quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

VI DOMINGO COMUM: Mt 5,17-37

Sabedoria divina: o empenho do cristão em escolher o bem e rejeitar o mal
No nosso mundo moderno, a sabedoria parece ser um esforço relativo. Por exemplo, é a sabedoria que nos ajuda a diferenciar entre o que uma pessoa não qualificada e um brilhante cirurgião podem fazer com um bisturi em mãos.
Os textos que a liturgia nos oferece hoje falam da sabedoria. O pensamento que encontramos na I leitura do livro do Eclesiástico reflete a sabedoria judaica (literatura sapiencial) do início do século II a.C. que competia com a abundância da famosa literatura sapiencial grega daquela época. A sabedoria não deveria ser confundida ou comparada de forma simplista com a esperteza nem mesmo com a inteligência, pois a sabedoria exige o empenho de uma mente bem desenvolvida, exige a capacidade de analisar, de associar para usar uma metáfora, para comparar e contrastar, para diferenciar o que é relativo e o que é absoluto.
Uma ideologia indiferente ou um foco único sobre um tema é muitas vezes uma grande imprudência destrutiva. Precisamente, este texto da I leitura coloca uma enorme responsabilidade sobre a pessoa que crê individualmente a se empenhar de forma madura e adulta. Podemos ver isso pelos verbo mais usado na leitura: escolher (“para o que quiseres”, “receberá aquilo que preferir”). O autor do Eclesiástico era convicto que o fiel que ama e teme ao Deus de Israel deveria se empenhar efetivamente em favor da vida e do bem: “Diante do homem estão a vida e a morte, o bem e o mal”. Este Deus “conhece todas as obras do homem”.
A pregação de Paulo na II leitura, juntamente com outros, tinha (usando suas metáforas) plantado, regado e colhido a mensagem do Evangelho entre os coríntios. Agora, ele insiste, que se empenhem nessa mesma mensagem dinâmica do Evangelho e continuem a aperfeiçoar-se por ela. Já sabemos que os coríntios viviam exatamente como o mundo atual: sujeitos às tentações e à preguiça, à adoração ao ídolo dinheiro, e ao egoísmo. Esta comunidade da Igreja primitiva estava causando escândalo entre os seus próprios membros. Paulo esperava que, convencendo os cristãos de Corinto a fazer uma pausa e a fazer um exame de consciência com frequência, eles pudessem se reconectar com a Sabedoria que ele já havia pregado e já havia invocado sobre eles.
Pois bem, mas quais são essas boas obras que devem escolher os discípulos de Jesus? O texto do Evangelho de hoje é longo, mas é melhor proclamado na sua íntegra do que na sua forma breve. Depois das Bem-aventuranças e as duas comparações (“sal da terra e luz do mundo”) como responsabilidades irrenunciáveis dos discípulos, Jesus se apresenta como Aquele que traz a revelação definitiva da vontade de Deus e assim, começa um monólogo bastante longo sobre o cumprimento da Lei antiga e os profetas (AT).
Ele não se opõe à Tradição na qual nasceu; antes, Ele diz que absolutamente nada da Lei será abolido, nem uma única vírgula, mas também não será confirmada simplesmente na sua forma precedente, pois Jesus descobre, revela o seu verdadeiro sentido, cumpre a Lei. Começa denunciando a “justiça” dos escribas e fariseus, dizendo que a “nova justiça” não se realiza na “observância” dos mandamentos, mas na superação da Lei. Antes, esta é uma condição absoluta, onde antes da observação da lei, Deus quer o amor, a benevolência, a misericórdia.
Como todos os rabinos (mestres), Jesus não poderia ensinar a não ser partindo das Escrituras. Assim ele o faz, porém, a seu modo. Depois de esclarecer que nem ele nem seus discípulos estão contra a lei, ele continua e proclama cinco antíteses com a expressão “mas eu vos digo”, ou seja, mostra uma tese contrária à interpretação dada pelos fariseus e escribas, embora permaneçam os mesmos mandamentos que continuam em voga.
As três primeiras antíteses tratam as ações diretas ao próximo: o homicídio, o adultério e o divórcio, o juramento, como encontramos no Evangelho de hoje; e as outras duas tratam das reações no comportamento do outro: a lei do talião e o amor ao próximo, como veremos no próximo domingo. Antes de tudo, devemos saber que essas argumentações de Jesus devem ser entendidas como exemplos, e não como tratados completos dos âmbitos tocados nem mesmo podem ser tomadas ao pé da letra.
No primeiro caso (5,21-26), ele trata da superação dos conflitos. Um credor perdeu a paciência com aquele que lhe deve, quer levar o devedor ao tribunal e obter à força o pagamento do débito. Este caso representa as tensões de todo tipo e os comportamentos que daí derivam. Enfim, no modo mais radical, um conflito é resolvido com o homicídio da outra pessoa. O AT condena esta solução com a proibição: “não matarás!”. Mas, existem outras formas de comportamento nos conflitos: a ira, o rancor profundo, a injúria, o atacar, o ferir com palavras. Pois bem, Jesus condena também estes comportamentos. Deve-se evitar não somente a ação má, mas também a maldade do coração e as palavras más. O conflito não deve envenenar o amor que se deve guardar no coração.
A graduação das sanções mostra que pra cada tipo de atitude, deve-se proceder do modo correto: parte-se do tribunal local ao mais alto tribunal terreno, até o juízo final. Jesus quer mostrar que a falta para com o próximo e a solução errada não tiveram início já com o homicídio, mas muito antes, com os pensamentos. Por isso, deve-se empenhar a evitar não só a má ação como também o coração mau e as palavras más.
Este amor deve ser demonstrado não somente com o impedir o mal, mas também com a busca da reconciliação. Obviamente, para a reconciliação é necessário que as duas pessoas, pressupõe-se a disponibilidade do outro também. Mas isto não nos isenta da obrigação de fazer tudo o que está ao nosso alcance para conseguir. É um apelo a reconciliação e à amizade para com o próximo.
O que Jesus quer dizer no Evangelho de hoje é que não se trata apenas de seguir objetivamente determinadas regras, porque as Escrituras ou a Igreja assim nos pedem, mas seguir as regras de um modo compassivo e amoroso, sem legalismo e sem farisaísmo (sem máscaras). Era um mandamento na época de Jesus ofertar um sacrifício no altar, assim como é mandamento da nossa Igreja participar do Santo sacrifício da Missa aos domingos. Pois bem, este Evangelho nos diz que não serve a nada ir a uma missa, enquanto ainda alimentamos a raiva, o rancor, o ódio por alguém. É preciso ir primeiro reconciliar-se com o irmão e só então ir apresentar a oferta na celebração eucarística.
Com relação à mulher, Jesus faz duas considerações: a primeira com relação à mulher alheia (5,27-30), a segunda com relação à própria mulher, à esposa (5,31-32). Não podemos deixar que as forças naturais e espontâneas do desejo sexual nos dominem. Pelo contrário, nós é que devemos dominá-los. Deve ser respeitado toda comunhão de um matrimônio. Só o desejar a mulher alheia seria um desrespeito para com o próximo, sem contar que seria o primeiro passo para a ação concreta. Jesus quer mostrar que esse desrespeito é tão grande que ele exagera na exortação: de ser melhor arrancar e jogar o olho fora do que desejar. Logicamente, temos que entender que Jesus quer mostrar que a integridade do espírito é mais importante do que aquela do corpo. Até porque mesmo que se arrancasse o olho, o desejo sexual poderia continuar o mesmo. Acho que fica bastante claro o porquê das muçulmanas usarem os véus como o chador ou no exagero, o burca. Para preservar a beleza e os adronos só para o marido, enquanto as ocidentais vão no extremo oposto, fazer cada vez mais plásticas e se arrumarem exageradamente não para o marido, mas para chamar a atenção. Bom, cada um use a sabedoria e faça suas conclusões.
Já para o divórcio, Jesus estabelece uma nova hierarquia de valores. O homem não pode de forma alguma repudiar a própria esposa, ao absoluto respeito pelo matrimônio alheio corresponde a absoluta defesa do próprio casamento. Exceto no caso de relações irregulares, que sim devem ser desfeitas.
O terceiro tema é aquele da relação com a verdade (5,33-37). O problema vem do fato que todos nós dependemos em quase tudo das afirmações do nosso próximo e nem sempre somos transparentes uns com os outros. Ninguém pode saber para si tudo o que é importante; o conhecimento e as informações vão passando de uns para outros. Mas muitas vezes há muito engano, mentira, fingimento, falha da palavra dada. Para impedir isso, no tempo de Jesus, havia o hábito de jurar. Jurava-se por coisas fúteis e entrava de novo o problema da mentira, o juramento falso como é muito comum hoje também.
Pior, juravam falsamente por Deus. Logo Ele que é absolutamente verdadeiro e nunca enganou, é digno de fé. Jesus convida à retidão sem ser preciso recorrer a forma alguma de juramento. Deve-se respeitar Deus e o seu Nome. Seja o vosso sim “sim” e o vosso não “não”. Jesus não impõe leis arbitrárias, mas mostra o sentido delas. Toda tendência egoística, de falta de perdão, de desejos sexuais desordenados, de busca de interesses pessoais na base da mentira deve desaparecer.
A Lei de Deus no Antigo Testamento foi aperfeiçoada pela mensagem dinâmica do Evangelho do Novo Testamento. As complexidades da vida antiga podem parecer simples quando comparada com a dos tempos modernos. Mas são as mesmas e uma única abordagem farisaica não resolve nada. Mas, cada cristão alimentado pela Palavra de Deus tem um intelecto bem formado e consciente e é responsável pelas conclusões que ele ou ela chega. A sabedoria permite entender que o Deus da Sabedoria compreende cada um de nós, e nos ama totalmente.
Feliz o homem sem pecado que na lei do Senhor Deus vai progredindo!
Ensinai-me a viver vossos preceitos, dai-me o saber, e cumprirei a vossa lei e de todo o coração a guardarei.

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