domingo, 30 de maio de 2010

X DOMINGO DO TEMPO COMUM - Lc 7,11-17

 

A COMPAIXÃO DE DEUS PELOS MAIS POBRES ENTRE OS POBRES

Em qualquer lugar do mundo vamos encontrar pessoas sofridas e menosprezadas, feridas, famintas, maltratadas e abandonadas, que como dizia Madre Teresa de Calcutá, são “os mais pobres entre os pobres”. É de um pessoa inserida nesta categoria que o Evangelho de hoje vai tratar: uma viúva da cidade de Naim (ainda hoje existe com este nome a 18 km de Nazaré).

Na época de Jesus, uma viúva ocupava uma situação social muito difícil. Aliás, qualquer mulher vivia uma situação difícil. A mulher era vista como alguém totalmente dependente do seu marido ou do seu pai. Quando uma mulher casada se tornava viúva, ficava a mercê do seu filho mais velho, pois quem herdava os bens deixados era o primeiro filho homem (direito de primogenitura) e nunca a esposa, ou no caso não tivesse bens, também era o filho mais velho quem tinha o dever de arranjar uma forma de sustentar a mãe.

No relato do Evangelho de hoje, o filho constitui a única herança que aquela pobre viúva tinha, cuja proteção, moradia e bem estar, dele provinham. Assim, ela se encontrava num grande sofrimento, pois além de ser viúva, perde o único filho que tem. Portanto, a mulher que Jesus encontra tinha perdido não só o seu único filho, mas também a sua única fonte de sobrevivência. Agora, ela não tinha proteção alguma e dependia da boa vontade dos seus vizinhos.

No tempo de Jesus, a viúva também deveria ainda vestir-se com trajes que a identificassem como tal (na Índia, por exemplo, ainda é assim, vestem o sari branco para o resto da vida). Por causa disso era taxada na sociedade como alguém indefesa, desprotegida, pobre, e, por isso, vítima fácil de enganadores, agiotas, credores etc. A Igreja primitiva suplicava pela assistência prática às viúvas, providenciava-lhes alimentos e roupas (At 6,1). São Tiago diz que a assistência aos órfãos e às viúvas demonstra que grau de compreensão e adesão à Boa Nova de Jesus as pessoas viviam.(Tg 1,27).

Consciente de toda esta situação, Jesus demonstra e ensina que todo ser humano, deve ser sensível ao sofrimento alheio e às dores humanas, e demonstra compaixão, atenção e amor pelos mais fracos, perdoando os seus pecados e apresentando-lhes o Evangelho da vida.

Interessante neste texto, é que diferentemente de outros relatos de milagres, ninguém pede a ajuda a Jesus. E é até óbvio já que não existe cura para a morte. Assim, Jesus age de livre e espontânea vontade. Diante da necessidade daquela mulher, ele não se mostra impotente nem indiferente, mas sente compaixão. A necessidade dela o comove. Para ele, aquela viúva não é uma mulher idosa que não vale nada, que não conta nada, que deve sofrer um destino semelhante ao de tantas mulheres e que deve suportá-lo.

Não! Ele se dirige a ela de um modo todo particular. Não há diante de si um caso como tantos, mas uma pessoa, e na sua misericórdia, reconhece a realidade da sua dor, a sua dignidade, dizendo-lhe: “Não chore!” Palavras que pronunciadas por qualquer outra pessoa poderiam soar meio costumeiras. No caso de Jesus, ele ajuda concretamente. Nem a morte impede a sua ação. Ele chama de volta à vida o filho da viúva (“Jovem, eu te ordeno, levanta-te!); e, depois disso, “o entregou à sua mãe”, eliminando assim aquela situação de transtorno.

Como podemos perceber, Jesus não foi constrangido a fazer nada com relação ao filho da viúva nem ficou triste porque este morreu tão jovem. A sua compaixão é para com a viúva. O jovem não foi revitalizado (reanimado) porque Jesus teve pena dele, mas porque ele teve compaixão da viúva, para que o filho a sustentasse. Com isso, fica claro que o sentido da nossa vida não reside no fato de vivermos para nós mesmos, mas em vivermos uns para os outros e assim tornarmos recíproca a vida.

Por meio do gesto de Jesus, mãe e filho, separados pela morte, agora estão novamente unidos numa comunidade de amor. Quantas pessoas se encontram numa situação semelhante à daquela mulher? A que serve, então, o gesto de Jesus em favor da viúva de Naim para aquele povo e para nós hoje? Com certeza, ficaram maravilhados porque “Deus veio visitar o seu povo”.

O gesto misericordioso de Jesus deve servir também de estímulo para nós a fim de nos ajudar a viver o amor ao próximo. O modo como Jesus trata a viúva, levando a sério a sua situação, dirigindo-se a ela e ajudando-a, mostra a sua atitude, nos permite penetrar no seu coração. E do momento em que no seu gesto concreto se encontra a misericórdia de Deus, é nos manifestado o modo de se comportar de Deus. Jesus tem um coração bondoso e pronto para agir. O seu gesto mostra o que realmente ele considera importante. Ele não apresenta regras ou programas. Não conquista reinos, nem cria uma nova ordem social. Ele se dirige ao homem que sofre, se preocupando com a sua necessidade pessoal e o ajuda.

Assim, a mensagem deste Evangelho não é a de que cada pessoa necessitada receba uma ajuda da mesma maneira como Jesus ajudou a viúva, mas que a cada necessitado seja dirigido do mesmo modo o coração de Jesus e o amor de Deus. E essa é tarefa nossa. O relato da viúva de Naim evoca o povo que perde a sua esperança quando perde o Messias pregado na cruz, e o reencontra na ressurreição. Nós também somos convidados vivamente a acreditarmos no amor que Jesus nutre por nós e que nos dá vida a ponto de nos estimular a oferecermos o nosso amor principalmente àquelas pessoas que são paupérrimas do amor de Deus, que se sentem vazias e nem sabem que têm fome de Deus. Que sejamos instrumentos do amor de Deus para elas.

CURIOSIDADE: A palavra ressurreição vem do latim (resurrectione), que vem do grego (a·ná·sta·sis). Significa literalmente "levantar; erguer". Esta palavra é usada com frequência nas Escrituras bíblicas, referindo à ressurreição dos mortos no dia do juízo final. Mas temos que observar que naquela época, o grego não tinha palavras como “revitalização”, “reanimação” de um corpo que se distingue claramente da ressurreição final e eterna, enquanto a reanimação não se trata da entrada na glória definitiva, mas de uma prorrogação da vida terrena que novamente vai passar pela morte, e aí sim, rumo à ressurreição propriamente dita. Entretanto, em ambos os casos, no grego do Novo Testamento era usada a mesma palavra e nós hoje é quem devemos saber a diferença. Em Jo 11,24, Marta diz sobre Lázaro que se encontra “morto”: “eu sei que há de ressuscitar na ressurreição do último dia.” Mas Jesus reanima o corpo de Lázaro, que obviamente depois de um tempo morreu para entrar na gloria do céu. De fato, aqui não cai em descrédito o milagre de Jesus. De fato, ele trouxe à vida, alguém se encontrava num estado de catalepsia.

domingo, 23 de maio de 2010

SANTÍSSIMA TRINDADE: Jo 16,12-15

QUEM É DEUS?

Na festa de Pentecostes, recebemos o Espírito Santo que nos iluminou e aqueceu o nosso coração de cristãos. E é graças à luz deste Espírito que nos faz recordar todas as coisas que hoje podemos refletir sobre o mistério de Deus.

Quem é esse Deus no qual acreditamos? Esta é uma pergunta que continuamente devemos fazer a nós mesmos, já que um grande número de pessoas apresentam uma concepção errada de Deus, de um Deus diferente daquele que Jesus veio nos revelar, um Deus que muitas vezes decepciona essas pessoas, pois são criação delas mesmas devido a mal interpretações da Bíblia ou de alguém que assim ensinou.

É realmente inquietante ver como a dois mil anos de cristianismo, conceitos errados de Deus estão cada vez mais difundidos: pessoas supersticiosas que acreditam num Deus que responde através de práticas sem fundamento como as simpatias, cristais e toda espécie de coisas exotéricas; pessoas materialistas que combinam Deus com o dinheiro e enxergam um Deus materialista, o da teologia da prosperidade, onde praticamente Deus é sinônimo de dinheiro, sucesso e poder, pessoas vingativas que veem um Deus vingativo (Deus tarda mas não falha!) etc.

É preciso purificar a nossa ideia de Deus. E, se acreditamos que Jesus é realmente Deus, por que deixamos de dar ouvido ao que ele nos diz através dos evangelhos para seguir outros pensamentos vindos de fora do cristianismo? Resposta: porque o ser humano sempre procura aquilo que lhe convém, aquilo que que é mais cômodo, mais fácil, mais imediato, mais proveitoso a curto prazo.

Mas, a realidade não é bem assim. Jesus não fala por abstração, por dedução, mas por experiência de amor. Ele sabe como Deus é porque ele e Deus são uma coisa só. Depois de toda a revelação de Deus no Antigo Testamento, ele chega com uma novidade inimaginável, inesperada: Deus é um, e ao mesmo tempo é Pai, é Filho e é Espírito Santo. Ou seja, Deus não é o solitário perfeito, o todo-poderoso egoísta, mas é festa, é família, é relação, é comunhão, é amor.

Deus são três pessoas que se amam tanto que, humanamente falando, nós o vemos como único, como um casal de esposos que de tão unidos parecem ser uma só pessoa. Que bonito! Ver em Deus aquilo que sempre desejamos: o amor, a comunhão. Três pessoas que não se confundem nem se anulam, que se amam tanto, e que podemos delinear a obra de cada uma delas: o Pai na criação, o Filho na salvação e o sopro do Espírito Santo na nossa santificação.

É impossível entender esse mistério. Claro! Se fosse compreensível deixaria de ser um mistério. Mas, como seres humanos, nós estamos sempre buscando algo que facilite a nossa compreensão de Deus. Nos meus estudos sobre as religiões, vi que entre os milhões de deuses da religião hindu, há uma tríade principal, o Trimúrti, que em sânscrito significa três formas: Bhrama (o criador), Vishnu (o conservador) e Shiva (o destruidor); apesar de muitas vezes ser comparado com a Trindade cristã, vemos logo uma diferença que denuncia este erro: já que o Trimúrti são três deuses distintos, mas que estão juntos, enquanto no cristianismo é verdade que acreditamos em três pessoas distintas, mas que são um único Deus.
Entretanto, é no evangelho de hoje, nestes quatro versículos, que vemos como o círculo trinitário das Pessoas divinas é simplesmente perfeito. As três Pessoas, o Pai, o Filho e o Espírito Santo são verdadeiramente um único Deus. Ao cristão batizado é prometido o “Espírito da verdade” que nos conduzirá à plena verdade de Deus. É o Espírito Santo doado no Pentecostes quem introduz pouco a pouco o cristão e a Igreja na sua reflexão teológica e pastoral, na sempre mais profunda compreensão da revelação divina. Conhecimento que devemos ter sempre o cuidado para que não seja somente intelectual, mas, sobretudo experimental, no qual o amor tem um papel absolutamente essencial.

O famoso e belíssimo ícone da Trindade de Andrej Rublev sugere este convite divino. De fato, retrata a visita dos três anjos a Abraão (Gn 18,1-4), imagem da unidade da Trindade. Estes anjos estão sentados em círculo em torno da mesa da Eucaristia. É a Eucaristia que atualiza o Mistério Pascal: síntese de toda a história da salvação. O anjo no centro é Jesus Cristo que indica com o dedo o cálice eucarístico para o qual está voltado o doce olhar dos três, o do Pai à direita e o do Espírito à esquerda. O círculo não está fechado, adiante há um espaço, oferecido a quem contempla o ícone, no convite silencioso do anjo central que indica a Eucaristia, através da qual, entramos na mais perfeita comunhão com a Trindade.

A festa da Santíssima Trindade é o espelho da nossa atitude profunda, é o segredo da nossa felicidade. O egoísmo é a nossa infelicidade. Somos convidados a olhar para a Trindade no projeto de construção da nossa comunidade: contemplando o amor da Trindade, a Igreja se dá conta de ser capaz de comunhão. Unidos na diversidade, no respeito do outro, no amor simples, concreto, benévolo, tornaremos o nosso ser Igreja esplendor deste inesperado Deus comunhão.

domingo, 16 de maio de 2010

PENTECOSTES: O ESPÍRITO SANTO É DEUS AGINDO NA TERRA

A festa judaica de Pentecostes (do grego = 50º dia) ou Shavuot (hebraico = sete semanas) era celebrada cinquenta dias após a Páscoa, quando se agradecia a Deus pela colheita do trigo (Ex 23,16). Desta festa agrícola, a festa de Pentecostes foi pouco a pouco se transformando numa festa histórica: um grande memorial da aliança de Deus com o seu povo.

Hoje, somos convidados a falar do Espírito Santo no modo mais explícito, por celebrarmos a solenidade do Pentecostes, ou seja, a descida do Paráclito sobre os Apóstolos e Maria Santíssima, reunidos no Cenáculo. Celebramos o início da missão da Igreja, que é enviada a levar em todos os tempos e lugares, o Evangelho e a graça da salvação em Jesus Cristo, e, por isso, forte e corajosa pela ação do Espírito Santo.

É tão difícil falar do Espírito Santo que, certamente, a melhor maneira para dizer algo da Terceira Pessoa da Santíssima Trindade, é o de escutar e ser dóceis à sua Palavra e às suas iluminações.

É o Espírito Santo quem faz a Igreja caminhar, renovando-a e transformando-a. É o Espírito Santo quem abre o nosso coração de cristão, purificando-o, curando-o e reconciliando-o, de modo que este supere as barreiras e nos leve à comunhão. É o Espírito de unidade na pluralidade de carismas e de culturas, tal como vemos no acontecimento de Pentecostes (I leitura).

Paulo atribui claramente ao Espírito Santo a capacidade de tornar a Igreja una e multíplice na pluralidade de dons, ministérios e atividades (II leitura).
Desta forma, a Igreja tem diante de si o desafio permanente de ser católica e missionária, de passar de Babel a Pentecostes, como nos lembra sempre o Papa Bento XVI: “O Ecumenismo, ou seja, a busca da unidade dos cristãos torna-se nesse nosso tempo, no qual se verifica o encontro das culturas e o desafio do secularismo, uma tarefa sempre mais urgente da Igreja católica... é indispensável uma boa formação histórica e doutrinal, que habilite ao necessário discernimento e ajude a entender a identidade específica de cada uma das comunidades, os elementos que dividem e aqueles que ajudam no caminho de construção da unidade”.

Cada um de nós recebeu do Espírito Santo dons e capacidades que devemos desenvolvê-los, multiplicá-los; não por um ponto de vista material: para realizar uma carreira ou interesses pessoais, para nos sentirmos mais inteligentes ou mais importantes do que os outros. Não! Isto seria um grande pecado. Pelo contrário, qualquer coisa que façamos só consegue o seu devido valor e a sua plenitude quando é vivida e desenvolvida para o bem do outro, seja em nível espiritual seja material. E é na parábola dos talentos que Jesus nos faz compreender que o verdadeiro e justo desenvolvimento dos talentos encontra seu sentido no amor ao próximo.

A este ponto, poderíamos nos perguntar: concluindo esta semana de oração pela unidade dos cristãos, temos consciência de que a nossa vida é cheia dos dons de Deus? Como usamos estes dons? Só para nós mesmos, para a nossa pastoral específica, para o nosso grupo, ou sabemos dispô-los aos outros? Com nossas atitudes, procuramos unir ou desunir? A festa de Pentecostes nos dá esta força do Espírito Santo que renova a nossa fé, o nosso fervor, o nosso empenho pela missão da Igreja de unir os cristãos: “Que todos sejam um”.

A II leitura da missa da vigília diz: “temos os primeiros frutos do Espírito”. E como sabemos por Gl 5,22, os frutos do Espírito Santo são: amor, alegria, paz, paciência, amabilidade, bondade, lealdade, mansidão e domínio próprio.

Sobre cada um destes podemos fazer o nosso exame de consciência: como vai o nosso amor? Consigo amar? Quando sou egoísta e peco contra a caridade? Vivo pelo bem do meu próximo ou sempre pelos meus interesses e pela minha “glória”, pela minha gratificação? Experimento a docilidade e a profundeza da presença do Espírito, quando vivo no amor humilde e sincero, desinteressado, construído no sacrifício e no dom e no esquecimento de mim mesmo? Imploro ao Espírito Santo que me ensine a amar verdadeiramente e a viver estas coisas na minha família, na paróquia, na comunidade?

Temos o Espírito Santo em nós quando experimentamos a alegria constante que vem de Deus, quando sentimos a sua paz, diferente da do mundo, já que resiste aos momentos difíceis. Sentimos isso?

Sei dominar os meus impulsos? Luto para aceitar os limites dos outros? Sinto a necessidade de recomeçar sempre? Aceito a mim mesmo? Sei rir de mim mesmo, das minhas pretensões, das minhas impaciências? Sou bom? Tenho “vontade de fazer o bem, ser compreensivo, aberto, generoso.

Temos sempre de lutar para conquistar! Lutamos contra as nossas asperezas? Lutamos contra a nossa mesquinhez? Não aceitamos o nosso egoísmo? Nos envergonhamos do nosso orgulho, temos horror das nossas maldades? Se há tudo isto em nós, é sinal de que o Espírito Santo palpita em nós, está bem vivo em nós.

Devemos ser pessoas de bom coração, pronto a perdoar sempre, desejosos de nunca fazer o mal, prontos a pagar o mal com o bem, generosos no julgar, desejosos do bem alheio, envergonhados quando desponta em nós a sombra da inveja, contentes só quando amamos a todos.

A lealdade, a fidelidade a Deus, a fidelidade aos irmãos, a fidelidade aos deveres, a fidelidade aos empenhos, a fidelidade às promessas, aos dons de Deus? Como vai? Fiéis ao amor, fiéis ao sacrifício, fiéis à palavra dada. Fiéis a Jesus Cristo e a seu Evangelho. Fiéis aos pobres. Somos fiéis à Igreja?

Um dos frutos que o mundo precisa muito hoje em dia, sem dúvida, unido aos outros, é o domínio de si, das palavras, das atitudes exteriores e interiores, a prontidão ao perdão, o medo de fazer o mal, de violentar a liberdade alheia. O autocontrole. O controle dos instintos, a capacidade de comandar a si mesmo, o domínio dos pensamentos, dos atos e das palavras, a capacidade de dominar a vontade em todas as coisas, dirigi-la ao bem, desviá-la do mal, observá-la nos perigos, freá-la nas ilusões: tudo isto é presença do Espírito.

Mas enfim, se não conseguimos muito, não fiquemos desanimados! Imploremos ao Divino Espírito Santo seus dons e seus frutos, e se não soubermos como pedir, lembremo-nos que é “o próprio Espírito que intercede em nosso favor, com gemidos inefáveis”. Lembrando que o texto afirma com toda clareza que quem intercede com gemidos inexprimíveis (ou seja, que o autor dos gemidos é o próprio Espírito Santo e não nós e que seus gemidos são inexprimíveis, ou seja, não se pode exprimir com palavras).

domingo, 9 de maio de 2010

ASCENSÃO DO SENHOR – Lc 24,46-53

SOMOS TESTEMUNHAS DO PERDÃO QUE DEUS OFERECE A TODOS

Jesus morreu de modo desumano numa cruz. Parecia até que os seus inimigos tinham razão quando diziam que sua obra tinha fracassado. Até mesmo os seus discípulos ficaram um pouco confusos e decepcionados (discípulos de Emaús).

Entretanto, o próprio Jesus Ressuscitado convence os seus discípulos de estar vivo. Ele aparece a muitos deles, cancelando-lhes toda espécie de dúvida quanto a sua ressurreição (Tomé). Seguindo esta trajetória, no domingo passado, Jesus lhes falava: “Vou, mas voltarei a vós”; “se me amásseis, ficaríeis alegres porque vou para o Pai...”

Hoje, o Evangelho fala que a estes discípulos, Jesus promete o Espírito Santo para a compreensão das Escrituras, já que eles não têm capacidade de compreendê-las a não ser por um precioso dom do Ressuscitado: o cumprimento delas. Jesus promete revestir seus discípulos com o poder do alto, lhes mandará o Espírito Santo, que os tornará capazes de anunciar com convicção e coragem a sua obra e a sua ressurreição.

Jesus Ressuscitado é a chave para toda e qualquer interpretação das Escrituras. É o plano de salvação que deve ser anunciado a todos os povos para a conversão e o perdão dos pecados. Os discípulos devem começar esta pregação em Jerusalém, lugar onde se realizou a missão de Jesus: “permanecei na cidade”.

Depois de ter convencido os discípulos de diversos modos da sua ressurreição e de tê-los preparado e capacitado para a missão, Jesus os conduz para perto de Betânia e se despede deles com as mãos levantadas, abençoando-os. Concede a eles toda a força da sua bênção, o que os sustentará durante a vida deles.

Também Deus quando terminou a criação, abençoou o sétimo dia. Isaac e Jacó, despedindo-se, abençoaram a sua descendência. Também na nossa região vemos este belo costume judaico de pedir a bênção aos nossos pais, principalmente quando nos despedimos deles seja para dormir ou para viajar e esperamos que nunca desapareça tal costume.

A bênção final da Missa também apresenta este significado: quer conservar-nos na vida e na salvação durante todos os momentos do nosso dia-a-dia. Jesus não fica no altar, mas ele segue dentro de cada um de nós.

Finalmente, depois de toda esta caminhada junto com os seus discípulos, Jesus foi levado para o céu: subiu aos céus, está sentado à direita de Deus Pai todo-poderoso; é o que professamos no Credo. O ato da ascensão constitui a glorificação de Jesus no instante mesmo da sua ressurreição. Não devemos entender a ascensão de Jesus como um voo semelhante ao do Smallville ou de um foguete rumo ao espaço. Nem como os espíritos esbranquiçados que aparecem nas novelas da Globo e vão subindo lentamente até desaparecerem entre as nuvens, como podemos ver na novela das seis de temática espírita: “Escrito nas estrelas”.

A ascensão narrada no Evangelho tem uma característica simbólica, realmente Jesus ascendeu, mas de uma forma transcendental que para os escritores daquele tempo e ainda hoje, não podemos descrever a não ser simbolicamente até porque não sabemos como é o outro mundo, o da dimensão divina.

O “Céu” não deve ser entendido aqui em sentido cosmológico, como a esfera sobre a terra, mas num sentido teológico, como o âmbito da presença de Deus. Já no momento da sua Ressurreição, Jesus entrou na sua glória. A ascensão e o desaparecer diante dos discípulos são sinal de que as aparições terminaram. Por fim, Lucas conclui o seu Evangelho, dizendo que os discípulos louvavam continuamente a Deus no templo.

Para nós, hoje é dia de grande esperança: um homem com o seu corpo, não só volta à vida, mas chega àquela plenitude de vida divina e eterna que Deus tinha prometido desde a criação do mundo para cada um de nós. Se somos cristãos autênticos, se tivermos tido a graça de conhecer com clareza e certeza o nosso fim, não é porque somos melhores do que os outros, o privilégio existe para uma missão. O mundo espera este anúncio, o qual nós devemos gritar com o nosso testemunho de vida. O futuro, a morte já não amedronta, porque Cristo nos disse: “eu vou preparar para vós um lugar”.
Deixemos de lado, então, essa influência do mundo virtual. E, ao invés, de gastarmos tempo procurando Jesus entre as nuvens do céu, vamos procurá-lo no nosso dia-a-dia. É lá onde Jesus habita hoje: em meio a este mundo conturbado. Jesus se encontra no rosto pobre e sofrido do irmão que tratamos mal e não o perdoamos. O Senhor nos diz que é possível construir aqui e agora o seu Reino. A ascensão marca o início da Igreja, o início de uma nova aventura, da qual somos os protagonistas.

Que o “Deus de nosso Jesus Cristo nos dê um espírito de sabedoria para que possamos abrir nosso coração à sua luz, para que saibamos qual a esperança que o nosso chamamento nos dá, e que imenso poder ele exerceu em favor de nós que cremos, de acordo com a sua força e ação onipotente”.

domingo, 2 de maio de 2010

VI DOMINGO DA PÁSCOA – Jo 14,23-29

 

Que Deus nos dê a “sua” paz

“Como eu vos amei, assim também vós deveis amar-vos uns ao outros”. Amar-nos mutuamente com o mesmo amor com o qual Jesus nos amou é o único modo pelo qual todos podem reconhecer que nós somos os seus seguidores. O Bom Pastor nos disse isto com muita clareza no domingo passado. Hoje, continuando o assunto, nos diz como demonstrar o nosso amor por ele e pelo Pai. De fato, se o nosso amor pelo próximo não transparece no modo como o tratamos (tratá-lo bem), como demonstramos ao Senhor que o amamos? Podemos dizer-lhe com as palavras... Mas as palavras nem sempre correspondem às nossas atitudes.

Concretamente, como poderemos mostrar a Deus Pai que o amamos? Ensina-nos o próprio Jesus: “se alguém me ama, observa a minha palavra... quem não me ama, não observa as minhas palavras”. Parece tudo tão simples, mas não o é. Só podemos demonstrar a Deus que o amamos, escutando a sua Palavra, conservando-a no coração e colocando-a em prática. É importante escutar com atenção a Palavra de Jesus e do mesmo jeito é importante colocá-la em prática, isto é, fazer o que ele nos pede, caminhar seguindo os seus passos.

Assim, se na missa dominical, ouvimos a Palavra de Deus, e talvez até a escutemos com atenção, mas depois que saímos da igreja, nos esquecemos completamente do que ouvimos, a que serve? Pior ainda, se passamos a semana inteira fazendo exatamente o contrário daquilo que Jesus nos ensinou; no fundo, estamos demonstrando que ele não importa muito para nós. É como se disséssemos com as palavras: te amo, Senhor; mas, eu faço as coisas do jeito que eu quero. Esta atitude não parece mesmo um modo para mostrar a Deus que queremos bem a ele. Pelo contrário, se não guardamos os seus mandamentos, não o amamos.

Todos, queremos guardar as palavras de Jesus no nosso coração, e para isso, ele nos assegura que o Espírito Santo enviado do Pai nos recordará tudo: “o Espírito Santo que o Pai mandará em meu nome, vos ensinará tudo e vos recordará tudo o que eu vos disse”. Se nós ficarmos atentos à Palavra de Deus, com certeza, quando precisarmos, o Espírito Santo que está em nós nos ajudará a lembrar e a entender as palavras de Jesus no momento justo.

Por exemplo, acontece algo na nossa vida, principalmente quando alguém nos machuca; imediatamente, ficamos com raiva, pensando numa maneira de como não ficar por baixo. A carne imediatamente pede vingança. Mas se tivermos escutado bem o Evangelho, com certeza, o Espírito Santo nos fará lembrar como devemos nos comportar neste momento: “amai-vos uns aos outros”. Deus nos lembra que devemos fazer o correto, mesmo que seja difícil.

Mas como é possível que naquele momento nos lembremos daquela palavra de Jesus? Temos que confiar que o Espírito Santo nos lembrará e nos dará o fruto do auto-controle; e ele nos dá de verdade, mesmo que nós finjamos ser meio lerdos porque queremos ceder à carne, mas sabemos lá no fundo o que realmente devemos fazer de correto.

Na verdade, isso é um fato recorrente na nossa vida: sempre haverá alguém que cometa injustiça contra nós. E isto pode acontecer por pessoas diferentes em momentos diferentes. Podem ser até mesmo pessoas da Igreja que sempre frequentamos e que se supõe que vivamos em paz e não haja ciúmes nem invejas entre nós. Mas, de fato, isto acontece e a inclinação do ser humano é revidar essas pessoas. Mas temos que deixar pra lá e deixar que Deus resolva estes problemas na nossa vida; afinal, o Evangelho diz: o Espírito Santo é o nosso “defensor”.

Ao invés de se vingar, Deus quer que nós confiemos nele. E para isto, requer-se verdadeiramente muita confiança. Podemos nos lembrar de Pedro que estava sofrendo continuamente irritações talvez de João a ponto de perguntar a Jesus quantas vezes devia perdoar? Tanto que depois de saber com que morte iria glorificar a Deus, Pedro se preocupa logo em perguntar com relação a João: “e a este, o que acontecerá?” (Jo 21,21). Ou como nos mostra a primeira leitura de hoje quantas confusões, irritações, discussões que Paulo e Barnabé tiveram que enfrentar por causa da entrada dos pagãos no cristianismo. Pior, mais tarde, os dois brigam tanto que cada um segue uma direção diferente (At 15,39).

Precisamos entender que quando tentamos resolver a situação com as nossas próprias mãos, fechamos o caminho para Deus provar o que está certo e o que está errado. Se estivermos certos, mesmo que sejamos silenciados, Deus tem as suas formas de provar que estamos certos ou errados sem que tenhamos que afrontar ninguém.

O que Deus nos pede sim é que amemos nossos inimigos, rezemos pelos que nos perseguem, façamos o bem a quem nos faz o mal, abençoemos a quem nos amaldiçoa e deixemos que o resto ele faz. Uma coisa é certa, se formos responder às ofensas, Deus não poderá nos abençoar, porque a ofensa é uma obra do diabo, é contrária ao amor.

O grande problema aqui é que nem sempre temos paciência de esperar pelo tempo de Deus, porque no fundo nem sempre confiamos se ele fará isso mesmo. Mas, enfim, não é que nós um dia vamos deixar de sentir vontade de revidar as ofensas, mas temos que aprender a controlar esse desejo e decididamente não se vingar, não cedermos nunca a essa tentação. Temos que ser mansos e pacificadores, como nos diz Jesus nos sermão da montanha.

Para isto, ele nos dá a sua paz: “eu vos dou a paz, eu vos dou a minha paz. Não como o mundo dá, eu a dou a vós. Que não se turbe o vosso coração e não tenhais medo”. Quando estivermos tristes, preocupados, irritados, com medo, é muito bom pensar nestas palavras. É o próprio Jesus quem nos assegura: “não tenham medo nem fiquem tristes. Não vos inquieteis com aquilo que acontece a vocês, porque eu dou um dom precioso: a minha paz”.

A paz que Jesus nos dá é diferente da que o mundo dá. Não é somente a ausência de guerra, o viver em segurança e tranquilidade, a tolerância. Não! É uma paz que brota do amor e uma paz que conseguimos ter mesmo em tempo de dificuldade e provação. É uma paz que nos torna capaz de reconhecer no rosto de quem está ao nosso lado um irmão para amar, apesar de tudo.

O Espírito Santo é o nosso Defensor!