quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

VII DOMINGO COMUM A - Mt 5,38-48

Ser perfeito: pagar o mal com o bem

Santidade! Perfeição! É o que nos pede Jesus na liturgia deste domingo. Para começarmos a refletir sobre o assunto, podemos fazer os seguintes questionamentos: será que meus pais esperavam que eu fosse um filho perfeito? Será que eles são ou eram perfeitos? Eu espero ou exijo que meus filhos, meu cônjuge, meus amigos e as pessoas com quem eu convivo sejam perfeitas? E eu? Sou perfeito? Claro que não! Ninguém é perfeito. Mas, afinal, se constatamos que nós nem os outros são perfeitos, o que significa essa ordem de Deus para sermos perfeitos?

Na verdade, a liturgia de hoje não fala da perfeição humana, ou seja, aquela expectativa irrealista de uma pessoa ser impecável, sem erros, com os próprios esforços, o chamado pecado do perfeccionismo. No Evangelho, Jesus é claro: “Sede perfeitos, como vosso Pai celeste é perfeito”. Devemos ser perfeitos como Deus. Mas será mesmo que Jesus quis dizer que nós podemos realmente atingir a perfeição de Deus? Vamos ver o que diz o contexto e descobrir.

Na primeira leitura de hoje, do livro do Levítico: “Sede santos, porque eu, o Senhor vosso Deus, sou santo”. Sim, devemos e podemos ser santos. Esta perfeição, esta santidade, porém, se refere à consciência que devemos ter de que Deus nos considera perfeitos, justos, santos em Jesus Cristo e, por isso, vamos progredindo na nossa caminhada espiritual. “Perfeição” no contexto da liturgia de hoje é a busca constante da maturidade espiritual, de pensar como Jesus pensava, de amar como ele amava, observando e imitando as suas atitudes. Sermos perfeitos como Deus seria uma coisa impossível. Mas, o próprio Deus tornou essa realidade possível. Jesus torna essa realidade possível quando ele se dignou assumir a nossa humanidade para que nós pudéssemos alcançar a sua divindade.

Jesus, o Cordeiro de Deus sem mancha, sem defeito algum, tira o pecado do mundo e através do Batismo, nos faz participantes da sua mesma vida divina. Há sim um esforço da nossa parte que é justamente cooperar com Deus para amadurecermos nele. Ser perfeito, ser santo, é ser maduro espiritualmente, é crescer espiritualmente e temos uma parte neste processo, que é justamente deixar Deus agir em nós através de Jesus Cristo, fazendo o que ele fez.

Seja qual for a definição, o livro do Levítico deixa claro que para sermos santos como Deus é santo, há que amar o próximo. Assim, já existia o comando dado por Deus de que devemos amar o nosso próximo como a nós mesmos. Este não é um mandamento novo dado por Jesus. Isto significava ser santo. Ser santo no original hebraico significa “separado, diferente, único”. Cada um devia amar, respeitar e ajudar ao próximo. No entanto, a palavra “próximo”, no contexto hebraico é muito limitada. “Próximo” na época em questão dizia respeito aos familiares ou àqueles da mesma tribo. O povo hebreu era convidado a cuidar e levar o bem-estar a seu próximo.

Na leitura do Evangelho de hoje, Jesus traz uma novidade. Ele amplia esse significado. Depois de ter recordado os valores que devem guiar o nosso comportamento para com o próximo, de não se encolerizar, não desejar a mulher do próximo, preservar a própria união conjugal e dizer sempre a verdade, ele apresenta ainda duas últimas antíteses, onde apresenta critérios em base aos quais devemos responder ao mal que sofremos: quando somos caluniados, ofendidos, maltratados, traídos, feridos; como devemos nos comportar para com os nossos “inimigos”!

Jesus explica que Deus não criou o mundo apenas para os judeus, mas o sol nasce para todos – até mesmo para as pessoas más. Assim, dando vários exemplos de coisas que aconteciam no cotidiano das pessoas, ele diz que precisamos amar sempre, não apenas os nossos parentes e companheiros próximos, mas todo o mundo, e tratar a todos como queremos ser tratados. Se amamos apenas aqueles que nos amam, isto não é grande coisa, pelo contrário, não há nenhuma novidade aqui.

Mas se nós amamos quem não nos ama, quem não nos conhece, quem nos desaprova, quem nos magoa, quem tenta nos prejudicar, aí sim fazemos o que ele fez. É exatamente isto que nos torna perfeitos e santos em Jesus Cristo, é pela forma como tratamos às pessoas, quem quer que seja, seja lá qual for o mal que elas tenham feito contra nós.

No salmo de hoje, o Salmo 102 (103), vemos que o Senhor é paciente, é bondoso e compassivo: não nos trata como exigem nossas faltas nem nos pune em proporção às nossas culpas, é esta atitude que devemos imitar na nossa vida em comunidade, imitando Deus que como um pai se compadece de seus filhos.

São Paulo também fala sobre a santidade de Deus e como podemos ser santos. Ao contrário das várias vezes que no AT em que Deus decide residir no Santo dos Santos no Templo de Jerusalém, a partir da morte e ressurreição de Cristo, Deus agora quer morar em nós. Somos agora o Templo de Deus, e como tal fomos feitos santos. Estamos separados, não somos deste mundo, apesar de vivermos no mundo, e precisamos abandonar a sabedoria deste mundo, e nos enchermos da Sabedoria de Deus, mesmo que isso nos faça parecermos idiotas.

São Paulo enfatiza: “ninguém se iluda: se alguém de vós pensa que é sábio nas coisas deste mundo, reconheça sua insensatez para se tornar sábio de verdade; pois a sabedoria deste mundo é insensatez diante de Deus; só com a sabedoria que vem de Deus podemos escolher o caminho da santidade.

Ainda no Evangelho, Jesus nos mostra com alguns exemplos específicos como podemos ser considerados tolos, idiotas, bobos, frouxos, fracos aos olhos deste mundo, porém santos aos olhos de Deus. Ele dá exemplos do que fazer com as pessoas que se aproveitam ou abusam de nós basicamente fazendo o oposto do que seria de se esperar, a fim de que essa pessoa sinta a vergonha pelo mal causado e faça assim transparecer diante de todos em nós o caráter de Deus. Esta é uma das mais fortes referências ao tema de Jesus da não-violência.

No entanto, é precisa entender que Jesus não está dizendo que devemos ficar esperando passivamente que os outros aprontem de tudo contra nós. O que ele está dizendo é que nós não devemos nos vingar, sentir rancor, responder às pessoas na mesma moeda, colocar-se no mesmo nível de coração ressentido. O caso de oferecer a face esquerda para um tapa não devemos considerar ao pé da letra, mas significa que devemos afastar-nos absolutamente do sentimento de vingança.

No caso da túnica, estamos falando de uma pessoa pobre e endividada que tinha apenas a roupa do corpo que consistia na túnica interior e no manto por cima da túnica. Então, Jesus diz que se alguém mover um processo para tomar sua túnica, dê-lhe também o manto, mas nunca use a violência. Não se deve nunca usar a lei do talião, olho por olho dente por dente, o pagar na mesma moeda, mas vencer o mal com o bem.

Ao invés de encontrar meios para retaliar, devemos tratar essas pessoas com uma bondade extra, a mais, “caminhar mais um quilômetro”, mostrar generosidade, ajudá-los quando estão necessitando. Em outras palavras, a ser “próximos” de quem possa ter nos tratado mal. É fácil? De jeito nenhum! É um dos mandamentos mais difíceis que podemos encontrar em toda a Bíblia, mas apesar de parecer ir contra os nossos próprios instintos de retaliar e vingar, é um mandamento que praticado, produz mais frutos bons na nossa vida e na vida do outro, uma verdadeira liberdade. É o caminho da santidade e da perfeição. Um caminho difícil, mas não impossível porque Deus habita em nós.

O amor aos inimigos e a oração por aqueles que nos perseguem como Igreja de Cristo tem este objetivo: desarmá-los, torná-los novos, porque só o amor e o perdão renova e é capaz de transformar o homem numa criatura nova. A palavra de Deus é viva e eficaz, não tenhamos dúvida. O que Jesus diz não é pra ser questionado, mas deve ser recebido como verdadeiro. Vamos experimentar e comprovar como o Senhor é bom e nos surpreende se pagarmos o mal com o bem.

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