terça-feira, 29 de março de 2011

4º DOMINGO DA QUARESMA - Jo 9,1-41

O PIOR CEGO É AQUELE QUE NÃO QUER VER

No Evangelho deste domingo, Jesus se apresenta como a luz do mundo. Entretanto, percebemos que não é uma luz que impõe ser vista indiferentemente por todos; mas aquilo que se constata através de sua ação, a cura de um cego, é que algumas pessoas começam a ver e outras permanecem cegas, tudo depende da atitude de cada um de nós.

No início do relato, Jesus vê um cego de nascença e decide curá-lo por iniciativa própria, ninguém lhe pede para fazê-lo. Mas os discípulos ficam refletindo uma ideia muito difundida (não só no mundo daquele tempo, mas forte ainda hoje) segundo a qual toda doença é castigo de Deus pelo pecado. Assim, eles perguntam a Jesus se a causa da cegueira do mendigo foram os pecados dele ou dos seus pais.

Isto não é completamente ilógico, já que frequentemente muitos de nós somos tentados a pensar que os males físicos e psíquicos de uma determinada pessoa seja culpa dos pais; por exemplo, se uma criança nasce com AIDS não é culpa sua obviamente, e colocamos a culpa na mãe, quando pode não ser; pais briguentos podem provocar nos filhos traumas psicológicos, tornando-os doentes.
Mas no caso do cego em questão, Jesus desmente categoricamente aquela convicção: “Nem ele nem os seus pais pecaram”; a cegueira do mendigo, como qualquer outra enfermidade, não depende sempre de específicas culpas de alguém nem de Deus, que não é vingativo, mas aquele homem assim nasceu para que as obras de Deus se manifestem nele. Jesus cura o cego. E os olhos que ele curou para ver o sol, abrem-se gradativamente para ver aquele que lhe curou. O milagre suscita uma discussão entre os presentes e conhecidos. Há uma tentativa de afastar a verdade. Duvidam da identidade do homem curado: “não é ele, mas alguém parecido com ele”. Porém, o ex-cego afirma sua identidade “sou eu mesmo!”, ainda que não saiba dizer nada sobre Jesus nem sobre onde eles possam encontrá-lo.

Em seguida, ao encontrar os fariseus, estes se escandalizam e sustentam que, tendo feito Jesus o milagre em dia de sábado quando é proibido qualquer trabalho, era um pecador: portanto, devia ser evitado; mas à inconfundível consideração do curado, surge uma divergência entre eles, pois ficam se perguntando como é possível um pecador fazer tal sinal?

Os fariseus se interessam normalmente só com o “como” Jesus fez isso (dia de sábado), de onde concluíam que ele era um pecador. O fato da cura em si não tinha nenhum significado para eles. Mas depois de terem colocado todos os pretextos e tentado subornar a família do cego que arriscava ficar toda ela expulsa da comunidade, ficava agora obrigatória tomar uma posição com relação à pessoa de Jesus.

Aí é onde entra a inconformidade do curado com os fariseus. Pois ele é consciente da relação perfeita que há entre Jesus e Deus. “Se ele é pecador, não sei. Só sei que eu era cego e agora vejo”. “Sabemos que Deus não escuta os pecadores, mas escuta aquele que é piedoso e que faz a sua vontade”. Para o cego curado, a cura torna-se verdadeiramente um sinal que o leva a reconhecer o vínculo entre Deus e Jesus. Os fariseus continuaram resistindo em não querer enxergar e endureceram o coração, expulsando o homem da comunidade.

É triste! Não há pior cego que o que não quer ver; e a cegueira espiritual é pior que a física, onde diante da evidência alguém permanece emperrado nos próprios preconceitos, fechando os olhos para a realidade.

O episódio se conclui com a revelação do significado profundo do prodígio. Encontrando de novo o homem curado, agora expulso da comunidade, Jesus o convida a valer-se da vista recuperada para reconhecê-lo: “você acredita no Filho do Homem?” “E quem é? para que creia nele”? “Tu o estás vendo, é aquele que está falando contigo”. Como com a samaritana do domingo passado, tudo caminha para a mesmo finalidade.

A luz dos olhos é metáfora da luz da alma. O cego de nascença é cada homem, cada mulher, incapaz de sozinho ver a luz divina, e, que, portanto deixa-se guiar por ela, com as consequências, pessoais, e coletivas, das quais todos somos testemunhas; e se quisermos permanecer cegos, fazendo descaso da luz de Deus, quantos desastres, derrotas, tragédias, amarguras, teremos pela frente! Para evitá-las na sua bondade Deus nos fez dom da sua luz, para que possamos ver a estrada justa no caminho desta vida, a estrada que tem como meta ele, luz do mundo.

Como diz Bento XVI: “o domingo do cego de nascença apresenta Cristo como luz do mundo. O Evangelho interpela cada um de nós: «Tu crês no Filho do Homem?». «Creio, Senhor» (Jo 9, 35.38), afirma com alegria o cego de nascença, fazendo-se voz de todos os crentes. O milagre da cura é o sinal que Cristo, juntamente com a vista, quer abrir o nosso olhar interior, para que a nossa fé se torne cada vez mais profunda e possamos reconhecer n’Ele o nosso único Salvador. Ele ilumina todas as obscuridades da vida e leva o homem a viver como «filho da luz».

segunda-feira, 21 de março de 2011

3o DOMINGO DA QUARESMA - Jo 4,5-42

Cristo, Pão que alimenta, Água que sacia

O Evangelho de hoje nos apresenta um grande encontro entre um homem e uma mulher. O homem, Jesus, chega ao poço de Jacó muito cansado de uma viagem. Também ele ficava cansado, e sentia sede como nós (natureza humana). É muito bom notar que Jesus precisava das pessoas. E quando ele precisava, ele pedia. Como fez com a samaritana pedindo-lhe água para beber.

Ele nos dá esta lição e por que não? Precisamos uns dos outros. Entretanto, o mundo de hoje propaga um tipo de atitude diferente: a autossuficiência. Precisar dos outros? Ah, isso nos torna vulneráveis. Queremos ser totalmente independentes. Queremos não precisar de ninguém nem nos sentirmos fracos, mesmo sabendo que o somos.

Mas por que não precisar? Por que não reconhecer que sim? Precisamos uns dos outros! Jesus precisa de água pra matar sua sede e isto é a causa de um encontro profundo tanto para ele como para a mulher samaritana: ele encontra a fé, onde era de se esperar que não houvesse; e, a mulher no desenrolar da conversa, redescobre a si mesma, sente-se liberta, restaurada e encontra o Messias esperado há tantos séculos.

A relação entre judeus e samaritanos era de permanente hostilidade e a Samaria era considerada território impuro pelo mundo judaico, tanto que não se podia atravessá-la durante os percursos de viagem. Normalmente, para ir a Galileia, havia outras vias como o percurso à beira do mar, ou pelo lado oposto, à margem do rio Jordão. A “necessidade” de Jesus descrita por João de passar obrigatoriamente pela Samaria não é de tipo geográfica, mas teológica: porque em suas intenções havia a vontade do Pai de que também aquele povo, como todos os outros, tivessem a salvação trazida por Cristo. Assim, livre de inimizades e preconceitos, Jesus não hesita tratar aquela aparentemente desconhecida samaritana como teria tratado qualquer amigo seu. De fato, o seu pedido é de uma abertura e desenvoltura que supera qualquer formalidade e estranheza.

O encontro quebra todas as regras religiosas. Além do problema acima citado, um Rabi (Mestre) nunca devia dirigir a palavra a uma mulher fora de casa. Além disso, falar num poço com uma mulher significava cortejá-la, costume que sempre acabava em casamento. O poço na Bíblia é o lugar dos encontros de amor: foi a partir daí que Isaque casou com Rebeca (Gn 24), Jacó com Raquel (Gn 29) e Moisés com Séfora (Ex 2). Só que normalmente isso acontecia ao cair da tarde. E o Evangelho em questão diz: “era por volta do meio dia”. Por aí, já sabemos que este encontro não terá como finalidade um casamento.

Assim, Jesus pede a mulher: “dá-me de beber”. A mulher surpresa, diz: “como é que você, sendo judeu, tem coragem de dirigir a palavra a mim, uma mulher samaritana?”. E Jesus responde: “se você conhecesse o dom de Deus e quem é que te pede: ‘Dá-me de beber’, você mesma me pediria e eu te daria água viva”. Notamos claramente aqui que há uma distância de pensamento enorme. Enquanto Jesus está falando seriamente sobre o nosso lado espiritual, a mulher segue a conversa sem ter a mínima ideia do que ele está falando e podemos até sentir um pouco de chacota por parte dela: “Senhor, você nem sequer tem um balde e o poço é fundo. De onde vai tirar esta água viva? Por acaso você é maior que nosso pai Jacó...?” Mas Jesus não desiste e argumenta que todo aquele que beber da água do poço de Jacó, voltará a ter sede, mas qualquer um que beber da água que ele lhe der, nunca mais terá sede.

A partir daí, a mulher passa da descrença para a dúvida; ela desconfia que há algo de verdadeiro na conversa de Jesus. Assim, não custa tentar e agora é ela quem pede: “Senhor, pois, então, dá-me dessa água para que eu não tenha mais o trabalho de voltar aqui”. Finalmente, Jesus vendo a abertura por parte da samaritana, arranja uma maneira de fazê-la acreditar de uma vez por todas nele, pedindo para que ela vá chamar o seu marido. A mulher responde que não tem marido. E aí, Jesus convence a mulher: “realmente, você disse bem que não tem marido, pois teve cinco e o que tem agora não é teu marido. Nisso você foi verdadeira”. A mulher cai em si que realmente Jesus é um profeta e os dois vão desenvolvendo um diálogo com relação ao tema do Messias até chegar ao ponto de Jesus se apresentar como tal: “o Messias sou eu que estou falando com você neste exato momento”.

Quantas vezes acontece isso na nossa vida. Deus está tentando nos mostrar uma coisa, mas nem sempre entendemos o que Ele está querendo nos falar, às vezes até porque não queremos entender. Jesus não se cansou, insistiu até a mulher entender. Há coisas mais profundas que Deus quer nos mostrar. Há momentos que Jesus fala conosco e não percebemos. O caminho que a mulher samaritana percorre é o nosso caminho de cristãos em busca de Deus. O evangelista João sabe muito bem que a busca de Deus por parte do homem arrisca sempre num fechar-se em si mesmo. Há muita incompreensão.

João quer evidenciar que o homem, fechado em si mesmo, não é capaz de entender a Palavra de Deus, nem de atingi-la, nem de interpretar corretamente as próprias aspirações. A tentação de quem busca Deus é sempre de colocar o dom de Deus dentro dos próprios interesses. A mulher até procurou fazer isso, mas Jesus não hesitou em mostrar a sua inadequação. Por duas vezes, ela sempre volta ao passado: patriarca, culto etc. Ela está sempre presa ao passado. Mas, Jesus a constringe a olhar para o futuro e a tomar consciência de que no mundo chegou a novidade e que esta renova toda a nossa vida. O testemunho da mulher contagia os outros e permite que cada um tenha sua própria experiência pessoal com Jesus Cristo. Jesus sacia nossa fome e nossa sede e com a sua presença e o seu anúncio podemos ter a certeza de ser verdadeiramente libertos e salvos.

Como disse o Papa Bento XVI na mensagem quaresmal deste ano: “o pedido de Jesus à Samaritana: «Dá-Me de beber» (Jo 4, 7), que é proposto na liturgia do terceiro domingo, exprime a paixão de Deus por todos os homens e quer suscitar no nosso coração o desejo do dom da «água a jorrar para a vida eterna» (v. 14): é o dom do Espírito Santo, que faz dos cristãos «verdadeiros adoradores» capazes de rezar ao Pai «em espírito e verdade» (v. 23). Só esta água pode extinguir a nossa sede do bem, da verdade e da beleza! Só esta água, que nos foi doada pelo Filho, irriga os desertos da alma inquieta e insatisfeita, «enquanto não repousar em Deus», segundo as célebres palavras de Santo Agostinho”.

Que nos demos conta que a sua Palavra é Água viva que sacia, isto é, que dá sentido a tantas perguntas e dúvidas.

domingo, 13 de março de 2011

2º DOMINGO DA QUARESMA – Mt 17,1-9

TRANSFIGURADOS PELO AMOR

No Evangelho deste II Domingo da Quaresma, somos convidados a subir a montanha em companhia de Pedro, Tiago e João, seguindo os passos de Jesus que se afasta da multidão e se recolhe para orar. A montanha na Bíblia é o lugar da presença e da manifestação de Deus. Foi sobre uma montanha que a Lei foi dada a Moisés como também foi sobre uma montanha que Elias revelou o Deus único. Agora, é Mateus que nos conta o que se passou naquela montanha onde estão reunidos Jesus com três discípulos: “ele foi transfigurado diante deles; o seu rosto brilhou como o sol e as suas roupas ficaram brancas como a luz”.

Esta mudança no rosto de Jesus que o torna luminoso como o sol é o que chamamos “Transfiguração”. Transfigurar significa mudar a figura ou a feição. Imaginando como poderíamos entender melhor a transfiguração de Jesus, lembremos o rosto de algumas pessoas que nos passam essa ideia: o rosto de uma mãe que amamenta seu filhinho, o de um adolescente apaixonado etc. O que caracteriza o olhar de todos eles é o brilho no olhar. E o que faz iluminar a expressão destas pessoas? O amor. É o amor que transparece dos seus rostos e os torna brilhantes.

Com certeza, foi o amor que tornou o rosto de Jesus resplandecente. Enquanto estava rezando, ele entra em contato com o Pai, e o amor entre eles é tão grande que chega a alterar a sua aparência. Os três apóstolos que o acompanhavam certamente ficaram perplexos ao verem esta mudança; principalmente, quando apareceram Moisés e Elias, conversando com Jesus. Moisés, que guiou o povo de Israel da escravidão do Egito à libertação dada por Deus; e Elias, que foi assunto ao céu numa carruagem de fogo (2 Rs 2,11). Os dois, que representam toda a história de Israel, aparecem na montanha para conversarem com Jesus.

Mas, qual era mesmo o assunto da conversa deles? Conversavam sobre a morte que Jesus iria sofrer em Jerusalém, falavam da paixão de Jesus, o que estamos, neste tempo de Quaresma, nos preparando para celebrar. Nesse ínterim, Pedro constata maravilhado: “Senhor, como é bom estarmos aqui!” E propõe: “Se queres, vou fazer aqui três tendas: uma para ti, outra para Moisés e outra para Elias”. Pedro tem razão: deve ter sido muito bom mesmo estar ali imersos na luz do amor entre o Pai e o Filho, escutando o diálogo com Moisés e Elias. Era tão bom que Pedro queria que aquele momento nunca acabasse. Por isso é que ele propôs fazer três tendas. Normalmente, quando as pessoas vão a uma montanha para acampar, ou seja, querem passar mais tempo lá, levam e armam suas barracas. Porém, enquanto Pedro fazia a sua proposta, saiu uma voz do céu com outra indicação: para saborear aquele momento extraordinário, não era preciso armar tendas, mas ter um coração atento para ouvir a Palavra de Jesus.

De fato, o Pai diz: “Este é meu Filho amado, no qual eu pus todo meu agrado, escutai-o!”. Não faz muito tempo que ouvimos a mesma declaração no Batismo de Jesus. E esta é uma informação muito interessante, pois o Pai está dizendo que aquele Filho que começou o ministério no Jordão é o mesmo que está prestes a morrer crucificado. A força da voz do Pai deve ter sido uma experiência esplendorosa para os apóstolos, a ponto de ficarem assustados. Mas Jesus lhes diz: “Levantai-vos e não tenhais medo”. A voz de Jesus inspira em nós discípulos confiança e esperança. A força da voz do Pai insiste: “Escutai-o!”

Escutar! É a melhor maneira para se preparar para a Páscoa: escutar a Palavra que Jesus veio nos dar. Escutar com os ouvidos, mas, sobretudo, escutar com o coração. Só assim podemos ficar com o nosso rosto transfigurado. Infelizmente, hoje, o rosto de Jesus aparece mais desfigurado que transfigurado. Desfigurado em tantos rostos humanos por causa da pobreza extrema, dos vários problemas. Jesus sofredor aparece desfigurado no rosto de crianças doentes, abandonadas, desfrutadas; no de jovens desorientados, perdidos; no dos excluídos da sociedade; no de desempregados, no de idosos abandonados até mesmo pela família. São muitos os desafios que os missionários de Jesus têm de enfrentar. Coragem! Levantai-vos e não tenhais medo.

Enfim, como disse o Papa Bento XVI na sua mensagem para a Quaresma 2011, “o Evangelho da Transfiguração do Senhor põe diante dos nossos olhos a glória de Cristo, que antecipa a ressurreição e que anuncia a divinização do homem. A comunidade cristã toma consciência de ser conduzida, como os apóstolos Pedro, Tiago e João, «em particular, a um alto monte» (Mt 17, 1), para acolher de novo em Cristo, como filhos no Filho, o dom da Graça de Deus: «Este é o Meu Filho muito amado: n’Ele pus todo o Meu enlevo. Escutai-O» (v. 5). É o convite a distanciar-se dos boatos da vida quotidiana para se imergir na presença de Deus: Ele quer transmitir-nos, todos os dias, uma Palavra que penetra nas profundezas do nosso espírito, onde discerne o bem e o mal (cf. Hb 4, 12) e reforça a vontade de seguir o Senhor.

sábado, 12 de março de 2011

I DOMINGO DA QUARESMA - Mt 4,1-11

Tentado como nós, vencedor por nós

No Evangelho deste I domingo da Quaresma, vemos a relação de Jesus com o diabo, o qual representa afastamento e oposição a Deus. Por outro lado, vemos também a relação de Jesus com Deus.

Nas tentações de Jesus, aparece esta relação a qual é confirmada através da rejeição àquele que se encontra em oposição radical com Deus. É justamente aqui que aparece a firmeza e a certeza da relação de Jesus com Deus, já que neste confronto se revela de uma vez por todas que Jesus está da parte de Deus. A tentação, o peso, a prova, estão presentes e é necessário tomar posição e fazer uma decisão. O modo que se comporta Jesus mostra sua relação com Deus. Ele responde de modo tranquilo, seguro. Demonstra com absoluta clareza o que é válido. No seu comportamento, não se pode notar nenhum medo, nenhuma impaciência e nenhum conflito interior. No confronto não há luta, batalha. A cada proposta do tentador, Jesus dá o seu ponto de vista. Assim, ele demonstra a certeza e a clareza de sua relação com o Pai. Tudo aquilo que o Pai havia dito dele é confirmado aqui pelo seu comportamento.

Quanto a nós, devemos nos orientar através da clareza e da decisão de Jesus. Não podemos nos enganar, pensando que estamos livres de uma luta cansativa com o tentador. Porém, hoje recebemos esta boa notícia: existe alguém que permanece fiel a Deus. Mesmo que não resistamos à prova e caiamos frequentemente, só o fato de que há alguém que permanece firme e fiel a Deus nos deve infundir alegria e coragem. As tentações não foram para Jesus um jogo de ficção, foram verdadeiras provas, como existem para o cristão e para a Igreja. E justamente por ter sido verdadeiramente provado, Jesus é exemplo e pode vir em ajuda a quem está na prova. Jesus realmente lutou contra satanás sobre a escolha de possíveis métodos e caminhos para realizar sua missão de Messias. As três tentações são uma síntese significativa de um longo período de luta contra o mal, sustentada por Jesus nos 40 dias de deserto e durante toda a sua vida, compreendida a cruz. As tentações representam modelos diferentes de Messias, e, portanto, para nós também de missão. Para Jesus as tentações eram três saídas para não passar pela cruz. Uma relacionada com as coisas materiais, outra com as pessoas e outra com Deus mesmo.

A primeira começa com a fome de Jesus. O tentador o convida a usar o poder para eliminar a sua fome. Na fome, o que está em jogo é a vida. Para viver, o homem precisa de pão, de alimento. O que deve fazer o homem com a sua vida? Jesus responde, dizendo que o homem não vive somente de pão, mas de toda palavra que sai da boca de Deus. Ele tem uma vida que é superior àquela que depende do pão. Uma vida que consiste na sua ligação incondicional e cheia de confiança em Deus. A busca de Deus e a confiança no seu poder devem ter o primeiro lugar na nossa vida e nunca devem ser substituídos por uma vida garantida pelo pão. Assim, a primeira tentação é a de aceitar o pão como fonte da vida. Tem tanta gente que vive só para o próprio estômago. Muitas vezes nós cristãos fazemos todo tipo de sacrifício para satisfazer as nossas necessidades materiais, mas pouco para aquelas espirituais. A quaresma é o tempo no qual Cristo nos chama a resistir a tal tentação e a buscar antes de tudo aquele alimento do céu e a viver dele.

A segunda tentação é a de um Messias mirabolante: atira-te daqui abaixo! Um gesto que teria assegurado fama e espetáculo. Porém, Jesus não tem necessidade de uma prova de que Deus o ama, ele confia no Pai. Jesus supera as tentações: escolhe respeitar o senhorio de Deus, confia no Pai e no seu plano salvífico pelo mundo. Renuncia instrumentalizar egoisticamente as coisas materiais para o próprio proveito (não muda as pedras em pão para si; mais tarde multiplicará para a multidão faminta).

A terceira tentação não se dirige ao homem que luta para ter o mínimo necessário para sobreviver, mas ao homem que mira além da própria pessoa humana e aspira ao domínio do mundo. Aqui entra em jogo o fascínio do poder, do domínio. Mas, Jesus responde que há um só Deus. A busca exclusiva do poder não combina com o reconhecimento da senhoria de Deus. Jesus reconhece a autoridade no âmbito humano: porém, que não deve ser exercitada como domínio sobre os outros, mas vivida como serviço. Ele rejeita dominar as pessoas e prefere servir: mantém sempre uma relação filial com Deus, confiando na sua fidelidade. Aceita a cruz por amor e morre perdoando: somente assim, quebra o espiral da violência e tira da morte o seu veneno.

segunda-feira, 7 de março de 2011

QUARTA-FEIRA DE CINZAS – Mt 6,1-6.16-18

Sepultados com Ele no batismo, foi também com Ele que ressuscitastes (Cl 2,12)

Com a Quarta-feira de Cinzas, iniciamos o tempo da Quaresma. A Quaresma é o tempo litúrgico que remete aos 40 dias que Jesus passou no deserto em oração. Também lembra os 40 anos da marcha do povo de Deus pelo deserto em busca de libertação. É um tempo de deserto, de arrependimento, de conversão, de transformação, de purificação. São 40 dias (tirando os domingos) que nos conduzem à celebração da maior festa cristã: a Páscoa de Jesus. A Quaresma nos prepara a experimentar mais plenamente o mistério da redenção, a vida nova em Cristo Jesus, vida esta que já nos foi transmitida no nosso Batismo.

O Evangelho da Quarta-feira de Cinzas sempre é tirado do Sermão da Montanha do Evangelho de Mateus e quer nos oferecer um ensinamento sobre a prática das três práticas fundamentais do cristão: a esmola, a oração e o jejum. Embora ao longo dos séculos, tenha mudado o modo de praticar tais obras de piedade, permanece a obrigação humana e cristã de partilhar os bens com os mais pobres, com o próximo (esmola), viver em comunhão com Deus (oração), e saber reconhecer, controlar os nossos desejos, relação com nós mesmos (jejum).

As palavras de Jesus que meditamos devem fazer surgir em nós a criatividade necessária para encontrarmos novas formas de viver estas três práticas tão importantes para a nossa vida cristã. A esmola, a oração e o jejum eram as três práticas de piedade dos judeus. Mas Jesus critica o fato de que algumas pessoas “hipócritas” as pratiquem somente para serem vistas e elogiadas pelos outros. Ele não permite que a prática da justiça e da piedade seja usada como um meio para a promoção social na comunidade, pelo contrário, deve ser usada em favor da comunidade.

Nas palavras de Jesus, aparece um novo tipo de relação com Deus que se abre para nós. Ele diz: “o teu Pai, que vê o que está escondido, te dará a recompensa”. Isto desfavorece o egoísmo e favorece o altruísmo, o que Jesus quer que entendamos. Jesus nos oferece um caminho de acesso ao coração de Deus. A meditação das suas palavras com relação às práticas de piedade poderá ajudar a descobrir este novo caminho: “Ficai atentos para não praticar a vossa justiça na frente dos homens, só para serdes visto por eles. Caso contrário, não recebereis a recompensa do vosso Pai que está nos céus”. Ao ler esta frase, não devemos pensar somente aos fariseus (os hipócritas) do tempo de Jesus, mas, sobretudo ao fariseu, ao impostor, ao aparente que talvez sobreviva em cada um de nós. Devemos construir a nossa segurança desde dentro, não naquilo que fazemos para Deus, mas naquilo que Deus faz por nós. É este o ponto chave para entender o ensinamento de Jesus sobre as práticas de piedade. Desta forma, Mateus explica este princípio geral à prática da esmola, da oração e do jejum, dizendo antes como isto não deve acontecer e logo em seguida, como devemos fazer.

De que modo não devemos dar esmola (caridade)? O modo errado, seja naquele tempo e que vale para hoje, é usar um modo vistoso, para ser reconhecido e aclamado por todos como faziam os hipócritas que tocavam as trombetas nas praças para que todos vissem. Jesus diz, aquele que age assim, já recebeu a sua recompensa que era exatamente ter a divulgação de seu nome.

Como devemos dar a esmola? O modo correto é “que a tua mão esquerda não saiba o que faz a tua direita”. Ou seja, devo dar a minha esmola de modo que nem eu mesmo devo ter a sensação de que mereça uma recompensa da parte de Deus ou elogio da parte dos outros. Como diz o Papa Bento XVI na sua mensagem para a Quaresma de 2011: “No nosso caminho encontramo-nos perante a tentação do ter, da avidez do dinheiro, que insidia a primazia de Deus na nossa vida. A cupidez da posse provoca violência, prevaricação e morte: por isso a Igreja, especialmente no tempo quaresmal, convida à prática da esmola, ou seja, à capacidade de partilha. A idolatria dos bens, ao contrário, não só afasta do outro, mas despoja o homem, torna-o infeliz, engana-o, ilude-o sem realizar aquilo que promete, porque coloca as coisas materiais no lugar de Deus, única fonte da vida. Como compreender a bondade paterna de Deus se o coração está cheio de si e dos próprios projetos, com os quais nos iludimos de poder garantir o futuro? A prática da esmola é uma chamada à primazia de Deus e à atenção para com o próximo, para redescobrir o nosso Pai bom e receber a sua misericórdia”.

Como não se deve rezar? Falando do modo errado de rezar, Jesus menciona alguns usos e costumes estranhos daquela época. Quando a trombeta tocava para as orações, tinha gente que rezava solenemente na rua para ser vista e considerada piedosa.

Mas como rezar? Para não deixar sombra de dúvidas, Jesus exagera sobre o modo correto de rezar. Diz que é necessário rezar, no escondido, somente diante de Deus Pai para que ninguém nos veja. Fazendo isto, talvez nos considerem como alguém que não reza. Não importa! Até de Jesus caçoaram: “Não é de Deus!”. E isto porque Jesus rezava muito à noite em lugares afastados e não se importava com a opinião dos outros. O que importa é ter a consciência tranquila e ter a certeza que Deus é o Pai que nos acolhe, e não a partir da satisfação que procuro no fato que outros me apreciem como uma pessoa piedosa e que reza. Quem tem que escutar nossas orações é Deus e não as pessoas.

Ainda na mensagem para a Quaresma 2011, Bento XVI lembra: “Em todo o período quaresmal, a Igreja oferece-nos com particular abundância a Palavra de Deus. Meditando-a e interiorizando-a para a viver quotidianamente, aprendemos uma forma preciosa e insubstituível de oração, porque a escuta atenta de Deus, que continua a falar ao nosso coração, alimenta o caminho de fé que iniciamos no dia do Batismo. A oração permite-nos também adquirir uma nova concepção do tempo: de fato, sem a perspectiva da eternidade e da transcendência ele cadencia simplesmente os nossos passos rumo a um horizonte que não tem futuro. Ao contrário, na oração encontramos tempo para Deus, para conhecer que “as suas palavras não passarão” (cf. Mc 13,31), para entrar naquela comunhão íntima com Ele “que ninguém nos poderá tirar” (cf. Jo16,22) e que nos abre à esperança que não desilude, à vida eterna”.

Como não se deve jejuar? Jesus critica as práticas erradas do jejum. Havia gente que jejuava ou até nem fazia isso, mas fazia cara de tristeza, não tomava banho, usava roupas sujas, não penteava os cabelos, de modo que todos pudessem achar que estavam jejuando de modo perfeito.

Mas como fazer o jejum? Jesus recomenda o modo contrário. “Quando jejuares, perfuma a cabeça e lava o rosto” de modo que ninguém perceba que você esteja jejuando, mas só teu Pai que está nos céus. Hoje uma maneira muito válida de jejuar é evitar o consumismo desenfreado, incluindo a ingestão exagerada de alimentos que prejudicam a nossa saúde.

Com relação a isso, o Papa escreve: “O Jejum, que pode ter diversas motivações, adquire para o cristão um significado profundamente religioso: tornando mais pobre a nossa mesa aprendemos a superar o egoísmo para viver na lógica da doação e do amor; suportando as privações de algumas coisas – e não só do supérfluo – aprendemos a desviar o olhar do nosso “eu”, para descobrir Alguém ao nosso lado e reconhecer Deus nos rostos de tantos irmãos nossos. Para o cristão o jejum nada tem de intimista, mas abre em maior medida para Deus e para as necessidades dos homens, e faz com que o amor a Deus seja também amor ao próximo (cf. Mc 12,31)”.

Enfim, Jesus apresenta um caminho novo de acesso ao coração de Deus aberto a cada um de nós. A esmola, a oração e o jejum não são dinheiro para comprar a graça de Deus, mas são a resposta da gratidão ao amor recebido e experimentado. Finalmente, o Papa conclui: “Através das práticas tradicionais do jejum, da esmola e da oração, expressões do empenho de conversão, a Quaresma educa para viver de modo cada vez mais radical o amor de Cristo... Para empreender seriamente o caminho rumo à Páscoa e nos prepararmos para celebrar a Ressurreição do Senhor, o que pode haver de mais adequado do que deixar-nos conduzir pela Palavra de Deus? Por isso a Igreja, nos textos evangélicos dos domingos de Quaresma, guia-nos para um encontro particularmente intenso com o Senhor, fazendo-nos repercorrer as etapas do caminho da iniciação cristã: para os catecúmenos, na perspectiva de receber o Sacramento do renascimento, para quem é batizado, em vista de novos e decisivos passos no seguimento de Cristo e na doação total a Ele”.

Que através da prática do jejum, da esmola e da oração, encontremos o caminho de conversão que nos leve a redescobrir o nosso Batismo que nos traz à Pascoa de Nosso Senhor, a vida em abundância.

quarta-feira, 2 de março de 2011

IX DOMINGO COMUM – Mt 7,21-27

Não basta dizer, tem que fazer

“Nem todo aquele que diz: ‘Senhor, Senhor’, entrará no reino dos céus, mas o que põe em prática a vontade de meu Pai que está nos céus”. Segundo o Evangelho deste domingo, portanto, não basta alguém dizer que tem fé; é necessário vivê-la, cumprindo a vontade de Deus que Jesus veio manifestar.

Sempre atual a mensagem de Jesus quando ficamos cada vez mais acomodados quando o assunto é fé. A moda é querer viver uma relação com Deus sem a mediação de uma instituição religiosa. E o critério é este: cada um pega de cada religião somente aquilo que lhe convém ou aquilo que lhe agrada para viver a fé. Faz-se uma promessa e acende-se uma vela pra um santo católico aqui, assiste-se a um culto pela televisão ali, consulta-se cartas de tarô, o horóscopo e tantas outras simpatias,e isso tudo de modo muito individual. Ou seja, aquela busca do Reino de Deus que falamos no domingo passado anda bastante esquecida. Hoje a busca é mais centrada não em conhecer a Deus, mas somente em sentir-se bem. O pior é que quem faz tal experiência acaba por perceber que sua vivência religiosa é limitada, já que é na vivência em comunidade que experimentamos o amor de Deus.

Frente a este perigo, Jesus no final do sermão da montanha diz: “quem ouve estas minhas palavras e as põe em pratica, é como um homem prudente que construiu sua casa sobre a rocha. Caiu a chuva, vieram as enchentes, os ventos deram contra a casa, mas a casa não caiu, porque estava construída sobre a rocha...” O contrário vemos para quem construiu sua casa sobre a areia.

Ora, para nós, que vivemos num país onde existe muita miséria, é fácil entender a parábola de Jesus se prestarmos atenção ao número sem fim de barracos das grandes cidades que desabam completamente pelas enchentes, justo porque foram construídas sobre a areia. E aí, são novamente construídas do mesmo modo, a espera de um novo desmoronamento. Talvez estas pessoas, por sua indigência, não saibam ou principalmente não possam fazer diferente. Mas, nós, uma vez tendo entendido o Evangelho, podemos construir uma casa interior forte construída sobre a rocha. Claro que Deus, na sua misericórdia, concede a todos, sempre a possibilidade de reconstruir; mas creio que seja bem melhor evitar esta fadiga construindo de imediato sobre um terreno seguro.

Se formos analisar bem, percebemos que não há diferenças substanciais entre as duas casas de que fala Jesus com referência aos agentes externos: ou seja, em ambas as situações, chuvas, enchentes, ventos, não poupam as construções. Jesus quer dizer que todos teremos dificuldades em nossa vida; mesmo que alguém tenha uma vida confortável, com recursos, mais cedo ou mais tarde chega a chuva da enfermidade, o desmoronamento de projetos que alguém tinha planejado, realmente o imprevisto existe. Isso fora os ventos contrários da desconfiança, da inveja, da traição, etc. Mas Jesus fala de uma casa com um fundamento sobre a qual pode chover bastante e ela não cairá.

Ou qual parte você acha que é a mais importante de uma casa senão o alicerce? Sem um firme alicerce, uma casa está em constante perigo de cair. E o mesmo vale para nossa vida interior. Conhecer a Palavra de Deus e obedecer a ela é o fundamento da vida do cristão. Especificamente, essa rocha sobre a qual edificamos uma casa destinada a durar para sempre, é Cristo através da sua Palavra, do seu imenso amor. Mas Jesus Cristo deixou um sinal visível de si como rocha, pedra: “Tu és Pedro e sobre esta pedra construirei a minha Igreja e as portas do inferno (os ventos contrários) não prevalecerão contra ela”. A Igreja, portanto, é a casa sobre a rocha, a casa comum na qual encontramos refúgio seguro. Rezemos então a fim de que cada um de nós escute e ponha em prática a Palavra do Senhor e assim construa sobre a rocha que nos fará resistir às inevitáveis provas e fadigas da vida.

Peça a Deus para ensinar a você sua Palavra e ajudá-lo a obedecer a ele em todas as áreas de sua vida, então você poderá ficar firme em todas as circunstâncias.