segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

MISSA DA SANTA MÃE DE DEUS - Lucas 2,16-21


1o de janeiro de 2011
MISSA DA SANTA MÃE DE DEUS
Lucas 2,16-21
Autor: Pe. Carlos Henrique
Mais um ano se inicia! E com a fé nas bênçãos que vêm de Deus, não temos necessidade de fazer mais nada para ter um ano de paz, saúde, amor e prosperidade! Muitos deixam de ter fé em Deus para se dedicar à leitura de horóscopos, a simpatias. Mas o que são estas superstições diante do poder de Deus? Absolutamente nada! Temos que confiar em Deus e isso já nos basta. Se Deus está o tempo todo com o seu rosto voltado para nós, do que mais precisamos?
A celebração de hoje nos convida a venerar Maria, a Santa Mãe de Deus Salvador; a venerar aquela que acolheu e carregou no seu ventre o Filho de Deus. Por ela, Deus entrou no mundo e veio ao nosso encontro. Agora, somos nós quem devemos ir ao encontro dele. Somos nós quem devemos acolher essa Luz que ilumina os nossos passos. Maria é a mulher que escutou a voz de Deus, acolheu e obedeceu a vontade do Senhor; sempre atenta a acolher os sinais de Deus, renovava diariamente o seu “sim”.
O Evangelho desta liturgia que é uma continuação daquele lido na noite de Natal, coloca Maria numa posição central. Como anunciado no texto anterior, os pastores “encontraram Maria e José, e o recém-nascido deitado na manjedoura”; depois, “voltaram, glorificando e louvando a Deus por tudo o que tinham visto e ouvido”. O mais interessante deste relato, é que há um corte bem no meio do texto para nos dar uma preciosa informação: “quanto a Maria, guardava todos esses fatos e meditava sobre eles em seu coração”.
Maria, que hoje invocamos como Mãe de Deus Salvador, é a Rainha da Paz. Ela é rainha de uma paz que não depende das circunstâncias. Mas, uma paz que brota do coração, uma paz que existe mesmo em meio às provações da vida. Ela guardava a Palavra de Deus em seu coração e a Palavra traz paz.
Hoje também é o dia da paz. Não devemos esquecer que a paz não é somente a ausência de guerras, de violência, é também ausência de qualquer desentendimento, discussão, desunião. E como existe isso nas nossas famílias! A paz que o mundo oferece é um sentimento que temos quando tudo corre bem na nossa vida ou quando as pessoas se comportam como nós queremos. Porém, quando as coisas não acontecem do jeito como esperamos, quando queremos mudar as pessoas e não conseguimos, isso nos frustra e o sentimento de paz nos deixa e a impaciência e o aborrecimento tomam conta de nós.
A paz que Jesus nos dá é uma paz diferente da que o mundo nos dá. Em cada missa, pedimos essa paz, e às vezes repetimos tão mecanicamente que nem nos inteiramos do seu verdadeiro significado: “livrai-nos de todos os males, ó Pai, e dai-nos hoje a vossa paz”, “Senhor Jesus Cristo, dissestes aos vossos apóstolos: Eu vos deixo a paz, eu vos dou a minha paz”. E logo em seguida, desejamos a paz do Senhor ao nosso próximo.
Se lembrarmos bem, Jesus não perdeu a paz nem no meio da tempestade. Ele continuou dormindo tranquilamente na popa do barco, enquanto seus discípulos estavam apavorados e indignados porque Ele não se mostrava preocupado com eles. Temos que aprender a receber essa paz de Jesus, essa paz que nos faz esperar no tempo de Deus com paciência, essa paz que nos faz respeitar e tratar bem o próximo.
É preciso que aceitemos na nossa vida a salvação oferecida por Jesus. De fato, este nome contém todo o significado da vinda de sua vinda ao mundo. Oito dias depois do nascimento do Filho de Deus, no momento da circuncisão, símbolo de aliança entre Deus e o povo de Israel, o menino recebe o nome de Jesus. Em aramaico, Yeshua significa “Deus salva”. Ele veio ao mundo para fazer uma aliança conosco, para nos salvar e nos conceder a sua paz.
Que neste ano que se inicia, o Senhor volte para nós o seu rosto, abençoe a nós todos e nos dê a paz. Que tenhamos liberdade religiosa, caminho para a paz! Feliz 2011!

domingo, 26 de dezembro de 2010

SAGRADA FAMÍLIA – Mt 2,13-15.19-23

Jesus, Maria e José: modelo para a família cristã

Um bebê é um ser muito frágil e sem força. Não pode se defender. Para sobreviver, depende totalmente do cuidado e da ajuda dos pais. Muitas crianças têm sido vítimas da própria incapacidade de se defender. Umas não chegam nem a nascer, são abortadas; outras, são jogadas em rios, no lixo, de prédios altos, são maltratadas, são vendidas. Também Jesus depois de ter nascido num lugar tão incômodo, correu risco de vida.
No Evangelho de hoje, lemos o drama do exílio e da imigração que teve de experimentar a Sagrada Família para escapar da matança cruel que Herodes tinha ordenado a fim de matar Jesus, a quem considerava um grande rival apesar de sua pouca idade. Tal drama nos mostra que o texto em questão quer mostrar justamente que ameaçado Jesus, fica ameaçada também toda a sua obra de salvação. Mas, Deus o protege.
José recebe de Deus a responsabilidade de marido e pai, de tomar o menino e sua mãe e fugir para salvar-lhes a vida e assim o faz. Ele foge para o Egito (África). Desta forma, José se apresenta como o homem responsável para com a sua família e cuida dela totalmente, desempenhando o papel de protetor, exemplo para tantos pais que já não se preocupam com os seus filhos.
De igual modo, José também obedece a Deus quando deve retornar às suas origens. Depois da morte de Herodes, volta para Israel, sinal evidente de que o seu esforço é para deixar crescer o filho na terra onde nasceu. Ele não se deixa levar pelos seus próprios interesses, mas enfrenta todas as situações pelo bem do seu filho. Até sob este ponto de vista, José é exemplo para todos aqueles pais que ao invés de defender as próprias origens, sobretudo no campo da fé, frequentemente trocam Deus por outras coisas e outros lugares, influenciando negativamente os seus filhos, às vezes até são responsáveis pela falta de fé dos filhos quando não transmitiram a fé a estes.
Com José, temos a reafirmação da cultura das próprias origens que ninguém deveria esquecer. Jesus teve de ir ao Egito, porque de lá saiu o povo escravo do faraó para a liberdade no Senhor. Também ele deveria sair do Egito e entrar na Terra prometida, aqui representada por Nazaré, o que pode ser uma alusão a Is 11,1, onde é anunciado um rebento do tronco de Jessé como Príncipe da Paz (nezer). Já o fato de Maria nunca ser chamada pelo nome neste texto, mas sempre por mãe, enfatiza sua função materna da qual Jesus dependeu para crescer.
Pois bem! Como a família atual se afastou desta concepção de família que acabamos de tratar! Os pais e as mães estão sempre mais ocupados, estressados, maltratados, esquecidos, e até mesmo humilhados pelos próprios filhos, o que causa um dano enorme à família, pois se há falta de amor dentro dela, como podemos experimentá-lo em outro lugar?
É uma verdadeira lição o que lemos hoje na I leitura. O autor do Eclesiástico lembra o mandamento da lei mosaica que pede claramente para honrar o pai e a mãe e ainda esclarece que para isso é necessário que também os pais honrem os filhos. Hoje, a família caminha insensivelmente para a autodestruição, principalmente quando se confunde maternidade e paternidade graças ao egocentrismo.
O estilo de uma vida familiar com princípios cristãos se encontra expresso na carta de Paulo aos colossenses (II leitura). É preciso levar uma vida virtuosa em família para salvá-la da sua destruição ou implosão. Os vários sentimentos que Paulo acena na leitura deveriam ser patrimônio de todos os membros de todas as famílias cristãs.
Infelizmente, sabemos muito bem que não é assim, sobretudo hoje. Daí, a necessidade de reforçarmos as experiências positivas da vida familiar em prol da educação dos nossos filhos para combater o mau exemplo sempre mais forte das “falsas” famílias que são propostas na mídia, especialmente nas novelas com sua degradação geral. Estas sempre fazem mais ou menos sucesso de acordo com o maior ou menor número de traições, abandonos, separações, divórcios, filhos ilegítimos, e tantos outros atentados à vida familiar. Jesus, José e Maria nos indicam a estrada melhor para revitalizar às nossas famílias frágeis. Só o amor que vem de Deus é capaz de salvar a família, justamente porque o mistério de Deus Uno e Trino é o maior exemplo de família.

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

MISSA DO NATAL DO SENHOR – Lucas 2,1-14

É Natal de Jesus! O Evangelho que a liturgia desta festa nos propõe nesta noite narra o maior acontecimento esperado por toda a humanidade: o nascimento do Salvador, o Cristo Senhor. O texto bíblico é fortemente caracterizado por um grande contraste. Enquanto os judeus esperavam a vinda de um rei majestoso, político, nacional, eis que tal Messias se apresenta ao mundo de uma forma totalmente inesperada. É neste contraste, pois, que vamos descobrir um dos maiores ensinamentos que o Natal do Senhor nos pode oferecer.
Logo no início do Evangelho, lemos as seguintes informações históricas: em primeiro lugar, aparece o imperador César Augusto, dominador do mundo Mediterrâneo da época, o qual impõe a realização de um censo em toda a terra (a que eles conheciam na época), ou seja, de todos os habitantes submetidos ao império romano, entre os quais se encontravam os da Palestina. Em seguida, o texto diz que quando ocorreu este censo, o governador da Síria era Quirino, procurador de Augusto na tetrarquia que compreendia a Idumeia, a Samaria e a Judeia, onde está localizada Belém.
Longe, porém, de ter provas para estes dados históricos, além de uma diferença notável entre o relato do nascimento do Messias narrado neste texto e aquele no evangelho de Mateus, ficamos com o que nos interessa: este decreto é o que liga José e Maria, residentes em Nazaré da Galileia a Belém da Judeia. De fato, Lucas sublinha que Belém é a cidade natal de Davi, de onde descende José. Desta maneira, temos uma referência à promessa e à espera messiânica ligada a Belém e a família de Davi: “Grande será o seu reino, e a paz não há de ter fim sobre o trono de Davi e sobre o seu reinado” (Is 9,6).
Chegando o tempo devido, Maria dá a luz o seu “primogênito” (este termo não quer indicar que Maria teve outros filhos, mas que Jesus é o primeiro filho de Maria, e por isso, tem todos os direitos da primogenitura; para se ter uma ideia da importância da primogenitura, basta lembrar as incansáveis trapaças feitas por Jacó contra seu irmão Esaú para tomar-lhe este direito).
Maria, como toda mulher, passa naturalmente por essa experiência: nem pode escolher o momento, nem esperar uma circunstância melhor. Ela não encontrou um lugar adequado para o seu menino, por isso, deu à luz num estábulo, pondo o menino numa manjedoura. São pobres e sem pretensões. É verdade! O primeiro lugar a receber o Salvador foi um lugar simples e com todas as características de qualquer estábulo, ou seja, incluso as necessidades fisiológicas dos animais.
Assim, o que, imediatamente, chama a nossa atenção neste acontecimento é a simplicidade. Na sua grandeza infinita, o Altíssimo se abaixa não só à condição humana, mas em qual condição Seu Filho veio ao mundo!? O Salvador entrou na nossa condição humana, a partir da fraqueza de um menino enrolado em panos, deitado em palhas e está do nosso lado e nos acompanha.
Em contraste com essa pobreza, aparece o esplendor da luz celeste e a aparição do anjo de Deus aos pastores que tomavam conta de seus rebanhos; mas o sinal que recebem é simplesmente este: “encontrareis um recém-nascido envolvido em faixas e deitado numa manjedoura”. Aos pastores que estão com muito medo, o anjo anuncia uma grande alegria. Realmente, eles têm um grande motivo para se alegrarem: nasceu para eles e para todo o mundo o Salvador.
A maravilha do Natal reside neste contraste: sem a revelação dos anjos nunca entenderíamos que aquele menino na manjedoura é o Senhor. E sem o menino na manjedoura nunca entenderíamos que a glória do verdadeiro Deus é diferente da glória a que estamos acostumados.
Que possamos ser humildes e simples para que o Senhor, neste Natal, venha ao estábulo do nosso coração e assim, possamos amá-lo na pessoa do próximo como nos ensina tão bem Madre Teresa de Calcutá: “Da humildade sempre emanam a grandeza e a glória de Deus. Devemos estar vazios do orgulho se quisermos que Deus nos preencha com a sua plenitude. No Natal, vemos Deus como um recém-nascido, pobre e necessitado, que veio para amar e ser amado. Como podemos amar a Deus no mundo de hoje? Amando-o em meu marido, em minha mulher, nos meus filhos, nos meus irmãos, nos meus pais, nos meus vizinhos, nos miseráveis, nos bêbados, nos presos, nos enfermos, nos excluídos, nas prostitutas, em todos aqueles que encontramos”
Feliz Natal!

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

4º DOMINGO DO ADVENTO - Mt 1,18-24

O grande sonho de José

Às portas do Natal, a liturgia nos faz refletir sobre a figura de José, um homem simples, carpinteiro, de um pequeno povoado desconhecido da Galileia chamado Nazaré. José é aquele que aparece na genealogia de Jesus narrada em Mt 1,1-17. Esta liga Jesus a Davi e a Abraão. Porém, o que chama a atenção é que em Mt 1,16, lemos que José é o esposo de Maria e que Maria é a mãe de Jesus, mas nunca que Jesus seja filho de José. De fato, Mt 1,18.20 diz que é o Espírito Santo quem está na origem da vida de Jesus.
José vivia sua vida tranquilamente, e, segundo o costume, foi-lhe prometida em casamento, uma adolescente do povoado, Maria, com a qual ele tinha o sonho de casar e ter filhos. Naquela época, o casamento era feito em duas etapas. A primeira era a “promessa” ou noivado (
kidushin): um compromisso moral que tinha a validade do matrimônio, mas não concedia direito algum aos envolvidos, inclusive o de ter relações sexuais. Só algum tempo após o noivado, isto é, um pouco antes da jovem completar os 14 anos, realizava-se a segunda etapa, a celebração (nissuin), onde a noiva era conduzida à casa do marido por duas testemunhas (se a jovem completasse os 14 anos e não fosse prometida, era livre para escolher o noivo, coisa quase impossível, pois os pais da moça escolhiam o noivo para assegurar-lhe um futuro).
Segundo o direito judaico, já no noivado, os prometidos em casamento, são considerados marido e mulher. Por isso, José é chamado o esposo de Maria em Mt 1,16.19, e, Maria, a esposa de José em Mt 1,20.24.
Tudo corria tranquilamente entre o noivado e a passagem para a casa do noivo, quando um dia, o mundo de José revirou. Aquele sonho parecia que tinha acabado com tudo. Ele soube que sua mulher estava grávida. E só ele sabia com certeza que aquele filho não era seu. Num caso destes, a lei judaica dizia que o homem deveria deixar a mulher. Sendo José um homem justo, ou seja, que cumpria a vontade de Deus presente nas escrituras judaicas, sendo traído, tinha que repudiar Maria, com todas as consequências civis e penais que ela deveria sofrer, aparecendo aos olhos de todos como uma adúltera, rejeitada e excluída não só pelos parentes, mas por todos os habitantes de Nazaré.
José, porém, agindo com muita prudência, e, porque amava Maria, decidiu repudiá-la secretamente, para não expô-la a esta situação penosa. Não lhe restava nada a não ser refletir sobre aquela situação amarga. Que drama este homem deve ter enfrentado, quantos pensamentos podem ter passado em sua mente! Mas Deus não o deixou sozinho com seus pensamentos. Exatamente quando se perguntava amargurado, José teve um sonho bem maior que o primeiro. Neste, apareceu um anjo do Senhor que lhe disse: “José, filho de Davi, não tenhas medo de receber Maria como tua esposa, porque ela concebeu pela ação do Espírito Santo”. Assim, José fez como o anjo lhe tinha ordenado: tomou consigo Maria e reconheceu o menino como filho diante da lei. Por mandato de Deus, José tornou-se perante a lei o pai de Jesus; assim, Jesus é inserido legalmente na genealogia de José. Deus entra naquela história começada desde Abraão e Davi.
O sonho de José é um sinal de Deus. Uma criança salvará o mundo inteiro dos seus pecados, uma criança libertará o mundo de todas as escravidões; seu nome Yeshua (Jesus) significa Deus salva. Hoje, José está diante de nós para nos exortar a escutar o Evangelho, a acolher a palavra do anjo que estava dentro do seu sonho. José não está entre os personagens principais do Evangelho, mas, mesmo assim, tomou parte daquela grandeza e alegria: acolheu consigo Maria e o menino. A cada um de nós é pedido de tomar consigo o Evangelho e de abandonar seu individualismo. Também nós, devemos tomar parte no grande desígnio de amor que Deus tem pelos homens. Com José, nos aproximamos da Santa Noite para acolher o Senhor e para caminhar com ele. Em Jesus, o “Emanuel”, Deus está conosco.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

III ADVENTO - Mt 11,2-11

Feliz aquele que não se escandaliza por causa de mim

Depois de termos ouvido no domingo passado o testemunho de João Batista, agora é a vez de escutar o testemunho que Jesus dá dele. João tinha falado que Jesus era o Messias: o Cristo que vem com a santidade de Deus e sua missão de purificar e renovar os corações das pessoas.
O Messias se revela publicamente e a sua luz Divina evidencia as sombras da culpa nas consciências; e, assim, João se esforça para convencer a maior quantidade de pessoas possível para que tirem os obstáculos morais para acolher sem impedimentos o Salvador. Rapidamente a pregação de João se torna um acontecimento clamoroso; tanto que iam até ele fiéis judeus de todas as partes, e é aqui que o profeta se desencontra com o rei Herodes.
O prestígio de João vinha de sua franqueza. Na sua pregação ele não temia alargar o convite à conversão também ao soberano por causa de sua situação familiar irregular (vivia em adultério com a mulher de seu irmão Filipe). Aquilo que valia para a vida particular de cada um, também devia valer para quem era revestido de um cargo público. No entanto, o rei Herodes temendo que as palavras de João pudessem dar início a uma revolta popular, mandou jogá-lo na prisão. E, finalmente, como diz o Evangelho em outra passagem que Herodes ouvia com prazer as palavras de João, mesmo assim a força autoritária vence e João, prisioneiro na fortaleza de Macheronte, na Transjordânia (segundo Flávio Josefo) paga com a própria vida a fidelidade à sua missão.
Alguns discípulos, graças ao constante contato com o seu mestre João, continuam a visitá-lo e tê-lo como seu guia espiritual. João já tinha mostrado abertamente que Jesus era o Salvador enviado por Deus. Mas, se como nem todos estavam convencidos da sua indicação, da cela da prisão, João Batista manda alguns dos mais fiéis discípulos para interrogar Jesus a respeito da sua pessoa: “és tu aquele que há de vir ou devemos esperar um outro?”
Estes se dirigem a Jesus não porque João tivesse dúvidas, mas justamente porque João reconhecia o seu nada diante de Jesus, e portanto, aquele que só queria diminuir, pede que os discípulos comprovem pela boca do próprio Jesus que este é o único que pode falar com plena autoridade.
Pois é, o João que encontramos hoje é bem diferente daquele do domingo passado: está impedido na sua liberdade de expressão e segregado num presídio de segurança máxima, mas mesmo assim, nem Herodes é capaz de cancelar a sua força testemunhadora. Os seus discípulos, de fato, permanecem fiéis e são por ele educados a aceitar o novo e definitivo mensageiro de Deus: Jesus de Nazaré.
João, enquanto profeta, fala em nome do Senhor, e, se torna assim o verdadeiro modelo de suportação e constância, a que se refere Tiago na segunda leitura. Neste tempo de Advento, convém sempre repetir que a Palavra de Deus não pode ficar muda. Como afirma Bento XVI na exortação Verbum Domini 7: “o cristianismo é a religião da Palavra de Deus, não de uma palavra escrita e muda, mas do Verbo encarnado e vivo”. João já passou o testemunho a Jesus e este levará adiante a sua missão publicamente até ser completada.
A fé da Igreja desde o seu início é pública, não é privada nem secreta. Para provar a sua qualidade de Messias, Jesus não encontra nada melhor do que indicar aos discípulos do primo João os fatos: a salvação que Jesus traz se manifesta também através de curas físicas, sinal da onipotência de Deus do qual ele é pleno. Não se pode encontrar motivo de obstáculo nele porque tudo que diz respeito a ele se manifesta. Só a sua simplicidade pode ser motivo de escândalo para quem é sempre propenso à vanglória: “Feliz aquele que não se escandaliza por causa de mim”.
Reconhecendo a sua pequenez, Jesus diz que João é grande: este tinha feito da radicalidade evangélica a sua marca de reconhecimento. Não havia lugar na sua pessoa e na sua conduta de vida para o supérfluo nem tanto menos para o luxo. Todos podiam dar-se conta imediatamente da seriedade de sua pessoa e da solidez dos seus argumentos. Aquilo que João recomendava a todos eram a sobriedade e a penitência que ele há muito tempo praticava. Os poderosos de então, mas também de todos os tempos, costumam enfatizar a sua autoridade com sinais externos que lhe qualifiquem. João não tinha necessidade de nada disso. Sua mensagem, sua vida, valia muito mais do que tudo isso, era autêntico.
Ele não tinha nada a esconder. Nem mesmo tentava procurar um fácil consenso da parte do seu público, daqueles rumores que hoje chamamos opinião pública. João era credível porque se apelava a um princípio superior e por isso era procurado e estimado. Investido de uma missão grande como a dele, antes de Jesus, não houve nenhum maior como João, concluiu o próprio Jesus. Mas, agora que o Messias se apresentou e o Reino de Deus foi inaugurado o importante é deixar toda incerteza de fora.
Este reino continua a viver na Tradição pública da Igreja, que se expressa sobretudo na Liturgia. Aquilo que a Igreja celebra é aquilo que ela acredita: não há dissociação entre as duas coisas e todos podem fazer uma ideia, seja da sua doutrina que dos seus ritos.
Não há cursos ou níveis a superar para se tornar um cristão, nos quais sejam reveladas verdades escondidas. Ou se é cristão ou não se é: porque a salvação para os cristãos não depende do saber alguma verdade escondida para a maior parte das pessoas, mas a salvação depende do acolher ou não a pessoa de Jesus. O Senhor Jesus é “aquele que veio e não devemos esperar por um outro”.
São Tiago na segunda leitura propõe o exemplo do agricultor que é cheio de perseverança e de bom senso. Também para a fé cristã serve o bom senso de quem olha os fatos e não se deixa encantar pelas palavras. Para crédito da fé da Igreja falam os fatos, dos seus frutos se pode reconhecer a árvore e a planta da Igreja sempre produziu frutos bons porque brota de Cristo, o seu Salvador. Se a Tradição da Igreja é pública também nós não devemos ter medo de declará-la e difundi-la publicamente.
São João Batista agiu assim, façamos também nós. Possibilitemos ao Natal o seu verdadeiro significado cristão que é o nascimento do Salvador e não somente festa de presentes e de consumos. Tenhamos ânimo, não tenhamos medo! Pois é Deus que vem para nos salvar. Exultemos de Alegria!