domingo, 8 de agosto de 2010

Assunção de Maria: a ressuscitada, imagem da Igreja peregrina - Lc 1,39-56

A festa que celebramos hoje, isto é, a do dogma da Assunção de Maria, que este ano completa 60 anos de sua definição, é uma verdade que de fato as Escrituras não nos falam absolutamente nada específico sobre tal. Entretanto, desde os primeiros séculos, os primeiros cristãos eram tão convencidos da extraordinária santidade de Maria, e assim como toda a vida dela foi excepcional, o seu fim também devia ser excepcional.

Essa devoção já existia desde os primeiros séculos e quase não era discutida nem no Oriente nem no Ocidente. Essa questão do fim da vida terrena de Maria só começou a ganhar importância nos concílios de Éfeso (431) e de Calcedônia (451), pois na medida em que se ia afirmando a sua Maternidade divina, chamava-se a atenção sobre o corpo de Maria. Desta forma, foi se dando cada vez mais ênfase a ideia de glorificação desse corpo.

Assim, desde o século V, já havia uma forte convicção de que o corpo de Maria não se descompôs no túmulo e foi “levado” logo depois da morte. No século VI, por exemplo, a festa da “memória” de Maria, festa em que se comemora o dia da morte de um santo, se torna a festa da “Dormição” de Maria, um termo que, sem negar a realidade da morte de Maria, sugere uma morte cujo caráter é especial. Assim, o corpo que trouxe e gerou virginalmente o Verbo incorruptível de Deus não pôde conhecer a corrupção da morte carnal.

Muito tempo depois, em 1950, o Papa Pio XII num contexto histórico que é caracterizado por um desenvolvimento crescente da piedade mariana, define o dogma. Com a definição, surgem problemas é claro; as igrejas protestantes, por exemplo, apesar de terem seus fundadores (Lutero e outros) devotos convictos de Nossa Senhora, não aceitam o dogma, o que é de se estranhar de não acreditarem nessa tradição oral da Igreja quando ao mesmo tempo acreditam firmemente na mesma tradição oral da Igreja que definiu o cânon (lista) dos livros do NT, numa época em que haviam tantos escritos, tantos evangelhos que poderiam ter entrado nessa lista.

Outro problema com relação a aceitação por parte dos protestantes, é que estes achavam que tal compreensão do dogma dava a entender que Deus dava um dom exclusivo a Maria, que parecia tirá-la da condição comum de todos os humanos. Com certeza, Maria é um ser humano normal como os outros, mas que ela foi plenamente agraciada por Deus quando engravidou por obra do Espírito Santo de Jesus Cristo, o próprio Evangelho nos confirma e sem sombra de dúvidas, ela passa sim a ter um enorme privilégio dado por Deus e com relação ao resto da humanidade, mesmo que continue mais humilde do que nunca.

Já do lado católico, também existem problemas como, por exemplo, o risco da assunção ser confundida com a ascensão, coisa que pertence só ao Cristo ressuscitado. Sobretudo, a crença de que Maria não teria conhecido de modo algum a morte, coisa que de forma alguma é afirmada no dogma. Mal compreendida, esta doutrina da assunção de Maria favoreceria uma visão na qual Maria não teria partilhado plenamente da condição da nossa humanidade. Na realidade, Maria não foi isenta da morte, porém, a tradição da Igreja desde muito cedo viu na sua morte a introdução imediata na glória celeste. Mas ao mesmo tempo, o dogma implica que a mãe de Jesus não conheceu a corrupção do túmulo: preservada do pecado, Maria foi igualmente preservada da corrupção que acompanha a morte.

Para entendermos um pouco o dogma, convém recorrer à Ressurreição de Jesus. No sentido bíblico, a ressurreição não deve ser entendida como a reanimação de um cadáver, nem como a simples imortalidade desprovida de todo caráter corporal, nem como uma forma de reencarnação que estaria ainda submetida ao espaço e ao tempo. A ressurreição é a “ressurreição” da carne, ou seja, carne aqui designando a pessoa em sua unidade e sua integridade: espírito, alma e corpo. Assim, a ressurreição que esperamos não se refere somente a nossa alma, mas a toda a pessoa que foi marcada por sua vida corporal, por sua história, a pessoa completa.

Ora, a Assunção significa que essa esperança já se cumpriu no caso de Maria e que Deus a beneficiou com a ressurreição da carne, elevando-a “com seu corpo e sua alma a sua glória no céu”. O dogma da Assunção de Maria fala de nosso próprio futuro, designa o objeto de esperança que habita em nós no tempo da história, por isso que no livro do Ap 12, ela aparece coroada, símbolo de que já chegou lá, onde toda a Igreja quer um dia chegar. A assunção atesta que Deus já antecipou para a mãe de seu Filho a salvação esperada pelos cristãos.

A definição do dogma afirma: “proclamamos e definimos ser um dogma revelado por Deus que, quando a etapa de sua vida terrena terminou, a Imaculada Mãe de Deus, a sempre Virgem Maria, foi elevada de corpo e alma à glória do céu”. Portanto, essa definição como vemos nada diz sobre a morte de Maria, nem como ela morreu, mas com cuidado fala sobre “quando a etapa da sua vida terrena terminou”. Pio XII fala da sua assunção: era apropriado que o santíssimo corpo de Maria...fosse confiado à terra por pouco tempo e fosse elevado na glória para o céu”.

Assim, essa definição sugere a ligação da Assunção com os mistérios da Imaculada Conceição, da Maternidade divina e da virgindade perpétua; a diferença entre a forma “foi elevada” e a expressão “subiu ao céu” própria de Cristo, mostra que a Assunção de Maria nunca pode ser confundida com a Ascensão de Cristo. E por fim, devemos entender que a expressão “elevada” em corpo e alma à glória celeste não indica uma mudança de lugar, mas sim uma transformação do corpo de Maria e a passagem do seu ser todo inteiro a condição gloriosa pela qual está unida ao corpo glorioso de seu Filho.

Falando um pouco do Evangelho do dia, na anunciação, o anjo informa a Maria a respeito da gravidez de Isabel, como uma garantia de que nada é impossível para Deus. Declarando-se serva do Senhor, Maria concebe Jesus, e como sinal do seu serviço, se dirige apressada para a casa de Zacarias, para encontrar sua parenta Isabel.

O Evangelho mostra o encontro das duas mães agradecidas pelo dom da fecundidade e da vida. O relato mostra também o encontro entre duas crianças, o precursor e o salvador. Jesus foi concebido por obra do Espírito Santo; João Batista exulta no ventre de Isabel que, cheia do Espírito Santo, proclama Maria bem-aventurada. O relato mostra, sobretudo, que a Santíssima Trindade se revela nos pobres e faz deles a sua morada permanente. O Pai tinha revelado a Maria o dom feito a Isabel, a excluída por causa de sua condição estéril; o Espírito revela a Isabel que Maria, a serva do Pai, tornara-se a “mãe do Senhor”. Assim, a Trindade entra na casa dos pobres humilhados que esperam a libertação.

A nossa oração mariana mais comum, a Ave Maria, na primeira parte é constituída exatamente pelas primeiras palavras do anjo a Maria. “Ave Maria, cheia de graça, o Senhor é contigo”. A estas se seguem as primeiras palavras de Isabel: “Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre”. O anjo chama Maria “cheia de graça”, Isabel a chama “bendita”. Ambas as expressões indicam antes de tudo qual é a relação de Deus com Maria. É desta relação que depende tudo aquilo que podemos afirmar sobre Maria.

João pula no ventre de Isabel e esta proclama Maria “bendita”, isto é, bem-aventurada. As bênçãos do Antigo Testamento são renovadas definitivamente em Maria.

Pedir a bênção é pedir a vida. Só Deus em definitiva pode dar a bênção. E em toda benção humana se pede a bênção de Deus, costume que também nós herdamos dos judeus. Na Bíblia, as pessoas abençoam (dão a benção) quando descobrem a presença de Deus que salva. Maria é motivo de bênção de maneira especial porque se tornou o lugar privilegiado no qual se experimenta Deus. Ela trouxe ao mundo o Senhor da vida por meio do qual foi vencida a morte e chegou até nós à vida eterna. Proclamando-a bendita, Isabel reconhece que Maria é cheia da bênção de Deus. O seu grande grito é um louvor (típico semítico) à ação de Deus, mas também é um grito de alegria por Maria.
Em relação à Maria, Isabel experimenta a sua própria condição indigna: “quem sou eu, para merecer que a mãe do meu Senhor me venha visitar?”. Maria concebeu o Filho do Altíssimo, por isso, é a “mãe do Senhor”, a mãe de Deus. Na segunda parte da ave Maria, nós recitamos “Santa Maria, mãe de Deus, rogai por nós, pecadores”. Também nós, como Isabel, reconhecemos ser pecadores e indignos diante da mãe do Salvador. Como ela, reconhecemos a diferença, e temos por Maria o apreço e a veneração que a ela compete.

Enfim, Isabel reconhece a bem-aventurança de Maria por causa de sua atitude: “bem-aventurada aquela que acreditou, porque será cumprido o que o Senhor lhe prometeu”. Maria acolheu com fé a Palavra do Senhor. Levou a sério tudo o que Deus lhe anunciou. Assim, a fé se torna a forma fundamental da sua relação com Deus. Isabel é apresentada como aquela que por primeiro venerou Maria. Com as suas palavras, ela nos delineia os traços essenciais da figura de Maria.
Maria, diante de tudo isso, no canto do Magnificat, fala com júbilo de Deus, daquilo que ele operou nela. Maria fica impressionada pela grandiosidade do Senhor e da sua obra poderosa. E ao mesmo tempo reconhece a sua pequenez. Ela sabe que é pequena e insignificante diante dele. Reconhece tudo isso com sinceridade e não se ensoberbece. No cântico, Maria reconhece que todas as gerações a chamarão bem-aventurada. Não por orgulho, mas porque o motivo de sua bem-aventurança é a obra de Deus nela. Assim, não há nenhum motivo pelo qual nós não possamos venerá-la. O todo-poderoso fez grandes coisas nela desde a sua concepção imaculada até a sua assunção. E, como Isabel, nos enchemos de alegria. Com Maria, aprendemos a reconhecer que Deus é grande, poderoso e misericordioso, se dirige aos humildes e permanece absolutamente fiel a sua Palavra.

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