quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

5 DOMINGO COMUM – Mt 5,13-16

O esforço cansativo para testemunhar ser sal da terra e luz do mundo No Evangelho deste domingo, Jesus apresenta um discurso simbólico riquíssimo de significado. São os símbolos do sal e da luz que Mateus coloca entre as bem-aventuranças que ouvimos no domingo passado e as antíteses do restante do sermão da montanha como veremos no próximo domingo. Mas para que estes simbolismos produzam em nós o efeito desejado por Jesus é preciso que os compreendamos bem.

Sal e luz são elementos essenciais para a vida. Elementos muito preciosos naquela época; só pra termos uma ideia, o sal, por exemplo, até o início do século XX, era o principal conservante alimentar. Era tão importante o sal que no período romano, era usado como forma de pagamento aos soldados, daí vem o nome salário: salarium argentum (pagamento em sal). Mas, hoje é banalizado. Um quilo de sal é uma das coisas mais baratas que podemos encontrar.

Por outro lado, a luz na época de Jesus predominantemente só havia aquela do dia, ou os caros e primitivos candeeiros de azeite que não ofereciam uma boa iluminação como temos hoje. Por isso, mais que na época de Jesus, ainda hoje, a noite é a hora das trevas, do mal, a hora dos ladrões agirem, a hora em que se acreditava que os espíritos agiam. O escuro era sinônimo de terror. Basta que durante a noite falte luz pra termos um pouquinho dessa sensação.

As parábolas de Jesus têm a capacidade de dizer grandes coisas com coisas simples do cotidiano. Entre o mistério do Reino e os pequenos acontecimentos do dia a dia parece não haver distância: tudo pode falar do mistério de Deus. O sentido uma vez entendido fica disponível a novas revelações. Cada evangelista retoma as parábolas adaptando-as às próprias exigências e ao próprio contexto.

Para Marcos, por exemplo, o sal é a sabedoria e a capacidade de comunhão. Já o enfoque de Mateus é diferente, é dirigido à capacidade de testemunhar, e diz respeito quer aos discípulos quer à multidão que o escuta. Todos são chamados a serem sal e luz, mas só o discípulo, aquele que se decide por Jesus e pelo Reino, é efetivamente marcado como aquele dá sabor e luz ao mundo.

Mateus divide o discurso em três partes: a primeira enfoca o sal (vós sois o sal da terra); a segunda sobre a luz (vós sois a luz do mundo); a terceira que define com mais clareza o âmbito de aplicação (assim também brilhe a vossa luz diante dos homens). Uma coisa que se percebe logo é a insistência sobre a segunda pessoa plural: vós (vossa luz... vossas boas obras...); e, portanto, sobre aqueles que aceitam tornar-se interlocutores de Jesus; em relação a estes está a “terra” e o “mundo”, ou a multidão dos “homens” (humanidade). Termo que é a finalidade da conduta de quem é sal e luz. Ou será pisado pelos homens ou brilha diante dos homens para que vejam e louvem o Pai.

Cada uma dessas imagens é apresentada com uma primeira afirmação: vós sois, afirmativamente, à qual segue uma discussão negativa: o que acontece ao sal se ele perde o seu sabor, tornar-se insosso? Pode ficar escondida uma cidade construída sobre o monte? Ou seja, é um absurdo pensar assim, o sal sem sabor deixa de ser sal, não tem sentido. E o mesmo vale para a luz escondida como absurda é a ideia de uma cidade sobre um monte que permaneça escondida.

O que o Evangelho na verdade quer mostrar é a dificuldade que temos em dar esse testemunho. Requer esforço e cansa ser sal e luz. Por isso, Jesus para nos encorajar não nos indica só o que devemos fazer, antes de tudo revela quem somos. O discípulo é sal e luz, independentemente do seu esforço e da sua vontade, sal no sentido simbólico do gosto, do invisível, da interioridade. A imagem da luz é no âmbito do visível, do belo, do exterior. Sal e luz não fazem nenhum esforço para dar gosto e iluminar, apenas são o que são e basta que sejam removidos os obstáculos para que sejam aquilo que devem ser.

Estes obstáculos são as dificuldades em dar o testemunho. O testemunho torna-se difícil se é reduzido a um dever, se se perde algo do próprio ser. Se o sal quisesse ficar doce, não seria mais sal. Quando o discípulo tentar entrar em contato com o mundo e se deixa afetar por ele, é mundanizado, é secularizado, perde o seu sabor. Jesus frequentava todo tipo de lugar, nunca deixou que o influenciassem, pelo contrário, ele sempre influenciou as pessoas onde quer que estivesse.

Portanto, muitos discípulos hoje em dia, acreditando serem modernos para dialogar e atrair, na verdade, perdem o seu próprio sabor, a própria identidade. E por isso, acabam sendo pisoteados pelos homens. O diálogo faz parte da identidade do cristão, mas o verdadeiro diálogo é acima de tudo o testemunho. A luz não pode ficar escondida. O testemunho é difícil se a fé se reduz a um fato privado, como algo íntimo e individual, não partilhado.

“Brilhe a vossa luz diante dos homens”: a imagem final nos mostra o testemunho que Jesus quer de cada um de nós. Não manifestações espalhafatosas, não missas shows onde não se tem mais o momento de silêncio para interiorizar, onde o centro das atenções não é Deus, mas os celebrantes, cantores, leitores etc; não a conquista e a aprovação da sociedade acomodando Jesus ao gosto pessoal de cada um e não o contrário como deveria ser, mas algo simples e cotidiano, como uma lâmpada resplandece, alimentada desde o seu interior.

Enfim, é cada um ser o que é e deixar transparecer. Não se exibir, mas simplesmente não se esconder. “Para que vejam as vossas boas obras e louvem o vosso Pai”. É a medida autêntica do nosso agir. Não somos chamados a fazer propaganda, mas a deixar agir em nós o amor do Pai, deixar que seja visível diante dos homens, para que esses louvem a Ele, não a nós.

Como diz Bento XVI no seu livro-entrevista “Luz do Mundo”: “não somos um centro de produção, não somos uma empresa finalizada ao lucro, somos Igreja. Somos uma comunidade de pessoas que vive na fé. A nossa missão não é criar um produto e ter sucesso nas vendas. A nossa tarefa é viver exemplarmente a fé, anunciá-la; e manter numa profunda relação com Cristo e assim com o próprio Deus não um grupo de interesses, mas uma comunidade de pessoas livres que gratuitamente se doa, e que atravessa nações e culturas, o tempo e o espaço”.

Então, o que falta para o nosso testemunho? O que nos impede de testemunhar? É pela insensibilidade dos homens ou pela nossa insipidez?

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