quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

VIII DOMINGO COMUM A - Mt 6,24-34

“Eu nunca me esquecerei de ti”

Nas duas liturgias dominicais passadas, Jesus nos ensinava qual deve ser a nossa atitude para com os outros. No Evangelho deste domingo, ele nos revela qual deve ser a nossa relação para com as coisas materiais. Que lugar os bens materiais devem ter na nossa vida? Até que ponto podem determinar os nossos desejos e esforços?

Num primeiro momento, Jesus dá a motivação fundamental (6,19-24), discurso com figuras de linguagem riquíssimas que infelizmente não aparece no lecionário: são os versículos 19-23, os quais para facilitar a compreensão do texto, exponho-os aqui junto com o v. 24: “Não ajunteis tesouros aqui na terra, onde a traça e a ferrugem destroem e os ladrões assaltam e roubam. Ao contrário, ajuntai para vós tesouros no céu, onde a traça e a ferrugem não destroem, nem os ladrões assaltam e roubam. Pois onde estiver o teu tesouro, aí estará também o teu coração. A lâmpada do corpo é o olho: se teu olho for límpido, ficarás todo cheio de luz. Mas se teu olho for ruim, ficarás todo em trevas. Se, pois, a luz em ti é trevas, quão grandes serão as trevas! Ninguém pode servir a dois senhores: pois ou odiará um e amará o outro, ou será fiel a um e desprezará o outro. Vós não podeis servir a Deus e ao dinheiro” (este último, lema da Campanha da Fraternidade 2010).

Num segundo momento, Jesus fala de comportamentos práticos (6,25-32), e, conclui, lembrando o valor que deve ocupar o primeiro lugar em nossa vida, em nossas aspirações e em nossos sentimentos, finalizando com uma sentença sapiencial que devemos viver a vida inteira (6,33-34).

Bom, nos seus ensinamentos sobre o tesouro, sobre o olho como lâmpada do corpo e sobre os dois senhores, Jesus adverte o perigo das formas erradas de relação para com os bens materiais. Jesus fala contra o acúmulo dos bens materiais (juntar dinheiro movido pelo amor a este). Ele cita bens como o dinheiro, objetos de valor (joias) e roupas preciosas (roupas de grife), apenas para citar alguns dos muitos tipos de posses terrenas. Jesus diz que são tesouros inseguros, a traça e a ferrugem podem corroer, ou um ladrão pode roubá-los. Não teremos absolutamente nenhuma segurança com eles, já que de uma hora para outra, podemos nos encontrar com as mãos abanando. E, assim, todo o nosso esforço, todo o nosso cansaço termina em nada.

Justamente por esse motivo, a nossa busca deve ser por tesouros cuja consistência e segurança não corra nenhum tipo de ameaça. E isto só acontece com os tesouros espirituais, tais quais a justiça, o abandonar-se à vontade de Deus e cumpri-la: “Buscai em primeiro lugar a sua justiça” (6,33). A essa sim, devemos direcionar a nossa fadiga, a nossa vontade de acumular.

Além desta falsa ilusão de segurança e durabilidade das coisas materiais, há também o problema do vínculo: “Pois onde estiver o teu tesouro, aí estará também o teu coração”. A forte ligação para com os bens terrenos não é algo que podemos considerar neutro, tem sim suas consequências. Neles se manifesta a disposição do nosso coração.

Se as coisas materiais são o nosso tesouro, a coisa principal da nossa vida, com que gastamos todo o nosso esforço, todo o nosso tempo, aquilo que queremos conseguir e conservar incondicionalmente, onde queremos encontrar segurança e apoio, de onde depende a nossa satisfação, a consciência do nosso valor e o nosso valor próprio aos olhos dos outros, então tenhamos certeza absoluta de uma coisa: nosso coração pertence aos bens materiais. Nossa adoração, o centro de nossa vida, o deus da nossa vida é o dinheiro. Mesmo que de modo farisaico, falso, mentiroso, impostor, aparente, a gente queira se enganar e diga para nós mesmos e para os outros que o senhor da nossa vida é Deus. Não é mesmo! Para comprovar, é só fazer um exame de consciência e analisar durante um tempo, por exemplo, do que mais falamos, com que mais nos preocupamos, do que mais damos valor, se somos “mão de vaca” etc. Os fatos irão nos desmascarar. E o primeiro mandamento é claro: amarás o Senhor teu Deus sobre todas as coisas.

Através do olho, a luz entra no ser humano. Dependendo da condição do olho depende se no interior há clareza ou escuridão. De fato, os olhos capturam a luz que incide sobre a retina que transforma essa luz recebida em impulsos nervosos que adentram pelo nervo óptico, que por sua vez, leva essas informação ao cérebro, onde lá são interpretadas essas sensações luminosas. Portanto, se a pessoa tem glaucoma onde o nervo ótico vai sendo pouco a pouco danificado e a visão vai diminuindo, podendo chegar a cegueira, tudo ficará escuro. Pois bem, podemos sofrer de glaucoma espiritual, quando nosso é arrogante, invejoso, malicioso; ou podemos ter a visão clara quando nosso olhar é generoso, bondoso, misericordioso. Este olhar sempre é determinado de acordo com o que está no nosso interior. Ou seja, pelo simples olhar, nosso olho pode ser sadio ou doente, espiritualmente falando. Se o nosso modo de ver é sadio, as nossas atitudes corresponderão a isto; se o nosso olhar é olhar doente, todo o nosso comportamento com relação às coisas e às pessoas, será um olhar distorcido e os nossos atos refletirão este fato.

As coisas materiais podem dominar uma pessoa. A relação entre aquele que possui e a coisa possuída pode ser tão doente que a pessoa se torne uma verdadeira escrava da coisa possuída e não o seu dono. A busca das coisas materiais pode ser tão preocupante que ela gaste a maior parte de seu tempo e cuidados com eles e se descuide dos valores mais importantes. Por fim, a pessoa chega a não servir mais a Deus, mas ao deus “dinheiro”. Porque estes dois serviços são incompatíveis e assim, a pessoa chega a adorar o dinheiro, a fazer do dinheiro um ídolo, a idolatrá-lo, e fazer de tudo o que há de mais errado para conseguir sempre mais.

Para não corrermos este perigo e porque nos ama imensamente, Jesus nos ensina para que tenhamos uma relação justa e sadia com as coisas terrenas. O ser humano não pode viver sem os bens materiais só com a sua inteligência e sua vontade. Nós temos que nos alimentarmos, e nos vestirmos e tantas outras coisas necessárias. E nesta dependência está a relação certa com os bens. Mesmo nessa relação com os bens necessários para viver, Deus tem um lugar decisivo. Como devemos viver isso, Jesus nos ensina: mesmo com relação às nossas necessidades, os bens não devem jamais dar a preocupação de dominar os nossos pensamentos de modo angustiante e descontrolado.

Porque sobre todas as preocupações tem que estar a fé e a convicção de que “o vosso Pai que está nos céus sabe que precisais de tudo isso”. Esquecer Deus, não confiar em Deus e ser absorvido somente pelas preocupações para as coisas materiais, necessárias ou não, é paganismo e idolatria. A confiança em Deus e na sua bondade deve acompanhar todas as nossas preocupações e nos dar segurança e liberdade interior.

Com algumas reflexões, Jesus nos recorda que Deus nos conhece e que providencia tudo para nós. Dele já recebemos o dom maior de todos: “o corpo e a vida”. Imaginemos as coisas menores. Os pássaros não semeiam, não colhem nem ajuntam em armazéns, e encontram sempre o que comer. Os lírios do campo não trabalham nem fiam e são vestidos esplendorosamente. Pois bem, se para os animais e os vegetais, Deus assim providenciou, imaginem para nós? Então, o que podemos conseguir com a simples preocupação? Preocupação é sinal de pouca fé.

Com esses exemplos, Jesus não quer dizer que não devamos trabalhar, nem semear, nem nos precavermos no sentido de planejar o futuro, mas ele quer simplesmente dizer que tudo isto não deve acontecer com uma preocupação cega, mas na confiança total em Deus. Obviamente há casos em pessoas morrem de fome, mas o que Jesus quer dizer é que o fato de se preocupar ansiosamente por isso não muda em nada o fato. Nesses casos, aí sim é que se requer confiança na Providência divina e fazer o que se pode.

Enfim, Jesus diz o que deve dominar os nossos esforços e desejos: a busca pelo Reino de Deus e a sua justiça. O sentido da vida não significa em preocupar-nos com tudo que esta vida terrena apresenta, mas vivendo esta vida terrena, nos orientarmos para a perfeita comunhão com Deus através do justo agir. O homem não pode prever o futuro, este está nas mãos de Deus. Então não serve a nada estar ansioso e inquieto pelo futuro. Jesus não fala contra a responsabilidade que temos para com o futuro, mas contra o estar ansioso por antecipação que significa falta de confiança nele. O Senhor é meu refúgio e rocha firme!

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

VII DOMINGO COMUM A - Mt 5,38-48

Ser perfeito: pagar o mal com o bem

Santidade! Perfeição! É o que nos pede Jesus na liturgia deste domingo. Para começarmos a refletir sobre o assunto, podemos fazer os seguintes questionamentos: será que meus pais esperavam que eu fosse um filho perfeito? Será que eles são ou eram perfeitos? Eu espero ou exijo que meus filhos, meu cônjuge, meus amigos e as pessoas com quem eu convivo sejam perfeitas? E eu? Sou perfeito? Claro que não! Ninguém é perfeito. Mas, afinal, se constatamos que nós nem os outros são perfeitos, o que significa essa ordem de Deus para sermos perfeitos?

Na verdade, a liturgia de hoje não fala da perfeição humana, ou seja, aquela expectativa irrealista de uma pessoa ser impecável, sem erros, com os próprios esforços, o chamado pecado do perfeccionismo. No Evangelho, Jesus é claro: “Sede perfeitos, como vosso Pai celeste é perfeito”. Devemos ser perfeitos como Deus. Mas será mesmo que Jesus quis dizer que nós podemos realmente atingir a perfeição de Deus? Vamos ver o que diz o contexto e descobrir.

Na primeira leitura de hoje, do livro do Levítico: “Sede santos, porque eu, o Senhor vosso Deus, sou santo”. Sim, devemos e podemos ser santos. Esta perfeição, esta santidade, porém, se refere à consciência que devemos ter de que Deus nos considera perfeitos, justos, santos em Jesus Cristo e, por isso, vamos progredindo na nossa caminhada espiritual. “Perfeição” no contexto da liturgia de hoje é a busca constante da maturidade espiritual, de pensar como Jesus pensava, de amar como ele amava, observando e imitando as suas atitudes. Sermos perfeitos como Deus seria uma coisa impossível. Mas, o próprio Deus tornou essa realidade possível. Jesus torna essa realidade possível quando ele se dignou assumir a nossa humanidade para que nós pudéssemos alcançar a sua divindade.

Jesus, o Cordeiro de Deus sem mancha, sem defeito algum, tira o pecado do mundo e através do Batismo, nos faz participantes da sua mesma vida divina. Há sim um esforço da nossa parte que é justamente cooperar com Deus para amadurecermos nele. Ser perfeito, ser santo, é ser maduro espiritualmente, é crescer espiritualmente e temos uma parte neste processo, que é justamente deixar Deus agir em nós através de Jesus Cristo, fazendo o que ele fez.

Seja qual for a definição, o livro do Levítico deixa claro que para sermos santos como Deus é santo, há que amar o próximo. Assim, já existia o comando dado por Deus de que devemos amar o nosso próximo como a nós mesmos. Este não é um mandamento novo dado por Jesus. Isto significava ser santo. Ser santo no original hebraico significa “separado, diferente, único”. Cada um devia amar, respeitar e ajudar ao próximo. No entanto, a palavra “próximo”, no contexto hebraico é muito limitada. “Próximo” na época em questão dizia respeito aos familiares ou àqueles da mesma tribo. O povo hebreu era convidado a cuidar e levar o bem-estar a seu próximo.

Na leitura do Evangelho de hoje, Jesus traz uma novidade. Ele amplia esse significado. Depois de ter recordado os valores que devem guiar o nosso comportamento para com o próximo, de não se encolerizar, não desejar a mulher do próximo, preservar a própria união conjugal e dizer sempre a verdade, ele apresenta ainda duas últimas antíteses, onde apresenta critérios em base aos quais devemos responder ao mal que sofremos: quando somos caluniados, ofendidos, maltratados, traídos, feridos; como devemos nos comportar para com os nossos “inimigos”!

Jesus explica que Deus não criou o mundo apenas para os judeus, mas o sol nasce para todos – até mesmo para as pessoas más. Assim, dando vários exemplos de coisas que aconteciam no cotidiano das pessoas, ele diz que precisamos amar sempre, não apenas os nossos parentes e companheiros próximos, mas todo o mundo, e tratar a todos como queremos ser tratados. Se amamos apenas aqueles que nos amam, isto não é grande coisa, pelo contrário, não há nenhuma novidade aqui.

Mas se nós amamos quem não nos ama, quem não nos conhece, quem nos desaprova, quem nos magoa, quem tenta nos prejudicar, aí sim fazemos o que ele fez. É exatamente isto que nos torna perfeitos e santos em Jesus Cristo, é pela forma como tratamos às pessoas, quem quer que seja, seja lá qual for o mal que elas tenham feito contra nós.

No salmo de hoje, o Salmo 102 (103), vemos que o Senhor é paciente, é bondoso e compassivo: não nos trata como exigem nossas faltas nem nos pune em proporção às nossas culpas, é esta atitude que devemos imitar na nossa vida em comunidade, imitando Deus que como um pai se compadece de seus filhos.

São Paulo também fala sobre a santidade de Deus e como podemos ser santos. Ao contrário das várias vezes que no AT em que Deus decide residir no Santo dos Santos no Templo de Jerusalém, a partir da morte e ressurreição de Cristo, Deus agora quer morar em nós. Somos agora o Templo de Deus, e como tal fomos feitos santos. Estamos separados, não somos deste mundo, apesar de vivermos no mundo, e precisamos abandonar a sabedoria deste mundo, e nos enchermos da Sabedoria de Deus, mesmo que isso nos faça parecermos idiotas.

São Paulo enfatiza: “ninguém se iluda: se alguém de vós pensa que é sábio nas coisas deste mundo, reconheça sua insensatez para se tornar sábio de verdade; pois a sabedoria deste mundo é insensatez diante de Deus; só com a sabedoria que vem de Deus podemos escolher o caminho da santidade.

Ainda no Evangelho, Jesus nos mostra com alguns exemplos específicos como podemos ser considerados tolos, idiotas, bobos, frouxos, fracos aos olhos deste mundo, porém santos aos olhos de Deus. Ele dá exemplos do que fazer com as pessoas que se aproveitam ou abusam de nós basicamente fazendo o oposto do que seria de se esperar, a fim de que essa pessoa sinta a vergonha pelo mal causado e faça assim transparecer diante de todos em nós o caráter de Deus. Esta é uma das mais fortes referências ao tema de Jesus da não-violência.

No entanto, é precisa entender que Jesus não está dizendo que devemos ficar esperando passivamente que os outros aprontem de tudo contra nós. O que ele está dizendo é que nós não devemos nos vingar, sentir rancor, responder às pessoas na mesma moeda, colocar-se no mesmo nível de coração ressentido. O caso de oferecer a face esquerda para um tapa não devemos considerar ao pé da letra, mas significa que devemos afastar-nos absolutamente do sentimento de vingança.

No caso da túnica, estamos falando de uma pessoa pobre e endividada que tinha apenas a roupa do corpo que consistia na túnica interior e no manto por cima da túnica. Então, Jesus diz que se alguém mover um processo para tomar sua túnica, dê-lhe também o manto, mas nunca use a violência. Não se deve nunca usar a lei do talião, olho por olho dente por dente, o pagar na mesma moeda, mas vencer o mal com o bem.

Ao invés de encontrar meios para retaliar, devemos tratar essas pessoas com uma bondade extra, a mais, “caminhar mais um quilômetro”, mostrar generosidade, ajudá-los quando estão necessitando. Em outras palavras, a ser “próximos” de quem possa ter nos tratado mal. É fácil? De jeito nenhum! É um dos mandamentos mais difíceis que podemos encontrar em toda a Bíblia, mas apesar de parecer ir contra os nossos próprios instintos de retaliar e vingar, é um mandamento que praticado, produz mais frutos bons na nossa vida e na vida do outro, uma verdadeira liberdade. É o caminho da santidade e da perfeição. Um caminho difícil, mas não impossível porque Deus habita em nós.

O amor aos inimigos e a oração por aqueles que nos perseguem como Igreja de Cristo tem este objetivo: desarmá-los, torná-los novos, porque só o amor e o perdão renova e é capaz de transformar o homem numa criatura nova. A palavra de Deus é viva e eficaz, não tenhamos dúvida. O que Jesus diz não é pra ser questionado, mas deve ser recebido como verdadeiro. Vamos experimentar e comprovar como o Senhor é bom e nos surpreende se pagarmos o mal com o bem.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

VI DOMINGO COMUM: Mt 5,17-37

Sabedoria divina: o empenho do cristão em escolher o bem e rejeitar o mal
No nosso mundo moderno, a sabedoria parece ser um esforço relativo. Por exemplo, é a sabedoria que nos ajuda a diferenciar entre o que uma pessoa não qualificada e um brilhante cirurgião podem fazer com um bisturi em mãos.
Os textos que a liturgia nos oferece hoje falam da sabedoria. O pensamento que encontramos na I leitura do livro do Eclesiástico reflete a sabedoria judaica (literatura sapiencial) do início do século II a.C. que competia com a abundância da famosa literatura sapiencial grega daquela época. A sabedoria não deveria ser confundida ou comparada de forma simplista com a esperteza nem mesmo com a inteligência, pois a sabedoria exige o empenho de uma mente bem desenvolvida, exige a capacidade de analisar, de associar para usar uma metáfora, para comparar e contrastar, para diferenciar o que é relativo e o que é absoluto.
Uma ideologia indiferente ou um foco único sobre um tema é muitas vezes uma grande imprudência destrutiva. Precisamente, este texto da I leitura coloca uma enorme responsabilidade sobre a pessoa que crê individualmente a se empenhar de forma madura e adulta. Podemos ver isso pelos verbo mais usado na leitura: escolher (“para o que quiseres”, “receberá aquilo que preferir”). O autor do Eclesiástico era convicto que o fiel que ama e teme ao Deus de Israel deveria se empenhar efetivamente em favor da vida e do bem: “Diante do homem estão a vida e a morte, o bem e o mal”. Este Deus “conhece todas as obras do homem”.
A pregação de Paulo na II leitura, juntamente com outros, tinha (usando suas metáforas) plantado, regado e colhido a mensagem do Evangelho entre os coríntios. Agora, ele insiste, que se empenhem nessa mesma mensagem dinâmica do Evangelho e continuem a aperfeiçoar-se por ela. Já sabemos que os coríntios viviam exatamente como o mundo atual: sujeitos às tentações e à preguiça, à adoração ao ídolo dinheiro, e ao egoísmo. Esta comunidade da Igreja primitiva estava causando escândalo entre os seus próprios membros. Paulo esperava que, convencendo os cristãos de Corinto a fazer uma pausa e a fazer um exame de consciência com frequência, eles pudessem se reconectar com a Sabedoria que ele já havia pregado e já havia invocado sobre eles.
Pois bem, mas quais são essas boas obras que devem escolher os discípulos de Jesus? O texto do Evangelho de hoje é longo, mas é melhor proclamado na sua íntegra do que na sua forma breve. Depois das Bem-aventuranças e as duas comparações (“sal da terra e luz do mundo”) como responsabilidades irrenunciáveis dos discípulos, Jesus se apresenta como Aquele que traz a revelação definitiva da vontade de Deus e assim, começa um monólogo bastante longo sobre o cumprimento da Lei antiga e os profetas (AT).
Ele não se opõe à Tradição na qual nasceu; antes, Ele diz que absolutamente nada da Lei será abolido, nem uma única vírgula, mas também não será confirmada simplesmente na sua forma precedente, pois Jesus descobre, revela o seu verdadeiro sentido, cumpre a Lei. Começa denunciando a “justiça” dos escribas e fariseus, dizendo que a “nova justiça” não se realiza na “observância” dos mandamentos, mas na superação da Lei. Antes, esta é uma condição absoluta, onde antes da observação da lei, Deus quer o amor, a benevolência, a misericórdia.
Como todos os rabinos (mestres), Jesus não poderia ensinar a não ser partindo das Escrituras. Assim ele o faz, porém, a seu modo. Depois de esclarecer que nem ele nem seus discípulos estão contra a lei, ele continua e proclama cinco antíteses com a expressão “mas eu vos digo”, ou seja, mostra uma tese contrária à interpretação dada pelos fariseus e escribas, embora permaneçam os mesmos mandamentos que continuam em voga.
As três primeiras antíteses tratam as ações diretas ao próximo: o homicídio, o adultério e o divórcio, o juramento, como encontramos no Evangelho de hoje; e as outras duas tratam das reações no comportamento do outro: a lei do talião e o amor ao próximo, como veremos no próximo domingo. Antes de tudo, devemos saber que essas argumentações de Jesus devem ser entendidas como exemplos, e não como tratados completos dos âmbitos tocados nem mesmo podem ser tomadas ao pé da letra.
No primeiro caso (5,21-26), ele trata da superação dos conflitos. Um credor perdeu a paciência com aquele que lhe deve, quer levar o devedor ao tribunal e obter à força o pagamento do débito. Este caso representa as tensões de todo tipo e os comportamentos que daí derivam. Enfim, no modo mais radical, um conflito é resolvido com o homicídio da outra pessoa. O AT condena esta solução com a proibição: “não matarás!”. Mas, existem outras formas de comportamento nos conflitos: a ira, o rancor profundo, a injúria, o atacar, o ferir com palavras. Pois bem, Jesus condena também estes comportamentos. Deve-se evitar não somente a ação má, mas também a maldade do coração e as palavras más. O conflito não deve envenenar o amor que se deve guardar no coração.
A graduação das sanções mostra que pra cada tipo de atitude, deve-se proceder do modo correto: parte-se do tribunal local ao mais alto tribunal terreno, até o juízo final. Jesus quer mostrar que a falta para com o próximo e a solução errada não tiveram início já com o homicídio, mas muito antes, com os pensamentos. Por isso, deve-se empenhar a evitar não só a má ação como também o coração mau e as palavras más.
Este amor deve ser demonstrado não somente com o impedir o mal, mas também com a busca da reconciliação. Obviamente, para a reconciliação é necessário que as duas pessoas, pressupõe-se a disponibilidade do outro também. Mas isto não nos isenta da obrigação de fazer tudo o que está ao nosso alcance para conseguir. É um apelo a reconciliação e à amizade para com o próximo.
O que Jesus quer dizer no Evangelho de hoje é que não se trata apenas de seguir objetivamente determinadas regras, porque as Escrituras ou a Igreja assim nos pedem, mas seguir as regras de um modo compassivo e amoroso, sem legalismo e sem farisaísmo (sem máscaras). Era um mandamento na época de Jesus ofertar um sacrifício no altar, assim como é mandamento da nossa Igreja participar do Santo sacrifício da Missa aos domingos. Pois bem, este Evangelho nos diz que não serve a nada ir a uma missa, enquanto ainda alimentamos a raiva, o rancor, o ódio por alguém. É preciso ir primeiro reconciliar-se com o irmão e só então ir apresentar a oferta na celebração eucarística.
Com relação à mulher, Jesus faz duas considerações: a primeira com relação à mulher alheia (5,27-30), a segunda com relação à própria mulher, à esposa (5,31-32). Não podemos deixar que as forças naturais e espontâneas do desejo sexual nos dominem. Pelo contrário, nós é que devemos dominá-los. Deve ser respeitado toda comunhão de um matrimônio. Só o desejar a mulher alheia seria um desrespeito para com o próximo, sem contar que seria o primeiro passo para a ação concreta. Jesus quer mostrar que esse desrespeito é tão grande que ele exagera na exortação: de ser melhor arrancar e jogar o olho fora do que desejar. Logicamente, temos que entender que Jesus quer mostrar que a integridade do espírito é mais importante do que aquela do corpo. Até porque mesmo que se arrancasse o olho, o desejo sexual poderia continuar o mesmo. Acho que fica bastante claro o porquê das muçulmanas usarem os véus como o chador ou no exagero, o burca. Para preservar a beleza e os adronos só para o marido, enquanto as ocidentais vão no extremo oposto, fazer cada vez mais plásticas e se arrumarem exageradamente não para o marido, mas para chamar a atenção. Bom, cada um use a sabedoria e faça suas conclusões.
Já para o divórcio, Jesus estabelece uma nova hierarquia de valores. O homem não pode de forma alguma repudiar a própria esposa, ao absoluto respeito pelo matrimônio alheio corresponde a absoluta defesa do próprio casamento. Exceto no caso de relações irregulares, que sim devem ser desfeitas.
O terceiro tema é aquele da relação com a verdade (5,33-37). O problema vem do fato que todos nós dependemos em quase tudo das afirmações do nosso próximo e nem sempre somos transparentes uns com os outros. Ninguém pode saber para si tudo o que é importante; o conhecimento e as informações vão passando de uns para outros. Mas muitas vezes há muito engano, mentira, fingimento, falha da palavra dada. Para impedir isso, no tempo de Jesus, havia o hábito de jurar. Jurava-se por coisas fúteis e entrava de novo o problema da mentira, o juramento falso como é muito comum hoje também.
Pior, juravam falsamente por Deus. Logo Ele que é absolutamente verdadeiro e nunca enganou, é digno de fé. Jesus convida à retidão sem ser preciso recorrer a forma alguma de juramento. Deve-se respeitar Deus e o seu Nome. Seja o vosso sim “sim” e o vosso não “não”. Jesus não impõe leis arbitrárias, mas mostra o sentido delas. Toda tendência egoística, de falta de perdão, de desejos sexuais desordenados, de busca de interesses pessoais na base da mentira deve desaparecer.
A Lei de Deus no Antigo Testamento foi aperfeiçoada pela mensagem dinâmica do Evangelho do Novo Testamento. As complexidades da vida antiga podem parecer simples quando comparada com a dos tempos modernos. Mas são as mesmas e uma única abordagem farisaica não resolve nada. Mas, cada cristão alimentado pela Palavra de Deus tem um intelecto bem formado e consciente e é responsável pelas conclusões que ele ou ela chega. A sabedoria permite entender que o Deus da Sabedoria compreende cada um de nós, e nos ama totalmente.
Feliz o homem sem pecado que na lei do Senhor Deus vai progredindo!
Ensinai-me a viver vossos preceitos, dai-me o saber, e cumprirei a vossa lei e de todo o coração a guardarei.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

5 DOMINGO COMUM – Mt 5,13-16

O esforço cansativo para testemunhar ser sal da terra e luz do mundo No Evangelho deste domingo, Jesus apresenta um discurso simbólico riquíssimo de significado. São os símbolos do sal e da luz que Mateus coloca entre as bem-aventuranças que ouvimos no domingo passado e as antíteses do restante do sermão da montanha como veremos no próximo domingo. Mas para que estes simbolismos produzam em nós o efeito desejado por Jesus é preciso que os compreendamos bem.

Sal e luz são elementos essenciais para a vida. Elementos muito preciosos naquela época; só pra termos uma ideia, o sal, por exemplo, até o início do século XX, era o principal conservante alimentar. Era tão importante o sal que no período romano, era usado como forma de pagamento aos soldados, daí vem o nome salário: salarium argentum (pagamento em sal). Mas, hoje é banalizado. Um quilo de sal é uma das coisas mais baratas que podemos encontrar.

Por outro lado, a luz na época de Jesus predominantemente só havia aquela do dia, ou os caros e primitivos candeeiros de azeite que não ofereciam uma boa iluminação como temos hoje. Por isso, mais que na época de Jesus, ainda hoje, a noite é a hora das trevas, do mal, a hora dos ladrões agirem, a hora em que se acreditava que os espíritos agiam. O escuro era sinônimo de terror. Basta que durante a noite falte luz pra termos um pouquinho dessa sensação.

As parábolas de Jesus têm a capacidade de dizer grandes coisas com coisas simples do cotidiano. Entre o mistério do Reino e os pequenos acontecimentos do dia a dia parece não haver distância: tudo pode falar do mistério de Deus. O sentido uma vez entendido fica disponível a novas revelações. Cada evangelista retoma as parábolas adaptando-as às próprias exigências e ao próprio contexto.

Para Marcos, por exemplo, o sal é a sabedoria e a capacidade de comunhão. Já o enfoque de Mateus é diferente, é dirigido à capacidade de testemunhar, e diz respeito quer aos discípulos quer à multidão que o escuta. Todos são chamados a serem sal e luz, mas só o discípulo, aquele que se decide por Jesus e pelo Reino, é efetivamente marcado como aquele dá sabor e luz ao mundo.

Mateus divide o discurso em três partes: a primeira enfoca o sal (vós sois o sal da terra); a segunda sobre a luz (vós sois a luz do mundo); a terceira que define com mais clareza o âmbito de aplicação (assim também brilhe a vossa luz diante dos homens). Uma coisa que se percebe logo é a insistência sobre a segunda pessoa plural: vós (vossa luz... vossas boas obras...); e, portanto, sobre aqueles que aceitam tornar-se interlocutores de Jesus; em relação a estes está a “terra” e o “mundo”, ou a multidão dos “homens” (humanidade). Termo que é a finalidade da conduta de quem é sal e luz. Ou será pisado pelos homens ou brilha diante dos homens para que vejam e louvem o Pai.

Cada uma dessas imagens é apresentada com uma primeira afirmação: vós sois, afirmativamente, à qual segue uma discussão negativa: o que acontece ao sal se ele perde o seu sabor, tornar-se insosso? Pode ficar escondida uma cidade construída sobre o monte? Ou seja, é um absurdo pensar assim, o sal sem sabor deixa de ser sal, não tem sentido. E o mesmo vale para a luz escondida como absurda é a ideia de uma cidade sobre um monte que permaneça escondida.

O que o Evangelho na verdade quer mostrar é a dificuldade que temos em dar esse testemunho. Requer esforço e cansa ser sal e luz. Por isso, Jesus para nos encorajar não nos indica só o que devemos fazer, antes de tudo revela quem somos. O discípulo é sal e luz, independentemente do seu esforço e da sua vontade, sal no sentido simbólico do gosto, do invisível, da interioridade. A imagem da luz é no âmbito do visível, do belo, do exterior. Sal e luz não fazem nenhum esforço para dar gosto e iluminar, apenas são o que são e basta que sejam removidos os obstáculos para que sejam aquilo que devem ser.

Estes obstáculos são as dificuldades em dar o testemunho. O testemunho torna-se difícil se é reduzido a um dever, se se perde algo do próprio ser. Se o sal quisesse ficar doce, não seria mais sal. Quando o discípulo tentar entrar em contato com o mundo e se deixa afetar por ele, é mundanizado, é secularizado, perde o seu sabor. Jesus frequentava todo tipo de lugar, nunca deixou que o influenciassem, pelo contrário, ele sempre influenciou as pessoas onde quer que estivesse.

Portanto, muitos discípulos hoje em dia, acreditando serem modernos para dialogar e atrair, na verdade, perdem o seu próprio sabor, a própria identidade. E por isso, acabam sendo pisoteados pelos homens. O diálogo faz parte da identidade do cristão, mas o verdadeiro diálogo é acima de tudo o testemunho. A luz não pode ficar escondida. O testemunho é difícil se a fé se reduz a um fato privado, como algo íntimo e individual, não partilhado.

“Brilhe a vossa luz diante dos homens”: a imagem final nos mostra o testemunho que Jesus quer de cada um de nós. Não manifestações espalhafatosas, não missas shows onde não se tem mais o momento de silêncio para interiorizar, onde o centro das atenções não é Deus, mas os celebrantes, cantores, leitores etc; não a conquista e a aprovação da sociedade acomodando Jesus ao gosto pessoal de cada um e não o contrário como deveria ser, mas algo simples e cotidiano, como uma lâmpada resplandece, alimentada desde o seu interior.

Enfim, é cada um ser o que é e deixar transparecer. Não se exibir, mas simplesmente não se esconder. “Para que vejam as vossas boas obras e louvem o vosso Pai”. É a medida autêntica do nosso agir. Não somos chamados a fazer propaganda, mas a deixar agir em nós o amor do Pai, deixar que seja visível diante dos homens, para que esses louvem a Ele, não a nós.

Como diz Bento XVI no seu livro-entrevista “Luz do Mundo”: “não somos um centro de produção, não somos uma empresa finalizada ao lucro, somos Igreja. Somos uma comunidade de pessoas que vive na fé. A nossa missão não é criar um produto e ter sucesso nas vendas. A nossa tarefa é viver exemplarmente a fé, anunciá-la; e manter numa profunda relação com Cristo e assim com o próprio Deus não um grupo de interesses, mas uma comunidade de pessoas livres que gratuitamente se doa, e que atravessa nações e culturas, o tempo e o espaço”.

Então, o que falta para o nosso testemunho? O que nos impede de testemunhar? É pela insensibilidade dos homens ou pela nossa insipidez?