domingo, 30 de maio de 2010

X DOMINGO DO TEMPO COMUM - Lc 7,11-17

 

A COMPAIXÃO DE DEUS PELOS MAIS POBRES ENTRE OS POBRES

Em qualquer lugar do mundo vamos encontrar pessoas sofridas e menosprezadas, feridas, famintas, maltratadas e abandonadas, que como dizia Madre Teresa de Calcutá, são “os mais pobres entre os pobres”. É de um pessoa inserida nesta categoria que o Evangelho de hoje vai tratar: uma viúva da cidade de Naim (ainda hoje existe com este nome a 18 km de Nazaré).

Na época de Jesus, uma viúva ocupava uma situação social muito difícil. Aliás, qualquer mulher vivia uma situação difícil. A mulher era vista como alguém totalmente dependente do seu marido ou do seu pai. Quando uma mulher casada se tornava viúva, ficava a mercê do seu filho mais velho, pois quem herdava os bens deixados era o primeiro filho homem (direito de primogenitura) e nunca a esposa, ou no caso não tivesse bens, também era o filho mais velho quem tinha o dever de arranjar uma forma de sustentar a mãe.

No relato do Evangelho de hoje, o filho constitui a única herança que aquela pobre viúva tinha, cuja proteção, moradia e bem estar, dele provinham. Assim, ela se encontrava num grande sofrimento, pois além de ser viúva, perde o único filho que tem. Portanto, a mulher que Jesus encontra tinha perdido não só o seu único filho, mas também a sua única fonte de sobrevivência. Agora, ela não tinha proteção alguma e dependia da boa vontade dos seus vizinhos.

No tempo de Jesus, a viúva também deveria ainda vestir-se com trajes que a identificassem como tal (na Índia, por exemplo, ainda é assim, vestem o sari branco para o resto da vida). Por causa disso era taxada na sociedade como alguém indefesa, desprotegida, pobre, e, por isso, vítima fácil de enganadores, agiotas, credores etc. A Igreja primitiva suplicava pela assistência prática às viúvas, providenciava-lhes alimentos e roupas (At 6,1). São Tiago diz que a assistência aos órfãos e às viúvas demonstra que grau de compreensão e adesão à Boa Nova de Jesus as pessoas viviam.(Tg 1,27).

Consciente de toda esta situação, Jesus demonstra e ensina que todo ser humano, deve ser sensível ao sofrimento alheio e às dores humanas, e demonstra compaixão, atenção e amor pelos mais fracos, perdoando os seus pecados e apresentando-lhes o Evangelho da vida.

Interessante neste texto, é que diferentemente de outros relatos de milagres, ninguém pede a ajuda a Jesus. E é até óbvio já que não existe cura para a morte. Assim, Jesus age de livre e espontânea vontade. Diante da necessidade daquela mulher, ele não se mostra impotente nem indiferente, mas sente compaixão. A necessidade dela o comove. Para ele, aquela viúva não é uma mulher idosa que não vale nada, que não conta nada, que deve sofrer um destino semelhante ao de tantas mulheres e que deve suportá-lo.

Não! Ele se dirige a ela de um modo todo particular. Não há diante de si um caso como tantos, mas uma pessoa, e na sua misericórdia, reconhece a realidade da sua dor, a sua dignidade, dizendo-lhe: “Não chore!” Palavras que pronunciadas por qualquer outra pessoa poderiam soar meio costumeiras. No caso de Jesus, ele ajuda concretamente. Nem a morte impede a sua ação. Ele chama de volta à vida o filho da viúva (“Jovem, eu te ordeno, levanta-te!); e, depois disso, “o entregou à sua mãe”, eliminando assim aquela situação de transtorno.

Como podemos perceber, Jesus não foi constrangido a fazer nada com relação ao filho da viúva nem ficou triste porque este morreu tão jovem. A sua compaixão é para com a viúva. O jovem não foi revitalizado (reanimado) porque Jesus teve pena dele, mas porque ele teve compaixão da viúva, para que o filho a sustentasse. Com isso, fica claro que o sentido da nossa vida não reside no fato de vivermos para nós mesmos, mas em vivermos uns para os outros e assim tornarmos recíproca a vida.

Por meio do gesto de Jesus, mãe e filho, separados pela morte, agora estão novamente unidos numa comunidade de amor. Quantas pessoas se encontram numa situação semelhante à daquela mulher? A que serve, então, o gesto de Jesus em favor da viúva de Naim para aquele povo e para nós hoje? Com certeza, ficaram maravilhados porque “Deus veio visitar o seu povo”.

O gesto misericordioso de Jesus deve servir também de estímulo para nós a fim de nos ajudar a viver o amor ao próximo. O modo como Jesus trata a viúva, levando a sério a sua situação, dirigindo-se a ela e ajudando-a, mostra a sua atitude, nos permite penetrar no seu coração. E do momento em que no seu gesto concreto se encontra a misericórdia de Deus, é nos manifestado o modo de se comportar de Deus. Jesus tem um coração bondoso e pronto para agir. O seu gesto mostra o que realmente ele considera importante. Ele não apresenta regras ou programas. Não conquista reinos, nem cria uma nova ordem social. Ele se dirige ao homem que sofre, se preocupando com a sua necessidade pessoal e o ajuda.

Assim, a mensagem deste Evangelho não é a de que cada pessoa necessitada receba uma ajuda da mesma maneira como Jesus ajudou a viúva, mas que a cada necessitado seja dirigido do mesmo modo o coração de Jesus e o amor de Deus. E essa é tarefa nossa. O relato da viúva de Naim evoca o povo que perde a sua esperança quando perde o Messias pregado na cruz, e o reencontra na ressurreição. Nós também somos convidados vivamente a acreditarmos no amor que Jesus nutre por nós e que nos dá vida a ponto de nos estimular a oferecermos o nosso amor principalmente àquelas pessoas que são paupérrimas do amor de Deus, que se sentem vazias e nem sabem que têm fome de Deus. Que sejamos instrumentos do amor de Deus para elas.

CURIOSIDADE: A palavra ressurreição vem do latim (resurrectione), que vem do grego (a·ná·sta·sis). Significa literalmente "levantar; erguer". Esta palavra é usada com frequência nas Escrituras bíblicas, referindo à ressurreição dos mortos no dia do juízo final. Mas temos que observar que naquela época, o grego não tinha palavras como “revitalização”, “reanimação” de um corpo que se distingue claramente da ressurreição final e eterna, enquanto a reanimação não se trata da entrada na glória definitiva, mas de uma prorrogação da vida terrena que novamente vai passar pela morte, e aí sim, rumo à ressurreição propriamente dita. Entretanto, em ambos os casos, no grego do Novo Testamento era usada a mesma palavra e nós hoje é quem devemos saber a diferença. Em Jo 11,24, Marta diz sobre Lázaro que se encontra “morto”: “eu sei que há de ressuscitar na ressurreição do último dia.” Mas Jesus reanima o corpo de Lázaro, que obviamente depois de um tempo morreu para entrar na gloria do céu. De fato, aqui não cai em descrédito o milagre de Jesus. De fato, ele trouxe à vida, alguém se encontrava num estado de catalepsia.

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