quinta-feira, 24 de junho de 2010

ESTIVE NUMA PEREGRINAÇÃO PELO ENCERRAMENTO DO ANO SACERDOTAL EM ROMA. AGORA JÁ COMEÇO COM O COMENTÁRIO DA SOLENIDADE DE SÃO PEDRO E SÃO PAULO DIA 04 DE JULHO

SÃO PEDRO E SÃO PAULO – Jo 21,15-19 – 04/07/2010

Neste domingo, celebramos a Solenidade de São Pedro e São Paulo. O que podemos destacar destes dois grandes apóstolos, dos testemunhos de cada um deles? Pedro e Paulo são bastante diferentes quanto à personalidade, mas idênticos no amor a Cristo e à Igreja. Ambos dão a vida por Jesus Cristo até o martírio em Roma. Dois santos, podemos dizer, que nunca estão parados. Homens como nós, com tantas fraquezas, medos, capazes de trair, mas que tiveram plena confiança em Jesus. E Jesus aposta tudo neles. Dá sempre uma nova chance a Pedro, e Paulo não se cansa de repetir que se tornou apóstolo somente pela graça.

Falando de Pedro e Paulo, podemos falar da grandeza e santidade que eles representam, mas podemos também falar das suas fraquezas e dos seus pecados, e aí, descobrimos que uma coisa leva à outra, pois é exatamente a bondade e a misericórdia do Senhor que muda o coração deles e os transforma até se tornarem de pecadores a grandes santos e a transformar suas vidas num amor humilde e apaixonado pelo Senhor Jesus.

Pedro demonstrou várias vezes o seu caráter, a sua fraqueza, o seu cansaço para entender o coração de Jesus. Lembremo-nos quando Jesus lhe diz: “afasta-te de mim, Satanás!”; ou quando caminhando sobre as águas, duvida e Jesus lhe diz: “homem de pouca fé!” Mas, sobretudo é humano e fraco no momento da paixão de Jesus. Ele que tinha afirmado: “mesmo que todos os outros te abandonem, eu jamais te abandonarei”, é o mesmo que na sua fraqueza nega por três vezes a Jesus, jurando nunca tê-lo visto. Entretanto, é esta pobreza de Pedro que encontra o olhar misericordioso de Jesus e por ele se deixa curar.

Depois da ressurreição, às perguntas repetidas de Jesus se ele o ama, responde: “sim, Senhor, tu sabes tudo, tu sabes que eu te amo, tu sabes como te amo”. Até na resposta, Pedro finalmente é sincero, respondendo com um verbo diferente do perguntando por Jesus, demonstra que ama a Jesus, mas ainda não do tanto quanto Jesus pede. E a sua vida, mesmo em meio às dificuldades e fraquezas, será sempre a demonstração deste amor apaixonado pelo seu Senhor, até a prisão, às viagens, e, finalmente, ao martírio.

Também Paulo, fariseu convicto, fanático, perseguidor ferrenho dos cristãos, colaborador do martírio de Estevão, é transformado por Jesus, e, assim, vive o resto de vida numa missão contínua dirigida aos vários povos que ele pode alcançar. Até o momento no qual pode afirmar: “combati o bom combate, terminei a corrida, guardei a fé. Não me resta outra coisa senão esperar a coroa da justiça que o Senhor, o justo juiz, preparou para mim. O Senhor veio em meu auxílio e me deu forças”.

Homens frágeis, pecadores, transformados pela misericórdia do Senhor e pela força do seu Espírito. Deram a vida pelo Senhor e estabeleceram as bases da comunidade cristã, a Igreja, destinada a se espalhar por todo o mundo. Aquela de Pedro e de Paulo é a nossa humanidade resgatada; também nós não devemos nunca ficar desencorajados diante das nossas fraquezas, de nossas dúvidas, de nossa falta de fé, mas sempre renovar o nosso amor ao Senhor.
Dois apóstolos diferentes, colunas fundamentais da Igreja, garantindo a unidade desta. Pedro recebe o carisma, isto é, o dom e a tarefa, de ser referência para a unidade e a comunhão entre os que acreditam em Cristo, através do serviço à Verdade.

Pedro é a pedra sobre a qual Cristo quis edificar a sua Igreja, a sua comunidade e a ele confia as chaves do Reino. Paulo recebeu a tarefa de difundir a palavra de Verdade, o Evangelho, até os confins da terra, pregando e fundando comunidades cristãs. São santos que encontram no Papa o continuador e o testemunho da missão de Cristo que continua em meio a nós. No Papa, encontra-se a autoridade de Pedro, chefe visível da Igreja e centro de unidade, e no Papa, encontramos o ardor missionário de Paulo.

A festa de hoje nos ajuda a renovar a nossa fé. A fé cristã católica não é simplesmente uma fé em Deus ou em Cristo, mas é fé na Igreja. Dizemos no Credo: “Creio na Igreja, una, santa, católica e apostólica”. É na Igreja que nós podemos ter uma relação autêntica com Cristo, único salvador e com Deus, o Pai, que Cristo nos revelou. A solenidade deste domingo nos chama a ser presença ativa, assumindo a nossa responsabilidade na Igreja, para que sejamos sempre mais “comunhão” no interior dela e sejamos sempre mais “missão” no mundo de hoje.

Pedro e Paulo. Simão e Saulo. Dois novos nomes, dois percursos de novidade. Quem encontra Jesus não pode permanecer como era. Porque o Senhor toma aquilo que mais detestamos em nós e nos transforma. A cabeça dura do pescador Simão se faz rocha sobre a qual é construída a Igreja. Disto, ninguém duvida, nem Dan Brown em “Anjos e Demônios”, quando o professor Langdon, da Universidade de Harvard, encontra-se na frente da Basílica de São Pedro e os pensamentos em sua mente neste momento são: “Pedro é a pedra. A fé de Pedro em Deus foi tão firme, que Jesus o chamou de “a pedra”, o discípulo sobre cujos ombros Jesus construiria sua Igreja. Neste lugar, pensou Langdon, na colina do Vaticano, Pedro havia sido crucificado e enterrado. Os primeiros cristãos construíram um pequeno santuário sobre o seu túmulo. À medida que o cristianismo se estendeu, o santuário cresceu, passo a passo, até converter-se nesta basílica colossal. Toda a fé católica havia sido levantada, literalmente, sobre São Pedro, a Pedra” (Anjos e Demônios, cap.118).
Já a paixão exagerada de Paulo pela lei se transforma em ardor por Jesus Cristo. Mas o que então une estas duas figuras tão diferentes? O amor por Jesus Cristo. É Cristo quem coloca os dois em estreita colaboração porque a diversidade de carismas é o que faz crescer.
Em que sentido a trajetória da nossa vida espiritual se identifica com a de Pedro e a de Paulo? Meus atos dão testemunho de que eu realmente amo a Jesus Cristo? Meu serviço na minha Igreja local faz crescer a união e o amor na comunidade ou divide-a ainda mais? Eu amo, reconheço, respeito, obedeço e rezo pelo nosso Papa Bento XVI, sucessor de Pedro?

domingo, 6 de junho de 2010

XI DOMINGO DO TEMPO COMUM - Lc 7,36-8,3

Deus perdoa até os mais graves erros porque Ele é AMOR - Existem passagens bíblicas nas quais o ensinamento é tão interligado que separá-las impediria a compreensão de sua mensagem. O episódio da pecadora na casa de Simão com a parábola dos devedores como lemos no Evangelho deste domingo são desse tipo. O relato começa com uma cena muda, onde ninguém fala, só gestos silenciosos: entra uma mulher com um frasco de perfume, aproxima-se de Jesus, mais precisamente dos seus pés, banha-os com as suas lágrimas, enxuga-os com seus cabelos, beija-os e os perfuma.

Aquela mulher muito provavelmente era uma prostituta, aquela marcada com o nome de “pecadora”. Para a sociedade hipócrita, não importa como e porque ela chegou até aquele ponto de vulgaridade, não importa à mente que se acha respeitável o motivo de uma escolha dolorosa, ela é condenada desde sempre e para sempre. Em nome da religião e da moralidade que ergue os seus muros para não entrar em discussão, aquela mulher é sinônimo de sua “profissão”.

Nenhuma compreensão, nenhuma possibilidade, só desprezo, mesmo quando é desejada e usada. Ela chora, sem desespero, sente-se finalmente amada por um homem verdadeiro, sente-se compreendida e acolhida por Deus. Sem o peso do julgamento e da condenação, sem ambiguidade. Bota pra fora toda a sua dor, a sua treva, a sua raiva. A menina que havia nela descobre a face da misericórdia absoluta.

Neste momento, o foco se move para o fariseu que tinha convidado Jesus para almoçar. O relato continua silencioso, mas só aparentemente. Porque o fariseu calado exteriormente, fica pensando, julgando, condenado, escandalizado. De fato, diz o texto: “vendo isso, o fariseu que o havia convidado ficou pensando: 'se este homem fosse um profeta, saberia que tipo de mulher está tocando nele, pois ela é uma pecadora'”.

Pois muito bem, realmente ela se vendia. Mas Simão também é uma prostituta. Vende-se a Deus, e se vende muito bem. Conhece bem a religião, vive profundamente e rigorosamente os preceitos de Israel, não como o “povão ignorante” que se desgraça porque não conhece a lei. Paga o dízimo exato até da arruda e do hortelã, reza com fervor, estuda a Torá dia e noite. Está numa posição de privilégio com relação aos méritos. É devoto, mas é frio, não ama. Permite-se julgar quem quiser porque se sente justo, a lei está do seu lado, ele pode manter as distâncias.

O interessante do Evangelho é que Jesus converte ambos.

À mulher, ensina com toda delicadeza e compreensão que a medida do juízo de Deus é o amor e o perdão. A mulher amou, tanto, fez mal a si própria, mas amou. Deus que é Amor reconhece o amor mesmo quando é feito em pedaços, frágil e desesperado. Para Deus basta isso, ele salta qualquer lógica humana, religiosa ou moral, ele vai direto ao essencial: olha para dentro, para a dor, para a verdade. Este amor é a origem do perdão, o perdão que Deus dá, sempre de graça, sempre incondicional, move o amor.

A Simão, também com delicadeza, sem raiva, Jesus põe um caso para que ele resolva, a parábola dos dois devedores, um que devia alguns reais e outro que devia alguns milhões, que inesperadamente são perdoados de suas dívidas. Quem estará mais feliz? Simão raciocina, reflete, julga corretamente, está aprendendo o ponto de vista de Deus. É chamado, ele que é fariseu, a colocar-se no papel do devedor. Para Deus, não importa a devoção se não é alimentada pela paixão; Jesus não veio para os justos, mas para os pecadores.

Assim, Jesus, antes de tudo, dá a Simão a possibilidade de se convencer que ele é, verdadeiramente, um profeta, já que leu os pensamentos do seu coração; ao mesmo tempo, com a parábola, prepara todos a entender aquilo que está para dizer em defesa da mulher: “Por essa razão, eu te declaro: os muitos pecados que ela cometeu estão perdoados, porque ela mostrou muito amor. A quem se perdoa pouco mostra pouco amor”. Depois, Jesus disse a ela: Teus pecados estão perdoados”.

O texto de hoje nos convida a uma conversão total do nosso coração e da nossa mente a Deus. Não o pecado e o pecar devem invadir e devastar a nossa vida, mas a graça que é fruto de um amor grande para com o Senhor. Ele é a fonte da verdadeira felicidade e da verdadeira alegria do coração do ser humano.

O texto que nós acabamos de compreender realmente é um dos mais importantes e certamente mais impactantes para a mentalidade judaica porque nos imerge no discurso da infinita misericórdia de Deus. Uma misericórdia que experimentamos abundantemente na nossa vida mediante o sacramento da reconciliação que Jesus confiou a sua Igreja e a Igreja administra em seu nome.

Ainda sobre o perdão e sobre a misericórdia focaliza também o trecho da primeira leitura de hoje, tirado do segundo livro de Samuel, no qual é apresentada a forte reprovação de Natã com relação ao rei Davi, que tinha se desviado completamente no seu comportamento moral, com o consequente reconhecimento das próprias culpas. Davi experimenta a compaixão de Deus que o expulsa da falsa imagem na qual se refugiou. Davi, poderoso, realizado, procura se salvar depois de ter tido uma relação com Bersabea, que agora espera um filho dele. Ao invés de admitir o próprio erro e assumir as responsabilidades, tenta se enganar e enganar os outros, com uma brincadeira que termina matando Urias, marido de Bersabea. Mas, o profeta Natã o coloca de frente as suas próprias responsabilidades. Davi toma consciência das suas limitações. E reconhecendo-as, torna-se grande, o maior. “Davi disse a Natã: Pequei contra o Senhor. Natã respondeu-lhe: 'de sua parte, o Senhor perdoou o teu pecado, de modo que não morrerás!'”

Também São Paulo, grande fariseu, era um assassino em nome de Deus contra os cristãos. Depois, Cristo o conquistou. Agora, escrevendo aos Gálatas, reflete sobre a sua experiência precedente de fé: não é a lei que salva, nem a regra, nem norma alguma, nem o mandamento que eu posso observar por escrúpulo, por medo, por satisfação, para agradar aos outros.

De observante rigoroso da lei de Deus, Paulo reconhece ter se tornado um assassino, pensando que estava agradando a Deus. É o amor que salva, não a lei. Do coração dilacerado de Cristo chega à humanidade o perdão de Deus. Um perdão que se renova cada vez que um sacerdote nos absolve dos nossos pecados e das nossas debilidades humanas. Então, a pessoa humana verdadeiramente arrependida e renovada no íntimo saboreia a alegria da misericórdia de Deus no modo mais autêntico possível ao homem sobre esta terra. “Irmãos, sabendo que ninguém é justificado por observar a lei de Moisés, mas por crer em Jesus Cristo, nós também abraçamos a fé em Jesus Cristo. Assim fomos justificados pela fé em Cristo e não pela prática da lei, porque pela prática da lei ninguém será justificado... Com Cristo, eu fui pregado na cruz. Eu vivo, mas não eu, é Cristo que vive em mim... Se a justiça viesse pela lei, Cristo teria morrido inutilmente”.
Enfim, todos somos prostitutas quando nos vendemos por um elogio, para cultivar o nosso ego (mesmo o espiritual), para ter um papel social e eclesial reconhecido e apreciado, para ser se não melhor, pelo menos não inferior aos outros, dispostos como Davi a trair uma amizade sincera e não admitir os nossos erros. Mas todos podemos se quisermos e aceitarmos, ser perdoados e amados. A pecadora e Simão, Paulo, nós somos amados e perdoados por Deus, redimidos e salvos. A conversão é o caminho da felicidade e para uma vida plena. Não é algo penoso, mas de extrema felicidade.