segunda-feira, 30 de agosto de 2010

XXIII DOMINGO COMUM - Lc 14,25-33

ENSINAI-NOS A CONTAR OS NOSSOS DIAS E DAI AO NOSSO CORAÇÃO SABEDORIA

Que bela a reflexão da primeira leitura de hoje. O autor do livro da Sabedoria, olhando para dentro de si, coisa raríssima hoje em dia, constata que “os pensamentos dos mortais são tímidos e nossas reflexões incertas... qual é o homem que pode conhecer os desígnios de Deus?” O homem que fez e continua fazendo progressos incríveis na ciência, pena para crescer em sabedoria. Vivemos num mundo tecnológico com produtos cada vez mais sofisticados e que deseja passear pelo espaço sideral, que conhece grande parte dos segredos do universo, que consegue melhorar continuamente o bem estar das pessoas (pelo menos o dos que têm mais condições), mas que não consegue dar uma resposta válida a um jovem que se refugia na droga, no álcool, que se entrega ao ódio, à indiferença e à solidão. Que contradição!

É nosso dever dar respostas às perguntas verdadeiras e profundas que moram no coração do homem, sem nos deixar inebriar pelo limitado sucesso da ciência. E para isso, temos realmente necessidade do dom da sabedoria. São muito duras as palavras de Jesus no Evangelho deste domingo: “se alguém vem a mim, mas não se desapega de seu pai e sua mãe, sua mulher e seus filhos, seus irmãos e suas irmãs e até de sua própria vida, não pode ser meu discípulo”. São tão pesadas que a tradução usada na liturgia até suaviza o original hebraico: “quem não odeia seu pai, sua mãe...” Mas, não fiquemos perplexos com a linguagem. Antes de explicar, fique claro que tais palavras de Jesus não são dirigidas somente àqueles que o seguem “mais de perto”, como os padres, os religiosos, os consagrados. Tal interpretação não convence: seja porque obviamente os consagrados não são melhores que os outros; seja, sobretudo porque Jesus pronunciou estas palavras para “grande multidões” que o acompanhavam e não para um grupo restrito de pessoas.

Jesus, pedindo para “odiar” os próprios familiares na verdade está querendo dizer que ele deve estar em primeiro lugar na nossa vida. Ele é o centro da nossa vida, é o tudo em nosso coração. Mais do que qualquer afeto, mais do que uma família, mais do que qualquer outra coisa ou satisfação que o mundo nos possa dar. Jesus com convicção nos diz que só ele pode preencher o coração de quem o segue, e por isso, é extremamente duro e exigente. Mas, porque ele nos pede para que nós o sigamos sem condições? Como pretende preencher o incompleto coração do ser humano?

Na verdade, as palavras de Jesus tocam certas durezas da vida de todos, onde os afetos mais belos, dos pais, dos filhos, do cônjuge, dos irmãos e dos amigos, são marcados muitas vezes pelo cansaço e pela incompreensão. Até mesmo quando se está apaixonado, ou quando nos alegramos pelo carinho de uma pessoa querida, experimentamos de algum modo a precariedade daquela relação, já que ela sempre é condicionada e limitada. É esta precariedade que Jesus quer evidenciar nas suas duras palavras.
Naturalmente, Jesus não pretende desvalorizar os afetos humanos. Ele orienta, porém, para que vivamos como sinais e não como absolutos. O amor dos pais, do cônjuge, dos amigos e dos irmãos testemunham que a vida tem um sentido; mas, o sentido da nossa vida não é esgotado nestes afetos. Este deve ser buscado a cada dia, e nunca pode ser conseguido em plenitude. Se pensarmos tê-lo conquistado totalmente nas pessoas caras, estamos indo de encontro a uma grande desilusão; se pelo contrário, reconhecemos que o sentido da vida é algo maior, então mesmo as decepções que virão das pessoas que amamos serão menos intensas.

Este é o cálculo que todos devemos fazer, como os protagonistas das duas breves parábolas contadas por Jesus. Ambos são questionados sobre os planos feitos a respeito de uma construção ou de uma guerra para se ter bom êxito; se quisermos que a empreitada da nossa vida tenha sucesso, ao contrário de ficar tristemente incompleta, temos necessidade de deixar Deus ser o centro da nossa vida incondicionalmente, e para isso temos que renunciar a tudo que temos: a segurança que colocamos nas pessoas caras, em nós mesmos e nas coisas materiais. Em outras palavras, temos necessidade de repetir dia após dia o salmo 89: “ensinai-nos a contar os nossos dias e dai ao nosso coração sabedoria” (que, por sinal, é o lema da Pastoral da Pessoa Idosa).