quinta-feira, 15 de abril de 2010

III DOMINGO DA PÁSCOA – Jo 21,1-19

No domingo passado, nós vimos como Jesus fez Tomé crescer na fé. Hoje nós vemos como Jesus faz o grupo dos discípulos (em especial Pedro) crescer na fé e no amor por Ele. Jesus se manifesta aos apóstolos no Lago de Tiberíades, e, depois da pesca milagrosa, tem um belo e profundo diálogo com Pedro.

Nós vamos falar sobre a aparência (aparição) de Jesus, embora o termo comumente usado não expresse o verdadeiro significado profundo do evento, pois, na realidade, o que chamamos de "aparência" na língua grega do Novo Testamento é um “fazer-se ver”, um encontro entre pessoas, do qual nasce um reconhecimento, um diálogo, um compromisso; e para que isso aconteça, é necessária a luz da fé, ou seja, não basta a luz da nossa inteligência limitada.

Por isso, diante desta dificuldade, é muito oportuno que cada um antes de tudo peça ao Espírito Santo a luz da fé para reconhecer o Cristo Ressuscitado, o Cristo vivo e presente hoje, o mesmo daquele tempo quando os fatos ocorreram e que o evangelista narra. A dificuldade realmente existiu visto que nem as mulheres nem os discípulos de Emaús e nem mesmo os discípulos que aparecem no texto de hoje puderam reconhecer o Cristo Senhor, a não ser a partir do momento em que ele mostrou "sinais" que iluminaram a mente e o coração deles.

João começa o relato dizendo que: "Jesus apareceu de novo aos discípulos, à beira do mar de Tiberíades (segundo o texto de João, esta é a terceira aparição aos discípulos)..."; o texto cita, um por um, os discípulos que voltaram ao seu trabalho habitual, isto é, de pescadores; voltaram ao trabalho duro, insidioso e muitas vezes ingrato, como novamente o texto mostra: não pescaram nada naquela noite, e assim retornam à margem.

Já tinha amanhecido, e de pé na margem do Lago, estava Jesus, mas não puderam reconhecê-lo; na verdade, Jesus apareceu exatamente para iluminar suas mente com os sinais que traziam à memória as experiências que já tinham vivido com o Mestre, o mesmo Jesus Cristo, que agora tornava a se encontrar com eles, depois de ter vencido a morte a fim de que eles o reconhecessem.

E eis o primeiro sinal: uma pesca prodigiosa; aquele desconhecido que estava à beira do mar pede algo para comer, mas os apóstolos voltando de uma pesca inútil, não tinham nada em suas mãos; assim, Jesus os convida a lançar de novo as redes: "Lançai a rede à direita da barca e achareis... lançaram e não conseguiam puxá-la para fora por causa da grande quantidade de peixes”.

Nesse momento um deles se lembrou de ter já vivido aquela experiência e reconheceu que aquele desconhecido se tratava do Mestre; era o discípulo amado, João, iluminado pela fé e a força do amor, e não há outra maneira de encontrar o Cristo Ressuscitado, a não ser através da fé e do amor, um caminho em que parece João correr por primeiro, enquanto Pedro parece vir um pouco mais tarde, embora na realidade, seja a intuição profunda, de quem ama, seja a disponibilidade e a generosidade do serviço, típico de Pedro, são características de quem quer ser discípulo de Cristo.

Há no Evangelho de hoje um outro grande sinal, com o qual Jesus, mais do que fazer-se reconhecer, faz-se encontro, faz-se dom aos seus, lá mesmo em Tiberíades, e é aquele convite a comer algo juntos: "Vinde comer”. Diz a eles e assim repete um dos gestos mais simbólicos e grandes de toda a sua vida terrena: o serviço durantes as refeições e o pão partido no qual oferece o seu corpo em resgate por todos.

À beira do mar, aquele gesto de distribuir o peixe assado na brasa com o pão, se torna silenciosa, viva memória da multiplicação dos pães; mais, se torna um memorial da Última Ceia, na qual o Filho de Deus, já perto da morte, cumpre um gesto de amor extremo, um sinal da sua dedicação total, que é sua verdadeira identidade, a identidade de um Deus que é Dom, e se fez homem para doar a si mesmo.

Os sinais com os quais Jesus Ressuscitado se encontra com os discípulos de modo que estes o reconheçam, são como raios de luz que iluminam e reforçam nossa fé, através de sinais que fortalecem o amor, que por várias razões também pode desaparecer, mas que Cristo espera sempre dos seus, porque a eles ele confiou a missão de evangelizar o mundo, de modo que a salvação chegue a todos os homens.

E nessa continuação, surge então aquele bonito, forte, sugestivo diálogo com Pedro, que conclui o Evangelho deste domingo. Depois de comerem, Jesus perguntou a Simão Pedro: "Simão, filho de João, tu me amas mais do que a estes?". Pedro respondeu: "Sim, Senhor, tu sabes que eu quero bem a você” (tradução correta). Disse: "Apascenta os meus cordeiros." Jesus repetiu essa pergunta três vezes, ele certamente conhecia a generosidade de Pedro e seu amor pelo Mestre, mas ele também sabia da fragilidade e, agora, a lealdade de um pescador a quem tinha confiado a sua Igreja, transformado-o em um pescador de homens. Cristo insiste na pergunta: "Simão, filho de João, tu me amas?", e Simão, certamente ficava pensando na angústia da noite em que havia negado o Senhor, antes do galo cantar três vezes. Negou por medo, mas agora, o encontro com o Senhor Ressuscitado, muda tudo, agora Cristo o transforma e confia-lhe todos os seus irmãos, todos eles veem a luz do mundo e que um homem escolhido por Deus e investido no mesmo ministério de Pedro, confirmará a fé de todos nós a caminho da salvação.

Na verdade, tudo gira em torno das três perguntas de Jesus. Na tradução correta dos verbos gregos usados, Jesus primeiramente pergunta se Pedro é capaz de AMÁ-LO, dar a vida por ele, o que Pedro já tinha prometido antes de negá-lo. Mas Pedro responde dizendo que quer bem ao Senhor, não usa o verbo amar, usa o verbo de querer bem, de que Jesus é importante para ele.

Na segunda vez, Jesus tira “o mais que a estes”. Pedro responde da mesma forma. Já na terceira vez, Jesus pergunta se Pedro pelo menos lhe quer bem. De fato, o amor de Pedro é sincero e verdadeiro. Pedro fica triste porque se dá conta de que seu amor por mais sincero que seja, não corresponde ao que Jesus pede. Por isso, ele diz: Senhor, tu sabes tudo. Tu sabes que há pouco tempo, eu fracassei no meu amor por ti.

Por isso, Jesus diz: segue-me. Caminhe atrás de mim e não na minha frente como quiseste fazer querendo mudar o plano de Deus. Sou eu quem indica a estrada. E Jesus ainda dá um exemplo: quando somos imaturos, jovens, achamos que temos a razão de tudo e que vamos mudar o mundo, somos nós que decidimos como “nos vestimos e pomos o cíngulo na cintura”, mas quando somos velhos, maduros, crescidos no modo de amar, deixaremos de nos cingir a veste, ou seja, amar com um modo de amar que não é o nosso.

Um modo de amar que vem de outro e que nos levará aonde não queremos ir. Como de fato, Pedro que pensava não poder realizar este tipo de amor, conseguiu passar de uma consciência de um amor imaturo para um amor maduro, pra onde Cristo os quis levar a ponto de dar a sua vida por Cristo no martírio.

Por isso, olhemos fixos para Cristo Ressuscitado, e com Pedro, reafirmemos o nosso amor – doação até o fim, pois o amor é realmente um dom inesgotável de si mesmo.

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