segunda-feira, 30 de agosto de 2010

XXIII DOMINGO COMUM - Lc 14,25-33

ENSINAI-NOS A CONTAR OS NOSSOS DIAS E DAI AO NOSSO CORAÇÃO SABEDORIA

Que bela a reflexão da primeira leitura de hoje. O autor do livro da Sabedoria, olhando para dentro de si, coisa raríssima hoje em dia, constata que “os pensamentos dos mortais são tímidos e nossas reflexões incertas... qual é o homem que pode conhecer os desígnios de Deus?” O homem que fez e continua fazendo progressos incríveis na ciência, pena para crescer em sabedoria. Vivemos num mundo tecnológico com produtos cada vez mais sofisticados e que deseja passear pelo espaço sideral, que conhece grande parte dos segredos do universo, que consegue melhorar continuamente o bem estar das pessoas (pelo menos o dos que têm mais condições), mas que não consegue dar uma resposta válida a um jovem que se refugia na droga, no álcool, que se entrega ao ódio, à indiferença e à solidão. Que contradição!

É nosso dever dar respostas às perguntas verdadeiras e profundas que moram no coração do homem, sem nos deixar inebriar pelo limitado sucesso da ciência. E para isso, temos realmente necessidade do dom da sabedoria. São muito duras as palavras de Jesus no Evangelho deste domingo: “se alguém vem a mim, mas não se desapega de seu pai e sua mãe, sua mulher e seus filhos, seus irmãos e suas irmãs e até de sua própria vida, não pode ser meu discípulo”. São tão pesadas que a tradução usada na liturgia até suaviza o original hebraico: “quem não odeia seu pai, sua mãe...” Mas, não fiquemos perplexos com a linguagem. Antes de explicar, fique claro que tais palavras de Jesus não são dirigidas somente àqueles que o seguem “mais de perto”, como os padres, os religiosos, os consagrados. Tal interpretação não convence: seja porque obviamente os consagrados não são melhores que os outros; seja, sobretudo porque Jesus pronunciou estas palavras para “grande multidões” que o acompanhavam e não para um grupo restrito de pessoas.

Jesus, pedindo para “odiar” os próprios familiares na verdade está querendo dizer que ele deve estar em primeiro lugar na nossa vida. Ele é o centro da nossa vida, é o tudo em nosso coração. Mais do que qualquer afeto, mais do que uma família, mais do que qualquer outra coisa ou satisfação que o mundo nos possa dar. Jesus com convicção nos diz que só ele pode preencher o coração de quem o segue, e por isso, é extremamente duro e exigente. Mas, porque ele nos pede para que nós o sigamos sem condições? Como pretende preencher o incompleto coração do ser humano?

Na verdade, as palavras de Jesus tocam certas durezas da vida de todos, onde os afetos mais belos, dos pais, dos filhos, do cônjuge, dos irmãos e dos amigos, são marcados muitas vezes pelo cansaço e pela incompreensão. Até mesmo quando se está apaixonado, ou quando nos alegramos pelo carinho de uma pessoa querida, experimentamos de algum modo a precariedade daquela relação, já que ela sempre é condicionada e limitada. É esta precariedade que Jesus quer evidenciar nas suas duras palavras.
Naturalmente, Jesus não pretende desvalorizar os afetos humanos. Ele orienta, porém, para que vivamos como sinais e não como absolutos. O amor dos pais, do cônjuge, dos amigos e dos irmãos testemunham que a vida tem um sentido; mas, o sentido da nossa vida não é esgotado nestes afetos. Este deve ser buscado a cada dia, e nunca pode ser conseguido em plenitude. Se pensarmos tê-lo conquistado totalmente nas pessoas caras, estamos indo de encontro a uma grande desilusão; se pelo contrário, reconhecemos que o sentido da vida é algo maior, então mesmo as decepções que virão das pessoas que amamos serão menos intensas.

Este é o cálculo que todos devemos fazer, como os protagonistas das duas breves parábolas contadas por Jesus. Ambos são questionados sobre os planos feitos a respeito de uma construção ou de uma guerra para se ter bom êxito; se quisermos que a empreitada da nossa vida tenha sucesso, ao contrário de ficar tristemente incompleta, temos necessidade de deixar Deus ser o centro da nossa vida incondicionalmente, e para isso temos que renunciar a tudo que temos: a segurança que colocamos nas pessoas caras, em nós mesmos e nas coisas materiais. Em outras palavras, temos necessidade de repetir dia após dia o salmo 89: “ensinai-nos a contar os nossos dias e dai ao nosso coração sabedoria” (que, por sinal, é o lema da Pastoral da Pessoa Idosa).

domingo, 22 de agosto de 2010

XXII DOMINGO COMUM - Lc 14,1.7-14

 

APRENDEI DE MIM QUE SOU MANSO E HUMILDE DE CORAÇÃO

A liturgia deste domingo propõe-nos uma reflexão sobre alguns valores que acompanham o desafio do “Reino”: a humildade e o amor desinteressado. A palavra de Deus nos ensina com muita sabedoria nas palavras de um sábio do início do séc. II a.C. que é a humildade o caminho para ser agradável a Deus e aos homens, para se ter êxito e ser feliz. Esta humildade deve vir acompanhada de mansidão e também da sabedoria da escuta.

Tais virtudes podem ser reduzidas a um denominador comum: a relação com o próprio eu. Humilde é aquele que não perde a consciência do próprio limite, manso é aquele que não se impõe de modo agressivo e sábio é aquele que não presume saber já tudo, mas é consciente das riquezas que estão fora de si, e por isso, escuta. Escutar é esquecer-se de si, é abrir-se ao outro, porque o seu horizonte não é inteiramente ocupado pelo próprio eu. Assim, o caminho para a felicidade é a abertura. É ela quem nos põe em harmonia com Deus, que responderá com uma nova efusão de sua graça; com os outros, que por sua vez, também mostrarão abertura e benevolência; e, conosco mesmos, dando-nos uma paz nunca experimentada pela pessoa egoísta.

Quem, determinado a fazer ressaltar as próprias riquezas e os títulos, se gaba e quer pôr-se em destaque, suscita antipatia e hostilidade. Para vencer as resistências e continuar sobre a própria estrada, usa da agressividade, tornando-se arrogante e competitivo. Não tem necessidade de escutar nem Deus nem ninguém, e só tem olhos para si mesmo, incapaz de ver os sofrimentos dos outros.
A lição do Eclesiástico é importante. O ego pode chegar a tal ponto de tomar conta de tudo, sufocando qualquer outra instância e enfim, também a si mesmo, não permitindo a Deus respirar em nós o seu Espírito. Humildade, mansidão, escuta e misericórdia nos salvam deste sufocamento, tornando-nos felizes.

O Evangelho de hoje segue a mesma ideia; aí, encontramos Jesus comendo na casa de um dos chefes dos fariseus, que percebendo que os convidados procuram os primeiros lugares, conta uma parábola. Esta percepção de Jesus é mais do que nunca válida nos dias de hoje: a busca dos primeiros lugares a qualquer preço, o carreirismo, o desejo de poder, competições causadas pelo orgulho. Da boca pra fora, qualquer pessoa pode-se dizer humilde, desapegado, mas basta às vezes uma palavra para ficar ofendida e alimentar sentimentos de crítica e de vingança.

Devemos buscar os primeiros lugares sim, mas diante de Deus. E para conseguir isso, devemos fazer o contrário do que o mundo prega. O maior diante de Deus é aquele que se faz menor: “quem se eleva será humilhado, e quem se humilha será elevado”.

Mas, então, o que significa fazer-se último? Não significa, certamente, enterrar os próprios talentos, fugir das responsabilidades. Não! A menos que sejamos impedidos, devemos fazer com que frutifiquem ao máximo. Temos que dar o nosso melhor para o bem dos outros, não, porém, para nos sentirmos melhores que os outros. Fazer-se humilde significa libertar-se da ânsia da estima humana e ter serena consciência de que cada um de nós tem valor para Deus. A verdadeira humildade é esta verdade, esta serenidade. Santo Cura d’Ars dá seu testemunho: “eu recebi duas cartas muito fortes, uma me dizia que eu era um grande santo, outra que eu era um hipócrita. A primeira não me acrescentou nada, a segunda não tirou nada de mim, diante de Deus somos aquilo que somos e nada mais”.

Enfim, Jesus nos convida à virtude da gratuidade, “quando deres um almoço ou um jantar, convida os pobres, os aleijados, os coxos, os cegos”. Hoje, os relacionamentos são quase sempre feitos em vista do proveito próprio, do interesse. Fazer-se humilde significa por o pensamento primeiramente no servir: é grande quem serve, quem doa, quem entra no mistério do amor. O humilde é um incansável servo do próximo: o humilde sente que tudo é dom de Deus e tem pressa de doar tudo, porque aquilo que não se doa, perde. O humilde trabalha, age, serve, mas não espera recompensa. Poder servir é já a recompensa. Mesmo que ninguém agradeça. É muito importante ser humilde e amar o próximo desinteressadamente, sobretudo onde se há mais necessidade e onde se é menos visto, “então tu serás feliz”.

domingo, 15 de agosto de 2010

XXI DOMINGO COMUM - Lc 13,22-30

O ESFORÇO PARA ENTRAR PELA PORTA ESTREITA

A liturgia deste Domingo nos propõe o tema da “salvação”. Nos indica que para se chegar ao “Reino”, à vida plena, à felicidade eterna, dom de Deus oferecido a todos os homens e mulheres sem exceção, é preciso renunciar a uma vida baseada naqueles valores que nos tornam orgulhosos, egoístas, prepotentes, auto-suficientes, e seguir Jesus no seu caminho de amor, de simplicidade, de humildade, de generosidade, de doação, de dom da vida.

No Evangelho de hoje, Jesus anuncia sua mensagem de salvação, ensinando de cidade em cidade, de povoado em povoado. Ao mesmo tempo, aproxima-se de Jerusalém, onde alguém lhe pergunta: “Senhor, é verdade que são poucos os que se salvam?” É a pergunta curiosa do devoto fiel, evidentemente pondo-se no grupo dos salvos. É a tentação de sempre, a tentação dos nossos amados irmãos judeus da época de Jesus, especialmente dos fariseus; mas também é a nossa tentação: saber se levamos uma vida certinha e se o nosso lugar no paraíso já está assegurado. É a tentação que temos nós discípulos, quando perdemos a dimensão da espera; quando acreditamos que os muros da nossa cidade interior são tão seguros a ponto de não precisarem de vigilância.

É terrível para nós discípulos, quando depois de uma bela experiência de Deus, sentimos imediatamente ter entrado num grupo a parte, e começamos a olhar com soberba os outros, aqueles que não entendem, que não conhecem, que têm seguido outros percursos diferentes dos de Jesus.

Para mantermos a vida de fé, necessitamos fazer todo o esforço possível, diz o Senhor, para passar pela porta estreita. Com este símbolo, Jesus não tem intenção de dizer que devido ao monte de gente que quer a vida eterna, tenhamos que empurrar uns aos outros pra poder garantir nosso lugar. Não! Mas que devemos nos esforçar. Não basta querermos. Certamente, é verdade que nós somos salvos e que não podemos fazer nada com as nossas próprias forças para merecer a salvação, mas esta não acontece sem a nossa fé que se traduz em obras, como uma atitude de pura passividade (Cf. Declaração conjunta católico-luterana sobre a doutrina da justificação).

Deus nos salva, mas nos leva a sério como pessoas livres e responsáveis. Devemos nos esforçar e lutar, aproximando-se decididamente e conscientemente dele, para superar os obstáculos e testemunhá-lo com a nossa vida.

Com a afirmação sobre a porta que é fechada pelo dono da casa, Jesus quer dizer que nós devemos nos esforçar a tempo. Devemos levar em conta que o nosso tempo é curto. Não podemos adiar pra não sei quando o esforço para viver em comunhão com Deus. Com a nossa morte, a porta será fechada e será decidido o nosso destino. Então será muito tarde para querer, chamar e bater. Devemos levar em conta também que o nosso tempo, além de limitado, não temos nenhum controle sobre ele. Não podemos viver uma vida segundo o nosso bel-prazer e adiar para a velhice a preocupação pela salvação, até porque não sabemos se chegaremos a ela. Não somos nós a fechar a porta, mas o Senhor. Por isso, devemos estar sempre prontos.

Nas palavras do dono da casa, vemos uma ênfase na justiça, na orientação da vida segundo a vontade do Senhor. Não basta uma comunhão somente externa com ele, tê-lo conhecido, ter ouvido os seus ensinamentos, conhecer o Evangelho e o cristianismo. Pois, corremos o risco dele nos dizer: “não sei de onde sois. Afastai-vos de mim todos vós que praticais a injustiça!”. Quem não se orienta pela vontade de Deus, quem rejeita conscientemente a comunhão com Deus, já excluiu a si mesmo da salvação. Esta sua decisão é respeitada e confirmada pelo Senhor. E seria triste chorar de desgosto e ranger os dentes de raiva por se dá conta do que foi perdido.

A boa notícia de Jesus não diz coisas que nos agradam e não nos prometem uma vida fácil e sem esforços. Ela contém algumas verdades incômodas. Mas, justo porque não nos esconde nada e exatamente porque manifesta a verdade completa, nos indica a verdadeira via para a felicidade plena. Aquilo que conta, enfim, é o empenho com o qual se vive a própria existência cristã, testemunhando a pertença a Cristo.

domingo, 8 de agosto de 2010

Assunção de Maria: a ressuscitada, imagem da Igreja peregrina - Lc 1,39-56

A festa que celebramos hoje, isto é, a do dogma da Assunção de Maria, que este ano completa 60 anos de sua definição, é uma verdade que de fato as Escrituras não nos falam absolutamente nada específico sobre tal. Entretanto, desde os primeiros séculos, os primeiros cristãos eram tão convencidos da extraordinária santidade de Maria, e assim como toda a vida dela foi excepcional, o seu fim também devia ser excepcional.

Essa devoção já existia desde os primeiros séculos e quase não era discutida nem no Oriente nem no Ocidente. Essa questão do fim da vida terrena de Maria só começou a ganhar importância nos concílios de Éfeso (431) e de Calcedônia (451), pois na medida em que se ia afirmando a sua Maternidade divina, chamava-se a atenção sobre o corpo de Maria. Desta forma, foi se dando cada vez mais ênfase a ideia de glorificação desse corpo.

Assim, desde o século V, já havia uma forte convicção de que o corpo de Maria não se descompôs no túmulo e foi “levado” logo depois da morte. No século VI, por exemplo, a festa da “memória” de Maria, festa em que se comemora o dia da morte de um santo, se torna a festa da “Dormição” de Maria, um termo que, sem negar a realidade da morte de Maria, sugere uma morte cujo caráter é especial. Assim, o corpo que trouxe e gerou virginalmente o Verbo incorruptível de Deus não pôde conhecer a corrupção da morte carnal.

Muito tempo depois, em 1950, o Papa Pio XII num contexto histórico que é caracterizado por um desenvolvimento crescente da piedade mariana, define o dogma. Com a definição, surgem problemas é claro; as igrejas protestantes, por exemplo, apesar de terem seus fundadores (Lutero e outros) devotos convictos de Nossa Senhora, não aceitam o dogma, o que é de se estranhar de não acreditarem nessa tradição oral da Igreja quando ao mesmo tempo acreditam firmemente na mesma tradição oral da Igreja que definiu o cânon (lista) dos livros do NT, numa época em que haviam tantos escritos, tantos evangelhos que poderiam ter entrado nessa lista.

Outro problema com relação a aceitação por parte dos protestantes, é que estes achavam que tal compreensão do dogma dava a entender que Deus dava um dom exclusivo a Maria, que parecia tirá-la da condição comum de todos os humanos. Com certeza, Maria é um ser humano normal como os outros, mas que ela foi plenamente agraciada por Deus quando engravidou por obra do Espírito Santo de Jesus Cristo, o próprio Evangelho nos confirma e sem sombra de dúvidas, ela passa sim a ter um enorme privilégio dado por Deus e com relação ao resto da humanidade, mesmo que continue mais humilde do que nunca.

Já do lado católico, também existem problemas como, por exemplo, o risco da assunção ser confundida com a ascensão, coisa que pertence só ao Cristo ressuscitado. Sobretudo, a crença de que Maria não teria conhecido de modo algum a morte, coisa que de forma alguma é afirmada no dogma. Mal compreendida, esta doutrina da assunção de Maria favoreceria uma visão na qual Maria não teria partilhado plenamente da condição da nossa humanidade. Na realidade, Maria não foi isenta da morte, porém, a tradição da Igreja desde muito cedo viu na sua morte a introdução imediata na glória celeste. Mas ao mesmo tempo, o dogma implica que a mãe de Jesus não conheceu a corrupção do túmulo: preservada do pecado, Maria foi igualmente preservada da corrupção que acompanha a morte.

Para entendermos um pouco o dogma, convém recorrer à Ressurreição de Jesus. No sentido bíblico, a ressurreição não deve ser entendida como a reanimação de um cadáver, nem como a simples imortalidade desprovida de todo caráter corporal, nem como uma forma de reencarnação que estaria ainda submetida ao espaço e ao tempo. A ressurreição é a “ressurreição” da carne, ou seja, carne aqui designando a pessoa em sua unidade e sua integridade: espírito, alma e corpo. Assim, a ressurreição que esperamos não se refere somente a nossa alma, mas a toda a pessoa que foi marcada por sua vida corporal, por sua história, a pessoa completa.

Ora, a Assunção significa que essa esperança já se cumpriu no caso de Maria e que Deus a beneficiou com a ressurreição da carne, elevando-a “com seu corpo e sua alma a sua glória no céu”. O dogma da Assunção de Maria fala de nosso próprio futuro, designa o objeto de esperança que habita em nós no tempo da história, por isso que no livro do Ap 12, ela aparece coroada, símbolo de que já chegou lá, onde toda a Igreja quer um dia chegar. A assunção atesta que Deus já antecipou para a mãe de seu Filho a salvação esperada pelos cristãos.

A definição do dogma afirma: “proclamamos e definimos ser um dogma revelado por Deus que, quando a etapa de sua vida terrena terminou, a Imaculada Mãe de Deus, a sempre Virgem Maria, foi elevada de corpo e alma à glória do céu”. Portanto, essa definição como vemos nada diz sobre a morte de Maria, nem como ela morreu, mas com cuidado fala sobre “quando a etapa da sua vida terrena terminou”. Pio XII fala da sua assunção: era apropriado que o santíssimo corpo de Maria...fosse confiado à terra por pouco tempo e fosse elevado na glória para o céu”.

Assim, essa definição sugere a ligação da Assunção com os mistérios da Imaculada Conceição, da Maternidade divina e da virgindade perpétua; a diferença entre a forma “foi elevada” e a expressão “subiu ao céu” própria de Cristo, mostra que a Assunção de Maria nunca pode ser confundida com a Ascensão de Cristo. E por fim, devemos entender que a expressão “elevada” em corpo e alma à glória celeste não indica uma mudança de lugar, mas sim uma transformação do corpo de Maria e a passagem do seu ser todo inteiro a condição gloriosa pela qual está unida ao corpo glorioso de seu Filho.

Falando um pouco do Evangelho do dia, na anunciação, o anjo informa a Maria a respeito da gravidez de Isabel, como uma garantia de que nada é impossível para Deus. Declarando-se serva do Senhor, Maria concebe Jesus, e como sinal do seu serviço, se dirige apressada para a casa de Zacarias, para encontrar sua parenta Isabel.

O Evangelho mostra o encontro das duas mães agradecidas pelo dom da fecundidade e da vida. O relato mostra também o encontro entre duas crianças, o precursor e o salvador. Jesus foi concebido por obra do Espírito Santo; João Batista exulta no ventre de Isabel que, cheia do Espírito Santo, proclama Maria bem-aventurada. O relato mostra, sobretudo, que a Santíssima Trindade se revela nos pobres e faz deles a sua morada permanente. O Pai tinha revelado a Maria o dom feito a Isabel, a excluída por causa de sua condição estéril; o Espírito revela a Isabel que Maria, a serva do Pai, tornara-se a “mãe do Senhor”. Assim, a Trindade entra na casa dos pobres humilhados que esperam a libertação.

A nossa oração mariana mais comum, a Ave Maria, na primeira parte é constituída exatamente pelas primeiras palavras do anjo a Maria. “Ave Maria, cheia de graça, o Senhor é contigo”. A estas se seguem as primeiras palavras de Isabel: “Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre”. O anjo chama Maria “cheia de graça”, Isabel a chama “bendita”. Ambas as expressões indicam antes de tudo qual é a relação de Deus com Maria. É desta relação que depende tudo aquilo que podemos afirmar sobre Maria.

João pula no ventre de Isabel e esta proclama Maria “bendita”, isto é, bem-aventurada. As bênçãos do Antigo Testamento são renovadas definitivamente em Maria.

Pedir a bênção é pedir a vida. Só Deus em definitiva pode dar a bênção. E em toda benção humana se pede a bênção de Deus, costume que também nós herdamos dos judeus. Na Bíblia, as pessoas abençoam (dão a benção) quando descobrem a presença de Deus que salva. Maria é motivo de bênção de maneira especial porque se tornou o lugar privilegiado no qual se experimenta Deus. Ela trouxe ao mundo o Senhor da vida por meio do qual foi vencida a morte e chegou até nós à vida eterna. Proclamando-a bendita, Isabel reconhece que Maria é cheia da bênção de Deus. O seu grande grito é um louvor (típico semítico) à ação de Deus, mas também é um grito de alegria por Maria.
Em relação à Maria, Isabel experimenta a sua própria condição indigna: “quem sou eu, para merecer que a mãe do meu Senhor me venha visitar?”. Maria concebeu o Filho do Altíssimo, por isso, é a “mãe do Senhor”, a mãe de Deus. Na segunda parte da ave Maria, nós recitamos “Santa Maria, mãe de Deus, rogai por nós, pecadores”. Também nós, como Isabel, reconhecemos ser pecadores e indignos diante da mãe do Salvador. Como ela, reconhecemos a diferença, e temos por Maria o apreço e a veneração que a ela compete.

Enfim, Isabel reconhece a bem-aventurança de Maria por causa de sua atitude: “bem-aventurada aquela que acreditou, porque será cumprido o que o Senhor lhe prometeu”. Maria acolheu com fé a Palavra do Senhor. Levou a sério tudo o que Deus lhe anunciou. Assim, a fé se torna a forma fundamental da sua relação com Deus. Isabel é apresentada como aquela que por primeiro venerou Maria. Com as suas palavras, ela nos delineia os traços essenciais da figura de Maria.
Maria, diante de tudo isso, no canto do Magnificat, fala com júbilo de Deus, daquilo que ele operou nela. Maria fica impressionada pela grandiosidade do Senhor e da sua obra poderosa. E ao mesmo tempo reconhece a sua pequenez. Ela sabe que é pequena e insignificante diante dele. Reconhece tudo isso com sinceridade e não se ensoberbece. No cântico, Maria reconhece que todas as gerações a chamarão bem-aventurada. Não por orgulho, mas porque o motivo de sua bem-aventurança é a obra de Deus nela. Assim, não há nenhum motivo pelo qual nós não possamos venerá-la. O todo-poderoso fez grandes coisas nela desde a sua concepção imaculada até a sua assunção. E, como Isabel, nos enchemos de alegria. Com Maria, aprendemos a reconhecer que Deus é grande, poderoso e misericordioso, se dirige aos humildes e permanece absolutamente fiel a sua Palavra.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

XIX DOMINGO COMUM - Lc 12,32-48

Uma das coisas mais difíceis que temos que aprender durante a nossa caminhada cristã é ter fé em Deus e acreditar que ele realmente caminha conosco lado a lado nos auxiliando; hoje, isso tem se tornado mais difícil porque o mundo atual, principalmente a ciência ateia, quer impor a ideia de que se deve acreditar só naquilo que é evidente, que se pode pegar, difundindo cada vez com mais força a não necessidade de Deus.

Mas, apesar de atuar com força essa ciência ateia, temos ainda belos testemunhos de fé entre os cientistas em geral, como o biólogo americano Francis Collins, diretor do projeto genoma e autor do livro “A Linguagem de Deus”: “é nosso dever levar em consideração todo o poder das perspectivas científica e espiritual para entendermos tanto aquilo que enxergamos quanto aquilo que não enxergamos...a integração entre estas duas perspectivas”. Collins já foi várias vezes criticado e continua sendo por seus colegas de pesquisa.

Mas como dizia um certo líder espiritual indiano, “o cientista” no fundo não acredita em Deus porque não acredita que exista alguma coisa no interior do ser humano. Porque toda a sua formação impõe que ele acredite somente nos objetos que pode ver, que pode examinar minuciosamente, observar, compor, criar, desfazer a criação, descobrir seus componentes básicos.

Toda a sua mente é orientada para o objeto e a subjetividade não é um objeto. Assim, se ele quiser colocar a subjetividade diante dele, sobre uma mesa, isso não será possível. Isso não é da natureza da subjetividade. E dessa forma, o cientista continua descobrindo tudo no mundo, exceto a si próprio.

Quando se corta uma pedra em pedaços. O que encontramos? Mais pedras. Podemos continuar cortando em pedaços menores, chegaremos às moléculas, aos átomos, aos elétrons, mas ainda assim, nunca chegaremos a alguma coisa mais interna. Eles todos são objetos. O cientista também gostaria que a vida fosse descoberta dessa maneira, e porque ele não consegue descobrir a vida dessa maneira, ele começa a negá-la, a rejeitá-la.

Acreditar é justamente tomar como verdadeiro aquilo que não se vê. Também para o ateu a fé tem que ser uma atitude essencial. Estamos o todo tempo acreditando e confiando em coisas que não vemos: acredito no amor das pessoas por mim, acredito que a pessoa que preparou o alimento pra mim não colocou nenhum veneno, acredito no motorista que dirige o ônibus que eu vou tomar, acredito nos médicos que vão me operar. Acreditar e confiar são atitudes indispensáveis a nossa vida.

O nosso dia a dia contradiz a expressão tantas vezes usada por nós: eu só acredito vendo!
Não podemos viver neste mundo sem confiar uns nos outros. A fé em Deus é semelhante: cada um de nós é empurrado pelo testemunho dos outros a encontrar a face de Deus. E travamos esta busca trabalhosa da fé, que poderá durar toda a nossa vida.

Um grande exemplo para nós foi Abraão. Como são belos estes versículos da II leitura sobre Abraão: ele viveu pela fé, partiu da sua terra seguindo uma intuição, um chamado interior, sem saber para onde ia; foi pela fé, que sua mulher Sara engravidou, sendo estéril e já de idade avançada; foi pela fé, que sendo provado, não vacilou quando estava para oferecer seu filho Isaque, tanto que ele é considerado pelas três grandes religiões monoteístas como o pai da fé.

Na nossa vida, acontecem muitas experiências, relações, catástrofes, doenças, misérias, provações; acontecimentos que tentam nos dominar e imaginar um Deus longe e fraco. Corremos o risco de nos cansarmos, a ponto de nossa ligação com Deus ficar cada vez mais fraca e ter cada vez menos valor na nossa vida até o ponto de irmos em outras direções fazendo uso da astrologia, das simpatias, de outras crenças que não são compatíveis com a nossa fé cristã.

No Evangelho de hoje, Jesus quer nos alertar contra este perigo; e, ao mesmo tempo, mostra o que o Senhor dá para aqueles que permanecem vigilantes e fiéis. Antes de tudo, ele encoraja os seus discípulos a não temerem, mesmo sendo um grupo pequeno, pois eles têm Deus como Pai, o qual lhes deu uma herança magnífica: o seu Reino, a plena e eterna comunhão com Deus. Este tesouro deve ser conhecido por eles na fé e deve preencher o coração deles, os quais, devem usar os bens terrenos como instrumentos necessários para a vida, mas o seu coração não devem apegar-se a eles.
O ponto chave para a interpretação das parábolas é a ausência do patrão. Quer mostrar como deve se comportar o servo durante esta sua ausência. A primeira coisa é estar vigilante e preparado. Segundo o costume daquele tempo, tirar o cíngulo e levar a túnica solta, indicava que o servo já havia acabado o trabalho. Colocar o cíngulo (cingir-se) é sinal de quem está pronto para trabalhar ou para viajar. A lâmpada indica que aquela atividade possa acontecer mesmo durante a noite. Portanto, requer-se prontidão em todos os momentos. A comparação com a vinda de um ladrão mostra isso: o improvisa e inesperada que pode ser a vinda do Senhor.

A ausência do patrão traz como consequência quase necessária que o vínculo com ele enfraqueça. Nós seres humanos temos necessidade da presença do outro, do encontro contínuo com ele, se quisermos que uma relação permaneça forte e viva. O constante pedido na parábola à vigilância e prontidão indica a orientação intensa e viva para com o Senhor. Mesmo que ele esteja longe dos nossos olhos, nosso coração deve estar pleno dele.

A reação do patrão para com os seus servos é descrita de um modo totalmente novo. Ele assume a tarefa de servo e os trata como seus patrões. Ele os faz sentar a mesa e os serve. Ele, porém, continua sendo o patrão; por isso mesmo, o seu serviço é tão significativo. E os servos continuam como tal, por isso, a honra que recebem é tão grande. Esta relação patrão-servo não é desumana nem impessoal, pelo contrário, mostra que o patrão deseja que seus servos estejam unidos a ele de modo pessoal e cordial, e sabe valorizar tal comportamento de modo muito pessoal. Os servos devem ter no coração o patrão ausente e devem deixar-se guiar pela sua vontade, mas podem também estar seguros que o patrão tem um coração para eles.

Todos os servos devem estar acordados quando o patrão vier. Todavia, há servos que têm uma responsabilidade particular. A eles, o patrão confiou uma função de guia para com os outros servos. Isto pode mostrar um perigo, pois eles são só administradores, não são chefes por direito próprio. Estes devem tomar conta deles mesmos e servir aos outros servos. Se aproveitarem da sua posição e tratarem com opressão os seus companheiros, serão punidos duramente. Se, ao invés, se demonstram confiantes, o patrão manifestará a eles o seu reconhecimento e a sua confiança.

Enfim, na nossa vida cristã é indispensável a nossa comunhão constante com Deus e fidelidade à missão que ele nos confiou. Isto deve ser vivido, mesmo com as dificuldades que surgem pelo fato de que a presença do patrão seja pouco visível. A fé é um modo de já possuir o que ainda se espera, é a convicção acerca de realidades que não se veem.