segunda-feira, 26 de abril de 2010

V DOMINGO DA PÁSCOA - Jo 13,31-33a.34-35

 

AMAR COMO JESUS AMOU

O contexto do Evangelho deste V Domingo da Páscoa é aquele da Última Ceia. Depois que Jesus anuncia a traição de Judas, este deixa o cenáculo, e, daí em diante, seguem-se a prisão, a condenação e a morte de Jesus. Depois disso, Judas se perde numa grande escuridão a ponto de não encontrar saída, e se desespera.

Jesus, por sua vez, começa a falar de glorificação, de revelação no esplendor da luz. É da morte, pela qual deveria ser destruído, que ele ressurge como luz para o mundo.
Esta luz irradia a hora da despedida, momento difícil para os discípulos. Somente nesta passagem, Jesus se dirige a eles com o diminutivo: “filhinhos”, uma expressão de amor, de cuidado. Até aquele momento, Jesus está com seus discípulos e os protege. Agora, ele terá que morrer. Os discípulos não o seguirão na sua morte nem na sua glória; por isso, Jesus os prepara para este período de separação: “por pouco tempo ainda estou convosco”.

Com o mandamento: “amai-vos uns aos outros. Como eu vos amei, assim também vós deveis amar-vos uns aos outros”, Jesus mostra aos discípulos o modo como ele continuará a estar presente no meio deles e determina como devem se comportar. Estes devem se orientar pelo amor que receberam de Jesus, e este amor em cada um deve representar para o outro o próprio amor de Jesus, aceitando o outro como ele é, ajudando-o, prestando atenção às suas necessidades, exatamente como fazia Jesus.

A palavra que frequentemente aparece nas leituras bíblicas deste domingo e que constitui o ponto determinante do mandamento de Jesus é o adjetivo “novo”. João diz: “vi um novo céu e uma nova terra... a nova Jerusalém”; o próprio Deus diz: “Eis que eu faço novas todas as coisas”; finalmente, Jesus diz: “vos dou um novo mandamento”.

Mas, enfim, em que consiste a novidade deste mandamento, se este era conhecido desde o AT e por que Jesus o declara como “seu”?

Porque só agora, com ele, este mandamento torna-se possível. Antes, as pessoas se amavam porque eram parentes, aliadas, amigas, membros de uma mesma tribo, isto é, se amavam por alguma coisa que as unia entre si, separando-as de outras pessoas. Agora, é necessário ir mais além: amar quem nos persegue, amar os inimigos, aqueles que não nos amam. Amar o irmão pelo bem dele mesmo e não por aquilo que ele pode me oferecer. É a palavra “próximo” que muda de conteúdo; esta compreende não somente quem está perto, mas qualquer pessoa, a qual, devemos torná-la próxima.

O mandamento de Cristo é novo pelo seu conteúdo, e mais ainda pela sua possibilidade. Jesus viveu o amor até as últimas consequências: até o ponto de nos perdoar e morrer por nós. Amando-nos, Jesus nos redimiu: tornou-nos filhos do mesmo Pai e irmãos, pelo qual devemos e podemos nos amar.

Há um motivo pelo qual cada um de nós, qualquer que seja a sua situação, pode e deve ser amado: o motivo é que somos amados por Deus e ele quer nos salvar. O motivo não é o da aparência: beleza, simpatia, juventude, mas a realidade “nova” criada por Cristo. Por essa razão, este amor novo encontra a sua manifestação mais autêntica não no cumprimentar quem nos cumprimenta, nem no convidar quem nos convida, mas no amar quem tem menos motivos para ser amado: o excluído, e principalmente, o inimigo, porque neste caso é claro que não se ama o irmão por aquilo que ele tem ou pode nos dar, mas somente por aquilo que ele é aos olhos da fé.

O mandamento de Cristo é “novo” porque renova, é capaz de mudar a face da terra, de transformar as relações humanas. Como o mundo tem necessidade deste amor? Nos vários problemas que assolam o mundo em que vivemos é natural ficar se lamentando, apontando o dedo sobre qualquer forma de ódio, violência e maldade. Mas isto não serve para nada, apenas para continuarmos no mesmo lugar onde estamos. Acredito firmemente que cada um de nós pode viver e oferecer a este nosso mundo um pouco de amor, gestos de amor, de justiça, de verdade, de paz: se nos unirmos a tantos outros podemos contribuir para a transformação de tantas coisas. Lembremo-nos que seremos conhecidos como discípulos de Jesus pelo nosso amor para com o próximo e a medida deste amor é o modo como ele amou.

terça-feira, 20 de abril de 2010

IV DOMINGO DA PÁSCOA - Jo 10,27-30

 

SEGUROS NOS BRAÇOS DO PASTOR

O Evangelho deste domingo nos propõe uma imagem que Jesus utilizava frequentemente para definir a relação entre ele e quem o segue, quem o conhece profundamente. A imagem é a do pastor e das ovelhas, onde ele é o pastor e nós todos que O ENCONTRAMOS e O SEGUIMOS somos o rebanho que ele guia.

Mas por que Jesus usa exatamente esta imagem e não outra?

Basta recordar a parábola da ovelhinha perdida ou ainda a passagem quando Jesus diz que é o Bom Pastor que nunca abandonará as suas ovelhas como faria facilmente um mercenário?! Em todas estas circunstâncias, Jesus falava tendo diante de si pessoas que sabiam perfeitamente que tipo de cansaço e dedicação se requer para guiar um rebanho de ovelhas! Entre as pessoas que o escutavam, de fato, havia pastores e naquele tempo, o rebanho representava tudo para o pastor, porque era a única fonte de renda, de sobrevivência.

Durante a noite, os pastores tinham que proteger as ovelhas dos animais selvagens como os lobos, as raposas, e os ladrões que tentavam roubá-las; durante o dia, tinham que conduzir o rebanho a boas pastagens, a fim de que pudessem crescer e alimentar-se com abundância. É uma imagem que era bastante conhecida e difundida naquela época.

Mas para nós que quase nos desligamos do mundo rural, talvez seja difícil entender a relação que liga um pastor a seu rebanho. Talvez no melhor dos casos, poderíamos compreender um pouco quando em casa temos um cachorro ou um gato de estimação, dos quais cuidamos com carinho e que nos fazem companhia, mas a diferença é que eles não são essenciais para a nossa sobrevivência. Seria uma pena perdê-los, mas diferentemente dos pastores do tempo de Jesus que dependia das suas ovelhas para se sustentar, continuaríamos a viver normalmente.

Falando exatamente da imagem que nos oferece o Evangelho de João, é bom refletir também sobre o significado depreciativo às vezes damos à ovelha. A ovelha normalmente é descrita como sem caráter, como animais que seguem o patrão sem entender, enfim, muito tolas. Para piorar, as expressões mais em voga com o termo “ovelha” sempre assumem um significado ofensivo: é considerada uma ovelha uma pessoa rebelde: “ovelha negra”; ou uma pessoa que é sem iniciativa, um maria-vai-com-as-outras. Um rebanho de ovelhas é visto como uma massa anônima onde a personalidade de cada uma desaparece.

Na verdade, a ovelha é um animal dócil. Mas o aspecto que Jesus sublinha não é somente a docilidade destes animais. As ovelhas, não são predadoras, não caçam e não têm mecanismos de defesa como os outros animais; para crescer e se defender, confiam unicamente no seu pastor, para o qual recordamos são o bem mais precioso! Também embora sejam mansas e dóceis, as ovelhas sabem identificar aquele que pode salvá-las e que é disposto a vigiar durante a noite inteira para protegê-las dos perigos, aquele que está disposto a caminhar quilômetros para buscar pastagens melhores.

O bom pastor conhece cada uma de suas ovelhas, elas não são anônimas; ele se preocupa por cada uma delas, conta-as quando retornam ao curral a fim de que nenhuma se perca e se for o caso, deixa as outras para buscar aquela perdida.

O homem de hoje se sente sempre mais deprimido e frustrado como pessoa. O que o deprime, sobretudo, é a violência, a brutalidade da vida, a exploração dos pobres por parte dos ricos, a manipulação política da opinião pública com a finalidade de ganhar poder. O homem se sente só, contra todos e tudo, abandonado, perdido... como ovelha sem pastor.

A figura de Jesus como Bom Pastor inverte tudo isto. Jesus Pastor instaura uma relação pessoal com cada um de nós, relação de amor, de afeto; uma relação onde não é possível naufragar no anonimato. Ele nos conhece, nós o conhecemos. Sentimos a presença dele perto de nós em cada instante da nossa vida, interessado com amor na nossa aventura humana. Nós somos as ovelhas enfermas, cansadas, abandonadas, objeto para sempre da sua promessa e da sua bem-aventurança: “elas jamais se perderão”. Por nós, ele está disposto a dar a sua vida.

É um amor que se manifesta sob a forma de proteção: “ninguém vai arrancá-las de minha mão. Meu Pai, que me deu estas ovelhas, é maior que todos, e ninguém pode arrebatá-las da mão do Pai”. Estamos seguros nos braços de Jesus e ele, para que nos sintamos ainda mais protegidos, nos põe nas mãos do Pai. Estamos seguros nos braços do Bom Pastor, que nos conduz com amor. Somos chamados por Deus pelo nosso verdadeiro nome, assim como só Deus pode nos chamar: com a voz única de um Deus apaixonado pela sua criatura. As ovelhas podem escutar a sua voz, porque ele, obviamente, as chama. A voz expressa um apelo, caracterizado por um timbre pessoal que chama a uma pessoa em particular, a qual reconhece pela voz de quem a chama.

Portanto, Jesus não quer nos ofender comparando-nos à ovelhas, mas indicar as qualidades necessárias para permanecer na amizade com Ele: escutá-lo para poder reconhecer a sua voz, confiar nele e segui-lo seguros que nos conduzirá onde haverá o melhor para que nós tenhamos vida em plenitude!

quinta-feira, 15 de abril de 2010

III DOMINGO DA PÁSCOA – Jo 21,1-19

No domingo passado, nós vimos como Jesus fez Tomé crescer na fé. Hoje nós vemos como Jesus faz o grupo dos discípulos (em especial Pedro) crescer na fé e no amor por Ele. Jesus se manifesta aos apóstolos no Lago de Tiberíades, e, depois da pesca milagrosa, tem um belo e profundo diálogo com Pedro.

Nós vamos falar sobre a aparência (aparição) de Jesus, embora o termo comumente usado não expresse o verdadeiro significado profundo do evento, pois, na realidade, o que chamamos de "aparência" na língua grega do Novo Testamento é um “fazer-se ver”, um encontro entre pessoas, do qual nasce um reconhecimento, um diálogo, um compromisso; e para que isso aconteça, é necessária a luz da fé, ou seja, não basta a luz da nossa inteligência limitada.

Por isso, diante desta dificuldade, é muito oportuno que cada um antes de tudo peça ao Espírito Santo a luz da fé para reconhecer o Cristo Ressuscitado, o Cristo vivo e presente hoje, o mesmo daquele tempo quando os fatos ocorreram e que o evangelista narra. A dificuldade realmente existiu visto que nem as mulheres nem os discípulos de Emaús e nem mesmo os discípulos que aparecem no texto de hoje puderam reconhecer o Cristo Senhor, a não ser a partir do momento em que ele mostrou "sinais" que iluminaram a mente e o coração deles.

João começa o relato dizendo que: "Jesus apareceu de novo aos discípulos, à beira do mar de Tiberíades (segundo o texto de João, esta é a terceira aparição aos discípulos)..."; o texto cita, um por um, os discípulos que voltaram ao seu trabalho habitual, isto é, de pescadores; voltaram ao trabalho duro, insidioso e muitas vezes ingrato, como novamente o texto mostra: não pescaram nada naquela noite, e assim retornam à margem.

Já tinha amanhecido, e de pé na margem do Lago, estava Jesus, mas não puderam reconhecê-lo; na verdade, Jesus apareceu exatamente para iluminar suas mente com os sinais que traziam à memória as experiências que já tinham vivido com o Mestre, o mesmo Jesus Cristo, que agora tornava a se encontrar com eles, depois de ter vencido a morte a fim de que eles o reconhecessem.

E eis o primeiro sinal: uma pesca prodigiosa; aquele desconhecido que estava à beira do mar pede algo para comer, mas os apóstolos voltando de uma pesca inútil, não tinham nada em suas mãos; assim, Jesus os convida a lançar de novo as redes: "Lançai a rede à direita da barca e achareis... lançaram e não conseguiam puxá-la para fora por causa da grande quantidade de peixes”.

Nesse momento um deles se lembrou de ter já vivido aquela experiência e reconheceu que aquele desconhecido se tratava do Mestre; era o discípulo amado, João, iluminado pela fé e a força do amor, e não há outra maneira de encontrar o Cristo Ressuscitado, a não ser através da fé e do amor, um caminho em que parece João correr por primeiro, enquanto Pedro parece vir um pouco mais tarde, embora na realidade, seja a intuição profunda, de quem ama, seja a disponibilidade e a generosidade do serviço, típico de Pedro, são características de quem quer ser discípulo de Cristo.

Há no Evangelho de hoje um outro grande sinal, com o qual Jesus, mais do que fazer-se reconhecer, faz-se encontro, faz-se dom aos seus, lá mesmo em Tiberíades, e é aquele convite a comer algo juntos: "Vinde comer”. Diz a eles e assim repete um dos gestos mais simbólicos e grandes de toda a sua vida terrena: o serviço durantes as refeições e o pão partido no qual oferece o seu corpo em resgate por todos.

À beira do mar, aquele gesto de distribuir o peixe assado na brasa com o pão, se torna silenciosa, viva memória da multiplicação dos pães; mais, se torna um memorial da Última Ceia, na qual o Filho de Deus, já perto da morte, cumpre um gesto de amor extremo, um sinal da sua dedicação total, que é sua verdadeira identidade, a identidade de um Deus que é Dom, e se fez homem para doar a si mesmo.

Os sinais com os quais Jesus Ressuscitado se encontra com os discípulos de modo que estes o reconheçam, são como raios de luz que iluminam e reforçam nossa fé, através de sinais que fortalecem o amor, que por várias razões também pode desaparecer, mas que Cristo espera sempre dos seus, porque a eles ele confiou a missão de evangelizar o mundo, de modo que a salvação chegue a todos os homens.

E nessa continuação, surge então aquele bonito, forte, sugestivo diálogo com Pedro, que conclui o Evangelho deste domingo. Depois de comerem, Jesus perguntou a Simão Pedro: "Simão, filho de João, tu me amas mais do que a estes?". Pedro respondeu: "Sim, Senhor, tu sabes que eu quero bem a você” (tradução correta). Disse: "Apascenta os meus cordeiros." Jesus repetiu essa pergunta três vezes, ele certamente conhecia a generosidade de Pedro e seu amor pelo Mestre, mas ele também sabia da fragilidade e, agora, a lealdade de um pescador a quem tinha confiado a sua Igreja, transformado-o em um pescador de homens. Cristo insiste na pergunta: "Simão, filho de João, tu me amas?", e Simão, certamente ficava pensando na angústia da noite em que havia negado o Senhor, antes do galo cantar três vezes. Negou por medo, mas agora, o encontro com o Senhor Ressuscitado, muda tudo, agora Cristo o transforma e confia-lhe todos os seus irmãos, todos eles veem a luz do mundo e que um homem escolhido por Deus e investido no mesmo ministério de Pedro, confirmará a fé de todos nós a caminho da salvação.

Na verdade, tudo gira em torno das três perguntas de Jesus. Na tradução correta dos verbos gregos usados, Jesus primeiramente pergunta se Pedro é capaz de AMÁ-LO, dar a vida por ele, o que Pedro já tinha prometido antes de negá-lo. Mas Pedro responde dizendo que quer bem ao Senhor, não usa o verbo amar, usa o verbo de querer bem, de que Jesus é importante para ele.

Na segunda vez, Jesus tira “o mais que a estes”. Pedro responde da mesma forma. Já na terceira vez, Jesus pergunta se Pedro pelo menos lhe quer bem. De fato, o amor de Pedro é sincero e verdadeiro. Pedro fica triste porque se dá conta de que seu amor por mais sincero que seja, não corresponde ao que Jesus pede. Por isso, ele diz: Senhor, tu sabes tudo. Tu sabes que há pouco tempo, eu fracassei no meu amor por ti.

Por isso, Jesus diz: segue-me. Caminhe atrás de mim e não na minha frente como quiseste fazer querendo mudar o plano de Deus. Sou eu quem indica a estrada. E Jesus ainda dá um exemplo: quando somos imaturos, jovens, achamos que temos a razão de tudo e que vamos mudar o mundo, somos nós que decidimos como “nos vestimos e pomos o cíngulo na cintura”, mas quando somos velhos, maduros, crescidos no modo de amar, deixaremos de nos cingir a veste, ou seja, amar com um modo de amar que não é o nosso.

Um modo de amar que vem de outro e que nos levará aonde não queremos ir. Como de fato, Pedro que pensava não poder realizar este tipo de amor, conseguiu passar de uma consciência de um amor imaturo para um amor maduro, pra onde Cristo os quis levar a ponto de dar a sua vida por Cristo no martírio.

Por isso, olhemos fixos para Cristo Ressuscitado, e com Pedro, reafirmemos o nosso amor – doação até o fim, pois o amor é realmente um dom inesgotável de si mesmo.

quarta-feira, 7 de abril de 2010

II DOMINGO DA PÁSCOA – ANO C

Do medo à paz, da dúvida à fé

O Evangelho deste II Domingo de Páscoa nos informa que “ao anoitecer daquele dia, o primeiro da semana”, os discípulos se encontravam num lugar a portas fechadas por MEDO dos judeus.

Quem nunca sentiu um medinho ou um medão na vida? Todos nós sem exceção temos medo de algumas coisas. Pode ser o medo de cair, de andar de avião, de dirigir, de uma bala perdida, de ser assaltado, de perder algo, de ser traído, de mudar, do escuro, de feitiço, de ventania, relâmpago e trovão, da morte, de terroristas, de envelhecer, do fracasso, de ouvir a verdade, de adoecer, da solidão, da rejeição, da indiferença, da arrogância, do preconceito, da ignorância, da corrupção, da inveja, do futuro, da responsabilidade, de falar em público, de ter que lidar com gente de má índole, de casar, de que o casamento não dê certo, de errar, de enchentes, de tremores de terra, de perder o emprego, de rã, de aranha, de rato, de guerra, e, enfim, medo de ter medo.

O medo sempre existiu e é um sentimento que proporciona um estado de alerta e que provoca reações físicas como descarga de adrenalina, aceleração cardíaca, suor, entre outros. Deve ser considerado como algo normal na nossa vida, e de modo equilibrado necessitamos dele.

O problema é quando o medo vira doença, e o mundo está ficando assim. A resposta anterior ao medo é conhecida por ansiedade. Na ansiedade, a pessoa teme antecipadamente o encontro com a situação ou objeto que lhe causa medo. Sendo assim, é possível se traçar uma escala de graus de medo, no qual, o máximo seria o pavor, o pânico, sofrimento psíquico.

Mas o medo faz parte do cotidiano de todos nós. Não há quem escape do medo, nem mesmo Jesus. Fazendo-se homem em tudo, menos no pecado, ele experimentou no jardim do Getsêmani um ataque de pânico tão grande que chegou a suar sangue (hematridose: a emoção, o medo, o terror, o susto, a angústia, a tensão é tão extrema que produz o rompimento das finíssimas veias capilares que estão sob as glândulas sudoríparas, o sangue se mistura ao suor e se concentra sobre a pele).
Jesus passou por tudo isso, primeiramente para nos mostrar que não devemos ter vergonha de ter medo, o que piora ainda mais a situação; depois, para nos ensinar que nunca devemos fugir do medo, mas olhá-lo com consciência e enfrentá-lo. Cada um conhece os seus medos. Todo mundo tem medo de alguma coisa. O medo não pode simplesmente desaparecer, mas também não podemos deixar que ele nos domine. E a primeira reação que nos vem à mente é fugir. Entretanto, Jesus não fugiu da cruz, foi reconhecendo a sua fraqueza humana de medo, de angústia, de pavor, que obteve de Deus a paz para abraçar o seu destino com toda serenidade.

É preciso permitir-se sentir medo. E, no final de contas, compreender que o que importa não é o fato de não sentir medo, mas de deixar que ele nos leve a Deus. É o medo, que, no fundo, nos convence que só podemos nos sustentar em Deus. Nós, os continuadores da missão de Jesus, não devemos nos fechar no medo diante das provações, dos desafios, das perseguições do mundo, mas devemos nos abrir ao dom que o Ressuscitado vem nos trazer: “A paz esteja convosco!” Não é uma saudação, mas é a PAZ que Ele tinha prometido quando eles se encontravam aflitos por causa de Sua partida.

Jesus Ressuscitado não liberta os discípulos das aflições do mundo, mas lhes oferece segurança e serena confiança. É uma paz diferente da que o mundo oferece. É uma paz que resiste aos problemas, às provações, vence o medo. É a paz messiânica, o cumprimento das promessas de Deus, uma força para fazermos as coisas mesmo com medo, é a vitória sobre o pecado e sobre a morte, a reconciliação com Deus, tudo isto como fruto de sua paixão e morte de cruz.

Jesus mostra suas chagas nas mãos e no lado, comprovando assim que Ele é verdadeiramente aquele que foi crucificado. Não precisa ter medo, ele não é um fantasma. Os discípulos devem ver que Ele efetivamente passou pela morte, e venceu-a. Mostrando as feridas, Jesus quer também evidenciar que a paz que Ele dá vem da cruz. Jesus torna-se para sempre o fundamento seguro da paz. E novamente, ele concede a paz aos seus discípulos e associa este gesto a sua missão. Somente se estes forem repletos de sua paz, poderão cumprir a missão a eles confiada, vencendo a rejeição e o ódio que deverão enfrentar. Para esta missão, Jesus sopra nos discípulos o Espírito Santo. Este gesto recorda o sopro de Deus que dá a vida ao homem. É sinal de uma nova criação: “Recebei o Espírito Santo!”
Aqui se trata da transmissão do Espírito Santo para uma missão particular. Enquanto no Pentecostes é a descida do Espírito Santo sobre todo o povo de Deus, aqui, Jesus concede o poder de perdoar ou não perdoar os pecados a um grupo específico de pessoas. É Deus quem tem o poder de perdoar os pecados. Jesus concede este poder e o transmite à sua Igreja através dos discípulos. Convém lembrar que trata-se aqui do “sacramento da reconciliação” praticado em diversas formas no curso da história da Igreja.

O “reter os pecados” não é uma condenação, mas é um renovado apelo à conversão.
Num segundo momento do relato, nos deparamos com Tomé, chamado Dídimo (=gêmeo). Este não estava presente quando Jesus apareceu por primeira vez ao grupo. Estes lhe relatam: “Vimos o Senhor!”. Mas Tomé não acreditara no que eles tinham dito, ele mesmo quer comprovar.
É muito importante esta parte do Evangelho para nós, leitores de hoje, pois, de fato, não vimos Jesus Ressuscitado. E neste ponto, somos irmãos gêmeos de Tomé. Frequentemente, na nossa vida, os outros nos contam o que fazem de bom ou o que viram de bom e muitas vezes não acreditamos. Por que acontece isto? Quando temos uma facilidade impressionante para acreditarmos em difamações muitas sem pé nem cabeça.
Pois é, as coisas boas sempre queremos comprová-las para confiar. Tomé escuta dos outros que Jesus está vivo. E se não for verdade? Se fosse uma ilusão pelo desejo ardente de ver Jesus? Ele é prudente. Pensa aí se nenhum dos discípulos tivesse tocado nem tivesse dito que viu Jesus depois da sua morte. Acreditaríamos? Parte daí o interesse para buscar provas. Jesus não vê em Tomé uma pessoa totalmente descrente, mas um homem que na sua dúvida, busca a VERDADE. E Jesus ajuda Tomé. Ele tem compaixão de Tomé porque sabe que este ainda não tem a paz que vem da fé, por isso o satisfaz plenamente: “põe, Tomé, o teu dedo nas minhas chagas”.

Bom pra nós que hoje sabemos que os apóstolos viram e tocaram as feridas das mãos e do lado de Jesus; portanto, Ele ressuscitou verdadeiramente! E Ele nos deixa um recado precioso: “Bem aventurados aqueles acreditarem sem me terem visto!” De fato, os últimos dois versículos do Evangelho afirmam que este foi escrito para que creiamos que Jesus é o Messias e para que, acreditando, tenhamos vida por meio Dele!
1. Permito que o medo me feche, me paralise e me impeça de crescer? Me abro aos outros?

2. Procuro receber a paz que Jesus quer me dar?

3. Reconheço que o mesmo Jesus crucificado é o mesmo Ressuscitado?

4. Imploro a ação do Espírito Santo na minha vida?

5. Sinto-me enviado por Jesus?

6. Me abro ao perdão? Tenho dificuldade em perdoar o próximo?

7. O que há de Tomé em meu coração neste momento da minha vida: desânimo, falta de fé, dúvida, soberba?

8. Como me esforço para dizer como Tomé: “Meu Senhor e Meu Deus”? Sou consciente e aceito que a fé diz respeito a coisas que não posso ver, pegar etc?