quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

VIII DOMINGO COMUM A - Mt 6,24-34

“Eu nunca me esquecerei de ti”

Nas duas liturgias dominicais passadas, Jesus nos ensinava qual deve ser a nossa atitude para com os outros. No Evangelho deste domingo, ele nos revela qual deve ser a nossa relação para com as coisas materiais. Que lugar os bens materiais devem ter na nossa vida? Até que ponto podem determinar os nossos desejos e esforços?

Num primeiro momento, Jesus dá a motivação fundamental (6,19-24), discurso com figuras de linguagem riquíssimas que infelizmente não aparece no lecionário: são os versículos 19-23, os quais para facilitar a compreensão do texto, exponho-os aqui junto com o v. 24: “Não ajunteis tesouros aqui na terra, onde a traça e a ferrugem destroem e os ladrões assaltam e roubam. Ao contrário, ajuntai para vós tesouros no céu, onde a traça e a ferrugem não destroem, nem os ladrões assaltam e roubam. Pois onde estiver o teu tesouro, aí estará também o teu coração. A lâmpada do corpo é o olho: se teu olho for límpido, ficarás todo cheio de luz. Mas se teu olho for ruim, ficarás todo em trevas. Se, pois, a luz em ti é trevas, quão grandes serão as trevas! Ninguém pode servir a dois senhores: pois ou odiará um e amará o outro, ou será fiel a um e desprezará o outro. Vós não podeis servir a Deus e ao dinheiro” (este último, lema da Campanha da Fraternidade 2010).

Num segundo momento, Jesus fala de comportamentos práticos (6,25-32), e, conclui, lembrando o valor que deve ocupar o primeiro lugar em nossa vida, em nossas aspirações e em nossos sentimentos, finalizando com uma sentença sapiencial que devemos viver a vida inteira (6,33-34).

Bom, nos seus ensinamentos sobre o tesouro, sobre o olho como lâmpada do corpo e sobre os dois senhores, Jesus adverte o perigo das formas erradas de relação para com os bens materiais. Jesus fala contra o acúmulo dos bens materiais (juntar dinheiro movido pelo amor a este). Ele cita bens como o dinheiro, objetos de valor (joias) e roupas preciosas (roupas de grife), apenas para citar alguns dos muitos tipos de posses terrenas. Jesus diz que são tesouros inseguros, a traça e a ferrugem podem corroer, ou um ladrão pode roubá-los. Não teremos absolutamente nenhuma segurança com eles, já que de uma hora para outra, podemos nos encontrar com as mãos abanando. E, assim, todo o nosso esforço, todo o nosso cansaço termina em nada.

Justamente por esse motivo, a nossa busca deve ser por tesouros cuja consistência e segurança não corra nenhum tipo de ameaça. E isto só acontece com os tesouros espirituais, tais quais a justiça, o abandonar-se à vontade de Deus e cumpri-la: “Buscai em primeiro lugar a sua justiça” (6,33). A essa sim, devemos direcionar a nossa fadiga, a nossa vontade de acumular.

Além desta falsa ilusão de segurança e durabilidade das coisas materiais, há também o problema do vínculo: “Pois onde estiver o teu tesouro, aí estará também o teu coração”. A forte ligação para com os bens terrenos não é algo que podemos considerar neutro, tem sim suas consequências. Neles se manifesta a disposição do nosso coração.

Se as coisas materiais são o nosso tesouro, a coisa principal da nossa vida, com que gastamos todo o nosso esforço, todo o nosso tempo, aquilo que queremos conseguir e conservar incondicionalmente, onde queremos encontrar segurança e apoio, de onde depende a nossa satisfação, a consciência do nosso valor e o nosso valor próprio aos olhos dos outros, então tenhamos certeza absoluta de uma coisa: nosso coração pertence aos bens materiais. Nossa adoração, o centro de nossa vida, o deus da nossa vida é o dinheiro. Mesmo que de modo farisaico, falso, mentiroso, impostor, aparente, a gente queira se enganar e diga para nós mesmos e para os outros que o senhor da nossa vida é Deus. Não é mesmo! Para comprovar, é só fazer um exame de consciência e analisar durante um tempo, por exemplo, do que mais falamos, com que mais nos preocupamos, do que mais damos valor, se somos “mão de vaca” etc. Os fatos irão nos desmascarar. E o primeiro mandamento é claro: amarás o Senhor teu Deus sobre todas as coisas.

Através do olho, a luz entra no ser humano. Dependendo da condição do olho depende se no interior há clareza ou escuridão. De fato, os olhos capturam a luz que incide sobre a retina que transforma essa luz recebida em impulsos nervosos que adentram pelo nervo óptico, que por sua vez, leva essas informação ao cérebro, onde lá são interpretadas essas sensações luminosas. Portanto, se a pessoa tem glaucoma onde o nervo ótico vai sendo pouco a pouco danificado e a visão vai diminuindo, podendo chegar a cegueira, tudo ficará escuro. Pois bem, podemos sofrer de glaucoma espiritual, quando nosso é arrogante, invejoso, malicioso; ou podemos ter a visão clara quando nosso olhar é generoso, bondoso, misericordioso. Este olhar sempre é determinado de acordo com o que está no nosso interior. Ou seja, pelo simples olhar, nosso olho pode ser sadio ou doente, espiritualmente falando. Se o nosso modo de ver é sadio, as nossas atitudes corresponderão a isto; se o nosso olhar é olhar doente, todo o nosso comportamento com relação às coisas e às pessoas, será um olhar distorcido e os nossos atos refletirão este fato.

As coisas materiais podem dominar uma pessoa. A relação entre aquele que possui e a coisa possuída pode ser tão doente que a pessoa se torne uma verdadeira escrava da coisa possuída e não o seu dono. A busca das coisas materiais pode ser tão preocupante que ela gaste a maior parte de seu tempo e cuidados com eles e se descuide dos valores mais importantes. Por fim, a pessoa chega a não servir mais a Deus, mas ao deus “dinheiro”. Porque estes dois serviços são incompatíveis e assim, a pessoa chega a adorar o dinheiro, a fazer do dinheiro um ídolo, a idolatrá-lo, e fazer de tudo o que há de mais errado para conseguir sempre mais.

Para não corrermos este perigo e porque nos ama imensamente, Jesus nos ensina para que tenhamos uma relação justa e sadia com as coisas terrenas. O ser humano não pode viver sem os bens materiais só com a sua inteligência e sua vontade. Nós temos que nos alimentarmos, e nos vestirmos e tantas outras coisas necessárias. E nesta dependência está a relação certa com os bens. Mesmo nessa relação com os bens necessários para viver, Deus tem um lugar decisivo. Como devemos viver isso, Jesus nos ensina: mesmo com relação às nossas necessidades, os bens não devem jamais dar a preocupação de dominar os nossos pensamentos de modo angustiante e descontrolado.

Porque sobre todas as preocupações tem que estar a fé e a convicção de que “o vosso Pai que está nos céus sabe que precisais de tudo isso”. Esquecer Deus, não confiar em Deus e ser absorvido somente pelas preocupações para as coisas materiais, necessárias ou não, é paganismo e idolatria. A confiança em Deus e na sua bondade deve acompanhar todas as nossas preocupações e nos dar segurança e liberdade interior.

Com algumas reflexões, Jesus nos recorda que Deus nos conhece e que providencia tudo para nós. Dele já recebemos o dom maior de todos: “o corpo e a vida”. Imaginemos as coisas menores. Os pássaros não semeiam, não colhem nem ajuntam em armazéns, e encontram sempre o que comer. Os lírios do campo não trabalham nem fiam e são vestidos esplendorosamente. Pois bem, se para os animais e os vegetais, Deus assim providenciou, imaginem para nós? Então, o que podemos conseguir com a simples preocupação? Preocupação é sinal de pouca fé.

Com esses exemplos, Jesus não quer dizer que não devamos trabalhar, nem semear, nem nos precavermos no sentido de planejar o futuro, mas ele quer simplesmente dizer que tudo isto não deve acontecer com uma preocupação cega, mas na confiança total em Deus. Obviamente há casos em pessoas morrem de fome, mas o que Jesus quer dizer é que o fato de se preocupar ansiosamente por isso não muda em nada o fato. Nesses casos, aí sim é que se requer confiança na Providência divina e fazer o que se pode.

Enfim, Jesus diz o que deve dominar os nossos esforços e desejos: a busca pelo Reino de Deus e a sua justiça. O sentido da vida não significa em preocupar-nos com tudo que esta vida terrena apresenta, mas vivendo esta vida terrena, nos orientarmos para a perfeita comunhão com Deus através do justo agir. O homem não pode prever o futuro, este está nas mãos de Deus. Então não serve a nada estar ansioso e inquieto pelo futuro. Jesus não fala contra a responsabilidade que temos para com o futuro, mas contra o estar ansioso por antecipação que significa falta de confiança nele. O Senhor é meu refúgio e rocha firme!

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