segunda-feira, 2 de agosto de 2010

XIX DOMINGO COMUM - Lc 12,32-48

Uma das coisas mais difíceis que temos que aprender durante a nossa caminhada cristã é ter fé em Deus e acreditar que ele realmente caminha conosco lado a lado nos auxiliando; hoje, isso tem se tornado mais difícil porque o mundo atual, principalmente a ciência ateia, quer impor a ideia de que se deve acreditar só naquilo que é evidente, que se pode pegar, difundindo cada vez com mais força a não necessidade de Deus.

Mas, apesar de atuar com força essa ciência ateia, temos ainda belos testemunhos de fé entre os cientistas em geral, como o biólogo americano Francis Collins, diretor do projeto genoma e autor do livro “A Linguagem de Deus”: “é nosso dever levar em consideração todo o poder das perspectivas científica e espiritual para entendermos tanto aquilo que enxergamos quanto aquilo que não enxergamos...a integração entre estas duas perspectivas”. Collins já foi várias vezes criticado e continua sendo por seus colegas de pesquisa.

Mas como dizia um certo líder espiritual indiano, “o cientista” no fundo não acredita em Deus porque não acredita que exista alguma coisa no interior do ser humano. Porque toda a sua formação impõe que ele acredite somente nos objetos que pode ver, que pode examinar minuciosamente, observar, compor, criar, desfazer a criação, descobrir seus componentes básicos.

Toda a sua mente é orientada para o objeto e a subjetividade não é um objeto. Assim, se ele quiser colocar a subjetividade diante dele, sobre uma mesa, isso não será possível. Isso não é da natureza da subjetividade. E dessa forma, o cientista continua descobrindo tudo no mundo, exceto a si próprio.

Quando se corta uma pedra em pedaços. O que encontramos? Mais pedras. Podemos continuar cortando em pedaços menores, chegaremos às moléculas, aos átomos, aos elétrons, mas ainda assim, nunca chegaremos a alguma coisa mais interna. Eles todos são objetos. O cientista também gostaria que a vida fosse descoberta dessa maneira, e porque ele não consegue descobrir a vida dessa maneira, ele começa a negá-la, a rejeitá-la.

Acreditar é justamente tomar como verdadeiro aquilo que não se vê. Também para o ateu a fé tem que ser uma atitude essencial. Estamos o todo tempo acreditando e confiando em coisas que não vemos: acredito no amor das pessoas por mim, acredito que a pessoa que preparou o alimento pra mim não colocou nenhum veneno, acredito no motorista que dirige o ônibus que eu vou tomar, acredito nos médicos que vão me operar. Acreditar e confiar são atitudes indispensáveis a nossa vida.

O nosso dia a dia contradiz a expressão tantas vezes usada por nós: eu só acredito vendo!
Não podemos viver neste mundo sem confiar uns nos outros. A fé em Deus é semelhante: cada um de nós é empurrado pelo testemunho dos outros a encontrar a face de Deus. E travamos esta busca trabalhosa da fé, que poderá durar toda a nossa vida.

Um grande exemplo para nós foi Abraão. Como são belos estes versículos da II leitura sobre Abraão: ele viveu pela fé, partiu da sua terra seguindo uma intuição, um chamado interior, sem saber para onde ia; foi pela fé, que sua mulher Sara engravidou, sendo estéril e já de idade avançada; foi pela fé, que sendo provado, não vacilou quando estava para oferecer seu filho Isaque, tanto que ele é considerado pelas três grandes religiões monoteístas como o pai da fé.

Na nossa vida, acontecem muitas experiências, relações, catástrofes, doenças, misérias, provações; acontecimentos que tentam nos dominar e imaginar um Deus longe e fraco. Corremos o risco de nos cansarmos, a ponto de nossa ligação com Deus ficar cada vez mais fraca e ter cada vez menos valor na nossa vida até o ponto de irmos em outras direções fazendo uso da astrologia, das simpatias, de outras crenças que não são compatíveis com a nossa fé cristã.

No Evangelho de hoje, Jesus quer nos alertar contra este perigo; e, ao mesmo tempo, mostra o que o Senhor dá para aqueles que permanecem vigilantes e fiéis. Antes de tudo, ele encoraja os seus discípulos a não temerem, mesmo sendo um grupo pequeno, pois eles têm Deus como Pai, o qual lhes deu uma herança magnífica: o seu Reino, a plena e eterna comunhão com Deus. Este tesouro deve ser conhecido por eles na fé e deve preencher o coração deles, os quais, devem usar os bens terrenos como instrumentos necessários para a vida, mas o seu coração não devem apegar-se a eles.
O ponto chave para a interpretação das parábolas é a ausência do patrão. Quer mostrar como deve se comportar o servo durante esta sua ausência. A primeira coisa é estar vigilante e preparado. Segundo o costume daquele tempo, tirar o cíngulo e levar a túnica solta, indicava que o servo já havia acabado o trabalho. Colocar o cíngulo (cingir-se) é sinal de quem está pronto para trabalhar ou para viajar. A lâmpada indica que aquela atividade possa acontecer mesmo durante a noite. Portanto, requer-se prontidão em todos os momentos. A comparação com a vinda de um ladrão mostra isso: o improvisa e inesperada que pode ser a vinda do Senhor.

A ausência do patrão traz como consequência quase necessária que o vínculo com ele enfraqueça. Nós seres humanos temos necessidade da presença do outro, do encontro contínuo com ele, se quisermos que uma relação permaneça forte e viva. O constante pedido na parábola à vigilância e prontidão indica a orientação intensa e viva para com o Senhor. Mesmo que ele esteja longe dos nossos olhos, nosso coração deve estar pleno dele.

A reação do patrão para com os seus servos é descrita de um modo totalmente novo. Ele assume a tarefa de servo e os trata como seus patrões. Ele os faz sentar a mesa e os serve. Ele, porém, continua sendo o patrão; por isso mesmo, o seu serviço é tão significativo. E os servos continuam como tal, por isso, a honra que recebem é tão grande. Esta relação patrão-servo não é desumana nem impessoal, pelo contrário, mostra que o patrão deseja que seus servos estejam unidos a ele de modo pessoal e cordial, e sabe valorizar tal comportamento de modo muito pessoal. Os servos devem ter no coração o patrão ausente e devem deixar-se guiar pela sua vontade, mas podem também estar seguros que o patrão tem um coração para eles.

Todos os servos devem estar acordados quando o patrão vier. Todavia, há servos que têm uma responsabilidade particular. A eles, o patrão confiou uma função de guia para com os outros servos. Isto pode mostrar um perigo, pois eles são só administradores, não são chefes por direito próprio. Estes devem tomar conta deles mesmos e servir aos outros servos. Se aproveitarem da sua posição e tratarem com opressão os seus companheiros, serão punidos duramente. Se, ao invés, se demonstram confiantes, o patrão manifestará a eles o seu reconhecimento e a sua confiança.

Enfim, na nossa vida cristã é indispensável a nossa comunhão constante com Deus e fidelidade à missão que ele nos confiou. Isto deve ser vivido, mesmo com as dificuldades que surgem pelo fato de que a presença do patrão seja pouco visível. A fé é um modo de já possuir o que ainda se espera, é a convicção acerca de realidades que não se veem.

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