sábado, 15 de janeiro de 2011

3º DOMINGO COMUM - Mt 4,12-23

PESCADORES NUM MAR POLUÍDO

Desde as suas primeiras aparições públicas, Jesus se apresenta como um missionário itinerante ensinando, pregando a boa notícia do Reino, curando os doentes, chamando discípulos aqui e ali. Começa a sua missão, porém, não em lugares importantes nem religiosos como Jerusalém, mas em zonas de periferia, pobres, em lugares afastados, os menos religiosos, os quase pagãos, os impuros, como eram considerados os habitantes da Galileia.

Jesus deixa Nazaré e vai viver em Cafarnaum, povoado de fronteira, com uma alfândega para as mercadorias em trânsito ao redor do caminho do mar (Via Maris), a estrada imperial que unia Egito, Palestina, Síria e Mesopotâmia. Desde a antiguidade, portanto, a Galileia era uma zona de cruzamento de povos, submetida à passagem de tropas e ao controle dos negócios, com as consequentes contaminações e recaídas morais. Com isto, entende-se o apelo que o profeta Isaías dirige aos habitantes da região (I leitura): passar da experiência humilhante da escravidão e do jugo da opressão para a vida com liberdade, com uma grande luz e alegria.

Mateus percebe que a profecia de Isaías se cumpriu com a presença de Jesus, cuja missão tem um início carregado de esperança, porém, sobre a base de um exigente programa de conversão a Deus e de empenho pelo seu Reino.

Com esta escolha inicial, Jesus mostra que os primeiros destinatários do seu Evangelho e do Reino não são os “justos”, os observantes da lei ou aqueles que se acham os tais, mas os afastados, os excluídos, os pecadores. Este é o início humilde de uma missão que terá horizontes universais, e que será levada adiante pelos discípulos e pelos seus sucessores, chamados a seguir Jesus para serem, em qualquer parte do mundo, “pescadores de homens”.

A vocação missionária inclui sempre um êxodo, uma partida, uma saída, frequentemente também geográfica, deixar alguém ou algo; há sempre um desapego, uma renúncia, um sair do próprio egoísmo. Aqui Jesus deixa Nazaré e a convivência com os pais e parentes. Como Abraão foi convidado a sair da sua terra e da sua parentela, assim também acontece com dois irmãos (Simão Pedro e André), chamados por Jesus a segui-lo, deixando as redes, barca e pai. De tal modo que a vocação não é nunca uma partida para o vazio: é um deixar algo para seguir alguém, uma partida ao encontro de um outro. É em primeiro lugar desapegar-se para apegar-se à pessoa de Jesus.

Esta vocação-missão encontra suas raízes numa conversão, uma mudança de mentalidade, uma orientação nova para Deus e o seu Reino, do qual Jesus Cristo é a plenitude. A conversão a Cristo inclui o seguimento e a missão, o estar bem enraizado nele e ao mesmo tempo inserido no mundo: “farei de vós pescadores de homens”. Assim, aconteceu com Paulo (II leitura). Sua conversão foi total e fiel até o martírio. Não foi um simples convertido cristão, mas o maior missionário entre os pagãos, o enamorado pregador de Cristo crucificado e ressuscitado. Tomar consciência da vastidão e urgência dos problemas do mundo ajuda a sair dos egoísmos, divisões e tensões locais. Como diz Teresa de Ávila: “o mundo está queimando, não há tempo para tratar com Deus coisas de pouca importância... quando vejo as grandes necessidades da Igreja, estas me afligem tanto que me parece uma piada se preocupar com outras coisas”.

“A missão evangelizadora da Igreja é a resposta ao brado "Vinde, Senhor Jesus!", que percorre toda a história da salvação e que continua a elevar-se dos lábios dos crentes. "o acolhimento da Boa Nova na fé, em si estimula" a comunicar a salvação recebida como dom... Nada é mais belo, urgente e importante que voltar a dar gratuitamente aos homens o que recebemos gratuitamente de Deus! Nada nos pode eximir ou livrar deste gravoso e fascinante compromisso. Cada cristão e comunidade sintam a alegria de partilhar com os outros a Boa Nova de que "Deus amou de tal modo o mundo que lhe deu o Seu Filho único... para que o mundo seja salvo por Ele" (Jo 3, 16-17). Bento XVI – Angelus de 23 de dezembro de 2007.

Nenhum comentário: