domingo, 6 de junho de 2010

XI DOMINGO DO TEMPO COMUM - Lc 7,36-8,3

Deus perdoa até os mais graves erros porque Ele é AMOR - Existem passagens bíblicas nas quais o ensinamento é tão interligado que separá-las impediria a compreensão de sua mensagem. O episódio da pecadora na casa de Simão com a parábola dos devedores como lemos no Evangelho deste domingo são desse tipo. O relato começa com uma cena muda, onde ninguém fala, só gestos silenciosos: entra uma mulher com um frasco de perfume, aproxima-se de Jesus, mais precisamente dos seus pés, banha-os com as suas lágrimas, enxuga-os com seus cabelos, beija-os e os perfuma.

Aquela mulher muito provavelmente era uma prostituta, aquela marcada com o nome de “pecadora”. Para a sociedade hipócrita, não importa como e porque ela chegou até aquele ponto de vulgaridade, não importa à mente que se acha respeitável o motivo de uma escolha dolorosa, ela é condenada desde sempre e para sempre. Em nome da religião e da moralidade que ergue os seus muros para não entrar em discussão, aquela mulher é sinônimo de sua “profissão”.

Nenhuma compreensão, nenhuma possibilidade, só desprezo, mesmo quando é desejada e usada. Ela chora, sem desespero, sente-se finalmente amada por um homem verdadeiro, sente-se compreendida e acolhida por Deus. Sem o peso do julgamento e da condenação, sem ambiguidade. Bota pra fora toda a sua dor, a sua treva, a sua raiva. A menina que havia nela descobre a face da misericórdia absoluta.

Neste momento, o foco se move para o fariseu que tinha convidado Jesus para almoçar. O relato continua silencioso, mas só aparentemente. Porque o fariseu calado exteriormente, fica pensando, julgando, condenado, escandalizado. De fato, diz o texto: “vendo isso, o fariseu que o havia convidado ficou pensando: 'se este homem fosse um profeta, saberia que tipo de mulher está tocando nele, pois ela é uma pecadora'”.

Pois muito bem, realmente ela se vendia. Mas Simão também é uma prostituta. Vende-se a Deus, e se vende muito bem. Conhece bem a religião, vive profundamente e rigorosamente os preceitos de Israel, não como o “povão ignorante” que se desgraça porque não conhece a lei. Paga o dízimo exato até da arruda e do hortelã, reza com fervor, estuda a Torá dia e noite. Está numa posição de privilégio com relação aos méritos. É devoto, mas é frio, não ama. Permite-se julgar quem quiser porque se sente justo, a lei está do seu lado, ele pode manter as distâncias.

O interessante do Evangelho é que Jesus converte ambos.

À mulher, ensina com toda delicadeza e compreensão que a medida do juízo de Deus é o amor e o perdão. A mulher amou, tanto, fez mal a si própria, mas amou. Deus que é Amor reconhece o amor mesmo quando é feito em pedaços, frágil e desesperado. Para Deus basta isso, ele salta qualquer lógica humana, religiosa ou moral, ele vai direto ao essencial: olha para dentro, para a dor, para a verdade. Este amor é a origem do perdão, o perdão que Deus dá, sempre de graça, sempre incondicional, move o amor.

A Simão, também com delicadeza, sem raiva, Jesus põe um caso para que ele resolva, a parábola dos dois devedores, um que devia alguns reais e outro que devia alguns milhões, que inesperadamente são perdoados de suas dívidas. Quem estará mais feliz? Simão raciocina, reflete, julga corretamente, está aprendendo o ponto de vista de Deus. É chamado, ele que é fariseu, a colocar-se no papel do devedor. Para Deus, não importa a devoção se não é alimentada pela paixão; Jesus não veio para os justos, mas para os pecadores.

Assim, Jesus, antes de tudo, dá a Simão a possibilidade de se convencer que ele é, verdadeiramente, um profeta, já que leu os pensamentos do seu coração; ao mesmo tempo, com a parábola, prepara todos a entender aquilo que está para dizer em defesa da mulher: “Por essa razão, eu te declaro: os muitos pecados que ela cometeu estão perdoados, porque ela mostrou muito amor. A quem se perdoa pouco mostra pouco amor”. Depois, Jesus disse a ela: Teus pecados estão perdoados”.

O texto de hoje nos convida a uma conversão total do nosso coração e da nossa mente a Deus. Não o pecado e o pecar devem invadir e devastar a nossa vida, mas a graça que é fruto de um amor grande para com o Senhor. Ele é a fonte da verdadeira felicidade e da verdadeira alegria do coração do ser humano.

O texto que nós acabamos de compreender realmente é um dos mais importantes e certamente mais impactantes para a mentalidade judaica porque nos imerge no discurso da infinita misericórdia de Deus. Uma misericórdia que experimentamos abundantemente na nossa vida mediante o sacramento da reconciliação que Jesus confiou a sua Igreja e a Igreja administra em seu nome.

Ainda sobre o perdão e sobre a misericórdia focaliza também o trecho da primeira leitura de hoje, tirado do segundo livro de Samuel, no qual é apresentada a forte reprovação de Natã com relação ao rei Davi, que tinha se desviado completamente no seu comportamento moral, com o consequente reconhecimento das próprias culpas. Davi experimenta a compaixão de Deus que o expulsa da falsa imagem na qual se refugiou. Davi, poderoso, realizado, procura se salvar depois de ter tido uma relação com Bersabea, que agora espera um filho dele. Ao invés de admitir o próprio erro e assumir as responsabilidades, tenta se enganar e enganar os outros, com uma brincadeira que termina matando Urias, marido de Bersabea. Mas, o profeta Natã o coloca de frente as suas próprias responsabilidades. Davi toma consciência das suas limitações. E reconhecendo-as, torna-se grande, o maior. “Davi disse a Natã: Pequei contra o Senhor. Natã respondeu-lhe: 'de sua parte, o Senhor perdoou o teu pecado, de modo que não morrerás!'”

Também São Paulo, grande fariseu, era um assassino em nome de Deus contra os cristãos. Depois, Cristo o conquistou. Agora, escrevendo aos Gálatas, reflete sobre a sua experiência precedente de fé: não é a lei que salva, nem a regra, nem norma alguma, nem o mandamento que eu posso observar por escrúpulo, por medo, por satisfação, para agradar aos outros.

De observante rigoroso da lei de Deus, Paulo reconhece ter se tornado um assassino, pensando que estava agradando a Deus. É o amor que salva, não a lei. Do coração dilacerado de Cristo chega à humanidade o perdão de Deus. Um perdão que se renova cada vez que um sacerdote nos absolve dos nossos pecados e das nossas debilidades humanas. Então, a pessoa humana verdadeiramente arrependida e renovada no íntimo saboreia a alegria da misericórdia de Deus no modo mais autêntico possível ao homem sobre esta terra. “Irmãos, sabendo que ninguém é justificado por observar a lei de Moisés, mas por crer em Jesus Cristo, nós também abraçamos a fé em Jesus Cristo. Assim fomos justificados pela fé em Cristo e não pela prática da lei, porque pela prática da lei ninguém será justificado... Com Cristo, eu fui pregado na cruz. Eu vivo, mas não eu, é Cristo que vive em mim... Se a justiça viesse pela lei, Cristo teria morrido inutilmente”.
Enfim, todos somos prostitutas quando nos vendemos por um elogio, para cultivar o nosso ego (mesmo o espiritual), para ter um papel social e eclesial reconhecido e apreciado, para ser se não melhor, pelo menos não inferior aos outros, dispostos como Davi a trair uma amizade sincera e não admitir os nossos erros. Mas todos podemos se quisermos e aceitarmos, ser perdoados e amados. A pecadora e Simão, Paulo, nós somos amados e perdoados por Deus, redimidos e salvos. A conversão é o caminho da felicidade e para uma vida plena. Não é algo penoso, mas de extrema felicidade.

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