quarta-feira, 7 de abril de 2010

II DOMINGO DA PÁSCOA – ANO C

Do medo à paz, da dúvida à fé

O Evangelho deste II Domingo de Páscoa nos informa que “ao anoitecer daquele dia, o primeiro da semana”, os discípulos se encontravam num lugar a portas fechadas por MEDO dos judeus.

Quem nunca sentiu um medinho ou um medão na vida? Todos nós sem exceção temos medo de algumas coisas. Pode ser o medo de cair, de andar de avião, de dirigir, de uma bala perdida, de ser assaltado, de perder algo, de ser traído, de mudar, do escuro, de feitiço, de ventania, relâmpago e trovão, da morte, de terroristas, de envelhecer, do fracasso, de ouvir a verdade, de adoecer, da solidão, da rejeição, da indiferença, da arrogância, do preconceito, da ignorância, da corrupção, da inveja, do futuro, da responsabilidade, de falar em público, de ter que lidar com gente de má índole, de casar, de que o casamento não dê certo, de errar, de enchentes, de tremores de terra, de perder o emprego, de rã, de aranha, de rato, de guerra, e, enfim, medo de ter medo.

O medo sempre existiu e é um sentimento que proporciona um estado de alerta e que provoca reações físicas como descarga de adrenalina, aceleração cardíaca, suor, entre outros. Deve ser considerado como algo normal na nossa vida, e de modo equilibrado necessitamos dele.

O problema é quando o medo vira doença, e o mundo está ficando assim. A resposta anterior ao medo é conhecida por ansiedade. Na ansiedade, a pessoa teme antecipadamente o encontro com a situação ou objeto que lhe causa medo. Sendo assim, é possível se traçar uma escala de graus de medo, no qual, o máximo seria o pavor, o pânico, sofrimento psíquico.

Mas o medo faz parte do cotidiano de todos nós. Não há quem escape do medo, nem mesmo Jesus. Fazendo-se homem em tudo, menos no pecado, ele experimentou no jardim do Getsêmani um ataque de pânico tão grande que chegou a suar sangue (hematridose: a emoção, o medo, o terror, o susto, a angústia, a tensão é tão extrema que produz o rompimento das finíssimas veias capilares que estão sob as glândulas sudoríparas, o sangue se mistura ao suor e se concentra sobre a pele).
Jesus passou por tudo isso, primeiramente para nos mostrar que não devemos ter vergonha de ter medo, o que piora ainda mais a situação; depois, para nos ensinar que nunca devemos fugir do medo, mas olhá-lo com consciência e enfrentá-lo. Cada um conhece os seus medos. Todo mundo tem medo de alguma coisa. O medo não pode simplesmente desaparecer, mas também não podemos deixar que ele nos domine. E a primeira reação que nos vem à mente é fugir. Entretanto, Jesus não fugiu da cruz, foi reconhecendo a sua fraqueza humana de medo, de angústia, de pavor, que obteve de Deus a paz para abraçar o seu destino com toda serenidade.

É preciso permitir-se sentir medo. E, no final de contas, compreender que o que importa não é o fato de não sentir medo, mas de deixar que ele nos leve a Deus. É o medo, que, no fundo, nos convence que só podemos nos sustentar em Deus. Nós, os continuadores da missão de Jesus, não devemos nos fechar no medo diante das provações, dos desafios, das perseguições do mundo, mas devemos nos abrir ao dom que o Ressuscitado vem nos trazer: “A paz esteja convosco!” Não é uma saudação, mas é a PAZ que Ele tinha prometido quando eles se encontravam aflitos por causa de Sua partida.

Jesus Ressuscitado não liberta os discípulos das aflições do mundo, mas lhes oferece segurança e serena confiança. É uma paz diferente da que o mundo oferece. É uma paz que resiste aos problemas, às provações, vence o medo. É a paz messiânica, o cumprimento das promessas de Deus, uma força para fazermos as coisas mesmo com medo, é a vitória sobre o pecado e sobre a morte, a reconciliação com Deus, tudo isto como fruto de sua paixão e morte de cruz.

Jesus mostra suas chagas nas mãos e no lado, comprovando assim que Ele é verdadeiramente aquele que foi crucificado. Não precisa ter medo, ele não é um fantasma. Os discípulos devem ver que Ele efetivamente passou pela morte, e venceu-a. Mostrando as feridas, Jesus quer também evidenciar que a paz que Ele dá vem da cruz. Jesus torna-se para sempre o fundamento seguro da paz. E novamente, ele concede a paz aos seus discípulos e associa este gesto a sua missão. Somente se estes forem repletos de sua paz, poderão cumprir a missão a eles confiada, vencendo a rejeição e o ódio que deverão enfrentar. Para esta missão, Jesus sopra nos discípulos o Espírito Santo. Este gesto recorda o sopro de Deus que dá a vida ao homem. É sinal de uma nova criação: “Recebei o Espírito Santo!”
Aqui se trata da transmissão do Espírito Santo para uma missão particular. Enquanto no Pentecostes é a descida do Espírito Santo sobre todo o povo de Deus, aqui, Jesus concede o poder de perdoar ou não perdoar os pecados a um grupo específico de pessoas. É Deus quem tem o poder de perdoar os pecados. Jesus concede este poder e o transmite à sua Igreja através dos discípulos. Convém lembrar que trata-se aqui do “sacramento da reconciliação” praticado em diversas formas no curso da história da Igreja.

O “reter os pecados” não é uma condenação, mas é um renovado apelo à conversão.
Num segundo momento do relato, nos deparamos com Tomé, chamado Dídimo (=gêmeo). Este não estava presente quando Jesus apareceu por primeira vez ao grupo. Estes lhe relatam: “Vimos o Senhor!”. Mas Tomé não acreditara no que eles tinham dito, ele mesmo quer comprovar.
É muito importante esta parte do Evangelho para nós, leitores de hoje, pois, de fato, não vimos Jesus Ressuscitado. E neste ponto, somos irmãos gêmeos de Tomé. Frequentemente, na nossa vida, os outros nos contam o que fazem de bom ou o que viram de bom e muitas vezes não acreditamos. Por que acontece isto? Quando temos uma facilidade impressionante para acreditarmos em difamações muitas sem pé nem cabeça.
Pois é, as coisas boas sempre queremos comprová-las para confiar. Tomé escuta dos outros que Jesus está vivo. E se não for verdade? Se fosse uma ilusão pelo desejo ardente de ver Jesus? Ele é prudente. Pensa aí se nenhum dos discípulos tivesse tocado nem tivesse dito que viu Jesus depois da sua morte. Acreditaríamos? Parte daí o interesse para buscar provas. Jesus não vê em Tomé uma pessoa totalmente descrente, mas um homem que na sua dúvida, busca a VERDADE. E Jesus ajuda Tomé. Ele tem compaixão de Tomé porque sabe que este ainda não tem a paz que vem da fé, por isso o satisfaz plenamente: “põe, Tomé, o teu dedo nas minhas chagas”.

Bom pra nós que hoje sabemos que os apóstolos viram e tocaram as feridas das mãos e do lado de Jesus; portanto, Ele ressuscitou verdadeiramente! E Ele nos deixa um recado precioso: “Bem aventurados aqueles acreditarem sem me terem visto!” De fato, os últimos dois versículos do Evangelho afirmam que este foi escrito para que creiamos que Jesus é o Messias e para que, acreditando, tenhamos vida por meio Dele!
1. Permito que o medo me feche, me paralise e me impeça de crescer? Me abro aos outros?

2. Procuro receber a paz que Jesus quer me dar?

3. Reconheço que o mesmo Jesus crucificado é o mesmo Ressuscitado?

4. Imploro a ação do Espírito Santo na minha vida?

5. Sinto-me enviado por Jesus?

6. Me abro ao perdão? Tenho dificuldade em perdoar o próximo?

7. O que há de Tomé em meu coração neste momento da minha vida: desânimo, falta de fé, dúvida, soberba?

8. Como me esforço para dizer como Tomé: “Meu Senhor e Meu Deus”? Sou consciente e aceito que a fé diz respeito a coisas que não posso ver, pegar etc?

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