalmente, esse é um reinado que se manifesta de uma maneira que nos deixa um pouco confusos: um rei lastimado, derrotado, sem coroa a não a ser a de espinhos, sem vestes esplendorosas a não ser o manto de púrpura e de escárnio que depois lhe tiram, sem súditos a não ser Nossa Senhora e outras poucas pessoas que não se envergonharam e permaneceram fiéis. Longe de nós envergonharmo-nos na Cruz do Senhor. Nós sabemos – junto com São Paulo – que Cristo crucificado é sabedoria e força de Deus para nós (cf. 1 Cor 1,24).

Eu convido você a participar da Paixão do Senhor com Nossa Senhora. A dor de Nossa Senhora é a dor de uma mãe pelo seu Filho sofredor. É ao mesmo tempo uma dor oferecida a Deus Pai. Maria Santíssima está serena aos pés da cruz porque ela vê o amor com que o seu Jesus abraça a cruz, ela sabe que é a vontade do Pai.

Autor: Pe. Françoá Rodrigues Figueiredo Costa

Fonte: www.veritatis.com.br

segunda-feira, 18 de abril de 2011

ORIGEM E SIGNIFICADO DA SEMANA SANTA

ACHEI ESTE TEXTO NA INTERNET, MUITO ESCLARECEDOR SOBRE A ORIGEM E SIGNIFICADO DA SEMANA SANTA. NÃO ACHEI O AUTOR DE TAL TEXTO, MAS ASSIM MESMO, PUBLICO PARA QUE VOCÊ POSSA MELHOR COMPREENDER PORQUE CELEBRAMOS COM ESTES RITOS O MISTÉRIO DA MORTE E RESSURREIÇÃO DE JESUS:

A “Semana Santa” surgiu já nos primórdios do cristianismo quando as comunidades cristãs em Jerusalém se reuniam, na Sexta-feira e no Sábado, mediante rigoroso jejum, recordando o sofrimento e a morte de Jesus, ou seja, rememorando “os dias em que nos foi tirado o esposo” (diebus in quibus ablatus est sponsus: Cf. Mt 9,15; Mc 2,20). Dessa forma, se preparavam para a festa da Páscoa, no Domingo, em que celebravam a memória da ressurreição de Jesus.

Posteriormente, a observância do jejum passou a ser praticada também na Quarta-feira para lembrar o dia em que os chefes judaicos decidiram prender Jesus, isto é, “porque nesse dia começaram a tramar a morte do Senhor” (propter initum a Iudaeis consilium de proditione Domini: Cf. Mc 3,6; 14,1-2; Lc 6,11; 19,47; 20,19a; 22,2).

Tudo isto ocorria mais fortemente em Jerusalém porque provavelmente ali permaneciam mais vivas as lembranças dos últimos dias de Jesus. Essas solenidades passaram a ser imitadas pelas Igrejas do Oriente e depois pelas Igrejas europeias. Esses dias eram também de descanso para todos os servos e escravos. Em algumas Igrejas em Jerusalém eram celebradas todas as noites vigílias solenes com orações e leituras bíblicas, e com a celebração da Eucaristia. Em meados do Século III, já se observava o jejum em todos os dias da Semana Santa.

A importância da Semana que antecede a festa da Páscoa está evidenciada claramente através dos diversos nomes dados a essa época litúrgica ao longo dos primeiros séculos: “Hebdomada Paschalis”(Semana da Páscoa); “Hebdomada Authentica” (Semana “sem comparação” ou que “tem uma importância toda sua, em si e por si mesma”); “Hebdomada Maior” (Semana Maior); e, por fim, “Hebdomada Sancta” (Semana Santa). As cerimônias litúrgicas particulares da Semana Santa começaram a desenvolver-se a partir do século IV. Resumidamente, a Semana Santa assim se desdobra:

I. Domingo de Ramos e Paixão do Senhor.

Inicialmente, esse Domingo chamava-se Capitulavium (lavação das cabeças), porque nesse dia, os que seriam batizados no Sábado seguinte, participavam de uma cerimônia preparatória, quando suas cabeças eram solenemente lavadas. Esse Domingo é marcado pela procissão de ramos, que começou a ser feita em Jerusalém, no século IV, para relembrar a entrada solene de Jesus, aclamado como Messias. Começava às treze horas, no Monte das Oliveiras. Não se tratava apenas de relembrar um fato do passado, mas de dar um testemunho público de fé em Jesus como o verdadeiro Rei e Salvador enviado. A partir daí, no correr da semana, precisamente na Quinta-feira, inicia-se o “Tríduo Pascal”.

II. Tríduo Pascal

A. Quinta-feira Santa.

Por volta do Século V, chamava-se “Feria quinta in Coena Domini” (Quinta-feira da Ceia do Senhor). Em alguns lugares chamava-se “Dia da Traição”. Costumava-se chamar também de Quinta-feira de “Endoenças”(corruptela popular do latim: indulgêntia: in-dulgências, daí: endoenças), o dia do perdão, do indulto, da expiação dos pecados, da clemência. No século VI, iniciou-se o costume de fazer neste dia a “bênção dos óleos”, a serem usados nos Sacramentos do Batismo, da Crisma e da Unção dos Enfermos. Nessa Missa dos Santos Óleos, celebra-se a instituição do Sacramento da Ordem.

A Quinta-feira Santa é marcada pela instituição da Eucaristia, a “Ceia do Senhor”, simbolizada pelo amor serviçal (o lava-pés). Desde o século VI, a cerimônia do “lava-pés” procura reproduzir ritualmente o gesto de Jesus que lavou os pés de seus discípulos, como prova de amor e disposição para servir. O lava-pés era chamado também de Mandatum, para recordar o "mandamento novo" de Jesus. Em Roma, o papa lavava os pés de treze pobres, aos quais tinha servido uma ceia. Para o papa Gregório I, conhecido como Gregório Magno (590-604), este 13º pobre seria o próprio Cristo disfarçado de mendigo.

Atualmente, logo após a Eucaristia, o altar é deixado sem nenhuma toalha. Com este gesto simbólico, recordamos a desnudação de Cristo antes de sua crucifixão. Além disso, o Santíssimo é transladado para um lugar preparado à parte, a fim de levar os fiéis a fazerem algum momento de adoração, de vigília, meditando a hora difícil de Jesus no Jardim das Oliveiras e de oração por todos os que atualmente sofrem, pois neles, Jesus continua sofrendo.

B. Sexta-feira Santa.

Inicialmente, este dia chamava-se “Paraskeve” (do grego: paraskeué: preparação; por extensão: “véspera do sábado”, sexta-feira). Segundo o evangelista João, é nesse dia que Jesus foi crucificado: “Os judeus temeram que os corpos ficassem na cruz durante o sábado, porque já era a Preparação e esse sábado era particularmente solene. Rogaram a Pilatos que se lhes quebrassem as pernas e fossem retirados” (Jo 19,31). Tertuliano (155-222), um dos mais importantes escritores eclesiásticos da antiguidade, deu-lhe o nome de “Dies Paschae” (Dia da Páscoa). Santo Ambrósio (340-397) chamava a Sexta-feira de “Dies amaritudinis” (Dia do amargor, da tristeza), por ser o grande dia de luto para a Igreja. Ainda hoje, também é chamada de Sexta-feira Maior.

A liturgia deste dia é composta de três partes:

a) Liturgia da Palavra.

A liturgia começa diretamente com leituras dos profetas, cantos e a leitura dialogada da Paixão. Em seguida, a Oração Universal, apresentando as necessidades da Igreja e do mundo. A tradição dessas orações, abandonada no século VI, foi retomada pela nova liturgia depois do Concílio Vaticano II, que acabou introduzindo em todas as Missas as assim chamadas “Oração dos fiéis” ou “Oração da assembleia”.

b) Adoração da Cruz.

Quanto a isso, é preciso antes esclarecer: a palavra “adoração” significa apenas “veneração solene”. Adoração, no sentido próprio, pode ser prestada só a Deus. A cerimônia da Adoração da Cruz, teve origem em Jerusalém, no século IV, depois que Constantino encontrou as relíquias da Cruz do Salvador. Aos poucos, a cerimônia foi sendo adotada também por outras cidades onde havia relíquias da Cruz. Mais tarde, foi assumida por toda a Igreja. Prestando uma veneração especial à Cruz ou ao Crucifixo, manifestamos nossa fé no Cristo Redentor, que nos salvou por sua morte. Adorando a cruz, é ao Cristo que de fato devemos adorar, reconhecendo nele o Filho de Deus encarnado e oferecido em sacrifício por amor a nós. Portanto, o sentido desta “adoração” é contemplar Jesus que, morto na cruz, ascendeu dela.

c) Rito da Comunhão.

Desde os primórdios, não foi costume celebrar a Missa na Sexta-feira Santa. A razão é que assim a Igreja manifesta seu luto pela morte do Salvador. Até o século VIII não havia nem mesmo a comunhão, que só aos poucos foi introduzida na liturgia do dia. Em 1622, foi proibida a comunhão dos fiéis. Isso continuou até recentemente, quando foi reintroduzida, após o Concílio Vaticano II. É bom lembrar que neste dia não se consagram as hóstias, pois já foram consagradas na Quinta-feira Santa.

C. Sábado Santo - Vigília Pascal.

Para a Vigília Pascal convergem todas as celebrações da Semana Santa bem como de todo o Ano Litúrgico. Na Vigília Pascal recordamos a grande noite de vigília do povo hebreu no Egito, aguardando a hora da libertação da escravidão do Egito, ou seja, relembramos a Páscoa (do hebraico: pessach: passagem) judaica (Cf. Ex 12). E nela celebramos a nossa própria redenção pelo mistério da Ressurreição de Cristo. Na Ressurreição de Jesus realiza-se a grande Páscoa cristã, isto é, a Passagem da morte para a vida; do estado de perdição para o estado de salvação. É a vitória final de Deus, em Cristo, sobre o pecado, o mal e a própria morte. Cumpriu-se, assim, o que João Batista dissera acerca de Cristo: “No dia seguinte, João viu a Jesus que se aproximava dele. E disse: ‘Eis o Cordeiro de Deus, aquele que tira o pecado do mundo’” (Jo 1,29). Jesus é agora o novo Cordeiro Pascal, segundo o autor do Sermão aos Hebreus: “ele se manifestou uma vez por todas no fim dos tempos, para abolir o pecado pelo sacrifício de si mesmo” (Hb 9,26). No âmbito espiritual, nos apropriamos da graça desta "passagem" pelo Batismo. Por isso, a “liturgia batismal” tem aqui um lugar destacante.
A Vigília Pascal, que para Santo Agostinho (354-430) é “a mãe de todas as Vigílias”, é uma soleníssima celebração, muito rica de símbolos universais e de símbolos particulares: as trevas, o fogo, a luz, a água, o círio pascal, a cor alegre dos paramentos, as músicas. A celebração articula quatro partes e conclui com a Procissão da Ressurreição:

a) Celebração da Luz.

Essa cerimônia começou a ser realizada de modo mais abrangente só a partir do século IX. Inicia-se com a “bênção do fogo”, feita no pátio, à entrada da igreja. Antigamente, acendia-se o fogo, usando pedras friccionadas, já que na Quinta-feira, tinham sido apagadas todas as luzes da igreja. Isso constava no próprio ritual antigo da bênção do fogo “O Cristo é a pedra usada por Deus para acender em nós o fogo da claridade divina”. Para os antigos, esse simbolismo do Cristo que ilumina, aquece e é centro de vida, era mais significativo. Porque, na Sexta-feira Santa, costumava-se apagar o fogão e todas as luzes das casas. Era no “fogo novo” que cada família acendia uma lâmpada para levar para casa e acender tudo novamente.

Com Cristo Ressuscitado, definitivamente a “Luz brilha nas trevas” (Jo 1,5). Recordamos aqui as palavras do próprio Jesus: “Eu sou a luz do mundo. Quem me segue não andará nas trevas, mas terá a luz da vida”(Jo 8,12). Jesus Ressuscitado garante que “a vida é a luz dos seres humanos” (Jo 1,4b). Assim, o Círio pascal, que simboliza o Ressuscitado, é bento, aceso no “fogo novo” e conduzido em procissão para dentro da Igreja ainda às escuras, cantando por três vezes: Eis a luz de Cristo! Em seguida, é colocado fixo diante da assembleia. Os participantes são convidados a acenderem as suas velas, imitando aqueles servos de que fala o Evangelho (Lc 12,35-40), os quais esperam, vigilantes, “com as lâmpadas acesas”, o seu Senhor que os fará sentar à sua mesa. Esta parte se encerra cantando a "Proclamação da Páscoa" (Precônio Pascal), o Exulte (do latim Exultet), anunciando solenemente a vitória de Cristo. Não se sabe com certeza quando começou essa tradição litúrgica. Mas por volta do ano 384, já são encontradas referências a ela.

b) Liturgia da Palavra.

Neste momento, são narrados os gestos maravilhosos que Deus realizou em favor do povo ao longo da história da humanidade, desde a Criação do mundo até o grande ato da “Nova Criação” conferida pela ressurreição de Cristo, início e primícias de um mundo novo. É uma verdadeira “passeada” pela Escritura e pelo Novo Testamento. Para nós, tudo isso é motivo de júbilo e de ação de graças. Ao cântico solene do Glória, pouco antes da proclamação do Evangelho, a Igreja escurecida torna-se, de repente, uma explosão de luz. Toda a assembleia canta alegre e vibrante, ao som dos instrumentos musicais e até do sino. Note-se que as várias leituras bíblicas são intercaladas por orações e aclamações, a última das quais é o canto do Aleluia pascal(do hebraico: hallelu-yah: louvem a Javé, adorem a Javé).

c) Liturgia Batismal.

Se há batismo, entoa-se a “Ladainha” (do grego:litanéia: oração pública; e do latim: litania: oração breve e insistente, pedir insistentemente) dos Santos. O Cristianismo herdou da liturgia das sinagogas esta forma de rezar, repetindo a mesma frase várias vezes como se vê na Escritura (Cf. 1Rs 18,39; Sl 136/135; 148; 150; Dn 3,52-90). A “Ladainha dos Santos” surgiu da “Oração dos fieis” (Séc. III), que constava duma lista de nomes de Santos, cuja memória era invocada por quem presidia a Missa. No início eram reverenciados os nomes de mártires, sobretudo os que testemunharam a fé em Roma. Com o tempo, a lista dos santos foi ampliada, tomando caráter de universalidade. A seguir, realiza-se a “bênção da água batismal”. O presidente da celebração mergulha o Círio pascal na água benta, para indicar que fomos sepultados na morte com Cristo e com ele ressuscitamos para a vida. Seguindo a bênção da água, passa-se para a “renovação das promessas do batismo”. Nos primeiros séculos da Igreja, era no Sábado Santo que se fazia o Batismo dos que, durante um bom tempo, tinham sido preparados para a admissão na comunidade. Os que já tinham abraçado a fé cristã, mas ainda estavam recebendo a catequese (do grego katechéou: derramar, verter para dentro de), chamavam-se catecúmenos (do grego kataskeuazómenoi: os iniciandos). Nessa noite de Vigília, eles recebiam as últimas instruções e ouviam com a comunidade leituras da Escritura, apropriadas para a circunstância. Para o Batismo, a água era abundantemente derramada sobre a cabeça dos novatos (do grego neófitos: novas plantas; daí: iniciantes, novos, imaturos). Assim, se há batizandos, realiza-se o Sacramento do Batismo. E mesmo havendo batismo, é muito significativa a aspersão da água benta sobre toda a assembleia.

d) Liturgia Eucarística.

Trata-se de uma celebração festiva, pois já se comemora a vitória sobre a morte: Jesus Ressuscitou! O Santíssimo que havia sido transladado pra um lugar preparado à parte, na Quinta-feira Santa, agora é trazido de volta para Tabernáculo na Igreja. Alimentando-nos do pão eucarístico que é Jesus, realimentamos as nossas forças e o nosso compromisso com a vida. Em muitos lugares, logo após a Celebração, o Santíssimo Sacramento é preparado para uma pequena procissão. De volta ao altar-mor, o presidente da Celebração abençoa todos os fiéis enquanto se canta o “Rainha dos Céus, alegrai-vos” (Regina Coeli, laetare), como se fosse um “parabéns” àquela que de “Senhora das Dores” transformou-se em “Senhora da Alegria”.

Ainda no que se refere ao “Tríduo Pascal”, é bom lembrar que não são três celebrações isoladas, ou três Missas, como a maioria das pessoas pensam e dizem. Notemos que a Celebração da Quinta-feira Santa começa com os “Ritos iniciais” e não conclui com os “Ritos finais”, mas apenas com a “Oração depois da comunhão” e com a “Transladação do Santíssimo”. A Celebração da Sexta-feira Santa, por sua vez, não é começada com os “Ritos iniciais” e nem terminada com os “Ritos finais”, mas apenas com a “Oração sobre o povo”, pois a Missa que começou na Quinta-feira, ainda continua. E no Sábado Santo, a Celebração também não começa com os “Ritos iniciais”, pois ainda é parte da Missa que deu início na Quinta-feira Santa. Aí, sim, concluída a Celebração da Vigília Pascal, o presidente da Missa encerra o “Tríduo Pascal” com os “Ritos finais”. Podemos assim dizer que o “Tríduo Pascal” é uma grande Missa, uma “Missona”. O que a Igreja realiza de modo mais longo no “Tríduo Pascal”, é realizado de modo mais breve nos Domingos comuns. Portanto, não é interessante “quebrar” a sequência desta única Celebração pascal.

III. Páscoa da Ressurreição.

A Missa de Páscoa é a maior solenidade do ano. Até o século XI, era só nesse dia que os simples padres podiam cantar solenemente o “Glória a Deus nas alturas” (no latim Gloria in excelsis Deo). Nesse momento do canto do Glória, como ainda hoje, novamente os sinos e o órgão irrompiam numa grande explosão de alegria. Cristo venceu a morte, e também para nós existe a tranquila garantia de vida e esperança.

Por isso, é muito importante que no Domingo pascal, a assembleia se reúna em torno de Cristo ressuscitado e presente no meio da comunidade. A tristeza, o desânimo e o medo, devem dar lugar à alegria e à esperança. Jesus venceu a morte para estar definitivamente junto e dentro de nós. Caso contrário, quem participa apenas da “Quinta-feira Santa”, ou só da “Sexta-feira Santa”, corre o risco de assimilar uma fé fracassada pela morte e de viver uma vida marcada pela resignação, pela alienação e inércia. É como se vivesse uma terrível e interminável Sexta-feira Santa, tanto na Igreja como na sociedade. Tal celebração acaba com as II Vésperas; portanto, caso não haja razões pastorais, deve ser celebrada antes do anoitecer do Domingo.

quinta-feira, 14 de abril de 2011

DOMINGO DE RAMOS - SEXTA-FEIRA DA PAIXÃO DO SENHOR

 

A CRUZ DO AMOR

A liturgia de hoje nos convida a celebrarmos dois acontecimentos: por um lado, a entrada triunfal de Jesus em Jerusalém, acolhido e aclamado por uma numerosa multidão com fé e alegria; por outro, o início da Semana Santa, na qual Jesus realiza a salvação do mundo mediante seu amor e seu sacrifício da cruz. Eis o motivo pelo qual lemos também hoje o relato comovente e profundo da paixão de Cristo que será proclamado com mais detalhes na sexta-feira da Paixão do Senhor .

Entrando em Jerusalém, Jesus é aplaudido pelas multidões: “Bendito o que vem em nome do Senhor! Hosana no mais alto dos céus!”. Nossa fé é sempre luz, vida, força, alegria. As pessoas atraídas por Jesus, talvez inspiradas e portadoras da verdadeira fé da humanidade que esperava o Messias vão ao encontro de Jesus, celebram, o aclamam com ramos de palmeira. Percebemos que Jesus gosta desta acolhida de fé, ele mesmo decidiu entrar em Jerusalém não mais a pé, mas montado num jumentinho. Que humildade! Ele é verdadeiramente o Salvador, o Filho de Deus, vindo ao mundo para nos trazer o amor e a misericórdia do Pai. Também nós queremos viver este dia renovando toda a nossa fé, o nosso fervor, o nosso afeto a Jesus, sentindo o seu amor misericordioso que chega a cada um de nós.

Mas a liturgia de hoje também é marcada por um forte contraste, pois Jesus até gosta da acolhida calorosa, mas ele sabe que sua glória não acontecerá como nós pensamos, com pompas, esplendor, mas pendurado numa cruz, uma das formas mais humilhantes de pena de morte do mundo daquela época: a sua grandeza é o seu amor infinito, que o leva a doar a sua vida por todos. Enquanto o povo o aclamava, os inimigos se preparavam para prendê-lo e condená-lo à morte. Jesus sabia que sua hora estava chegando, mas ele veio para essa hora; mesmo se humanamente sentia ainda toda a angústia e tristeza pela qual passou no monte das Oliveiras, ele soube invocar e obedecer à vontade do Pai, que é o verdadeiro bem para ele e para todo o mundo.

Nesta missa de Ramos, que abre a Semana Santa, também domingo da paixão do Senhor, cai muito bem a leitura do relato da paixão, pois neste se concentra todo o mistério do amor de Deus, do pecado do homem, da salvação que Jesus nos faz merecer. O texto da paixão do Senhor não tem necessidade de ser comentado: é o relato dos fatos através dos quais chegou a cada um de nós a Redenção. Todo o mal, que se realiza sobre a terra, de alguma forma é concentrado naqueles fatos: a violência, a sede de poder, a inveja, a traição dos amigos, a covardia, a bajulação dos poderosos, a maldade, o insulto à dignidade humana, as indiretas, a mentira e todo tipo de maldade que as pessoas cometem, tudo parece estar presente na paixão de Jesus.

Deus conhece toda a maldade praticada no mundo. E o paradoxo da cruz é exatamente esta dor, este sofrimento que foi aceito por ele, tornando-se nas mãos de Deus o instrumento através do qual ele nos salvou. O amor de Deus venceu este mal e o tornou redenção.
Reunir, como faz a celebração de hoje, as duas atitudes da multidão que antes o aclama e depois o condena, nos faz perceber como é fácil esquecer o amor de Deus, deixar-se conduzir pelo pecado, rejeitar o Senhor. Percebemos isto em nós, mas também em Pedro e nos outros apóstolos. O texto da paixão ressalta a traição de Pedro, quando Jesus anuncia durante a ceia e quando Pedro o nega por três vezes diante da serva. Se formos confrontar a traição de Pedro àquela de Judas, vemos que Pedro, depois de ter negado Jesus, caiu num pranto, Judas depois da traição, foi se matar. Pedro teve confiança na misericórdia de Deus, enquanto Judas não, se desesperou. Também cada um de nós, muitas vezes, caímos na tentação, no medo, no egoísmo, no pecado, como Pedro e como Judas. Temos, porém, de seguir o exemplo de Pedro: acreditar em Deus, no seu amor infinito, na sua misericórdia sem limites. O amor de Deus, mostrado na cruz é a nossa plena, contínua e eterna salvação! Mesmo quando pecamos gravemente, e sentirmos o peso do nosso pecado, saibamos que Deus é maior do que o nosso pecado, e veio justamente para “tirar” os nossos pecados, para nos dar alegria e os frutos do seu amor. Que esta mensagem nos ajude a celebrar com profunda fé os sacramentos pascais, a viver a semana santa em união com a paixão de Cristo, fazendo nossos os mesmos sentimentos que existiram em Jesus, e implorando a graça e a força da sua morte e ressurreição para todos nós.

quinta-feira, 7 de abril de 2011

5º DOMINGO DA QUARESMA - Jo 11,1-45



E Jesus chorou!
Diz o lema da Campanha da Fraternidade 2011: “a criação geme em dores de parto” (Rm 8,22). Apesar de refletir sobre a vida no Planeta com uma ênfase ambiental-ecológica, falar de dores de parto imediatamente nos leva a pensar no nascimento, principalmente de um ser humano. A mãe que sofre as dores do parto e dá a luz o seu bebê. A Igreja Católica é sempre a favor da vida. Em qualquer situação, a pessoa humana deve ser protegida desde a sua concepção até a morte natural. Mesmo uma gravidez fruto de um estupro ou que ponha em risco a vida da mãe, a Igreja Católica é a favor da vida da criança (como grande testemunha Santa Gianna Beretta, médica italiana que preferiu morrer para dar vida a sua filha).
Jesus sempre pregou a vida. Aliás, Deus no Antigo Testamento sempre é apresentado como o Deus da Vida e a vinda de Jesus a este mundo encontra o seu ápice na vitória da Vida sobre a morte: a Ressurreição que estamos para celebrar daqui a alguns dias na Páscoa. Então de onde vem essa grande propagação da morte? Hoje em dia, cada vez mais a chamada cultura de morte vem se alastrando espantosamente no nosso mundo atual. Muitas vezes, o argumento principal gira em torno do interesse e do lucro de alguma maneira, inclusive quando a interrupção da vida humana proporciona isso. Algumas pessoas querem manipular a vida das outras em seu benefício próprio, achando-se no direito de decidir interromper a vida de um não-nascido (aborto) ou de proporcionar uma “morte sem sofrimento” (eutanásia) a um doente incurável, como se estas pessoas fossem inferiores, e por isso, pudessem ser desconsideradas.
Mas o ponto da questão é que nesses casos ou em qualquer outro a morte espanta e faz sofrer. Quando ela surpreende improvisadamente nossos entes queridos, ficamos tristes, e refletimos sobre a vida. Já a cultura de morte faz esquecer o significado que a vida tem. Perdemos o sentido da vida, por isso, cada vez mais abortos. Pior ainda, quando essa cultura é pregada por líderes religiosos que se dizem seguidores de Jesus Cristo, vida e ressurreição. Como, por exemplo, o fundador da Igreja Universal do Reino de Deus, Edir Macedo, que em uma de suas pregações, e dizendo que o que está prestes a dizer não é para contrariar a Igreja Católica, diz que apoia “em alto e bom tom” que é a favor do aborto, citando as palavras de Jesus sobre Judas o qual traiu o Mestre, que segundo Macedo, teria sido melhor que a mãe de Judas o tivesse abortado: “O Filho do homem vai, como está escrito a seu respeito, mas ai daquele por intermédio de quem o Filho do homem está sendo traído! Melhor lhe fora não haver nascido!” (Cf. Mateus 26). Palavras que Macedo usa para justificar sua posição, propagar a ideia através de sua Rede Record em nome da responsabilidade social - ação e incentivo, e ultimamente através de seu blog pessoal. Para ver a “pregação” e a propaganda da REDE RECORD, acesse www.pecarlos.blogspot.com
Como seguidores autênticos de Jesus Cristo que nos esforçamos para ser, não podemos julgar ou condenar a pessoa de Edir Macedo ou quem provoca um aborto, pois Deus condena o pecado e não o pecador e só quem pode julgar é Deus, só Ele conhece tudo profundamente; mas temos o direito e o dever de manifestar nossa indignação com a atitude de um cristão pregar a favor da morte de um inocente, seja lá qual for o motivo.
No Evangelho de hoje, Jesus promove uma cultura diferente. O episódio da morte e ressurreição de Lázaro, o irmão de Marta e Maria, amigos caríssimos a Jesus, é único no seu gênero. Logo no início do texto, Jesus esclarece como no relato do cego de nascença, que a doença de Lázaro não existe para levar à morte, mas serve para que o Filho de Deus seja glorificado através dela. Que a morte seja um dos acontecimentos que mais nos desconcertam na nossa vida, o próprio Jesus nos confirma com a sua atitude: ele ficou profundamente comovido, estremeceu interiormente e caiu num pranto de choro. Mesmo tendo a consciência de poder vencer a morte e ressuscitar (reanimar) Lázaro, Jesus chora a morte do amigo.
Marta indo ao encontro de Jesus, diz: “Senhor, se você estivesse aqui, meu irmão não teria morrido”. Marta acreditava na Ressurreição dos mortos no último dia e sabia que Jesus curava os enfermos, mas que ele não chegara a tempo de curar o amigo. Mas a pergunta que Jesus fez a Marta, ele a faz a cada um de nós: “eu sou a Ressurreição e a Vida. Quem crê em mim, mesmo que morra, viverá. Você acredita nisso?”. Marta dá uma resposta que, à primeira vista, parece fora de contexto. Em vez de responder simplesmente com um sim, ela acrescenta que acredita firmemente que Jesus é o Messias, o Filho de Deus. Em outras palavras, ela nos ensina que basta acreditar nele e pronto. É a fé em Jesus que nos salva.
O que Jesus faz com Lázaro é um sinal. Ele o chama: “Lázaro, vem para fora!”. E Lázaro volta a viver. Através desta ação, ele quer mostrar que a morte não é um limite para ele, mas que ele tem poder até sobre ela. Porém, o que ele quer nos oferecer não é uma vida terrena que se prolongue para sempre, até porque Lázaro morreu de novo. O que Jesus quer oferecer é a vida eterna em comunhão com Deus. E aqui é bom chamar a ressurreição de Lázaro de reanimação ou ressuscitamento porque foi uma volta para a mesma vida, com o mesmo corpo, diferentemente da Ressurreição do último dia com o corpo glorioso.
Outro particular deste relato é que Jesus antes de chamar Lázaro à vida agradece ao Pai por tê-lo escutado. Isso mostra que o ponto central da fé é a relação de confiança que Jesus tem com o Pai. O que se torna um exemplo para nós, que às vezes pedimos tanto e nada agradecemos. Se acreditarmos em Jesus, não temeremos a morte, pois ele é sinônimo de Vida. Cristo é a Ressurreição porque é a vida. Ele constitui o critério e o ponto de referência para o nosso dia-a-dia, oferecendo resposta aos nossos problemas e nos predispondo para a dor e para a possibilidade da morte. Vida eterna quer dizer vida infinita e esta certeza de fé nos encoraja a defender o dom da nossa própria vida e também a do outro, mesmo nas circunstâncias nas quais ela parece perder o próprio sentido, tipo quando há o sentido de vazio e a ausência de dignidade. O Deus da vida quer que vivamos a vida plenamente. Porque todos, absolutamente todos nós, incluindo todos os inocentes que ainda estão no ventre de suas mães, têm direito à vida. Exatamente nada justifica tirarmos esse direito dessas crianças.
Veja aqui a propaganda da TV RECORD, propriedade de Edir Macedo a favor do aborto:

Dê a sua opinião! Com certeza, Jesus chora com a morte de seus pequeninos!