segunda-feira, 27 de setembro de 2010

XXVII DOMINGO COMUM - Lc 17,5-10

Somos meros servos de Deus

A Palavra de Deus que hoje nos é dirigida fala de dois temas: a fé e a atitude correta que o homem deve assumir perante Deus. As leituras são um convite a reconhecermos nossa pequenez e a acolher com gratidão os dons que Deus nos concede.

Na primeira parte do Evangelho, vemos um pedido por parte dos apóstolos ao Senhor: “aumenta a nossa fé!”. Não sabemos precisamente o que tenha feito os apóstolos pedirem ao Senhor para que aumentasse a fé deles; podemos imaginar que seja algo ligado ao perdão ilimitado (texto imediatamente anterior): por ser uma tarefa muito difícil, principalmente quando se tem que perdoar o próximo que nos magoa constantemente; às vezes, a paciência e o amor querem fraquejar. Por isso, é necessária muita fé.

Os apóstolos e nós, hoje, nos damos conta como é fraca a nossa fé em Deus. Mas, como eles, não abandonamos a luta nem diminuímos os nossos trabalhos, mas pedimos ao Senhor uma fé mais firme. E é o que devemos fazer mesmo! Só Deus pode vir em nosso auxílio.

Jesus não responde diretamente ao pedido dos apóstolos. Mas, com a sua resposta, ressalta a importância da fé. Somente se tivermos uma autêntica confiança em Deus, acontecerá aquilo que para a razão humana é impossível. Esta impossibilidade é exemplificada através da imagem do “transportar montanhas” (aqui uma amoreira). Não há limites para o poder de Deus. Mesmo que Deus nos peça coisas aparentemente impossíveis, ele pode nos tornar capazes de realizá-las. E mesmo que esta fé seja microscópica como uma pequena semente de mostarda, se for verdadeira fé, Deus fará com que ela desenvolva. (contraste entre a pequenez da semente de mostarda de 2mm de diâmetro e a altura dessa árvore de até 5 metros de altura).

Na I leitura, vemos o profeta Habacuc que discute com Deus: como fazer pra acreditar em Deus se as coisas estão indo mal? E Deus responde: “o justo viverá por sua fé”. Talvez estejamos na mesma situação de Habacuc? Quanta violência, injustiças, tragédias, e quanta falta de fé. É preciso termos fé, é necessário confiar.

Em tudo aquilo que Jesus faz, ele encoraja os apóstolos a crerem. Ele diz a Pedro: “eu orei por ti para que tua fé não desfaleça” (Lc 22,32). Desta forma, o Senhor cumpre o pedido feito por seus apóstolos de aumentar a fé deles. Também nós devemos contar com a oração de Jesus e pedir esta forma de relação fundamental com Deus: a confiança nele.

Com a parábola do servo, Jesus nos indica um outro aspecto essencial da nossa relação com Deus. Esta parábola não pretende mostrar o comportamento de Deus com relação ao homem, mas quer indicar qual a justa atitude em que nos encontramos perante ele. Jesus não quer passar a ideia de um Deus como um patrão que manda, é servido sem agradecer, e alimenta os seus servos só com o resto! Não! O que importa aqui é: qual a justa visão que os apóstolos devem ter de sua relação com Deus: os servos devem fazer tudo aquilo que o seu patrão ordena. Observando estas ordens, fazem somente o seu dever e não merecem nada por isso. Devem aceitar esta realidade.

Reconhecer a nossa relação de dependência a Deus significa entender que não somos independentes. Ninguém veio à existência sozinho. Também não somos autônomos, não podemos viver a nossa vida a nosso bel prazer sem prestarmos contas a Deus. Temos deveres para com Deus. Mas também devemos estar conscientes de que ele nunca nos pede nada de arbitrário ou absurdo. O dever é aquele de nos comportarmos como administradores fiéis: da nossa vida, das nossas capacidades, dos nossos dons.

Nunca devemos pensar que cumprindo a vontade do Senhor temos direitos e privilégios perante Deus. Devemos ser conscientes que o que fazemos não é outra coisa que o nosso dever. Às vezes, podemos pensar que o fato de rezarmos, de fazermos caridade, de cumprir a vontade de Deus represente um favor a ele e que por isso, ele deve ser grato a nós. Há muita gente que pensa assim. Pois, saibamos que Deus se alegra pelo nosso esforço. Mas, ele não precisa disso. De jeito nenhum. Nós é que precisamos dele sempre. De nossa relação com Deus devemos excluir qualquer pretensão.

Assim, com humildade e modéstia, a nossa condição perante Deus é fazer tudo aquilo que é nosso dever, e por isso, o Evangelho nos chama de simples servos, não de “servos inúteis”. A palavra grega utilizada aqui traduzida por inútil indica a falta de mérito, a humildade, a pequenez, e não a inutilidade: a ideia de não servir para nada. Não somos servos inúteis, pois trabalhamos no arado de Deus, mas nem por isso deixamos de ser somente simples servos que devem cumprir a sua missão com amor.

domingo, 19 de setembro de 2010

XXVI DOMINGO COMUM - Lc 16,19-31

Um grande abismo chamado indiferença

Neste XXVI Domingo do Tempo Comum, o que a liturgia nos propõe é claramente uma continuação do tema do domingo passado sobre o não servir ao dinheiro como um ídolo.

Muitas pessoas apostam que a plenitude da vida e da felicidade se encontra na riqueza; basta olhar a correria de pessoas por empregos ou negócios que ofereçam enormes salários, e sempre insatisfeitas com o que vão conquistando. É a diabólica pedagogia que tem dividido o nosso mundo em milhões de “lázaros”, obrigados a catar lixo, a comer sobejos que caem das mesas dos ricos, ou morrer de fome. Uma pedagogia que, infelizmente, parece ter se transformado em religião no nosso mundo e que é uma das razões dos piores males da humanidade. Que, pelo menos, temos uma notícia boa este ano, segundo a ONU, o número de famintos crônicos diminuiu 9,6%. Em 2009, eram mais de 1,02 bilhão de pessoas que sofriam de fome crônica, a este são 925 milhões. Ainda assim, é uma vergonha não ter se extinguido por completo a fome e a miséria num mundo cada vez mais cheio de cifras bilionárias.

O ser rico não é mais um sonho de alguns que ficavam observando a fabulosa vida que leva quem chegou a ser um “tio patinhas” da vida, mas se tornou uma verdadeira obsessão, que ameaça cancelar os verdadeiros desejos do coração, aqueles que Deus inspira e tem como sonho “amar até doar-se em plenitude”. Infelizmente, parece que é a fábula do momento: uma fábula cultivada de tantas revistas e livros especializados em como “enriquecer juntos”, “o segredo das mentes milionárias” etc, sem por um único momento, pensar que atrás da fachada de luxo e ostentado bem estar, muitas vezes está uma tristeza que é sinal do vazio do coração. Nada pode dar a verdadeira felicidade se não o amor que se faz dom e não posses.

A estes, e a quantos querem ser como eles, escreve o profeta Amós na I leitura, quando faz uma forte denúncia à injustiça daqueles que levam uma vida luxuosa à custa da exploração dos pobres, sendo totalmente indiferentes ao sofrimento e miséria destes. Para eles, Amós anuncia que Deus não vai tolerar este egoísmo, reservando-lhes um final infeliz: serão deportados de seu país “na primeira fila”.

Também Lucas continua a denunciar o mau uso do dinheiro por parte de alguns à custa da miséria de tantos. Na parábola do homem rico e do miserável Lázaro, Jesus descreve a vida terrena de ambos: os dois extremos da sociedade. O rico tem um estilo de vida alto, suas roupas são das grifes mais caras, elegantes e luxuosas. Ele usa a sua riqueza para levar uma vida cheia de prazeres. O sentido da vida pra ele é o prazer das coisas materiais. O que o separa do miserável Lázaro é apenas a porta de sua casa. Ele não acolhe o pobre. Este leva uma vida dura; não só é desprovido de bens, mas se encontra doente e desabrigado. Seu corpo não é coberto de roupas finas, mas de muitas feridas. Ele quer matar sua fome com o sobejo da mesa do rico. Sua companhia são os cães sujos que se aproximam dele para lamber-lhe as feridas. Faminto e doente, vive na sujeira das ruas. Mas, diferentemente do rico, Jesus faz questão de lembrar o seu nome: Lázaro (Deus ajuda).

Na extrema pobreza, ele não perde a confiança, mas é convicto de que Deus o ajuda.
Morre o miserável, único instrumento de salvação do rico. Morre também o rico. A morte os torna iguais. Não há como escapar dela. E a este ponto, o destino deles se inverte completamente. O que é descrito sobre a vida depois da morte dos protagonistas da parábola não quer ser uma descrição precisa da vida eterna; mas quer caracterizar a radical diversidade entre a vida daquele que um tempo foi rico e a do que foi pobre. Lázaro é levado para o seio de Abraão, para o banquete festivo. Quanto ao rico, dois elementos mostram como mudou a sua situação. Ele que vivia no luxo, agora é rodeado de fogo e grandes tormentos. Ele que tinha a sua disposição comidas finas e bebidas importadas, agora implora por uma simples gota d’água. Na vida terrena, Lázaro faminto tinha lhe pedido os restos da sua mesa sem receber nada. Agora, é o rico que pede uma gota d’água na ponta do dedo de Lázaro e não pode recebê-la. Tarde demais! O modo no qual empregou sua riqueza e consumou a sua vida o reduziu a uma condição na qual sofre dor e tormento.
O rico reconhece tanto que o modo que conduziu sua vida estava errado que queria que Lázaro fosse avisar aos seus irmãos para mudarem de vida a fim de evitar aquele trágico destino. Mas, Abraão não permite e responde: “Eles têm Moisés e os profetas, que os escutem” Pra evitar esse destino, é necessário escutar a Palavra de Deus, pois ela mostra a vontade de Deus, a orientação para uma vida justa. Nela, é expressa a nossa responsabilidade social com relação aos mais pobres. Mas somente seremos capazes de praticá-la se tivermos um coração bom e aberto. O coração cego é endurecido pelo egoísmo e não se interessa por Deus nem pelo próximo. Jesus nos convida sempre a tomar consciência dos verdadeiros problemas do mundo e a atuar num empenho cristão, que não se limita a alguma esmola, mas procura ir às causas da desigualdade, das injustiças, com obras de partilha e de solidariedade. Quantas coisas supérfluas nós temos? Quanto tempo da nossa vida desperdiçamos com coisas inúteis? Quantas coisas podemos fazer pelos mais necessitados e não o fazemos? Ele não nos condena se usarmos coisas materiais boas, o que ele denuncia é se isso significa egoísmo e indiferença para com os nossos irmãos mais necessitados.

Nota: Observe bem que este texto evangélico também é um dos mais fortes na argumentação de que uma vez tendo morrido, nenhum de nós “tem permissão” de Deus para voltar a este mundo, nem que seja para dar um bom conselho a um familiar.

terça-feira, 14 de setembro de 2010

XXV DOMINGO COMUM - Lc 16,1-13

“Não podeis servir a Deus e ao Dinheiro

As palavras do profeta Amós (I leitura) e aquelas de Jesus nos convidam a refletir sobre a amarga realidade das coisas que hoje em dia é muito difícil poder fugir e na qual nos encontramos continuamente lutando contra todo tipo de manifestação sua: a realidade da injustiça, da maldade, da corrupção, da desonestidade. Ora, se a própria Bíblia cita em vários livros episódios de opressão, de exploração, é porque esta sempre foi uma constante na história da humanidade e não é de se admirar que ainda hoje experimentemos algo igual.

Estranhamente, no Evangelho de hoje, Jesus se utiliza de uma pessoa corrupta para ensinar algo útil para nossa vida de cristãos. Mas como é possível ser elogiado um homem que se apropria indevidamente de bens alheios e faz amigos à custa do patrão?

“Havia um homem rico que tinha um administrador, e este foi acusado...”: é assim que começa a parábola do Evangelho deste domingo, o relato de um administrador que, durante anos, cometia fraudes contra o seu patrão, até que não conseguiu mais. É uma história que se repete desde há muito tempo até hoje, semelhante a tantas histórias dos nossos dias que continuamente lemos nos cotidianos e escutamos nos telejornais: histórias de fraudes e furtos, arquitetadas com perfeição, por pessoas, talvez muito notáveis, que roubam grandes quantias de dinheiro, prejudicando grandes e pequenos. Não é uma novidade, e digamos logo, nem mesmo é raro: tá cada vez mais comum ouvir e ver casos assim; mas sempre chega o momento da verdade, quando descobertas as fraudes, começa a caça ao ladrão, que obviamente, nunca está sozinho e faz de tudo pra escapar. Desonestidade, engano, fraude: é a lógica do “mundo”, a lógica dos espertalhões que não têm escrúpulos em enriquecer às custas dos principalmente mais pobres; contra essa lógica, só aparentemente vencedora, a liturgia repropõe as palavras duras do profeta Amós, o “pastor, cultivador de sicômoros” chamado por Deus a admoestar todos, pertencentes às altas classes da cidade da Samaria que exploravam os pobres e oprimiam os fracos.

A parábola fala precisamente de um homem rico que soube que seu empregado estava lhe roubando, e, por isso, ele exige uma prestação de contas antes de demitir tal empregado; este, por sua vez, com muita esperteza, raciocina: ‘vou ser demitido, não tenho como me defender. Como vou me sustentar? Não posso encarar um trabalho braçal e tenho vergonha de pedir esmolas. Já sei o que vou fazer. Vou diminuir as dívidas que as pessoas têm com meu patrão; assim, elas ficam me devendo este favor e por isso, vão me ajudar com algo enquanto eu estiver desempregado’.
Muito espertinho o empregado! Na época, a cobrança de juros era proibida pela Lei, assim, para obter o máximo dos outros, os vendedores diminuíam medidas para ganhar mais, aumentavam pesos quando vendiam, adulteravam balanças, compravam os pobres com um par de sandálias (ou hoje com uma prótese dentária ou um exame de vista), nada diferente do que existe por aí em todos os âmbitos da sociedade. Então, aquele empregado resolve reduzir as contas devidas ao seu valor real, perdendo os juros para o patrão e fazendo amigos para si mesmo. Usou o presente para providenciar o futuro.

Jesus com esta parábola constata: “realmente, os filhos 'deste mundo' são mais espertos em seus negócios do que os filhos da luz”. Somo filhos da luz, seguimos a luz do mundo que é Jesus; mas, muitas vezes, como cristãos, nos faltam a prontidão e o zelo daquele administrador da parábola em vez de ficarmos nos lamentando e reclamando.

Por isso, Jesus com base nessa verdade, dá três orientações com relação ao uso do dinheiro. Primeiramente, que devemos usar o dinheiro em favor do nosso próximo. Os bens que Deus confia a nossa administração não devem ser gastos de maneira egoística em vista de uma “boa vida”, mas devem ser usados conforme à vontade de Deus. Ou seja, sendo uma bênção para o outro. Jesus fala de dinheiro, mas aí devemos incluir tudo o que é bem terreno: as nossas capacidades, talentos, educação recebida etc. Tudo deve ser administrado fielmente e não pode ser esbanjado para engrandecer a nós mesmos e para o bem da nossa pessoa. A maneira como nos relacionarmos com o dinheiro contará muito para o nosso bem espiritual.

Em segundo lugar, ele nos ensinou que em tudo o que fizermos devemos ter bem claro na mente a honestidade: quem é fiel, quem é honesto no pouco, será no grande. Quem é desonesto nas pequenas coisas, também o será nas grandes; não podemos nos enganar e pensar que nas grandes coisas nos comportaremos de modo diferente. É como quando conseguimos um emprego de vendedor numa loja. Somente, se o patrão estiver seguro da nossa honestidade nas pequenas coisas, ele nos eleva de cargo. Até mesmo nas mínimas coisas da nossa vida, devemos ser honestos, principalmente com Deus.

Por fim, Jesus nos alerta para o perigo do dinheiro atrapalhar a nossa relação com Deus. Pois, estando envolvidos somente com lucro, corremos o risco de o colocarmos no lugar de Deus, já que não se pode servir ao mesmo tempo a dois senhores.

Às vezes, pensamos que ser cristãos significa ser ingênuos; que o cristão deve rejeitar as espertezas do mundo, deve opor-se aos compromissos do mundo e às astúcias da sociedade, deve evitar a ambiguidade e a vida dupla dos prepotentes: numa palavra deve ser simples. É! Mas devemos entender que não podemos ser ingênuos. Jesus não elogia quem age de maneira desonesta, mas ele nos convida a usarmos da esperteza como aquele empregado desonesto que viu que aqueles bens estavam prestes a acabar e se tocou que com eles poderia buscar valores mais duradouros, como os amigos que fazemos quando praticamos o amor ao próximo.

Não podemos servir absolutamente a dois senhores, devemos escolher: ou Cristo ou o dinheiro; e é uma escolha radical, uma escolha urgente, ontem e hoje mais do que ontem, exatamente porque no nosso tempo, prevalece a cultura do ter e a mentalidade que vale mais quem tem. Portanto, não podemos nos intitularmos cristãos e seguir a lógica do mundo, não podemos nos considerar discípulos de Cristo e viver de um egoísmo ávido e insaciável. O ser discípulo de Cristo, não admite compromissos nem acomodações; e se, como filhos da luz, escolhemos segui-lo, como Ele devemos fazer-nos dom de amor ao próximo, aquele próximo que um dia nos acolherá nas moradas eternas.

domingo, 5 de setembro de 2010

XXIV DOMINGO COMUM - Lc 15,1-32

O Amor de Deus: o mais belo e desejável

O Evangelho de hoje nos apresenta três parábolas. Cada vez que lemos e relemos a mesma parábola, e este ano já é a segunda vez que lemos a do “filho pródigo”, descobrimos novos significados que nos guiam em nosso amadurecimento humano. A novidade das parábolas de Jesus é aquela de enxergar sempre as coisas do ponto de vista de Deus; Jesus nos revela o modo de pensar de Deus que frequentemente é completamente diferente do modo como nós, apesar de ouvirmos tantas vezes as mesmas parábolas, insistimos em não assumir o caráter de Deus em nós.

Por exemplo, diante do pecador, Jesus nunca dá ênfase a este apontando o seu erro, mas ele sempre ressalta a beleza do amor de Deus que busca o pecador para perdoá-lo. E a grande beleza proveniente destas parábolas é que cabe a cada um de nós em primeiro lugar reconhecer-se pecador para sentir esse amor incondicional e em segundo lugar ir atrás das “ovelhas perdidas, da moeda perdida, do filho pródigo” para que também experimentem desse amor que nos preenche completamente. Essa tarefa é exatamente o contrário do gesto de apontar o defeito do outro, de julgar e de condenar.

Já expliquei o evangelho do filho pródigo este ano durante a quaresma e ressaltei que nas duas primeiras parábolas de Lc 15, a iniciativa é sempre de Deus, já que nem a ovelha nem a moeda têm como voltar pra seus donos por si só. Já a parábola dos dois filhos, é o filho pródigo quem começa o caminho de volta, mas antes que chegue, é o pai que quando o avista, corre ao seu encontro, o abraça e o cobre de beijos. Esta iniciativa do filho de retornar é para mostrar que somente é possível receber este amor de Deus se deixarmos de ser cabeças-duras e nos abrirmos a este amor. Já a reação do filho maior revela ainda a atitude dos fariseus: inveja, raiva, presunção, superioridade em relação aos outros. Ele chega a dizer ao pai: “este teu filho”, como se não fosse irmão dele.

Com as parábolas de hoje, Deus nos chama a pararmos de nos esconder, de reconhecermos abertamente o impostor que vive em nós (filho mais velho) e nos aproximarmos dele como o filho mais novo.

Por isso, a partir daqui cito algumas frases de livros do padre Brennan Manning, que dá o seu testemunho acerca de seus problemas com o alcoolismo e sua dificuldade em aceitar ser aceito por Deus:

“Uma das contradições mais chocantes da Igreja é a profunda aversão que muitos discípulos de Jesus nutrem por si mesmos. Estão mais insatisfeitos com as próprias falhas do que jamais imaginariam estar em relação às de qualquer outra pessoa.

Nos meus oito anos de idade, nasceu em mim, como forma de defesa contra o sofrimento, o impostor, ou o falso eu. O impostor que vive em mim sussurrava: "Brennan, jamais seja quem você de fato é, porque ninguém gosta de você como é. Invente um novo eu a que todos admirem e ninguém conheça". Tornei-me assim um bom menino: cortês, educado, discreto e respeitoso. Estudei com afinco, tirei as melhores notas, granjeei uma bolsa de estudos para o ensino médio, e a cada momento fui perseguido pelo pavor do abandono e da sensação de não ter ninguém ao meu lado.

Minha mente e meu coração, divorciados um do outro, arrastaram-se profundamente por todo o meu ministério. Durante dezoito anos proclamei as boas notícias do amor apaixonado e incondicional de Deus — completamente convicto na mente, mas sem senti-las no coração. Nunca me senti amado. Por fim, porém, após um intenso retiro em que busquei sondar o meu interior, vim a perceber que era verdadeiramente amado. No instante em que compreendi essa verdade monumental, comecei a prantear e a soluçar. Depois de esvaziar o cálice da minha dor, algo notável aconteceu: ouvi ao longe som de música e dança. Eu era ali o filho pródigo voltando para casa, manco; não um espectador, mas um participante. O impostor desvaneceu, e entrei em contato com o meu verdadeiro eu, como o filho de Deus que havia retornado. "Venha para mim agora", diz Jesus. "Pare de projetar sobre mim o que sente a seu respeito. Neste momento sua vida é um caniço rachado que eu não quebrarei, um pavio fumegante que não apagarei. Você está num lugar seguro". Você é amado.

De fato, se eu preciso buscar uma identidade que não esteja em mim mesmo, o acúmulo de riqueza, poder e fama me fascina. Ou, então, posso encontrar meu centro de gravidade nos relacionamentos sociais. Ironicamente, a própria Igreja pode afagar o impostor conferindo ou retendo honrarias, oferecendo o orgulho de uma posição baseada no desempenho e criando a ilusão de status pelo escalão e pela ordem de importância. Quando pertencer a um grupo de elite eclipsa o amor de Deus, quando tiro vida e significado de qualquer outra fonte diferente da minha condição de amado, estou morto espiritualmente. Quando Deus é relegado a segundo plano, atrás de quaisquer bugigangas ou ninharias, troquei a pérola de grande preço por fragmentos de vidro pintado.

"Quem sou eu?" "Sou aquele que é amado por Cristo". Isso é a base do eu verdadeiro. A condição indispensável para desenvolver e manter a consciência de que somos os amados é reservar tempo a sós com Deus. Nossa identidade repousa na ternura implacável de Deus por nós, revelada em Jesus Cristo. Nosso frenesi controlado cria a ilusão de uma existência bem ordenada. Movemo-nos de crise em crise, reagindo ao urgente e negligenciando o essencial. Andamos continuamente em círculos. Ainda fazemos todos os gestos e praticamos todas as ações identificadas como humanas, mas nos assemelhamos a pessoas levadas por esteiras rolantes de aeroportos

…Levou apenas algumas horas de silêncio antes de começar a ouvir minha alma falar. Demorou pouco até descobrir que não estava sozinho. Deus estava tentando gritar mais alto do que a barulheira da minha vida, contudo, eu não podia ouvi-lo. Mas, na calmaria e na solitude, seus sussurros gritaram de dentro da minha alma: "Estou aqui. Tenho-o chamado, mas você não me escutou. Consegue me ouvir? Eu amo você. Sempre o amei. Esperava que você me ouvisse dizê-lo. Mas você tem estado tão ocupado tentando provar para si mesmo que é amado, que nem me ouviu". Eu o ouvi, e minha alma sonolenta encheu-se com a alegria do filho pródigo. Minha alma foi despertada por um Pai amoroso que tem procurado e esperado por mim. Finalmente aceitei minha transgressão... Nunca tinha me acertado com isso. Deixe-me explicar. Eu sabia que estava quebrado. Sabia que era pecador. Sabia que decepcionava Deus continuamente, mas nunca consegui aceitar esse meu lado. Era uma parte que me envergonhava. Sentia continuamente a necessidade de me desculpar, de fugir da minha fraqueza, de negar quem eu era para me concentrar em quem deveria ser.

Estava quebrado, sim, mas tentando continuamente nunca mais me quebrar de novo ou, pelo menos, chegar a um lugar em que raramente estivesse quebrado. Cheguei a perceber que Jesus me fortalecia em minha transgressão, impotência e fraqueza. Era na aceitação da falta de fé que Deus poderia me dar fé. Era ao acolher minha transgressão que poderia me identificar com a transgressão dos outros. Meu papel era identificar-me com a dor de outros, não aliviá-la. Ministrar era compartilhar, não dominar; entender, não teologizar; cuidar, não consertar. O que isso tudo significa? Não sei... e sendo bem grosseiro, esta não é a questão? Sei apenas que em momentos específicos de nossa vida, ajustamos seu curso. Esse foi um desses momentos, para mim. Se você olhasse o mapa da minha vida, não perceberia nenhuma diferença notável, a não ser por uma ligeira mudança de direção. Só posso dizer que tudo parece diferente agora. Há uma expectativa, uma energia por causa da presença de Deus em minha vida que nunca experimentei antes. Só posso dizer-lhe que, pela primeira vez em minha vida, posso ouvir Jesus sussurrar todos os dias: "Eu te amo. Você é o amado". E por alguma estranha razão, isso parece ser suficiente. E você? Acredita realmente que Deus te ama incondicionalmente? (Citações das obras: “O Evangelho Maltrapilho”, “O impostor que vive em mim”, “O amor obstinado de Deus”).

Brennan Manning é ex-padre, escritor, e conferencista americano. Depois de ordenado padre franciscano, fez uma experiência contemplativa com os Pequenos Irmãos de Jesus que vivem a espiritualidade de Charles de Foucauld na Espanha. Voltando aos Estados Unidos, em 1970, depois de enfrentar uma crise pessoal, o alcoolismo, problema que enfrenta até os dias de hoje, escreve e ministra palestras, sempre com o objetivo de comunicar o amor incondicional de Deus em Jesus: “Aprendi de um sábio franciscano que, para quem conhece o amor de Cristo, nada mais no mundo é tão belo e desejável”.