segunda-feira, 7 de março de 2011

QUARTA-FEIRA DE CINZAS – Mt 6,1-6.16-18

Sepultados com Ele no batismo, foi também com Ele que ressuscitastes (Cl 2,12)

Com a Quarta-feira de Cinzas, iniciamos o tempo da Quaresma. A Quaresma é o tempo litúrgico que remete aos 40 dias que Jesus passou no deserto em oração. Também lembra os 40 anos da marcha do povo de Deus pelo deserto em busca de libertação. É um tempo de deserto, de arrependimento, de conversão, de transformação, de purificação. São 40 dias (tirando os domingos) que nos conduzem à celebração da maior festa cristã: a Páscoa de Jesus. A Quaresma nos prepara a experimentar mais plenamente o mistério da redenção, a vida nova em Cristo Jesus, vida esta que já nos foi transmitida no nosso Batismo.

O Evangelho da Quarta-feira de Cinzas sempre é tirado do Sermão da Montanha do Evangelho de Mateus e quer nos oferecer um ensinamento sobre a prática das três práticas fundamentais do cristão: a esmola, a oração e o jejum. Embora ao longo dos séculos, tenha mudado o modo de praticar tais obras de piedade, permanece a obrigação humana e cristã de partilhar os bens com os mais pobres, com o próximo (esmola), viver em comunhão com Deus (oração), e saber reconhecer, controlar os nossos desejos, relação com nós mesmos (jejum).

As palavras de Jesus que meditamos devem fazer surgir em nós a criatividade necessária para encontrarmos novas formas de viver estas três práticas tão importantes para a nossa vida cristã. A esmola, a oração e o jejum eram as três práticas de piedade dos judeus. Mas Jesus critica o fato de que algumas pessoas “hipócritas” as pratiquem somente para serem vistas e elogiadas pelos outros. Ele não permite que a prática da justiça e da piedade seja usada como um meio para a promoção social na comunidade, pelo contrário, deve ser usada em favor da comunidade.

Nas palavras de Jesus, aparece um novo tipo de relação com Deus que se abre para nós. Ele diz: “o teu Pai, que vê o que está escondido, te dará a recompensa”. Isto desfavorece o egoísmo e favorece o altruísmo, o que Jesus quer que entendamos. Jesus nos oferece um caminho de acesso ao coração de Deus. A meditação das suas palavras com relação às práticas de piedade poderá ajudar a descobrir este novo caminho: “Ficai atentos para não praticar a vossa justiça na frente dos homens, só para serdes visto por eles. Caso contrário, não recebereis a recompensa do vosso Pai que está nos céus”. Ao ler esta frase, não devemos pensar somente aos fariseus (os hipócritas) do tempo de Jesus, mas, sobretudo ao fariseu, ao impostor, ao aparente que talvez sobreviva em cada um de nós. Devemos construir a nossa segurança desde dentro, não naquilo que fazemos para Deus, mas naquilo que Deus faz por nós. É este o ponto chave para entender o ensinamento de Jesus sobre as práticas de piedade. Desta forma, Mateus explica este princípio geral à prática da esmola, da oração e do jejum, dizendo antes como isto não deve acontecer e logo em seguida, como devemos fazer.

De que modo não devemos dar esmola (caridade)? O modo errado, seja naquele tempo e que vale para hoje, é usar um modo vistoso, para ser reconhecido e aclamado por todos como faziam os hipócritas que tocavam as trombetas nas praças para que todos vissem. Jesus diz, aquele que age assim, já recebeu a sua recompensa que era exatamente ter a divulgação de seu nome.

Como devemos dar a esmola? O modo correto é “que a tua mão esquerda não saiba o que faz a tua direita”. Ou seja, devo dar a minha esmola de modo que nem eu mesmo devo ter a sensação de que mereça uma recompensa da parte de Deus ou elogio da parte dos outros. Como diz o Papa Bento XVI na sua mensagem para a Quaresma de 2011: “No nosso caminho encontramo-nos perante a tentação do ter, da avidez do dinheiro, que insidia a primazia de Deus na nossa vida. A cupidez da posse provoca violência, prevaricação e morte: por isso a Igreja, especialmente no tempo quaresmal, convida à prática da esmola, ou seja, à capacidade de partilha. A idolatria dos bens, ao contrário, não só afasta do outro, mas despoja o homem, torna-o infeliz, engana-o, ilude-o sem realizar aquilo que promete, porque coloca as coisas materiais no lugar de Deus, única fonte da vida. Como compreender a bondade paterna de Deus se o coração está cheio de si e dos próprios projetos, com os quais nos iludimos de poder garantir o futuro? A prática da esmola é uma chamada à primazia de Deus e à atenção para com o próximo, para redescobrir o nosso Pai bom e receber a sua misericórdia”.

Como não se deve rezar? Falando do modo errado de rezar, Jesus menciona alguns usos e costumes estranhos daquela época. Quando a trombeta tocava para as orações, tinha gente que rezava solenemente na rua para ser vista e considerada piedosa.

Mas como rezar? Para não deixar sombra de dúvidas, Jesus exagera sobre o modo correto de rezar. Diz que é necessário rezar, no escondido, somente diante de Deus Pai para que ninguém nos veja. Fazendo isto, talvez nos considerem como alguém que não reza. Não importa! Até de Jesus caçoaram: “Não é de Deus!”. E isto porque Jesus rezava muito à noite em lugares afastados e não se importava com a opinião dos outros. O que importa é ter a consciência tranquila e ter a certeza que Deus é o Pai que nos acolhe, e não a partir da satisfação que procuro no fato que outros me apreciem como uma pessoa piedosa e que reza. Quem tem que escutar nossas orações é Deus e não as pessoas.

Ainda na mensagem para a Quaresma 2011, Bento XVI lembra: “Em todo o período quaresmal, a Igreja oferece-nos com particular abundância a Palavra de Deus. Meditando-a e interiorizando-a para a viver quotidianamente, aprendemos uma forma preciosa e insubstituível de oração, porque a escuta atenta de Deus, que continua a falar ao nosso coração, alimenta o caminho de fé que iniciamos no dia do Batismo. A oração permite-nos também adquirir uma nova concepção do tempo: de fato, sem a perspectiva da eternidade e da transcendência ele cadencia simplesmente os nossos passos rumo a um horizonte que não tem futuro. Ao contrário, na oração encontramos tempo para Deus, para conhecer que “as suas palavras não passarão” (cf. Mc 13,31), para entrar naquela comunhão íntima com Ele “que ninguém nos poderá tirar” (cf. Jo16,22) e que nos abre à esperança que não desilude, à vida eterna”.

Como não se deve jejuar? Jesus critica as práticas erradas do jejum. Havia gente que jejuava ou até nem fazia isso, mas fazia cara de tristeza, não tomava banho, usava roupas sujas, não penteava os cabelos, de modo que todos pudessem achar que estavam jejuando de modo perfeito.

Mas como fazer o jejum? Jesus recomenda o modo contrário. “Quando jejuares, perfuma a cabeça e lava o rosto” de modo que ninguém perceba que você esteja jejuando, mas só teu Pai que está nos céus. Hoje uma maneira muito válida de jejuar é evitar o consumismo desenfreado, incluindo a ingestão exagerada de alimentos que prejudicam a nossa saúde.

Com relação a isso, o Papa escreve: “O Jejum, que pode ter diversas motivações, adquire para o cristão um significado profundamente religioso: tornando mais pobre a nossa mesa aprendemos a superar o egoísmo para viver na lógica da doação e do amor; suportando as privações de algumas coisas – e não só do supérfluo – aprendemos a desviar o olhar do nosso “eu”, para descobrir Alguém ao nosso lado e reconhecer Deus nos rostos de tantos irmãos nossos. Para o cristão o jejum nada tem de intimista, mas abre em maior medida para Deus e para as necessidades dos homens, e faz com que o amor a Deus seja também amor ao próximo (cf. Mc 12,31)”.

Enfim, Jesus apresenta um caminho novo de acesso ao coração de Deus aberto a cada um de nós. A esmola, a oração e o jejum não são dinheiro para comprar a graça de Deus, mas são a resposta da gratidão ao amor recebido e experimentado. Finalmente, o Papa conclui: “Através das práticas tradicionais do jejum, da esmola e da oração, expressões do empenho de conversão, a Quaresma educa para viver de modo cada vez mais radical o amor de Cristo... Para empreender seriamente o caminho rumo à Páscoa e nos prepararmos para celebrar a Ressurreição do Senhor, o que pode haver de mais adequado do que deixar-nos conduzir pela Palavra de Deus? Por isso a Igreja, nos textos evangélicos dos domingos de Quaresma, guia-nos para um encontro particularmente intenso com o Senhor, fazendo-nos repercorrer as etapas do caminho da iniciação cristã: para os catecúmenos, na perspectiva de receber o Sacramento do renascimento, para quem é batizado, em vista de novos e decisivos passos no seguimento de Cristo e na doação total a Ele”.

Que através da prática do jejum, da esmola e da oração, encontremos o caminho de conversão que nos leve a redescobrir o nosso Batismo que nos traz à Pascoa de Nosso Senhor, a vida em abundância.

Um comentário:

valderezsilvasantosdejesus@gmail.com disse...

Eu como sou ministra da Eucaristia é um grande conhecimento Deus abencoe padre por essa grande mensagem de amor****