quarta-feira, 10 de março de 2010

IV DOMINGO DA QUARESMA - Lc 15,1-3.11-32


O pai correu-lhe ao encontro, abraçou-o e cobriu-o de beijos

Chegamos ao IV Domingo da Quaresma. Hoje, a liturgia nos indica um dos textos mais belos e mais comentados de todo o Evangelho de Lucas, a saber, o capítulo 15 da obra lucana que narra três parábolas sobre a ilimitada misericórdia de Deus. A parábola do texto de hoje (Lc 15,1-3.11-32), mais conhecida como a “parábola do filho pródigo”, será chamada neste comentário de “parábola do pai e de seus dois filhos” visto que veremos que tal título engloba de uma só vez as atitudes das três personagens que juntas nos dão a mensagem completa do trecho evangélico.
Antes de tudo, para compreendermos bem o significado da parábola, é necessário levar em consideração os três primeiros versículos do capítulo (Lc 15,1-3), já que projetam o sentido das três parábolas que se seguem. Assim, sabemos que Lucas quer sublinhar desde o início que Jesus conta estas três parábolas para que os ouvintes (fariseus e mestres da lei) se convençam, de uma vez por todas, que Deus tem um coração transbordante de amor para quem quer que erre, que está sempre pronto a se reconciliar com o ser humano, mesmo quando este aprontou de tudo, e mesmo quando este reconhece, com grande atraso, ter falhado.
Deus é apresentado como um pai que tem um coração maior que o espaço, disposto a acolher e a perdoar com um amor inacreditável, impensável. Por isso, Jesus aparece um pouco indignado e enraivecido com aquele tipo de pessoa que seguindo a linha dos escribas e fariseus, falam sempre de justiça, mas nunca de caridade; falam sempre de punição, mas nunca de perdão; para os que pretendem viver num mundo onde não há espaço para quem erra, enquanto aos olhos do Pai celestial estes presumidos santos não têm misericórdia, perdão, piedade, compaixão. Como deixa bem claro Mateus: “Não são os sãos que precisam de médico, mas os doentes. Portanto, ide e aprendei o que significa “eu quero misericórdia e não sacrifício. Não vim chamar os justos, mas os pecadores” (Mt 9,12-13).
Mas, falando diretamente da terceira parábola (15,11-32), a do pai e dos seus dois filhos, podemos dizer que a sua estrutura segue o mesmo movimento das duas parábolas anteriores (15,4-10): perca de uma coisa querida (ovelha, moeda, filho), sua busca, o seu re-encontro e a alegria que emerge imediatamente deste re-encontro.
Com relação à figura do filho mais jovem, em torno de quem gira todo o relato e que nos oferece dados para também compreendermos a atitude tanto do pai quanto a do filho mais velho, podemos resumir no seguinte: o filho mais novo cansado de viver sob a custódia do pai, quer ser independente, vivendo um estilo de vida em que só ele é o responsável; e, por isso, se afasta, se entrega aos prazeres e a devassidão, terminando na maior miséria, sem tem o que comer, sem dignidade.
Este filho, completamente independente de qualquer figura superior, representa o pecador, quando não considera a sua relação com o Pai e se afasta dele, vivendo uma vida irresponsável. É a grande ilusão do querer se desligar de nossa própria origem, de poder tomar decisões sem vínculos e sem condicionamentos, pois esta vida “livre” torna-se uma vida humilhante. O jovem alegre se torna escravo do dono dos porcos. Pior, ele chega a desejar a comida dos porcos, humilhação total para um judeu que considera o porco um animal impuro e o pior de tudo, o patrão lhe nega a comida destinada aos porcos. Diante desta situação tão dramática, o único pensamento que lhe dava ânimo era a saudade da casa paterna, onde tinha de tudo, o afeto do pai e o alimento. Por isso, este filho começa a rever suas ideias. Ele não procura justificar seu comportamento passado, nem se desespera com a situação presente. Tem humildade, coragem e confiança de reconhecer que o próprio caminho está errado e decide voltar para o pai. Está pronto para confessar a sua própria culpa. Não pretende nem mesmo ser tratado como um filho, mas como um servo qualquer do seu pai. Este filho representa todos os pecadores, do ladrão arrependido na cruz a cada um de nós.
Agora, entra a figura do pai. Este é nomeado 14 vezes no texto e é a luz que ilumina e dá sentido a cada mínimo particular da parábola, seja ligado ao filho mais novo ou ao mais velho. Mas afinal, o que tem esse pai de tão grandioso para suscitar uma atenção especial por Lucas? É o seu amor imenso, extraordinário, inefável. O amor de Deus para com os pecadores, chega a uma de suas expressões mais altas e tocantes no comportamento do pai para com este filho mais jovem. Um outro pai, talvez reagiria de modo diferente, gritaria, alegaria; este pai não intimida, não inibe nem é violento. Cala-se. Respeita a liberdade de seu filho, mesmo se essa liberdade expõe seu filho amado a tantos perigos imprevisíveis.
Podemos dizer que tudo começa pela espera ansiosa com a volta de seu filho caçula; comovido, corre-lhe ao seu encontro, abraça-o, e o cobre de beijos, perdoa-o, trata-o muito bem, quer fazer uma grande festa para reintegrar seu ser de filho, e lhe comunica através de todo seu afeto, o desejo de que ele volte à vida. O pai é um pai do coração, ele não deixa se levar pala voz da razão, do raciocínio, do cérebro, mas pela voz do coração (Cf. Gn 33,4 e Gn 46,29).
Um momento ulterior em que se vê o enorme afeto do pai pelo filho pródigo nos dá o v.22: evoca o tratamento que o faraó reserva para José em Gn 41,42. Para os antigos, o anel no dedo era sinal de autoridade e de poder em relação a terceiros. O uso das sandálias era uma prerrogativa exclusiva das pessoas livres, só os escravos andavam descalços. Assim, o pai quer dizer que o filho tornou a ser, unido a ele, o chefe da casa; e um indivíduo que não vai servir, não escravo, mas livre.
Outros dados marcantes na atitude do pai são os seguintes: novilho gordo para festejar. O pai não se contenta em apenas acolher o filho, é preciso fazer uma grande festa. Festa essa que também foi citada nas parábolas precedentes, a da ovelha e da moeda perdida. Aqui, há porém um progresso; o pai ordena para prepararem a festa, a festa se celebra realmente, e o pai especifica que era necessário acontecer a festa.
O filho mais velho representa aqueles que permanecem fiéis ao pai e aderem aos seus mandamentos. À primeira vista, aparece como sempre próximo do pai, mas tudo não passa de aparências. Este filho se recusa a participar da alegria do pai. Chama-o de “tu”, cheio de desprezo e frieza, indignado com o comportamento do pai e se sente prejudicado. Contrariamente ao pai, este filho olha só pra o passado. Vê somente o pecado do outro, mas não consegue enxergar quem é o outro. É totalmente indiferente ao fato de que o outro é seu irmão e que tenha voltado pra casa. Também este filho precisa rever seu ponto-de-vista. Enfim, só usa palavras duras, e impiedosas com seu pai, chegando até a mentir: “nunca me deste um cabrito para festejar com meus amigos”. E o pai o desmente: “Filho, tudo o que é meu é teu”. Este filho é cego pelo egoísmo e só pensa em si. Fica com raiva e não entra em casa. Além de insensível, é invejoso e portanto, um ótimo representante dos escribas e fariseus que tinham manifestado a sua reprovação e toda a sua raiva diante dos atos misericordiosos de Jesus com relação aos pecadores.
E aí? Será que pensamos que somos filhos de Deus porque não fazemos “nada de mau”? Ou porque sempre vamos à missa? Ou porque não somos como os outros... mas sentimos o peso de ser “bons cristãos”. Será que somos capazes de nos alegrarmos com o Pai e de abraçar o filho que retorna? Será que ajudamos o Pai nessa incansável busca pelo filho perdido? Vamos para a festa do filho mais novo ou não?
Em seu famosíssimo livro, inspirado na obra “A volta do filho pródigo” do pintor Rembrandt, o padre holandês Henri Nouwen, afirma com muita convicção: “Fui tão profundamente tocado por essa imagem do abraço de dar a vida entre pai e filho porque tudo em mim ansiava ser recebido do mesmo modo que o Filho pródigo foi recebido. Esse encontro passou a ser o começo da minha volta”. Depois, ele se dá conta que nesta imagem, “há reconciliação, mas também há raiva. Há comunhão, mas também distanciamento. Há o brilho cálido da cura, mas também a frieza do olho crítico; há a oferenda da misericórdia, mas também enorme resistência para recebê-la. Não demorou para que eu descobrisse o filho mais velho em mim”.
Poucas vezes, nos sentimos o filho mais novo, e como é bom desfrutar a misericórdia do Pai. Mas, muitas vezes, agimos como o verdadeiro filho mais velho, e temos o exemplo do filho mais novo para termos a humildade em admitirmos que estamos errados e coragem para mudarmos e sermos misericordiosos para com nossos irmãos e irmãs e inclusive para conosco.

Um comentário:

Tania Vieira disse...

Maravilhosa a explicação da parábola! Clara, objetiva e didática. Parabéns!