quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

MENSAGEM DE SUA SANTIDADE BENTO XVI PARA A CELEBRAÇÃO DO DIA MUNDIAL DA PAZ

1 DE JANEIRO DE 2012

EDUCAR OS JOVENS PARA A JUSTIÇA E A PAZ

1. O INÍCIO DE UM NOVO ANO, dom de Deus à humanidade, induz-me a desejar a todos, com grande confiança e estima, de modo especial que este tempo, que se abre diante de nós, fique marcado concretamente pela justiça e a paz.

Com qual atitude devemos olhar para o novo ano? No salmo 130, encontramos uma imagem muito bela. O salmista diz que o homem de fé aguarda pelo Senhor « mais do que a sentinela pela aurora » (v. 6), aguarda por Ele com firme esperança, porque sabe que trará luz, misericórdia, salvação. Esta expectativa nasce da experiência do povo eleito, que reconhece ter sido educado por Deus a olhar o mundo na sua verdade sem se deixar abater pelas tribulações. Convido-vos a olhar o ano de 2012 com esta atitude confiante. É verdade que, no ano que termina, cresceu o sentido de frustração por causa da crise que aflige a sociedade, o mundo do trabalho e a economia; uma crise cujas raízes são primariamente culturais e antropológicas. Quase parece que um manto de escuridão teria descido sobre o nosso tempo, impedindo de ver com clareza a luz do dia.

Mas, nesta escuridão, o coração do homem não cessa de aguardar pela aurora de que fala o salmista. Esta expectativa mostra-se particularmente viva e visível nos jovens; e é por isso que o meu pensamento se volta para eles, considerando o contributo que podem e devem oferecer à sociedade. Queria, pois, revestir a Mensagem para o XLV Dia Mundial da Paz duma perspectiva educativa: « Educar os jovens para a justiça e a paz », convencido de que eles podem, com o seu entusiasmo e idealismo, oferecer uma nova esperança ao mundo.

A minha Mensagem dirige-se também aos pais, às famílias, a todas as componentes educativas, formadoras, bem como aos responsáveis nos diversos âmbitos da vida religiosa, social, política, económica, cultural e mediática. Prestar atenção ao mundo juvenil, saber escutá-lo e valorizá-lo para a construção dum futuro de justiça e de paz não é só uma oportunidade mas um dever primário de toda a sociedade.

Trata-se de comunicar aos jovens o apreço pelo valor positivo da vida, suscitando neles o desejo de consumá-la ao serviço do Bem. Esta é uma tarefa, na qual todos nós estamos, pessoalmente, comprometidos.

As preocupações manifestadas por muitos jovens nestes últimos tempos, em várias regiões do mundo, exprimem o desejo de poder olhar para o futuro com fundada esperança. Na hora actual, muitos são os aspectos que os trazem apreensivos: o desejo de receber uma formação que os prepare de maneira mais profunda para enfrentar a realidade, a dificuldade de formar uma família e encontrar um emprego estável, a capacidade efectiva de intervir no mundo da política, da cultura e da economia contribuindo para a construção duma sociedade de rosto mais humano e solidário.

É importante que estes fermentos e o idealismo que encerram encontrem a devida atenção em todas  as componentes da sociedade. A Igreja olha para os jovens com esperança, tem confiança neles e encoraja-os a procurarem a verdade, a defenderem o bem comum, a possuírem perspectivas abertas sobre o mundo e olhos capazes de ver « coisas novas » (Is 42, 9; 48, 6).

Os responsáveis da educação

2. A educação é a aventura mais fascinante e difícil da vida. Educar – na sua etimologia latina educere – significa conduzir para fora de si mesmo ao encontro da realidade, rumo a uma plenitude que faz crescer a pessoa. Este processo alimenta-se do encontro de duas liberdades: a do adulto e a do jovem. Isto exige a responsabilidade do discípulo, que deve estar disponível para se deixar guiar no conhecimento da realidade, e a do educador, que deve estar disposto a dar-se a si mesmo. Mas, para isso, não bastam meros dispensadores de regras e informações; são necessárias testemunhas autênticas, ou seja, testemunhas que saibam ver mais longe do que os outros, porque a sua vida abraça espaços mais amplos. A testemunha é alguém que vive, primeiro, o caminho que propõe.

E quais são os lugares onde amadurece uma verdadeira educação para a paz e a justiça? Antes de mais nada, a família, já que os pais são os primeiros educadores. A família é célula originária da sociedade. « É na família que os filhos aprendem os valores humanos e cristãos que permitem uma convivência construtiva e pacífica. É na família que aprendem a solidariedade entre as gerações, o respeito pelas regras, o perdão e o acolhimento do outro ».[1] Esta é a primeira escola, onde se educa para a justiça e a paz.

Vivemos num mundo em que a família e até a própria vida se vêem constantemente ameaçadas e, não raro, destroçadas. Condições de trabalho frequentemente pouco compatíveis com as responsabilidades familiares, preocupações com o futuro, ritmos frenéticos de vida, emigração à procura dum adequado sustentamento se não mesmo da pura sobrevivência, acabam por tornar difícil a possibilidade de assegurar aos filhos um dos bens mais preciosos: a presença dos pais; uma presença, que permita compartilhar de forma cada vez mais profunda o caminho para se poder transmitir a experiência e as certezas adquiridas com os anos – o que só se torna viável com o tempo passado juntos. Queria aqui dizer aos pais para não desanimarem! Com o exemplo da sua vida, induzam os filhos a colocar a esperança antes de tudo em Deus, o único de quem surgem justiça e paz autênticas.

Quero dirigir-me também aos responsáveis das instituições com tarefas educativas: Velem, com grande sentido de responsabilidade, por que seja respeitada e valorizada em todas as circunstâncias a dignidade de cada pessoa. Tenham a peito que cada jovem possa descobrir a sua própria vocação, acompanhando-o para fazer frutificar os dons que o Senhor lhe concedeu. Assegurem às famílias que os seus filhos não terão um caminho formativo em contraste com a sua consciência e os seus princípios religiosos.

Possa cada ambiente educativo ser lugar de abertura ao transcendente e aos outros; lugar de diálogo, coesão e escuta, onde o jovem se sinta valorizado nas suas capacidades e riquezas interiores e aprenda a apreciar os irmãos. Possa ensinar a saborear a alegria que deriva de viver dia após dia a caridade e a compaixão para com o próximo e de participar activamente na construção duma sociedade mais humana e fraterna.

Dirijo-me, depois, aos responsáveis políticos, pedindo-lhes que ajudem concretamente as famílias e as instituições educativas a exercerem o seu direito-dever de educar. Não deve jamais faltar um adequado apoio à maternidade e à paternidade. Actuem de modo que a ninguém seja negado o acesso à instrução e que as famílias possam escolher livremente as estruturas educativas consideradas mais idóneas para o bem dos seus filhos. Esforcem-se por favorecer a reunificação das famílias que estão separadas devido à necessidade de encontrar meios de subsistência. Proporcionem aos jovens uma imagem transparente da política, como verdadeiro serviço para o bem de todos.

Não posso deixar de fazer apelo ainda ao mundo dos media para que prestem a sua contribuição educativa. Na sociedade actual, os meios de comunicação de massa têm uma função particular: não só informam, mas também formam o espírito dos seus destinatários e, consequentemente, podem concorrer notavelmente para a educação dos jovens. É importante ter presente a ligação estreitíssima que existe entre educação e comunicação: de facto, a educação realiza-se por meio da comunicação, que influi positiva ou negativamente na formação da pessoa.

Também os jovens devem ter a coragem de começar, eles mesmos, a viver aquilo que pedem a quantos os rodeiam. Que tenham a força de fazer um uso bom e consciente da liberdade, pois cabe-lhes em tudo isto uma grande responsabilidade: são responsáveis pela sua própria educação e formação para a justiça e a paz.

Educar para a verdade e a liberdade

3. Santo Agostinho perguntava-se: « Quid enim fortius desiderat anima quam veritatem – que deseja o homem mais intensamente do que a verdade? ».[2] O rosto humano duma sociedade depende muito da contribuição da educação para manter viva esta questão inevitável. De facto, a educação diz respeito à formação integral da pessoa, incluindo a dimensão moral e espiritual do seu ser, tendo em vista o seu fim último e o bem da sociedade a que pertence. Por isso, a fim de educar para a verdade, é preciso antes de mais nada saber que é a pessoa humana, conhecer a sua natureza. Olhando a realidade que o rodeava, o salmista pôs-se a pensar: « Quando contemplo os céus, obra das vossas mãos, a lua e as estrelas que Vós criastes: que é o homem para Vos lembrardes dele, o filho do homem para com ele Vos preocupardes? » (Sal 8, 4-5). Esta é a pergunta fundamental que nos devemos colocar: Que é o homem? O homem é um ser que traz no coração uma sede de infinito, uma sede de verdade – não uma verdade parcial, mas capaz de explicar o sentido da vida –, porque foi criado à imagem e semelhança de Deus. Assim, o facto de reconhecer com gratidão a vida como dom inestimável leva a descobrir a dignidade profunda e a inviolabilidade própria de cada pessoa. Por isso, a primeira educação consiste em aprender a reconhecer no homem a imagem do Criador e, consequentemente, a ter um profundo respeito por cada ser humano e ajudar os outros a realizarem uma vida conforme a esta sublime dignidade. É preciso não esquecer jamais que « o autêntico desenvolvimento do homem diz respeito unitariamente à totalidade da pessoa em todas as suas dimensões »,[3] incluindo a transcendente, e que não se pode sacrificar a pessoa para alcançar um bem particular, seja ele económico ou social, individual ou colectivo.

Só na relação com Deus é que o homem compreende o significado da sua liberdade, sendo tarefa da educação formar para a liberdade autêntica. Esta não é a ausência de vínculos, nem o império do livre arbítrio; não é o absolutismo do eu. Quando o homem se crê um ser absoluto, que não depende de nada nem de ninguém e pode fazer tudo o que lhe apetece, acaba por contradizer a verdade do seu ser e perder a sua liberdade. De facto, o homem é precisamente o contrário: um ser relacional, que vive em relação com os outros e sobretudo com Deus. A liberdade autêntica não pode jamais ser alcançada, afastando-se d’Ele.

A liberdade é um valor precioso, mas delicado: pode ser mal entendida e usada mal. « Hoje um obstáculo particularmente insidioso à acção educativa é constituído pela presença maciça, na nossa sociedade e cultura, daquele relativismo que, nada reconhecendo como definitivo, deixa como última medida somente o próprio eu com os seus desejos e, sob a aparência da liberdade, torna-se para cada pessoa uma prisão, porque separa uns dos outros, reduzindo cada um a permanecer fechado dentro do próprio “eu”. Dentro de um horizonte relativista como este, não é possível, portanto, uma verdadeira educação: sem a luz da verdade, mais cedo ou mais tarde cada pessoa está, de facto, condenada a duvidar da bondade da sua própria vida e das relações que a constituem, da validez do seu compromisso para construir com os outros algo em comum ».[4]

Por conseguinte o homem, para exercer a sua liberdade, deve superar o horizonte relativista e conhecer a verdade sobre si próprio e a verdade acerca do que é bem e do que é mal. No íntimo da consciência, o homem descobre uma lei que não se impôs a si mesmo, mas à qual deve obedecer e cuja voz o chama a amar e fazer o bem e a fugir do mal, a assumir a responsabilidade do bem cumprido e do mal praticado.[5] Por isso o exercício da liberdade está intimamente ligado com a lei moral natural, que tem carácter universal, exprime a dignidade de cada pessoa, coloca a base dos seus direitos e deveres fundamentais e, consequentemente, da convivência justa e pacífica entre as pessoas.

Assim o recto uso da liberdade é um ponto central na promoção da justiça e da paz, que exigem a cada um o respeito por si próprio e pelo outro, mesmo possuindo um modo de ser e viver distante do meu. Desta atitude derivam os elementos sem os quais paz e justiça permanecem palavras desprovidas de conteúdo: a confiança recíproca, a capacidade de encetar um diálogo construtivo, a possibilidade do perdão, que muitas vezes se quereria obter mas sente-se dificuldade em conceder, a caridade mútua, a compaixão para com os mais frágeis, e também a prontidão ao sacrifício.

Educar para a justiça

4. No nosso mundo, onde o valor da pessoa, da sua dignidade e dos seus direitos, não obstante as proclamações de intentos, está seriamente ameaçado pela tendência generalizada de recorrer exclusivamente aos critérios da utilidade, do lucro e do ter, é importante não separar das suas raízes transcendentes o conceito de justiça. De facto, a justiça não é uma simples convenção humana, pois o que é justo determina-se originariamente não pela lei positiva, mas pela identidade profunda do ser humano. É a visão integral do homem que impede de cair numa concepção contratualista da justiça e permite abrir também para ela o horizonte da solidariedade e do amor.[6]

Não podemos ignorar que certas correntes da cultura moderna, apoiadas em princípios económicos racionalistas e individualistas, alienaram das suas raízes transcendentes o conceito de justiça, separando-o da caridade e da solidariedade. Ora « a “cidade do homem” não se move apenas por relações feitas de direitos e de deveres, mas antes e sobretudo por relações de gratuidade, misericórdia e comunhão. A caridade manifesta sempre, mesmo nas relações humanas, o amor de Deus; dá valor teologal e salvífico a todo o empenho de justiça no mundo ».[7]

« Felizes os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados » (Mt 5, 6). Serão saciados, porque têm fome e sede de relações justas com Deus, consigo mesmo, com os seus irmãos e irmãs, com a criação inteira.

Educar para a paz

5. « A paz não é só ausência de guerra, nem se limita a assegurar o equilíbrio das forças adversas. A paz não é possível na terra sem a salvaguarda dos bens das pessoas, a livre comunicação entre os seres humanos, o respeito pela dignidade das pessoas e dos povos e a prática assídua da fraternidade ».[8] A paz é fruto da justiça e efeito da caridade. É, antes de mais nada, dom de Deus. Nós, os cristãos, acreditamos que a nossa verdadeira paz é Cristo: n’Ele, na sua Cruz, Deus reconciliou consigo o mundo e destruiu as barreiras que nos separavam uns dos outros (cf. Ef 2, 14-18); n’Ele, há uma única família reconciliada no amor.

A paz, porém, não é apenas dom a ser recebido, mas obra a ser construída. Para sermos verdadeiramente artífices de paz, devemos educar-nos para a compaixão, a solidariedade, a colaboração, a fraternidade, ser activos dentro da comunidade e solícitos em despertar as consciências para as questões nacionais e internacionais e para a importância de procurar adequadas modalidades de redistribuição da riqueza, de promoção do crescimento, de cooperação para o desenvolvimento e de resolução dos conflitos. « Felizes os pacificadores, porque serão chamados filhos de Deus » – diz Jesus no sermão da montanha (Mt 5, 9).

A paz para todos nasce da justiça de cada um, e ninguém pode subtrair-se a este compromisso essencial de promover a justiça segundo as respectivas competências e responsabilidades. De forma particular convido os jovens, que conservam viva a tensão pelos ideais, a procurarem com paciência e tenacidade a justiça e a paz e a cultivarem o gosto pelo que é justo e verdadeiro, mesmo quando isso lhes possa exigir sacrifícios e obrigue a caminhar contracorrente.

Levantar os olhos para Deus

6. Perante o árduo desafio de percorrer os caminhos da justiça e da paz, podemos ser tentados a interrogar-nos como o salmista: « Levanto os olhos para os montes, de onde me virá o auxílio? » (Sal 121, 1).

A todos, particularmente aos jovens, quero bradar: « Não são as ideologias que salvam o mundo, mas unicamente o voltar-se para o Deus vivo, que é o nosso criador, o garante da nossa liberdade, o garante do que é deveras bom e verdadeiro (…), o voltar-se sem reservas para Deus, que é a medida do que é justo e, ao mesmo tempo, é o amor eterno. E que mais nos poderia salvar senão o amor? ».[9] O amor rejubila com a verdade, é a força que torna capaz de comprometer-se pela verdade, pela justiça, pela paz, porque tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta (cf. 1 Cor 13, 1-13).

Queridos jovens, vós sois um dom precioso para a sociedade. Diante das dificuldades, não vos deixeis invadir pelo desânimo nem vos abandoneis a falsas soluções, que frequentemente se apresentam como o caminho mais fácil para superar os problemas. Não tenhais medo de vos empenhar, de enfrentar a fadiga e o sacrifício, de optar por caminhos que requerem fidelidade e constância, humildade e dedicação.

Vivei com confiança a vossa juventude e os anseios profundos que sentis de felicidade, verdade, beleza e amor verdadeiro. Vivei intensamente esta fase da vida, tão rica e cheia de entusiasmo.

Sabei que vós mesmos servis de exemplo e estímulo para os adultos, e tanto mais o sereis quanto mais vos esforçardes por superar as injustiças e a corrupção, quanto mais desejardes um futuro melhor e vos comprometerdes a construí-lo. Cientes das vossas potencialidades, nunca vos fecheis em vós próprios, mas trabalhai por um futuro mais luminoso para todos. Nunca vos sintais sozinhos! A Igreja confia em vós, acompanha-vos, encoraja-vos e deseja oferecer-vos o que tem de mais precioso: a possibilidade de levantar os olhos para Deus, de encontrar Jesus Cristo – Ele que é a justiça e a paz.

Oh vós todos, homens e mulheres, que tendes a peito a causa da paz! Esta não é um bem já alcançado mas uma meta, à qual todos e cada um deve aspirar. Olhemos, pois, o futuro com maior esperança, encorajemo-nos mutuamente ao longo do nosso caminho, trabalhemos para dar ao nosso mundo um rosto mais humano e fraterno e sintamo-nos unidos na responsabilidade que temos para com as jovens gerações, presentes e futuras, nomeadamente quanto à sua educação para se tornarem pacíficas e pacificadoras! Apoiado em tal certeza, envio-vos estas refl exões que se fazem apelo: Unamos as nossas forças espirituais, morais e materiais, a fim de « educar os jovens para a justiça e a paz ».

BENEDICTUS PP XVI

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

NATAL DO SENHOR - Lc 2,1-14

 

A GLÓRIA DA SIMPLICIDADE
É Natal! O Evangelho que nos é proposto nesta noite narra o grande acontecimento esperado por toda a humanidade: o nascimento do Salvador, o Cristo Senhor. O texto bíblico é fortemente caracterizado por um grande contraste. Enquanto se esperava uma vinda majestosa, o Salvador veio ao mundo de uma forma inesperada. É neste contraste, pois, que vamos descobrir um dos maiores ensinamentos que o Natal de Senhor nos pode dar. Logo no início do Evangelho, lemos as seguintes informações históricas: em primeiro lugar, aparece o imperador César Augusto, dominador do mundo Mediterrâneo da época, o qual impõe um censo de toda a terra, ou seja, de todos os habitantes submetidos à dominação romana, entre os quais se encontravam os da Palestina. Em seguida, o texto diz que quando ocorreu este censo, o governador da Síria era Quirino, procurador de Augusto na tetrarquia que compreendia a Iduméia, a Samaria e a Judéia, onde está localizada Belém. Longe, porém, de ter provas para estes dados históricos, além de uma diferença notável entre o relato do nascimento do Messias narrado neste texto e no evangelho de Mateus, ficamos com o que nos interessa: este decreto é o que liga José e Maria, residentes em Nazaré da Galiléia a Belém da Judéia. De fato, Lucas sublinha que Belém é a cidade natal de Davi, de onde descende José. Desta maneira, temos uma referência à promessa e à espera messiânica ligada a Belém e a família de Davi: “Grande será o seu reino, e a paz não há de ter fim sobre o trono de Davi e sobre o seu reinado” (Is 9,6). Chegando o tempo devido, Maria dá a luz o seu “primogênito” (este termo não quer indicar que Maria teve outros filhos, mas que Jesus é o primeiro filho de Maria, e por isso, tem todos os direitos de primogenitura; para se ter uma idéia da importância da primogenitura, basta lembrar as incansáveis trapaças feitas por Jacó contra seu irmão Esaú até tomar-lhe este direito). Maria, como toda mulher, passa naturalmente por essa experiência. Nem pode escolher o momento, nem esperar uma circunstância melhor. Ela não encontrou um lugar adequado para o seu menino, por isso, deu à luz num estábulo, pondo o menino numa manjedoura. São pobres e sem pretensões. É verdade! O primeiro lugar a receber o Salvador foi um lugar pobre e sujo onde as vacas e os outros animais faziam suas necessidades! Assim, o que, imediatamente, chama a nossa atenção neste acontecimento é a simplicidade. Na sua grandeza infinita, Deus se abaixa não só à condição humana, mas em qual condição Seu Filho veio ao mundo! O Salvador entrou na nossa condição humana, a partir da fraqueza de um menino enrolado em panos, está do nosso lado e nos acompanha. Em contraste com essa pobreza, aparece o esplendor da luz celeste e a aparição do anjo de Deus aos pastores que tomavam conta de seus rebanhos, mas o sinal que recebem é simplesmente: “encontrareis um recém-nascido envolvido em faixas e deitado numa manjedoura”. Aos pastores que estão com muito medo, o anjo anuncia uma grande alegria. Realmente, eles têm um grande motivo para se alegrarem: nasceu para eles e para todo o mundo o Salvador. A maravilha do Natal reside neste contraste: sem a revelação dos anjos nunca entenderíamos que aquele menino na manjedoura é o Senhor. E sem o menino na manjedoura não entenderíamos que a glória do verdadeiro Deus é diferente da glória a qual estamos acostumados. Que possamos ser humildes e simples para que o Senhor, neste Natal, venha ao estábulo do nosso coração e assim, possamos amá-Lo na pessoa do próximo como nos ensina tão bem Madre Teresa de Calcutá: “Da humildade sempre emanam a grandeza e a glória de Deus. Devemos estar vazios do orgulho se quisermos que Deus nos preencha com a sua plenitude. No Natal, vemos Deus como um recém-nascido, pobre e necessitado, que veio para amar e ser amado. Como podemos amar a Deus no mundo de hoje? Amando-o em meu marido, em minha mulher, nos meus filhos, nos meus irmãos, nos meus pais, nos meus vizinhos, nos pobres, nos bêbados, nos presos, nos doentes de lepra, nos excluídos, em todos aqueles que encontramos todos os dias.”

FELIZ NATAL A TODOS!

sábado, 17 de dezembro de 2011

IV DOMINGO ADVENTO – Lc 1,26-38

Maria, a torre de Davi

Celebramos hoje o IV domingo do Advento, onde a liturgia é dedicada a Mãe do Senhor que se fez serva humilde e obediente ao projeto de Deus para a salvar a humanidade. Este é o domingo que antecede imediatamente o Natal e, por isso, somos convidados a contemplar a figura de Maria de Nazaré que “acolheu o Verbo da vida e se alegrou como mãe de uma estirpe santa e incorruptível”.

O Evangelho, segundo Lucas, nos apresenta a esplêndida narração do anúncio do anjo Gabriel que aparece a esta jovem e digna filha de Israel para revelar-lhe o projeto de Deus e pedir a sua colaboração no plano da redenção, que inicia especificamente com o sim de Maria dado a Deus com todo o seu ser, com alegria e a beleza de ser a serva do Senhor, instrumento desta grandiosíssima obra de salvação.

No anúncio que o anjo faz a Maria, ele lembra que o menino que dela nascerá, “será grande, será chamado Filho do Altíssimo, e o Senhor Deus lhe dará o trono de seu pai Davi. Ele reinará para sempre sobre os descendentes de Jacó, e o seu reino não terá fim”. Estas palavras do anjo Gabriel a Maria depende de um importante texto presente no AT que a liturgia nos propõe como I leitura.

Tal leitura é tirada de 2Sm 7. Depois que Davi conquistou Jerusalém, e construiu a sua casa, após ter vencido os vários inimigos que tinha a seu redor, recebendo de Deus finalmente um tempo de paz e segurança, teve a ideia de construir uma casa para o Senhor, isto é, um templo. O profeta Natã, porta-voz da antiga tradição de Israel, a princípio concorda com Davi. Mas, depois tem uma revelação naquela mesma noite: não é Davi quem construirá a casa e sim seu filho.

Há um duplo sentido aqui para a palavra “casa”. No primeiro sentido, indica o templo (igreja). No segundo, a família (Igreja). Não é Davi que dá algo a Deus, mas é Deus que se empenha para fazer nascer de Davi uma família, e promete que a sua descendência durará pelos séculos. Estamos falando do famoso oráculo do profeta Natã: o oráculo fundador da dinastia davídica em Jerusalém. Aquela família que por muito tempo guiou o povo.

Assim diz o Senhor: “vai dizer a meu servo Davi: 'Assim fala o Senhor: porventura és tu que me construirás uma casa para eu habitar? Fui eu que te tirei do pastoreio, do meio das ovelhas, para que fosses o chefe do meu povo, Israel. Estive contigo em toda parte por onde andaste e exterminei diante de ti todos os teus inimigos, fazendo o teu nome tão célebre como o dos homens mais famosos da terra. Vou preparar um lugar para o meu povo, Israel: eu o implantarei, de modo que possa morar lá sem jamais ser inquietado. Os homens violentos não tornarão a oprimi-lo como outrora, no tempo em que eu estabelecia juízes sobre o meu povo, Israel. Concedo-te uma vida tranquila, livrando-te de todos os teus inimigos. E o Senhor te anuncia que te fará uma casa'”.

Davi não construirá uma casa para o Senhor, pois Ele não tem necessidade de uma casa para morar. Tudo aquilo que o Senhor fez por Davi, este deve recordar e saber que o Senhor se empenha a construir para ele uma casa, não de pedras, mas de pessoas vivas.

O texto continua: “quando chegar o fim dos teus dias e repousares com teus pais, então suscitarei, depois de ti, um filho teu e confirmarei a sua realeza. Eu serei para ele um pai e ele será para mim um filho”. Natã, em nome do Senhor, não pretendia simplesmente prometer a Davi que este teria um filho como sucessor sobre seu trono. Historicamente, sabemos que foi Salomão. E depois, Roboão e assim por diante por séculos. Mas dentro dessa promessa de Deus, tem um horizonte muito maior. Um descendente de Davi, muitos séculos depois, será o próprio Messias prometido: o Filho nascido do ventre da Virgem Maria. Eis porque o anjo Gabriel lhe diz: “o Senhor Deus lhe dará o trono de seu pai Davi. Ele reinará para sempre sobre os descendentes de Jacó, e o seu reino não terá fim”. Deus tinha prometido: “eu serei para ele um pai e ele será para mim um filho”, não se tratava somente de uma imagem, mas na plenitude dos tempos, a encarnação do Filho de Deus revelou plenamente que Deus é Pai. E este menino é filho de Davi segundo a carne, mas é Filho de Deus segundo o Espírito. E a casa e o reino de Davi serão estáveis para sempre.

Nós reconhecemos que mil anos depois do oráculo de Davi, o Senhor manteve a promessa e reconhecemos que aquele menino que nasceu é aquele que reina eternamente tal qual recitamos no Credo: “e o seu reino não terá fim”. Ele inaugurou um reino que é eterno e nós fazemos parte desse reino. Maria entrou neste reino acolhendo-o com grande generosidade. Coisa que nós também podemos fazer: reinar com Cristo, colocando-nos a sua disposição.

O texto de Lucas que nos fala da Anunciação já nos introduz no clima do Natal e no breve trecho da II leitura de hoje, encontramos o significado teológico desta nossa espera e esperança no Senhor. Paulo, na sua carta aos romanos, escreve com grande simplicidade, mas também com profundidade, palavras maravilhosas para indicar um percurso de vida espiritual e moral para fazer com que encontremos Deus verdadeiramente e para sempre na pessoa de Cristo.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

III DOMINGO ADVENTO - Evangelho Jo 1,6-8.19-28.

 

Alegrar-se? Por quê?

Neste III Domingo do Advento, fazemos uma pausa na leitura do evangelho de Marcos. De fato, a liturgia de hoje nos propõe um trecho do evangelho de João, mas continuamos a refletir sobre a figura de João Batista. A diferença é que enquanto nos outros três evangelhos (sinóticos), João Batista é apresentado como o batizador, na obra de João, há uma característica a mais e muito importante, ele é apresentado como “aquele que veio como testemunha, para dar testemunho da luz, para que todos chegassem à fé por meio dele” (Jo 1,7). A Igreja oriental chama João de “o precursor”, o que deixa em aberto tanto para o sentido de batizador como de testemunha.

Mas a ênfase que a Igreja celebra hoje neste domingo denominado gaudete é o convite à alegria, ao júbilo. De fato, quer na I leitura quer na II, vemos claramente esta exortação. Mas a pergunta que imediatamente nos vem a mente é: como podemos nos alegrar com tantos perigos que nos ameaçam, com tantas desgraças que acontecem e as provações da vida que nos angustiam? A resposta é tríplice e se encontra nas três leituras.

Na primeira leitura, a liturgia nos propõe um texto do livro do profeta Isaías e enfatiza o papel do Espírito Santo na vida daquele que tem fé. É um texto muito famoso porque o próprio Jesus usou na sua primeira aparição na sinagoga de Nazaré. É tirado do capítulo 61 de Isaías. Trata-se de um poema com o qual este profeta se apresenta, relatando a própria vocação para a missão: “O Espírito do Senhor Deus está sobre mim, porque o Senhor me ungiu; enviou-me para dar a boa-nova aos humildes, curar as feridas da alma, pregar a redenção para os cativos e a liberdade para os que estão presos; para proclamar o ano da graça do Senhor” (Is 61,1-2a).

É o profeta que está falando de si mesmo. O Espírito do Senhor, de fato, consagrou-o com a unção. E a unção era reservada aos sacerdotes. É o sacerdote que inicia uma nova época depois do fim do exílio. E o Espírito lhe delega um serviço: levar o alegre anúncio aos pobres, proclamar a liberdade aos escravos. Curar as feridas, curar os corações despedaçados que é indicativo de uma pessoa triste, que foi ferida, que está passando por grandes tribulações. Os miseráveis não são simplesmente os pobres economicamente falando. Mas, principalmente, são aqueles que tem fome de amor.

Assim explicava Madre Teresa sobre os mais pobres: “são os solitários e os famintos, não só de pão, mas da palavra de Deus; os ignorantes e os sedentos, não só de água, mas de conhecimento, paz, verdade, justiça e amor; os não amados e os desnudos, não só de vestes mas também de dignidade humana; os não queridos, as crianças não nascidas, os que são discriminados, os sem-teto, não só os que não têm uma morada, mas os que têm necessidade de um coração que os entenda, os proteja, os ame; os enfermos, os prisioneiros não só no corpo, mas também na mente e no espírito: todos aqueles que perderam qualquer esperança e fé na vida, os alcoólatras e os toxicodependentes, e todos aqueles que perderam Deus e qualquer esperança no poder do Espírito” (Madre Teresa em O Caminho Simples).

A bela notícia anunciada pelo profeta é que Deus intervém. Deus concede a graça. Na última parte do capítulo 61 de Is, o profeta declara: “Exulto de alegria no Senhor e minh'alma regozija-se em meu Deus; ele me vestiu com as vestes da salvação, envolveu-me com o manto da justiça e adornou-me como um noivo com sua coroa, ou uma noiva com suas joias”. É uma clara referência às vestes sacerdotais, aos paramentos do Sumo Sacerdote que leva aos seus fiéis essa alegria profunda. No período do deserto, não acabou tudo. A terra germinou. Celebra-se o retorno dos jardins. Onde o Senhor faz germinar a justiça e a sua glória diante de todas as nações. Eis o motivo da nossa alegria: fomos justificados e salvos. A nossa condenação foi revogada: fomos alcançados pela graça.

O inimigo foi derrotado e o Senhor tomou o seu lugar. É este que agora está no meio de nós: eis a fonte da alegria que afasta toda tristeza e toda desgraça; e Ele não somente está no meio de nós, mas nos renova com o seu amor.

Na segunda leitura, o apóstolo Paulo exorta: “irmãos, estai sempre alegres!” Eis o segundo motivo por que nos alegramos: não estamos sozinhos, temos um Pai que escuta as nossas preces, nos consola, nos perdoa e nos dá a sua paz que ultrapassa todas as outras.

Mas a razão principal pela qual nos alegramos nos dá o Evangelho. João Batista promete nada menos que a chegada daquele que batizará no Espírito Santo e no fogo. Eis a razão máxima pela qual nos alegramos: nos é dado o Espírito Santo. O Espírito de Deus é uma força irresistível que pode cancelar num instante todas as nossas tristezas e angústias e pode nos tornar, num instante, exultantes, jubilosos, alegres, por dentro e por fora.

Enquanto cristãos, somos chamados a testemunhar a alegria. Devemos fazer aparecer a chama da alegria sobre as nuvens obscuras da tristeza e do desencorajamento. Mas como fazer isso quando a vida nos apresenta efetivamente tantas provas, dificuldades, doenças, desgraças, tentações, incompreensões, traições, decepções e uma lista sem fim de coisas ruins?

Até enquanto na nossa vida está tudo bem, é ótimo. Mas quando chegam as adversidades, estas inevitavelmente danificam e reduzem aquela luz boa que tínhamos inicialmente. O duro desafio da vida não é igual para todos: tem quem é mais provado, outros menos. Existem os “sortudos” para quem tudo vai bem e aqueles para quem vai mais mal do que bem. Então, o que fazer nestes casos? Viver sem alegria? Não, obviamente! Mas é preciso buscar essa alegria não das realidades contingentes, mas de uma fonte escondida e inesgotável que há dentro de nós: a alegria de Deus que habita em nossos corações.

Na prática: mesmo quando não temos a alegria porque estamos vivendo uma situação difícil, devemos dá-la assim mesmo, esta alegria, a quem está ao nosso redor, porque é justamente partilhando a alegria que a reconstruiremos e contribuiremos para restabelecer aquela que veio nos faltar. E Deus fará o restante! A verdadeira alegria é um fruto do Espírito Santo. É este o dom por excelência que devemos pedir: a atualização constante do nosso batismo no Espírito Santo que recebemos de uma vez para sempre com seu caráter indelével, porque teremos verdadeiramente a plenitude da alegria. A fonte da alegria é descobrir continuamente a presença do Senhor em meio a nós que faz florescer uma nova esperança.

Que a exemplo de Maria, a Virgem Mãe do Salvador, possamos cantar: “A minha alma engrandece o Senhor, e o meu espírito se alegra em Deus, meu Salvador” (Cântico de Maria no Sl de resposta).

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

II DOMINGO ADVENTO Mc 1,1-8

No domingo passado, o I Domingo do Advento colocava a ênfase sobre a revelação definitiva do Senhor no fim dos tempos. Neste II Domingo do Advento e no próximo, refletiremos sobre a vinda do Senhor ao mundo, a partir da figura de João Batista, o precursor.

O evangelista Marcos assim o apresenta: “João se vestia com uma pele de camelo e comia gafanhotos e mel do campo” (Mc 1,6). João Batista age de duas maneiras: diz aos seus ouvintes como devem se preparar (Mc 1,4-5) e anuncia como vai agir Aquele que vem depois dele (1,7-8).

As pessoas a quem João se dirige devem se converter e serem batizadas, de modo que sejam perdoados os seus pecados. Devem refletir sobre sua relação com Deus e se voltar para Ele.

Isto porque nós temos uma inclinação a nos afastarmos de Deus, que está escondido e que nós não podemos ver, e, por isso, nos aproximamos mais das criaturas de Deus que estão ao nosso redor. Esquecemos Deus, nosso Criador e Salvador, e fazemos das criaturas os nossos ídolos, em quem pomos o nosso interesse e a nossa esperança. Servimos às criaturas, aos bens, ao poder, ao prazer etc, e esperamos destes, a realização de uma vida plena e feliz.

Quando nos chama à conversão, João nos convida a refletir: quem é realmente o meu Deus? O que está no centro da minha vida? Para onde estão voltados meus anseios e minhas esperanças? O que quero conseguir na vida? Gasto meu tempo e minhas forças para chegar a quê?

A conversão deve nos conduzir a Deus, de modo a não lhe virarmos mais as costas, mas a buscar a sua face. A procurar a sua vontade e reorientar o nosso comportamento. Deus deve estar de novo no centro da nossa vida, e a partir Dele devemos dar às pessoas e às coisas o seu devido lugar.

Ao nos voltarmos para Deus, reorganizamos a nossa vida e confessamos os nossos pecados. Quem reflete sobre Deus, torna-se consciente dos próprios pecados. Quem manifesta tais faltas, reconhece a própria culpa e confessa ter necessidade do perdão. Os judeus tinham muitas abluções e banhos para se purificarem para o culto. Mas João é o primeiro que batiza a outros e os submerge no rio Jordão. Por isso, ele foi chamado de o “Batista” (batizador).

Para poder encontrar Deus, é necessário ter as mãos limpas e um coração puro (Sl 24,4). Nós não podemos purificar a nós mesmos sozinhos, com a autossuficiência, mas devemos reconhecer que somos impuros e pedir o perdão a Deus. Tudo aquilo que João faz e pede, mostra que ele conta com a vinda do Senhor, e que quer preparar os seus ouvintes para o encontro com Ele.

João anuncia o Senhor para os seus ouvintes fazendo uma comparação entre ele e Aquele que virá. Ele o faz de três modos, mas sempre sublinhando a incomparável superioridade do Senhor. Aquele que virá é mais forte do que ele. É superior a ele em dignidade, João não é digno nem mesmo de desatar suas sandálias, ou seja, de fazer o mais humilde serviço como um escravo. Depois, João compara também a sua atividade: “Eu vos batizo com água, ele vos batizará com o Espírito Santo” (Mc 1,8).

A água realmente não pode purificar os pecados; tem um significado simbólico e pode indicar esta purificação. Mas aquele que vem depois de João, dispõe do Espírito e pode batizar com o Espírito Santo, que é a força e a vida de Deus. Com a purificação e o perdão dos pecados são tirados todos os obstáculos do caminho. Com o Sacramento do Batismo, nos é dada a comunhão com Deus, que é o maior de todos os dons. João pode somente preparar, convidar e anunciar Aquele que doa o Espírito Santo, já que só o próprio Deus e o Filho de Deus podem comunicar o Espírito Santo, e, por meio Dele, doar a comunhão de vida com Deus.

A missão de João conserva o seu valor e ainda continua mais válida do que nunca. Porque não podemos encontrar o Senhor a não ser nos convertendo, reconhecendo os nossos pecados, orientando nossa vida para Ele e pedindo-lhe perdão.

Portanto, que possamos nos aproximar do Santo Natal, percorrendo uma caminho novo de pureza de fé e santidade de vita, para compreender melhor a manifestação da glória do Senhor, para celebrar um bom Natal. Isto é possível porque o exílio que deriva do pecado finalmente acabou.

sábado, 26 de novembro de 2011

I DOMINGO ADVENTO: Mc 13,33-37

Ano B: Considerações iniciais sobre o evangelho de Marcos.

O evangelho de Marcos é o menor dos quatro que existem no NT. Composto de poucos capítulos, este evangelho também é o mais antigo, e, por isso, possui uma linguagem mais primitiva, e, consequentemente, mais difícil de se entender; mas, por outro lado, desde o seu início mostra a sua finalidade: “Início do Evangelho de Jesus Cristo, o Filho de Deus” (Mc 1,1). Ou seja, a obra inteira quer responder à questão: quem é Jesus? Além disso, por ser o mais antigo e por ter servido de fonte para os outros evangelistas, é o que mais se aproxima da realidade com relação aos fatos e palavras pronunciadas por Jesus.

Há muitos relatos em Mc em que se nota a preocupação de ir revelando Jesus pouco a pouco, o que se chama normalmente de “segredo messiânico”, já que faz com que o interlocutor vá descobrindo o Cristo gradativamente e de maneira correta. E, justamente por essa razão, o evangelho de Marcos continua muito atual no mundo globalizado de hoje, em que muitos admiram a figura de Jesus, mas cada um com sua visão, o que pode gerar confusão no conceito que nós, cristãos, devemos ter de sua Pessoa.

De fato, Jesus é visto como um homem muito bom segundo alguns historiadores, um revolucionário segundo outros, um espírito iluminado segundo a doutrina espírita, um profeta que virá no juízo final segundo o islamismo, uma divindade entre tantas outras segundo as religiões afro-brasileiras. Muitas visões são positivas, mas não constituem a pregada pelo cristianismo. Por isso, é de grande urgência a leitura da obra de Marcos para nós cristãos católicos: pois devemos saber que Jesus é o Filho de Deus, é o próprio Deus feito homem.

E o evangelho de Marcos faz isso de maneira ímpar: fala do homem concreto Jesus de Nazaré dentro da história da salvação, e, ao mesmo tempo, mostra que esse homem é o Cristo, o Filho de Deus. Apresenta este fato como boa notícia num sentido insuperável. Não há uma causa mais forte e mais sólida de alegria e felicidade porque não há um fundamento e uma garantia mais segura para a vida e o futuro de cada pessoa. A causa desta alegria é Deus, só Ele pode fundamentar a nossa felicidade de modo confiável e inquebrável.

Com estas considerações, saibamos que terminado mais um ano litúrgico, neste domingo, começamos um novo. Liturgicamente falando, estamos no ano B; deixamos Mateus e meditaremos a partir de agora, predominantemente o evangelho de Marcos.

É interessante notarmos como todos os anos celebramos por completo todo o mistério da salvação com os tempos litúrgicos. Portanto, ao final do ano, voltamos novamente para o início. No domingo passado, celebramos Cristo Rei do Universo e o julgamento final, estávamos falando do final dos tempos. Hoje, com o primeiro domingo do Advento, celebramos o início da nossa história de redimidos porque “advento” significa quer a vinda quer a espera, e, portanto estamos sempre na espera da vinda Daquele que vem (mesmo se já veio) e, incognitamente, sempre está presente. Mas, ao mesmo tempo, cronologicamente falando, sempre estamos caminhando para esse dia.

Podemos ver como o tempo deixa um sinal que não pode ser cancelado em nossa face, e que ninguém pode parar esse processo. Basta um espelho para entendermos quanto o tempo passa e ver os seus “sinais”... Ninguém, por mais poderoso que seja, nunca poderá fazer voltar o dia de ontem que passou.

A nossa caminhada de vida no tempo tem uma única direção: andar sempre e somente para o futuro. O passado não volta mais. Tudo acontece de passagem para o futuro. Caminhamos para o futuro. Caminhamos para o final. Tudo que tem início, terá também um fim: terra, sol, mar. A finitude é inscrita em cada realidade criada. Só Deus é incriado, portanto, infinito e eterno. E para nós que temos uma alma, o fim da vida não será um final, mas um entrar numa nova dimensão onde não existirá mais luto, nem pranto, porque as coisas dessa vida terrena já não existem mais. E faremos experiência de novos céus e nova terra porque “eu faço novas todas as coisas”. É a promessa solene de Jesus cujas palavras nunca passarão!

O fim do ano é tempo de fazer balanços. Quais questionamentos podemos fazer para entrar no Advento? Como vai a minha vida? Há algo que deve ser revisto? Qual meu objetivo principal? Sei dar grandes orientações ao meu existir ou vivo o dia recorrendo a objetivos só contingentes: trabalho, estudo, diversão, sem nunca levantar o olhar para as coisas do alto? Se a nossa vida é privada de grandes horizontes, peçamos a graça de saber orientá-la para um final eterno.

A escatologia (do grego eschatos = realidades últimas) nos convida a olhar para o nosso destino futuro que será eterno e a sermos vigilantes para nos encontrar preparados para acolher o Senhor quando vier. “Vigiai, portanto, (…) a fim de que não aconteça que, vindo de repente, ele vos encontre dormindo. O que vos digo, digo a todos: vigiai!” Lembremos que tudo passa, só Deus não passa. Quantas vezes Deus veio nos visitar com a sua graça e nós soubemos reconhecê-lo?

De fato, no seu último discurso, Jesus direciona o olhar dos seus discípulos para o futuro, mostrando de um modo geral, o que lhes aguarda. Ao final, diz: “Cuidado, ficai atentos” (13,33). Jesus repete por quatro vezes esta exortação no discurso escatológico (13,5.9.23.33). Seus discípulos necessitam de muita atenção e de inteligência aguda e crítica para não se deixarem enganar pelos falsos profetas (13,5-6.21-23), mas permanecer fiéis e firmes a Jesus e a sua palavra. Especificamente quando se trata do futuro, os falsos profetas com suas previsões e seus cálculos são particularmente articulados e por isso, são muito bem acolhidos. Mas nós devemos acreditar somente em Jesus. Ele afirma que o Filho do homem virá realmente (13,26), mas que só o Pai sabe o momento (13,32), e isso deve nos satisfazer. Mesmo quando a ansiedade ou a curiosidade nos atormentarem, não podemos saber nada além desta afirmação de Jesus. Devemos confiar na sua palavra que, por sua vez, nos dará segurança e conforto.

Outra exortação importante: “vigiai!”, Jesus a repete por quatro vezes no trecho evangélico deste I domingo do Advento. Interessante notar que na quarta vez, ele se dirige não só a seus discípulos, mas a todos: “vigiai” (13,37). Não se trata do fato que os discípulos, e todos os outros não possam dormir, mas se refere ao vínculo vivo que devemos manter com Nosso Senhor (através da oração: “vigiai e orai”) a ponto de nunca o esquecermos. Que nós o reconheçamos pela sua criação e pela sua palavra; que orientemos sempre a nossa vida de acordo com a sua palavra e o seu exemplo; que com alegria e fé nos aproximemos ao encontro com ele e à comunhão com ele. Se vivermos assim, o Senhor poderá vir em qualquer momento, e nos achará prontos para Ele.

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

FESTA DE JESUS CRISTO REI DO UNIVERSO – Mt 25,31-46

Foi a mim que o fizestes!

Com a festa de Jesus Cristo, Rei do Universo, chegamos a mais um final de ano litúrgico. Ao longo deste, a cada domingo acolhemos os ensinamentos de Jesus através dos escritos do evangelista Mateus. Hoje, a liturgia apresenta uma mensagem clara de recapitulação, que se projeta sobre o passado, o presente e o futuro da vida humana.

A festa que celebramos tem a finalidade não tanto de nos dizer que Jesus é rei, mas de nos mostrar que a natureza do seu reinado é completamente diferente daquela que já temos formada em nossa mente.

Vejamos: na I leitura, Ezequiel, decepcionado com os pastores de Israel (reis, sacerdotes e mestres) que só pensam em si mesmos e deixam o rebanho se perder, sonha com um pastor diferente: um pastor que não “disperse”, mas “reúna”; um pastor que conduza ao pasto as suas ovelhas e as faça repousar; que procure a ovelha perdida e faça os curativos naquela que se encontra ferida.

São traços de um pastor que encontramos no Evangelho, em Jesus, Rei Messias. Um rei que é rei para os outros: sua realeza é dom de si mesmo e serviço, não domínio, prefere os pobres e fracos, não os fortes. Quanto ao Evangelho, o do domingo passado nos dizia que tudo o que somos e tudo o que temos é um bem que nos foi confiado; que não devemos desperdiçá-lo, mas empregá-lo com bom senso e de acordo com a vontade de Deus. Qual seja a vontade de Deus e qual serviço ele nos pede, nos diz Jesus hoje com as suas palavras sobre o “juízo final”: toda ajuda que prestarmos ao próximo necessitado é a ele mesmo que estamos fazendo. E quando ele fala em juízo final, ele não quer nos impor medo, só quer que tenhamos um comportamento correto encaminhado para o futuro, para a vida eterna e não para a ruína eterna.

Pois bem, o texto evangélico começa mostrando uma imagem escatológica da vinda gloriosa do Filho do Homem que se assentará no seu trono. Em seguida, mostra a convocação de todas as pessoas e a separação dos que herdaram o reino e dos que ficaram de fora.
Quanto a esta separação entre os que são bem vindos no reino, figurados por ovelhas (direita) e aos que se autoexcluíram, os cabritos (esquerda), a grande insistência cai sobre as obras de misericórdia (a acolhida ou a rejeição aos necessitados), que o texto enumera quatro vezes.

O juiz é chamado “Filho do Homem” e “Rei” e os interlocutores o reconhecem como “Senhor”. A apresentação é, portanto, solene e gloriosa, e ninguém pode negar que este rei seja Jesus de Nazaré, aquele que foi perseguido e crucificado, rejeitado, e que na sua vida partilhou em tudo a fraqueza da condição humana: a fome, a nudez, a solidão, a prisão, a calúnia. Um rei que se identifica com os mais humildes, os mais fracos. É um rei que vive sob os despojos dos desconhecidos: sob roupas esfarrapadas de seus pequenos irmãos. Jesus é um Rei glorioso, mas a sua glória não é o triunfo da glória, do poder e do domínio, mas da cruz como símbolo da vitória do amor e da doação de si mesmo pelo próximo.

Quem tiver ajudado Jesus numa situação de necessidade, será aprovado por ele no juízo final; quem o tiver deixado na sua situação de necessidade, deverá calar-se diante do seu juízo. Por um instante, todos nós no juízo final, diz o texto escrito no futuro, perguntaríamos ao próprio Jesus onde foi que o encontramos nestas condições. E ele nos responderá: em cada pessoa necessitada que tivermos encontrado. Por isso, toda ajuda feita a um necessitado, tem um valor imortal. Por trás de cada pessoa, e exatamente por trás de cada pessoa pequena, fraca, provada, aí está Jesus.
Ajudar o próximo necessitado é uma tarefa fácil, segundo a capacidade de cada um. O que não podemos é passar de lado se afastando ou recuando diante de quem está na precisão. É interessante notar também que Jesus não diz: eu estava enfermo e vocês me curaram; eu estava na prisão e vocês me libertaram. Às vezes, ele nos pede só uma palavra de conforto, e até isto nós nos recusamos fazer.
Há tantos tipos de necessidades: corporais, psíquicas ou espirituais. A primeira coisa que temos que fazer é perceber a necessidade de cada pessoa que se apresenta diante de nós. Cada empenho nosso desinteressado de ajuda, de serviço, de encorajamento é feito ao próprio Jesus e é plenamente reconhecido por ele. Madre Teresa, um dos maiores exemplos da nossa atualidade, sabia identificar Jesus nos mais pobres entre os pobres e dizia sempre, que de todas as necessidades, a maior doença do mundo atual é a falta de amor. O nosso amor ao próximo, e, em especial, aquele necessitado, é a medida do nosso amor a Deus.

Enfim, ainda é bom lembrar que pela parábola, pudemos ver que nenhum daqueles que praticou obras de caridade em favor do próximo se deu conta de tê-las feito a Jesus. Isto é muito importante: é um convite do Evangelho para que pratiquemos o bem ao irmão necessitado movidos por um amor desinteressado, já que se atuarmos sempre em vista de uma recompensa, de uma vantagem, o nosso amor ainda não é verdadeiro.

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

XXXIII DOMINGO COMUM – Mt 25,14-30

DEUS CONFIA A NÓS O SEU PATRIMÔNIO

A liturgia de hoje, propõe-nos a parábola dos talentos. A palavra “talento” chegou ao nosso vocabulário como indicativo das habilidades e capacidades de cada pessoa, por exemplo, o talento para pintar, para esculpir, para compor, para cantar.

Mas, na época de Jesus, o talento era a unidade monetária grega (também adotada pelo império romano), e representava o valor de uma quantia em ouro ou prata (o peso do talento = equivalia a 6.000 dracmas). Portanto, não significa automaticamente que os talentos são os dotes naturais, as qualidades destes servos da parábola. Mas se referem ao patrimônio do patrão que é confiado aos servos. Trata-se de uma linguagem bancária, especificamente de um depósito, um investimento que faça render. Na linguagem teológica, tantas vezes nos deparamos no próprio Catecismo da Igreja Católica com o termo “depósito da fé” ou o “depósito da tradição”.

Os talentos são o patrimônio do Evangelho, a riqueza que o Senhor deixou para seus discípulos, levando em conta que há pessoas que tem mais capacidades e outras menos, mas todas têm: “deu a cada qual de acordo com a sua capacidade”. Assim, significava na parábola as responsabilidades e os deveres para com esse patrimônio que nos são confiados e em torno dos quais gira a nossa vida.

Por exemplo, quais as responsabilidades de um pai de família, uma mãe de família, um padre, um agente de pastoral, um missionário, um governante, um médico. Há responsabilidades grandes e pequenas. Deus nos confia vários talentos, ele nos entrega a vida não como um peso nem como um castigo, mas como um dom, uma graça, uma bênção e uma grande oportunidade para nós e para os outros.

Na parábola do evangelho de Mateus, a atenção cai sobre o modo como este patrimônio é utilizado. Estes talentos que Deus nos dá significam a nossa responsabilidade como cristãos. Sermos testemunhas do Evangelho, vivermos esse Evangelho com garra dentro da realidade da nossa vida diária. Entretanto, muitas pessoas hoje convivem com o problema de uma sociedade que exige tanto que elas se sentem inúteis, inadequadas e incapacitadas. Deus nos conhece profundamente e não nos dá tarefas que não possamos realizá-las. Por isso, devemos ter uma estima sadia de nós mesmos antes de tudo porque existimos e somos fruto de um amor que quer que olhemos a vida como o nosso maior empreendimento.

Deste modo, vemos que o Evangelho deste domingo é muito claro: Jesus quer chamar a nossa atenção para o terceiro servo. Mas vamos falar também um pouco dos dois primeiros. No geral, a parábola nos mostra que somos dependentes de Deus e que somos obrigados a prestar-lhe contas; tudo o que temos é um bem que nos foi confiado, que não podemos usá-lo do jeito que bem entendermos, mas que devemos empregá-lo da maneira como Deus quer que o usemos. Através do comportamento e do destino dos dois servos bons e fiéis que empregaram, investiram, duplicaram, Jesus nos faz ver como devemos lidar com a nossa situação atual.

Entretanto, através do comportamento e do destino do servo mau que enterrou o talento conservado, mas não o fez crescer, podemos dizer que já é algo não ter perdido, mas não lhe serviu para nada. Jesus nos esclarece como uma pessoa com estas características vai acabar. Isso deve nos convencer a se afastar de um comportamento semelhante.

Também é importante ver como o texto diz: “depois de muito tempo, o patrão voltou e foi acertar as contas com os empregados”. Aqui trata-se claramente da demora da parusia, da vinda do Senhor, onde o prêmio será entrar na alegria do Senhor. Se tivermos a atitude do servo mau, é como se disséssemos a Deus: Senhor, me deste o Evangelho, a fé, a Igreja, os sacramentos, tantos dons, graças. Eu te restituo, não me serviram para nada. Vivi como se não os tivesse. Isto é literalmente encontrar-se na escuridão, nas trevas do mundo, onde se chora e se range os dentes de remorso por não ter aproveitado o presente que Deus nos deu. É a falta de fecundidade evangélica.

A este servo mau se opõe também claramente a sabedoria do livro dos Provérbios (I leitura), mostrando a figura admirável da mulher forte. Uma mãe de família é habilidosa e generosa. Trabalha e se empenha em tudo o que faz sem se deixar levar pela beleza externa (passageira). À luz do Evangelho podemos dizer que a ela Deus confiou o talento da vida familiar. Um talento que tantos consideram pequeno, dona do lar, mas que na verdade todos sabem que é um talento enorme.

No Sl 127, encontramos a beleza de uma família. Feliz é o homem que teme o Senhor, o servo fiel frutifica o patrimônio de graça, a esposa é uma videira bem fecunda e os filhos são rebentos de oliveira. Na II leitura, coloca-se novamente o problema escatológico. Não devemos especular sobre o tempo e o momento, ele virá de surpresa, o que importa é que estejamos prontos. Não somos filhos das trevas, estamos acordados e sóbrios, prontos para acolher o Senhor quando vier.

Tudo o que Deus nos confia nesta vida não pode ser enterrado nem desperdiçado. Os nossos “talentos” devem ser investidos em favor de todos, não só de nós mesmos. E temos que enfrentar os riscos, pois seja lá o que fizermos, sempre haverá seus riscos e provações. Mas se não nos arriscarmos, não avançaremos nem cresceremos nunca na vida, ficaríamos como o terceiro servo.

O coração da parábola e a chave que poderia desbloquear a situação do terceiro empregado é justamente a relação entre ele e o patrão, entre cada um de nós e Deus. Enquanto os dois primeiros servos se sentiram estimulados para agir e não tiveram medo do patrão porque o conheciam e confiavam nele, o terceiro permaneceu condicionado somente pelo medo e ficou paralisado. Ele tem uma relação falsa com o seu patrão, uma imagem errada de um Deus como um juiz duro e implacável. Teve medo de perder o talento, de ser julgado e condenado por isso. E assim não quis sujar suas mãos, teve medo de errar, de se arriscar, ficou preguiçoso, acomodado, fechou-se.

Mas o amor tem a capacidade de mover a vida, e o amor de Deus pode nos levantar para assumirmos a responsabilidade de uma vida sem fugas e sem temores, com coragem, paixão e iniciativa. A consciência de que Deus no final nos pedirá contas dos frutos da nossa vida não deve nos encher de medo, mas pode ser uma justa provocação para não nos acomodarmos e podermos participar da alegria de Deus.

sábado, 5 de novembro de 2011

SOLENIDADE DE TODOS OS SANTOS - Mt 5,1-12

 

Queridos irmãos e irmãs:

A solenidade de Todos os Santos é ocasião propícia para elevar o olhar das realidades terrenas, marcadas pelo tempo, à dimensão de Deus, à dimensão da eternidade e da santidade. A liturgia nos recorda hoje que a santidade é a vocação originária de todo batizado (cf. (cf. Lumen gentium, 40). Com efeito, Cristo, que com o Pai e com o Espírito é o único Santo (cf. Ap 15, 4), amou a Igreja como a sua esposa e se entregou por ela com a finalidade de santificá-la (cf. Ef 5, 25-26). Por esta razão, todos os membros do povo de Deus estão chamados a ser santos, segundo a afirmação do apóstolo São Paulo: “Esta é a vontade de Deus: vossa santificação” (1 Ts 4, 3). Portanto, somos convidados a olhar para a Igreja não só no seu aspecto temporal e humano, marcado pela fragilidade, mas sim como Cristo quis, isto é, como “comunhão dos santos” (Catecismo da Igreja católica, n. 946). No Credo professamos a Igreja «santa», santa enquanto que é o Corpo de Cristo, é instrumento de participação nos santos Mistérios – em primeiro lugar, a Eucaristia – e família dos santos, a cuja proteção somos confiados no dia do Batismo. Hoje veneramos precisamente a esta inumerável comunidade de Todos os Santos, os quais, através de seus diferentes itinerários de vida, nos indicam diversos caminhos de santidade, unidos por um único denominador: seguir a Cristo e configurar-se com ele, fim último de nossa história humana. De fato, todos os estados de vida podem chegar a ser, com a ação da graça e com o esforço e a perseverança de cada um, caminhos de santificação. (SOLENIDADE DE TODOS OS SANTOS, BENTO XVI, ANGELUS, Praça de São Pedro, 1 de novembro de 2011).

O Evangelho de hoje nos apresenta um caminho de santidade humana que abraça todas as etapas da nossa vida, abarcando cada situação e considerando os desafios que a cada dia estamos sujeitos: Deus não quer que fiquemos passivos, há um caminho a seguir. As bem-aventuranças indicam que caminho é este, mostrando o caráter do cristão enquanto herdeiro do Reino de Deus, da alegria perfeita.

Ser pobre em espírito é ser humilde. É quando reconhecemos nossa necessidade, nossa insuficiência e nossa dependência, nossos limites, e, nos dirigimos a Deus na oração com confiança. Para tal, é necessário arrancar de nós toda soberba, orgulho, presunção, egoísmo, autossuficiência, superioridade, intolerância. Esta bem-aventurança não diz respeito só aos que são pobres materialmente: um milionário pode reconhecer e confessar que a riqueza material não é tudo para ele e que ele depende de Deus; enquanto, um pobre materialmente pode ser cheio de ganância e esperar tudo da riqueza terrena.

A segunda bem-aventurança parece contraditória, pois o pranto é o contrário de alegria. Os motivos podem ser vários: a morte, a doença, as desgraças, o pecado e a fraqueza, as mudanças drásticas da vida. O aflito é aquele que sofre por sua situação ou pela dor alheia, movido pela compaixão. O pecado contrário é quando somos indiferentes e almejamos uma “vida boa”, cheia de prazeres, confortos, tranquilidades; é o pecado da indiferença com o próximo, da dureza de coração.

Jesus era manso. Ele chama felizes os mansos, que deixemos toda grosseria, desrespeito, desamor, agressões. A santidade deve mostrar-se no modo como tratamos as pessoas. É preciso trabalhar o autocontrole, aceitar o próximo, não querer dominá-lo, controlá-lo, humilhá-lo nem impor-lhe nossas ideias.

Fome e sede são uma necessidade natural, fundamental para vivermos. Felizes são os que tem fome e sede de justiça: ser justo significa ser reto, honesto, correto com relação ao próximo, a Deus e às coisas materiais.

Ser feliz significa ser misericordioso. Significa não ficar indiferente perante o sofrimento alheio nem mostrar um coração duro perante as ofensas que nos foram causadas. Sentir a miséria do outro e perdoá-lo. Só perdoando, seremos perdoados.

O que busca a santidade busca a pureza. Humanamente falando, nos damos conta que é impossível ser totalmente puro, mas o sangue de Jesus nos lava de todo o pecado. O caminho da santidade é uma busca constante de paz. Deus é um Deus da paz. Ele quer que nós também sejamos pessoas de paz. Temos que aprender a lidar com o pecado da maledicência, da intriga, da vingança, da provocação. Somos felizes quando não só fizermos as pazes com os outros, mas também quando formos instrumentos de paz entre duas pessoas ou grupos etc.

Ser bem-aventurado implica ser perseguido ou até morrer por causa de Jesus Cristo. Talvez seja esta uma questão das mais difíceis da santidade: conviver com isto enquanto se segue a Jesus. Talvez alguém possa se enganar pensando que quanto mais próximos a Deus estivermos, mais amados seremos por todos. Errado! Nem sempre é assim, pois, seremos cada vez mais invejados, contrariados, insultados e perseguidos. O diabo fica desconcertado com os que, sinceramente, buscam seguir Cristo. O próprio Jesus Cristo foi odiado e crucificado.

Enfim, o caminho indicado por Jesus para nossa felicidade parece ser uma restrição, uma limitação da liberdade humana. Mas, Jesus não veio prender, veio libertar. Na verdade, as bem-aventuranças são um caminho para a liberdade, para a salvação, para a suprema e eterna felicidade que todos sem exceção poderão herdá-la.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

MISSA DOS FIÉIS DEFUNTOS – Jo 6,37-40

 

Morte: acreditar na ressurreição e almejá-la faz toda a diferença

A liturgia deste 2 de novembro nos convida a rezar a Deus pelos nossos falecidos. Refletir sobre a morte é refletir sobre a vida que estamos vivendo, refletir sobre o seu significado. Isto porque a morte nos obriga a morrer um pouquinho cada dia: o envelhecimento e as enfermidades nos provam isso. Se pensarmos bem, na verdade, cada aniversário nosso significa que estamos mais próximos da morte. Mas, se tivermos a persistência de olhar pra ela com outros olhos, podemos direcionar a nossa vida, fazendo escolhas que valem a pena estar vivos e acreditar na grande boa notícia de Jesus trazida ao mundo, a morte foi vencida. Ela não é o ponto final, mas é uma porta.

Quando nós cristãos, damo-nos conta de que a morte nos educa ao verdadeiro sentido da vida, não à vida que nós queremos, mas à vida que Deus quer que vivamos, que ela tem um valor bem maior, então não temos mais porque nos desesperarmos diante dela, mas sim nos enchermos de esperança.

Existe tanta injustiça nesse mundo terreno, e a morte ensina que todos somos iguais: dela ninguém pode escapar, nem com poder, nem com dinheiro, nem com amizades. Não há nada que se possa fazer. Nada pode fugir ao seu toque. Aqueles que não têm fé, também têm que enfrentar este medo e mistério que é a morte. Mas há uma diferença: enquanto aqueles que não creem a veem como o fim de tudo, nós que temos fé encontramos o seu sentido em Jesus Cristo, no Deus da Vida Eterna.

Assim, o momento da morte não será um dia de tristeza nem de desespero, mas de esperança, porque a morte não é o fim, mas um confim, uma fronteira; a morte não separa, ela nos reúne com Deus e com todos aqueles que já fizeram esta passagem; Jesus, com a sua morte, pagou um preço caríssimo para nos libertar do pecado e da morte e trazer da morte para cada um de nós, a vida, a ressurreição.

Diz-nos o salmista neste dia: “O Senhor é minha luz e salvação. De quem eu terei medo? O Senhor é a proteção da minha vida. Perante quem eu tremerei?” (Sl 26). É esta a verdade que brota no nosso coração, e que nos faz por toda a nossa esperança no Senhor: “ao Senhor eu peço apenas uma coisa, e é só isto que eu desejo, habitar no santuário do Senhor, por toda a minha vida, saborear a suavidade do Senhor e contemplá-lo no seu templo”.

Às vezes, podemos até cair na besteira de pensar que sozinhos nos bastamos, ou que só os outros morrem ou que a nossa morte vai demorar muito ainda para chegar; pensar que não precisamos de horizontes que encham de sentido o nosso morrer ou nos iludirmos de que o ter a vida signifique parecer, ter, poder. Mas a luz que a revelação de Deus estende sobre a nossa existência, a luz que sai do túmulo de Cristo Ressuscitado, a orientação luminosa que Deus pôs no nosso coração, mesmo que os olhos se encham de lágrimas pela sensação de perca que a morte inclui, nos faz dizer como Jó, o homem que bebeu até o fim o cálice amargo da dor, da solidão, da falência: “depois que tiverem destruído esta minha pele, na minha carne (e, portanto o nosso “eu”), verei a Deus. Eu mesmo o verei, meus olhos o contemplarão, e não os olhos de outro”.

Esta luz se faz plena nas palavras de Jesus, aquele que veio revelar os segredos do Pai, comunicar a vida de Deus e executar a vontade do Pai: “Esta é a vontade do meu Pai: que eu não perca nenhum daqueles que ele me deu, nada, nem mesmo o nosso ser de carne, mas o ressuscite no último dia”. Deus nos chamou à vida não pela morte, mas passando através do Filho que é a porta, nós recebemos o prêmio da liberdade para acolhê-lo, a sua Palavra, o seu chamado, os seus dons que ele pôs na vida de cada um e que significam felicidade suprema e eterna.

“Deus”, diz São Paulo, dá uma prova de amor por nós “porque quando ainda éramos pecadores, Cristo deu a sua vida para que tivéssemos a vida”. “Fomos reconciliados com Ele pela morte de seu Filho”; quanto mais agora, estando já reconciliados, seremos salvos por sua vida!”.

Hoje é dia de lembrarmos dos nossos mortos com saudade e com esperança, lembrarmos a vida que Deus dá a todos quantos ele chamou a si. Hoje podemos sentir a paz, a plenitude dos bens de Deus. Hoje cada um dos nossos caros é acolhido além dos seus limites, na sua verdadeira dimensão de amado por Deus e na sua fidelidade ao amor. “Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, mesmo que morra, viverá”.

domingo, 30 de outubro de 2011

XXXI DOMINGO COMUM Mt 23,1-12

HOJE APRESENTO A HOMILIA DO SITE PAULINAS.ORG.BR POR NÃO TER TIDO TEMPO DE ESCREVER MEU COMENTÁRIO PESSOAL, JÁ QUE ESTAVA VIAJANDO. PRÓXIMO DOMINGO TUDO VOLTA À NORMALIDADE.

No capítulo 23 do evangelho de Mateus encontramos um conjunto de contundentes denúncias às práticas farisaicas, originadas de pronunciamentos de Jesus e aí agrupadas pelo evangelista. Nos outros dois evangelistas sinóticos, Marcos e Lucas, estas denúncias estão dispersas ao longo de seus textos. A leitura de hoje é a primeira parte deste conjunto. A ela, segue-se uma série de sete "ai de vós" extremamente desmistificadores sobre a hipocrisia dos fariseus, fechando com uma terrível imprecação (13, 13-36). A última parte é uma lamentação sobre "Jerusalém que matas os profetas" (13,37-39). Mateus adapta para suas comunidades, na década de oitenta, sentenças proferidas por Jesus em seu ministério denunciando o sistema opressor das sinagogas e do Templo. Naquela década o conflito com os fariseus é mais abrangente e Mateus quer persuadir suas comunidades a se diferenciarem da prática deles. Esta ênfase de Mateus reforçando a denúncia de Jesus aos fariseus tem dois sentidos, no contexto em que vivia. Os discípulos de Jesus oriundos do judaísmo, a princípio continuaram freqüentando o Templo e as sinagogas (At 2,46; 17,1-2; 21,26). Em torno do ano 80, após a destruição do Templo de Jerusalém, os fariseus que formavam a cúpula do judaísmo, enrijecendo suas observâncias decidiram expulsar das sinagogas os judeus convertidos ao cristianismo. Certamente muitos deles devem ter abandonado o cristianismo para permanecer sob o abrigo da sinagoga que contava com a proteção do império romano. Mateus, com seu evangelho, quer demonstrar que em Jesus se realizam as promessas do Primeiro Testamento, procurando convencer os convertidos a não retornarem à sinagoga. Alem disso, Mateus tem e intenção de remover da mente dos discípulos originárias do judaísmo os resquícios da incoerente e ambígua prática farisaica (23,8-12). Nos profetas já se encontravam denúncias à prática dos líderes religiosos (primeira leitura). Estes líderes usavam da autoridade como meio de prestígio, bem como para privilégios pessoais, oprimindo o povo. Contudo, no texto de Mateus, chama a atenção a contraditória recomendação de "fazer tudo o que eles vos disserem", o que implicaria em suportar os "fardos pesados e insuportáveis" amarrados por estes fariseus. Pode-se pensar que tal recomendação seja um reflexo da mentalidade de discípulos convertidos do judaísmo, ainda apegados às tradições judaicas. Percebe-se, com evidência, que tanto a ostensiva prática dos escribas e fariseus como suas exigências doutrinais e legais ferem a proposta de Jesus, anteriormente anunciada, de viver humildemente, no "segredo do Pai". Nas comunidades deve predominar a humildade, a igualdade em dignidade e o amor, embora na diversidade dos dons e carismas. Paulo apóstolo é uma testemunha desta humildade e de carinho.

José Raimundo Oliva

domingo, 23 de outubro de 2011

XXX DOMINGO COMUM A


Somavam um total de 613 as prescrições, mandamentos e proibições do AT que os fariseus observavam rigorosamente. Por isso, no Evangelho de hoje, não é de se estranhar que alguns fariseus confusos com tantas leis e ao saberem que Jesus tinha feito calar muito bem os saduceus que o tentaram pegar no debate sobre a ressurreição dos mortos, dirijam-se aoMestrepara que lhes diga finalmente qual seja o mandamento mais importante de todos eles.
            Jesus responde: “Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento”, onde cita o Shemá Israel (Dt 6); e o segundo é semelhante ao primeiro: “Amarás ao teu próximo como a ti mesmo”, onde cita Lv 19. E, Jesus completa, destes mandamentos dependem toda a Escritura.
            A novidade de Jesus aqui não está no preceito do amor. Ele citou dois mandamentos que já estavam presentes no AT. Mas, a novidade é que lhe perguntaram um mandamento, ele respondeu com dois e disse que havia uma semelhança entre eles. O amor a Deus é semelhante ao amor ao próximo e a si mesmo.
            De fato, no AT, havia um empenho de amor para com o próximo (I leitura); no Salmo, vemos que esse amor vem fundamentalmente do Senhor que é nossa rocha. Deus é a possibilidade de amar, Ele oferece a possibilidade de amar. A novidade de Jesus não é tanto a ordem: amai!, mas Ele é o dom do amor que nos diz que somos capazes de amar. Assim, como os tessalonicenses se tornaram imitadores do Senhor imitando Paulo, assim também podemos amar seguindo o exemplo de tantos santos.
            Dada a explicação da mensagem, lembramos um detalhe do segundo mandamento que é bastante importante. Amar o próximo como a si mesmo. Você parou para pensar se você ama a si mesmo? E de verdade? Hoje mais do que nunca, vemos tantas pessoas magoadas, feridas, insatisfeitas, mal amadas, tristes, amargas, doentes emocionalmente, mentalmente e espiritualmente. que, de fato, na nossa sociedade, um grande número de pessoas não se amam, não gostam delas mesmas, não se sentem satisfeitas com elas mesmas; e o pior, muitas se odeiam. Odeiam seu jeito de ser, odeiam seu corpo, etc. Umas têm isso bem claro em suas mentes, enquanto outras não. E quase todas nem sonham que isto é com certeza a raiz de muitos dos problemas de suas vidas: é falta de amor-próprio, diferente de egoísmo (quer tudo para si e exclui) e de egocentrismo (se acha o centro).
            Deus criou o mundo e as pessoas para que nós tenhamos ótimas relações com elas; mas quando nós nos rejeitamos ou nos odiamos, isso provoca em nós muitos problemas de relacionamentos. Se somos pessoas feridas, nossa tendência é ferir o outro.
Se pegarmos o mandamento de Jesus do Evangelho deste domingo vamos ver que três tipos relações: minha relação com Deus, com o próximo e comigo mesmo. Como é a nossa relação com o nosso próximo? Com os nossos pais? Com os nossos amigos? Vizinhos? Colegas? E com Deus? Enfim, e a relação que nós temos com nós mesmos? Você gosta de estar com você mesmo? Você se sente bem em sua companhia? Ou você acha que tudo que possa lhe preencher vem de algum outro ser humano? Às vezes, gastamos muito tempo sozinhos pensando como é bom estar na companhia de outras pessoas e como é ruim ficarmos sozinhos, quando poderíamos muito bem gastarmos este tempo para aprendermos a nos sentirmos bem com nós mesmos. Quer queiramos ou não, o único ser humano com quem estaremos 24 horas neste mundo é com nós mesmos.
           
Nós todos sabemos como é chato conviver, por exemplo, todo dia no trabalho com alguém que nutramos algum tipo de antipatia, não vemos a hora daquele trabalho encerrar para descansarmos um pouco daquela convivência. Pois é, mas de nós não podemos fugir, nem mesmo por um único segundo, então é de suma importância que nós tenhamos paz conosco mesmos, é preciso que nos amemos.
            Mas porque é que tantos não se amam? Porque caem no que podemos chamar auto-rejeição quando sentem que as pessoas não as aceitam como realmente são. Se sentirmos que ninguém nos ama nem nos aceita, porque deveríamos nos amar? Isso é uma mentira que quanto mais acreditarmos, mais as coisas vão piorar pro nosso lado.
            Assim, o Evangelho mostra uma lógica, uma sequência de como devemos nos comportar com relação a tudo isso. Deus é amor. Deus nos ama em primeiro lugar. Ele tem a iniciativa. Ele nos aceita, mesmo que os outros não nos aceitem. E isso basta para encher o nosso ser. Ninguém pode dar aquilo que não tem. Assim, nós podemos dar amor ao nosso próximo se aceitarmos esse amor de Deus na nossa vida e consequentemente nos amarmos, amando o próximo. Nós temos que nos amar, não de modo egoísta nem egocentrista, mas de maneira equilibrada.
            Nós devemos ter um tipo de amor por nós mesmos no qual sabemos que Deus nos ama e que dessa maneira podemos amar o que ele escolheu amar. Podemos até não estarmos de acordo com todas as coisas erradas que nós fazemos, mas devemos aceitar a nós mesmos com os nossos defeitos porque Deus nos aceita assim. Nós devemos amadurecer o nosso amor a ponto de dizer: eu sei que eu preciso mudar e eu quero mudar. De fato, eu acredito que Deus está mudando meu ser, mas durante este processo, eu não me rejeitarei porque Deus me aceita exatamente como sou.
Que todos nós saibamos acolher o amor imenso que Deus tem por cada um de nós, para que assim possamos amá-lo, amar a nós mesmos e assim, cheios de amor, amar de coração sincero o nosso próximo.



sexta-feira, 14 de outubro de 2011

XXIX DOMINGO COMUM - Mt 22,15-21

Dai a Deus o que é de Deus
No Evangelho deste domingo, os fariseus tentam apanhar Jesus com um plano muito bem articulado. Mas antes de começar a nossa reflexão, é bom lembrar que nem todos os fariseus do tempo de Jesus eram iguais, como também não somos nós cristãos no mundo de hoje e isso conta na aplicação da mensagem de Jesus. De fato, o que a palavra de Deus quer é nos convidar a viver coerentemente com os princípios morais e religiosos, mas também com aqueles civis. O cristão não vive fora do mundo, mas vive inserido no mundo com a sua fé.
Pois bem, havia cinco tipos negativos de fariseus: o fariseu “exibido” (que leva suas boas obras sobre seus ombros, para mostrá-las a todos); o fariseu “presunçoso” (que diz “espere por mim. Eu estou ocupado usando meu tempo para cumprir os mandamentos! Eu não tenho tempo para você”); o fariseu “contador” (que paga cada dívida, isto é, cada pecado, realizando uma boa obra correspondente); o fariseu “parcimonioso” (que diz “do pouco que eu tenho, o que eu posso deixar de lado para cumprir os mandamentos?”) e o fariseu que “compensa” (que diz “conte-me que pecado eu cometi, e eu cumprirei um mandamento para ofuscá-lo”).
Mas também havia dois tipos positivos de fariseus: o fariseu “temente a Deus” que vivia a própria fé com autenticidade, pela qual as práticas externas derivavam da observância da lei de Deus como fruto de uma vida plasmada pela escuta obediente da Palavra de Deus; e outro tipo ainda mais admirável, o fariseu que “ama” (que sabia ser acolhedor, misericordioso e certamente teria prestado socorro ao samaritano perseguido e caído pela estrada de Jerusalém a Jericó. Cfr. Talmude).
Mas os fariseus que encontramos no Evangelho de hoje são do primeiro tipo: hipócritas. Chamam Jesus de “mestre”, mas não o seguem. Interrogam-no sobre qual seja o caminho para conhecer a verdade, mas não o percorrem. Depois, perguntam sobre a verdade, mas querem aquela cômoda, a verdade subjetiva, aquela que pode ser dominada, manipulada a seu bel prazer. A visão parcial destes fariseus ligada ao culto, mas desligada da vida, e portanto, não incidente na vida mesma, impossibilita-lhes compreender e conhecer a verdade.
É a esperteza cruel de quem busca os próprios interesses: eliminar Jesus porque Ele incomoda. Jesus não deve ser acolhido pois atrapalha os planos. Então, armam de tudo para confundi-lo e prendê-lo com a célebre pergunta feita por uma delegação composta de fariseus e herodianos: “é lícito ou não pagar imposto a César?” Precedido de uma grande ironia: “sabemos que és verdadeiro e que, de fato, ensinas o caminho de Deus. Não te deixas influenciar pela opinião dos outros, pois não julgas pelas aparências”.
Na verdade, estes fariseus elaboraram a cilada para si mesmos. Na resposta, Jesus desmascara a mesquinharia da fé deles. Ora, o povo de Israel vivia sob o domínio dos romanos. Um sinal de domínio dos romanos sobre o povo era exatamente o excesso de impostos (como acontece no Brasil em que cada trabalhador paga 40% de sua renda anual em tributos ao governo, fora outros impostos). César era o nome genérico com o qual se indicava o imperador. No tempo de Jesus, Tibério César.
E então? Deus quer ou não que se pague o imposto a César? Os fariseus eram contra esse pagamento porque na moeda estava impressa a figura do imperador e isso para eles indicava submissão a outro que não fosse Deus. Já os herodianos, simpatizantes de Herodes Antipas, colaboravam com o império romano e gozavam de alguns privilégios (sempre interesseiros), portanto, favoráveis aos tributos. Se Jesus tivesse respondido “não”, ficaria contra os herodianos, podendo ser acusado como rebelde ao império e ser condenado, tornando-se um revolucionário político. Se dissesse “sim”, colocar-se-ia contra os fariseus. Mostrar-se-ia contra o povo que era sobrecarregado pelas taxas, como um colaborador dos romanos, e assim, inimigo do povo. Assim, eles pensaram. “Dessa vez, qualquer resposta, Jesus está sem saída. Ofenderá qualquer um e se comprometerá”.
Mas, Jesus conhecendo a malícia deles, não cai na armadilha, não se deixa determinar pela pergunta como ela foi formulada. Responde-lhes, chamando-os de hipócritas (falsos, impostores) e vai mais além. Com a sua resposta, Jesus evita tal cilada, recuperando integralmente os dados da realidade. Ele revela às pessoas a sua identidade. “Vocês fingem estarem interessados nessa questão, mas na verdade querem me tentar. Me mostrem uma moeda”. “De quem é a figura e a inscrição desta moeda?” O denário era uma moeda romana com o qual eram pagas as taxas. E no tempo de Jesus, o denário de prata tinha a imagem do imperador Tibério César. Então, que se devolva a César aquilo que é de César, isso não representa problema nenhum pra Jesus.
Por outro lado, Jesus acrescenta: mas, devolva a Deus o que é de Deus. Com isso, Jesus quer fazer entender que a pergunta sobre o imposto não diz respeito diretamente a Deus e que neste âmbito César não está em concorrência com Deus. Mas, que as disposições e exigências de César podem ser respeitadas desde que não contradigam a vontade de Deus. Significa superar os esquemas políticos na religião. Pagar as taxas e obedecer a César não nos exonera de reconhecer que o nosso Senhor é Deus. Isso significa que toda pessoa que vive numa civilização organizada com as próprias instituições políticas, sociais, econômicas, deve ser respeitada, sua dignidade de pessoa enquanto criada por Deus a sua imagem e semelhança. É no amor por cada pessoa humana que se dá a Deus aquilo que é de Deus e a César o que é de César.
Não se pode separar fé, vida econômica, política e social. A pessoa cristã não pode estar dividida, de outro modo corre o risco de se tornar como os fariseus hipócritas do Evangelho de hoje. Hoje sentimos falar tanto de liberdade religiosa, ou seja, que podemos ser cristãos e que podemos manifestar nossa fé abertamente e protegidos pela lei. Mas, infelizmente, há também tantas pessoas no mundo impossibilitadas de praticar sua fé, como na China, onde, por exemplo, o governo obriga a abortar o segundo filho; como fica a situação dos cristãos desse país para obedecer a Deus e lutar em favor da vida? Com relação a este tema, estamos de olho nos nossos caros deputados que elegemos para defenderem em nosso nome os nossos valores em favor da vida e contra a legalização do aborto ou da maconha, por exemplo.
Que tenhamos a consciência de devolver a Deus o que é Dele, colocá-lo em primeiro lugar na nossa vida, e abrirmos o nosso coração à escuta acolhedora da sua Palavra que nos liberta e nos faz capazes de entender que somos profundamente amados por ele.
Com a I leitura, temos a grande lição de que o Senhor escolheu um estrangeiro, Ciro da Pérsia, para que fosse o libertador do seu povo. A história não foi feita nem pelos babilônicos nem pelos persas, mas é Deus quem a escreve. É assim que interpreta o profeta Isaías. Por isso, o Sl 95 nos convida a reconhecer que o Senhor é grande e muito digno de louvor. Reconhecei que o Senhor é Deus. Que Ele reina. Restituí a Ele aquilo o que lhe é devido. É o que faz a comunidade dos tessalonicenses (II leitura), o mais antigo texto da tradição cristã, 51 d.C., que restituiu a Deus aquilo que era Dele. Reconheceu isso mediante a força do Espírito Santo.
“O sagrado Concílio declara igualmente que tais deveres atingem e obrigam a consciência humana e que a verdade não se impõe de outro modo senão pela sua própria forca, que penetra nos espíritos de modo ao mesmo tempo suave e forte. Ora, visto que a liberdade religiosa, que os homens exigem no exercício do seu dever de prestar culto a Deus, diz respeito à imunidade de coação na sociedade civil, em nada afeta a doutrina católica tradicional acerca do dever moral que os homens e as sociedades têm para com a verdadeira religião e a única Igreja de Cristo. Além disso, ao tratar desta liberdade religiosa, o sagrado Concílio tem a intenção de desenvolver a doutrina dos últimos Sumos Pontífices acerca dos direitos invioláveis da pessoa humana e da ordem jurídica da sociedade” (Declaração Dignitatis Humanae sobre a liberdade religiosa)