domingo, 5 de setembro de 2010

XXIV DOMINGO COMUM - Lc 15,1-32

O Amor de Deus: o mais belo e desejável

O Evangelho de hoje nos apresenta três parábolas. Cada vez que lemos e relemos a mesma parábola, e este ano já é a segunda vez que lemos a do “filho pródigo”, descobrimos novos significados que nos guiam em nosso amadurecimento humano. A novidade das parábolas de Jesus é aquela de enxergar sempre as coisas do ponto de vista de Deus; Jesus nos revela o modo de pensar de Deus que frequentemente é completamente diferente do modo como nós, apesar de ouvirmos tantas vezes as mesmas parábolas, insistimos em não assumir o caráter de Deus em nós.

Por exemplo, diante do pecador, Jesus nunca dá ênfase a este apontando o seu erro, mas ele sempre ressalta a beleza do amor de Deus que busca o pecador para perdoá-lo. E a grande beleza proveniente destas parábolas é que cabe a cada um de nós em primeiro lugar reconhecer-se pecador para sentir esse amor incondicional e em segundo lugar ir atrás das “ovelhas perdidas, da moeda perdida, do filho pródigo” para que também experimentem desse amor que nos preenche completamente. Essa tarefa é exatamente o contrário do gesto de apontar o defeito do outro, de julgar e de condenar.

Já expliquei o evangelho do filho pródigo este ano durante a quaresma e ressaltei que nas duas primeiras parábolas de Lc 15, a iniciativa é sempre de Deus, já que nem a ovelha nem a moeda têm como voltar pra seus donos por si só. Já a parábola dos dois filhos, é o filho pródigo quem começa o caminho de volta, mas antes que chegue, é o pai que quando o avista, corre ao seu encontro, o abraça e o cobre de beijos. Esta iniciativa do filho de retornar é para mostrar que somente é possível receber este amor de Deus se deixarmos de ser cabeças-duras e nos abrirmos a este amor. Já a reação do filho maior revela ainda a atitude dos fariseus: inveja, raiva, presunção, superioridade em relação aos outros. Ele chega a dizer ao pai: “este teu filho”, como se não fosse irmão dele.

Com as parábolas de hoje, Deus nos chama a pararmos de nos esconder, de reconhecermos abertamente o impostor que vive em nós (filho mais velho) e nos aproximarmos dele como o filho mais novo.

Por isso, a partir daqui cito algumas frases de livros do padre Brennan Manning, que dá o seu testemunho acerca de seus problemas com o alcoolismo e sua dificuldade em aceitar ser aceito por Deus:

“Uma das contradições mais chocantes da Igreja é a profunda aversão que muitos discípulos de Jesus nutrem por si mesmos. Estão mais insatisfeitos com as próprias falhas do que jamais imaginariam estar em relação às de qualquer outra pessoa.

Nos meus oito anos de idade, nasceu em mim, como forma de defesa contra o sofrimento, o impostor, ou o falso eu. O impostor que vive em mim sussurrava: "Brennan, jamais seja quem você de fato é, porque ninguém gosta de você como é. Invente um novo eu a que todos admirem e ninguém conheça". Tornei-me assim um bom menino: cortês, educado, discreto e respeitoso. Estudei com afinco, tirei as melhores notas, granjeei uma bolsa de estudos para o ensino médio, e a cada momento fui perseguido pelo pavor do abandono e da sensação de não ter ninguém ao meu lado.

Minha mente e meu coração, divorciados um do outro, arrastaram-se profundamente por todo o meu ministério. Durante dezoito anos proclamei as boas notícias do amor apaixonado e incondicional de Deus — completamente convicto na mente, mas sem senti-las no coração. Nunca me senti amado. Por fim, porém, após um intenso retiro em que busquei sondar o meu interior, vim a perceber que era verdadeiramente amado. No instante em que compreendi essa verdade monumental, comecei a prantear e a soluçar. Depois de esvaziar o cálice da minha dor, algo notável aconteceu: ouvi ao longe som de música e dança. Eu era ali o filho pródigo voltando para casa, manco; não um espectador, mas um participante. O impostor desvaneceu, e entrei em contato com o meu verdadeiro eu, como o filho de Deus que havia retornado. "Venha para mim agora", diz Jesus. "Pare de projetar sobre mim o que sente a seu respeito. Neste momento sua vida é um caniço rachado que eu não quebrarei, um pavio fumegante que não apagarei. Você está num lugar seguro". Você é amado.

De fato, se eu preciso buscar uma identidade que não esteja em mim mesmo, o acúmulo de riqueza, poder e fama me fascina. Ou, então, posso encontrar meu centro de gravidade nos relacionamentos sociais. Ironicamente, a própria Igreja pode afagar o impostor conferindo ou retendo honrarias, oferecendo o orgulho de uma posição baseada no desempenho e criando a ilusão de status pelo escalão e pela ordem de importância. Quando pertencer a um grupo de elite eclipsa o amor de Deus, quando tiro vida e significado de qualquer outra fonte diferente da minha condição de amado, estou morto espiritualmente. Quando Deus é relegado a segundo plano, atrás de quaisquer bugigangas ou ninharias, troquei a pérola de grande preço por fragmentos de vidro pintado.

"Quem sou eu?" "Sou aquele que é amado por Cristo". Isso é a base do eu verdadeiro. A condição indispensável para desenvolver e manter a consciência de que somos os amados é reservar tempo a sós com Deus. Nossa identidade repousa na ternura implacável de Deus por nós, revelada em Jesus Cristo. Nosso frenesi controlado cria a ilusão de uma existência bem ordenada. Movemo-nos de crise em crise, reagindo ao urgente e negligenciando o essencial. Andamos continuamente em círculos. Ainda fazemos todos os gestos e praticamos todas as ações identificadas como humanas, mas nos assemelhamos a pessoas levadas por esteiras rolantes de aeroportos

…Levou apenas algumas horas de silêncio antes de começar a ouvir minha alma falar. Demorou pouco até descobrir que não estava sozinho. Deus estava tentando gritar mais alto do que a barulheira da minha vida, contudo, eu não podia ouvi-lo. Mas, na calmaria e na solitude, seus sussurros gritaram de dentro da minha alma: "Estou aqui. Tenho-o chamado, mas você não me escutou. Consegue me ouvir? Eu amo você. Sempre o amei. Esperava que você me ouvisse dizê-lo. Mas você tem estado tão ocupado tentando provar para si mesmo que é amado, que nem me ouviu". Eu o ouvi, e minha alma sonolenta encheu-se com a alegria do filho pródigo. Minha alma foi despertada por um Pai amoroso que tem procurado e esperado por mim. Finalmente aceitei minha transgressão... Nunca tinha me acertado com isso. Deixe-me explicar. Eu sabia que estava quebrado. Sabia que era pecador. Sabia que decepcionava Deus continuamente, mas nunca consegui aceitar esse meu lado. Era uma parte que me envergonhava. Sentia continuamente a necessidade de me desculpar, de fugir da minha fraqueza, de negar quem eu era para me concentrar em quem deveria ser.

Estava quebrado, sim, mas tentando continuamente nunca mais me quebrar de novo ou, pelo menos, chegar a um lugar em que raramente estivesse quebrado. Cheguei a perceber que Jesus me fortalecia em minha transgressão, impotência e fraqueza. Era na aceitação da falta de fé que Deus poderia me dar fé. Era ao acolher minha transgressão que poderia me identificar com a transgressão dos outros. Meu papel era identificar-me com a dor de outros, não aliviá-la. Ministrar era compartilhar, não dominar; entender, não teologizar; cuidar, não consertar. O que isso tudo significa? Não sei... e sendo bem grosseiro, esta não é a questão? Sei apenas que em momentos específicos de nossa vida, ajustamos seu curso. Esse foi um desses momentos, para mim. Se você olhasse o mapa da minha vida, não perceberia nenhuma diferença notável, a não ser por uma ligeira mudança de direção. Só posso dizer que tudo parece diferente agora. Há uma expectativa, uma energia por causa da presença de Deus em minha vida que nunca experimentei antes. Só posso dizer-lhe que, pela primeira vez em minha vida, posso ouvir Jesus sussurrar todos os dias: "Eu te amo. Você é o amado". E por alguma estranha razão, isso parece ser suficiente. E você? Acredita realmente que Deus te ama incondicionalmente? (Citações das obras: “O Evangelho Maltrapilho”, “O impostor que vive em mim”, “O amor obstinado de Deus”).

Brennan Manning é ex-padre, escritor, e conferencista americano. Depois de ordenado padre franciscano, fez uma experiência contemplativa com os Pequenos Irmãos de Jesus que vivem a espiritualidade de Charles de Foucauld na Espanha. Voltando aos Estados Unidos, em 1970, depois de enfrentar uma crise pessoal, o alcoolismo, problema que enfrenta até os dias de hoje, escreve e ministra palestras, sempre com o objetivo de comunicar o amor incondicional de Deus em Jesus: “Aprendi de um sábio franciscano que, para quem conhece o amor de Cristo, nada mais no mundo é tão belo e desejável”.

Um comentário:

Newton Hermogenes disse...

Ó PAI EIS-ME AQUI, ACEITA-ME! Lc 15,1-32
A misericórdia de Deus não tem limites, e está além da compreensão humana. Nos evangelhos há momentos que Jesus usa de palavras duras, e, em outros, usa de palavras suaves, e perdoa pessoas em situações tais, que se fosse para nós decidirmos, correríamos o erro de condenar, porém, o perdão de Deus supera o nosso entendimento. Os nossos pensamentos são limitados, para compreender e perdoar as pessoas que erram, e até mesmo os nossos próprios erros, por isto não sabemos julgar. O padre Fabio de Melo retrata bem em sua canção esta situação:
Sou humano demais pra compreender
humano demais pra entender
Este jeito que escolheste de amar quem não merece
Sou humano demais pra compreender
humano demais pra entender
Tu enxergas o profundo,
Eu insisto em ver a margem.
Quando vês o coração,
Eu vejo a imagem.
Vamos lembrar de Davi, que era homem humilde e justo, e por isto encontrou graça diante de Deus, se tornando um grande Rei popular e abençoado, mas, deixou que o pecado entrasse em sua vida, tomando a mulher de Urias, cometendo com ela adultério, e, ainda promoveu a morte de Urias. Davi não se arrependeu e ainda tentou encobrir o seu pecado, mas a Deus nada fica oculto, e Ele tomou medidas fortes para fazer com que Davi se arrependesse. Esta é uma atitude de quem pode julgar, e somente Ele sabe a maneira e hora certa para punir a quem for preciso. Davi sofreu muito, até entender e dobrar-se diante do Senhor reconhecendo a sua culpa: Pequei contra o Senhor… contra ti, contra ti somente, e fiz o que é mal perante os teus olhos… Meu sacrifício, ó Senhor, é um espírito contrito, um coração arrependido e humilhado, ó Deus, que não haveis de desprezar...” (Salmos 50). Quantos homens ungidos caíram em tentação, mas se arrependeram e alcançaram misericórdia de Deus. Nós também estamos sujeitos a cair, uma, duas e muitas vezes, e todas às vezes deveremos como Davi dobrar os joelhos diante do Senhor e implorar a sua misericórdia.
Deus não quer que nenhum de seus filhos se perca, faz de tudo para salvá-los e nós o que estamos fazendo de nossa parte?
Deixemos de lado a preocupação em julgar o outro ou a nós mesmos, quanto aos nossos pecados precisamos fazer a nossa parte para merecermos a misericórdia do Senhor, e em qualquer que seja a situação devemos manter a nossa fidelidade a Ele, confiar tudo a Ele e pedir que Ele nos de a resposta para nossas dúvidas.
Newton Hermógenes Silva
Comunidade Santa Rita
Santos Dumont/MG