segunda-feira, 21 de março de 2011

3o DOMINGO DA QUARESMA - Jo 4,5-42

Cristo, Pão que alimenta, Água que sacia

O Evangelho de hoje nos apresenta um grande encontro entre um homem e uma mulher. O homem, Jesus, chega ao poço de Jacó muito cansado de uma viagem. Também ele ficava cansado, e sentia sede como nós (natureza humana). É muito bom notar que Jesus precisava das pessoas. E quando ele precisava, ele pedia. Como fez com a samaritana pedindo-lhe água para beber.

Ele nos dá esta lição e por que não? Precisamos uns dos outros. Entretanto, o mundo de hoje propaga um tipo de atitude diferente: a autossuficiência. Precisar dos outros? Ah, isso nos torna vulneráveis. Queremos ser totalmente independentes. Queremos não precisar de ninguém nem nos sentirmos fracos, mesmo sabendo que o somos.

Mas por que não precisar? Por que não reconhecer que sim? Precisamos uns dos outros! Jesus precisa de água pra matar sua sede e isto é a causa de um encontro profundo tanto para ele como para a mulher samaritana: ele encontra a fé, onde era de se esperar que não houvesse; e, a mulher no desenrolar da conversa, redescobre a si mesma, sente-se liberta, restaurada e encontra o Messias esperado há tantos séculos.

A relação entre judeus e samaritanos era de permanente hostilidade e a Samaria era considerada território impuro pelo mundo judaico, tanto que não se podia atravessá-la durante os percursos de viagem. Normalmente, para ir a Galileia, havia outras vias como o percurso à beira do mar, ou pelo lado oposto, à margem do rio Jordão. A “necessidade” de Jesus descrita por João de passar obrigatoriamente pela Samaria não é de tipo geográfica, mas teológica: porque em suas intenções havia a vontade do Pai de que também aquele povo, como todos os outros, tivessem a salvação trazida por Cristo. Assim, livre de inimizades e preconceitos, Jesus não hesita tratar aquela aparentemente desconhecida samaritana como teria tratado qualquer amigo seu. De fato, o seu pedido é de uma abertura e desenvoltura que supera qualquer formalidade e estranheza.

O encontro quebra todas as regras religiosas. Além do problema acima citado, um Rabi (Mestre) nunca devia dirigir a palavra a uma mulher fora de casa. Além disso, falar num poço com uma mulher significava cortejá-la, costume que sempre acabava em casamento. O poço na Bíblia é o lugar dos encontros de amor: foi a partir daí que Isaque casou com Rebeca (Gn 24), Jacó com Raquel (Gn 29) e Moisés com Séfora (Ex 2). Só que normalmente isso acontecia ao cair da tarde. E o Evangelho em questão diz: “era por volta do meio dia”. Por aí, já sabemos que este encontro não terá como finalidade um casamento.

Assim, Jesus pede a mulher: “dá-me de beber”. A mulher surpresa, diz: “como é que você, sendo judeu, tem coragem de dirigir a palavra a mim, uma mulher samaritana?”. E Jesus responde: “se você conhecesse o dom de Deus e quem é que te pede: ‘Dá-me de beber’, você mesma me pediria e eu te daria água viva”. Notamos claramente aqui que há uma distância de pensamento enorme. Enquanto Jesus está falando seriamente sobre o nosso lado espiritual, a mulher segue a conversa sem ter a mínima ideia do que ele está falando e podemos até sentir um pouco de chacota por parte dela: “Senhor, você nem sequer tem um balde e o poço é fundo. De onde vai tirar esta água viva? Por acaso você é maior que nosso pai Jacó...?” Mas Jesus não desiste e argumenta que todo aquele que beber da água do poço de Jacó, voltará a ter sede, mas qualquer um que beber da água que ele lhe der, nunca mais terá sede.

A partir daí, a mulher passa da descrença para a dúvida; ela desconfia que há algo de verdadeiro na conversa de Jesus. Assim, não custa tentar e agora é ela quem pede: “Senhor, pois, então, dá-me dessa água para que eu não tenha mais o trabalho de voltar aqui”. Finalmente, Jesus vendo a abertura por parte da samaritana, arranja uma maneira de fazê-la acreditar de uma vez por todas nele, pedindo para que ela vá chamar o seu marido. A mulher responde que não tem marido. E aí, Jesus convence a mulher: “realmente, você disse bem que não tem marido, pois teve cinco e o que tem agora não é teu marido. Nisso você foi verdadeira”. A mulher cai em si que realmente Jesus é um profeta e os dois vão desenvolvendo um diálogo com relação ao tema do Messias até chegar ao ponto de Jesus se apresentar como tal: “o Messias sou eu que estou falando com você neste exato momento”.

Quantas vezes acontece isso na nossa vida. Deus está tentando nos mostrar uma coisa, mas nem sempre entendemos o que Ele está querendo nos falar, às vezes até porque não queremos entender. Jesus não se cansou, insistiu até a mulher entender. Há coisas mais profundas que Deus quer nos mostrar. Há momentos que Jesus fala conosco e não percebemos. O caminho que a mulher samaritana percorre é o nosso caminho de cristãos em busca de Deus. O evangelista João sabe muito bem que a busca de Deus por parte do homem arrisca sempre num fechar-se em si mesmo. Há muita incompreensão.

João quer evidenciar que o homem, fechado em si mesmo, não é capaz de entender a Palavra de Deus, nem de atingi-la, nem de interpretar corretamente as próprias aspirações. A tentação de quem busca Deus é sempre de colocar o dom de Deus dentro dos próprios interesses. A mulher até procurou fazer isso, mas Jesus não hesitou em mostrar a sua inadequação. Por duas vezes, ela sempre volta ao passado: patriarca, culto etc. Ela está sempre presa ao passado. Mas, Jesus a constringe a olhar para o futuro e a tomar consciência de que no mundo chegou a novidade e que esta renova toda a nossa vida. O testemunho da mulher contagia os outros e permite que cada um tenha sua própria experiência pessoal com Jesus Cristo. Jesus sacia nossa fome e nossa sede e com a sua presença e o seu anúncio podemos ter a certeza de ser verdadeiramente libertos e salvos.

Como disse o Papa Bento XVI na mensagem quaresmal deste ano: “o pedido de Jesus à Samaritana: «Dá-Me de beber» (Jo 4, 7), que é proposto na liturgia do terceiro domingo, exprime a paixão de Deus por todos os homens e quer suscitar no nosso coração o desejo do dom da «água a jorrar para a vida eterna» (v. 14): é o dom do Espírito Santo, que faz dos cristãos «verdadeiros adoradores» capazes de rezar ao Pai «em espírito e verdade» (v. 23). Só esta água pode extinguir a nossa sede do bem, da verdade e da beleza! Só esta água, que nos foi doada pelo Filho, irriga os desertos da alma inquieta e insatisfeita, «enquanto não repousar em Deus», segundo as célebres palavras de Santo Agostinho”.

Que nos demos conta que a sua Palavra é Água viva que sacia, isto é, que dá sentido a tantas perguntas e dúvidas.

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