domingo, 7 de fevereiro de 2010

VI DOMINGO COMUM - ANO C - Lc 6,17.20-26

LECTIO DIVINA

Domingo 14 de fevereiro de 2010

VI DOMINGO COMUM – ANO C

TEXTO BÍBLICO: Lc 6,17.20-26

Autor: Pe. Carlos Henrique

FELIZ É O HOMEM QUE CONFIA NO SENHOR

A mensagem principal da liturgia deste domingo se concentra numa contraposição que encontramos quer na Leitura do profeta Jeremias quer no Salmo como no Evangelho segundo Lucas. Somos convidados a acolher com fé essa Palavra de Deus e a experimentar em nossa vida a verdade profunda que ela contém.

“Maldito o homem que confia no homem e faz consistir sua força na carne humana, enquanto seu coração se afasta do Senhor... Bendito é o homem que confia no Senhor...” (Jr 17,5-8).

“Feliz é todo aquele que não anda conforme os conselhos dos perversos; que não entra no caminho dos malvados nem junto aos zombadores vai sentar-se; mas encontra seu prazer na lei de Deus e a medita dia e noite, sem cessar... eis que tudo o que ele faz vai prosperar... mas bem outra é a sorte dos perversos... a estrada dos maus leva à morte” (Sl 1).

Quanto ao Evangelho, é o das bem-aventuranças. Enquanto em Mateus, Jesus apresenta oito bem-aventuranças no chamado Sermão da Montanha (Mt 5,1-7,29), Lucas cita apenas quatro no chamado Discurso na planície (Lc 6,17-7,1). Mas em compensação, Lucas reforça estas quatro, contrapondo a cada uma delas uma maldição correspondente, iniciada por um “ai”.

Além disso, enquanto o discurso de Mateus é apresentado de forma indireta e a ênfase cai na pobreza espiritual, Lucas é totalmente direto e acentua a pobreza material: “Bem-aventurados, vocês, os pobres!” Entretanto, trata-se de detalhes que não mudam em nada o essencial da mensagem. Cada um dos evangelistas, a seu modo, apresenta o significado profundo do ensinamento de Jesus como veremos a seguir.

As quatro bem-aventuranças que correspondem em ambos os evangelhos, mostram situações de necessidade (pobreza, fome, choro e perseguição). As outras quatro que Mateus acrescenta dizem respeito a um comportamento positivo (mansidão, misericórdia, pureza, pacificação). Mas, por sua vez, só Lucas mostra que Jesus anuncia quatro “ais” claramente em oposição às bem-aventuranças. E desde já, é bom lembrar que os “ais” de Jesus não são uma sentença de condenação, mas uma lamentação, ele apenas está dizendo: é uma pena que vocês tenham preferido o caminho que não leva a nada.

Como público do seu discurso, Jesus tinha muitos dos seus discípulos, como também uma multidão de judeus e pagãos. Entretanto, olhando diretamente para seus discípulos, Jesus começa a dizer as bem-aventuranças, mostrando com este gesto que tais palavras não valem para todos, mas para aqueles que acolheram o seu chamamento e o estão seguindo, já que para quem ainda não o acolheu, ou seja, para quem vive a vida se matando por dinheiro, fama e poder, as bem-aventuranças soam ridículas, sem nexo e de uma chatice total; pois quem já viu alguém se alegrar por ser odiado, expulso, insultado, amaldiçoado, pobre, faminto?

Mas, Jesus é seguro no que diz: “Bem-aventurados, são vocês, os pobres, porque de vocês é o Reino de Deus” (6,20). E a esta corresponde o “mas ai de vocês, os ricos, porque já têm o seu conforto!”.

O que Jesus quer anunciar é a Boa Notícia de que o Reino de Deus é dos pobres; a verdadeira felicidade se consegue, participando desse reino através da fé e da acolhida a este reino que se traduz em bons frutos. Jesus como Rei é o responsável total pela vida, pela salvação e a felicidade de seus seguidores, e estabelece de forma definitiva o seu reino que está acima de todos os outros reinos, tais como o do dinheiro que com seus aspectos negativos como o consumismo desenfreado, a mesquinhez, a indiferença, a ganância etc prejudicam a felicidade do homem e o levam finalmente à morte.

Jesus oferece uma vida com sentido. Provou no próprio corpo a dor da morte violenta e injusta para que tivéssemos direito a esta herança que é o seu Reino de salvação e de felicidade plena. E somente os pobres estão preparados para acolher este reino, pois são aquelas pessoas conscientes de que as suas próprias forças e os bens materiais não são suficientes nunca para trazer o sentido pleno de suas vidas, para serem felizes. Pelo contrário, sabem que mesmo que não arredem o pé dos seus bens, o cemitério está sempre se aproximando.

E os discípulos são assim, deixaram tudo para seguir o Mestre: “Quem de vocês não renunciar a tudo o que tem, não pode ser meu discípulo” (Lc 14,33). Teve aquele outro caso daquele rapaz rico a quem Jesus disse: “uma coisa ainda lhe falta: venda tudo o que você tem, dê aos pobres e terá um tesouro nos céus; depois, vem e segue-me (Lc 18,22). Mas o homem ficou muito triste porque era riquíssimo e não queria se desapegar dos seus bens. O que fez Jesus afirmar a famosa frase: “como é difícil para os que têm riquezas entrarem no Reino de Deus”. E deve ser mesmo, não por causa da riqueza em si, mas por causa do apego à riqueza que impede de ver a miséria e a necessidade do outro, como devem existir no atual momento, pessoas que têm muito e dormem tranquilamente, enquanto milhares morrem de fome no Haiti e em muitos outros lugares também.

Assim, Jesus considera o apego aos bens materiais um seriíssimo obstáculo para herdar o Reino de Deus, pois ele não pode concordar com tamanha injustiça, já que a grande riqueza de alguns sempre acontece graças às injustiças que eles cometem, como a corrupção escancarada e um emaranhado de situações injustas que visam somente o lucro como um mau patrão que trata os seus empregados como verdadeiros escravos sem lhes dar nenhum direito.

O lema da Campanha da Fraternidade deste ano que começa na quarta-feira de cinzas é justamente: “vocês não podem servir a Deus e ao Dinheiro” (Mt 6,24). Dinheiro aqui até aparece com D maiúscula porque realmente aparece como um concorrente contra Deus. Devemos ter uma relação justa e equilibrada com o dinheiro. Viver a vida de modo apenas horizontal, batalhando dia após dia para conseguir coisas nessa vida, é ser constantemente infeliz, é sofrer, é nunca chegar. Esta vida só conhece uma linguagem: a do “mais”. E interessante, sempre está vazia, sempre é mendiga. Por mais que você chegue à posição mais elevada, sempre há uma ilusão e uma insatisfação. Por isso que Jesus pede que busquemos as coisas do alto. A linha vertical que é a do menos. A do ser cada vez menos e menos, a ponto de não ser ninguém. Renunciar ao mundo, sem sair do mundo, mas se reconhecer um nada diante de Deus para que Ele possa encher a ponto de transbordar com a sua graça.

Claro que se eu dou tudo o que tenho, eu fico pobre também. E aí? Como vou viver? O caso de Zaqueu é um exemplo desta relação justa com o dinheiro, onde Jesus elogiou a atitude de Zaqueu de dar aos pobres a metade de seus bens (Lc 19,1), pois com a outra metade, daria para viver tranquilamente, isto numa época em que não havia bancos, nem aposentadorias, nem seguros, nada disso. Agora pra que uma pessoa quer bilhões de dólares e às vezes nem desfruta desse dinheiro para arrecadar mais um dinheirinho como se fosse viver não sei quantos mil anos? Jesus tem razão, o mais traz insatisfação.

Na verdade, não há texto bíblico melhor para ilustrar o comentário de evangelho de hoje como a parábola do rico e do pobre Lázaro. Nela, aparece o rico, a quem se destina o “ai” de Jesus e que não pode mais esperar por nenhuma consolação. É o rico que vive no conforto, na abundância, no egoísmo, na ganância (Lc 16,19), é rico, tem fartura, ri e é bajulado (6,24-25). Mas esquece de algo fundamental: conhece um pobre homem que reside à sua porta e numa total indiferença e mesquinhez, não lhe dá de comer de modo algum, nem com as migalhas que caem da mesa.

Já Lázaro, pelo contrário, é miserável, enfermo, tem como companheiros os cachorros; em qualquer necessidade sua, confia em Deus e sabe que pode contar com Ele, como fazem ainda hoje milhões de miseráveis que não tem o que comer. Para encurtar a história, depois da morte, Lázaro é levado à felicidade eterna, à plena comunhão com Deus, enquanto o rico se auto-excluiu de tal comunhão.

Mas, enfim, Jesus não condena as riquezas materiais nem os ricos nem os confortos da vida terrena. O que ele quer dizer é que a vida terrena não é tudo. Portanto, ele quer nos dizer que aspirar só aos bens materiais, ao sucesso, ao poder, e principalmente às custas da desgraça alheia, é errado e isso nos deixará infelizes e sem sentido sempre. E isso é uma prova de que ele não é o nosso Deus, mas sim o dinheiro. Essa vida de ganância só deixa o mundo mais injusto. Já as coisas mais elevadas, o amor, a caridade, a partilha dessas riquezas deixaria o mundo mais justo, mais solidário, mais humano.

Perguntas para a meditação:

1.O que significa dizer que Jesus anuncia o Reino de Deus aos pobres?

2.O que a mensagem do Evangelho de hoje diz sobre a sociedade de consumo, do entretenimento, o uso sem controle dos bens materiais, a estrema diferença entre os países ricos e os pobres, e enfim, a nós brasileiros que vivemos no país mais injusto do mundo?

3.Na hora da verdade, que é a morte, o que vai ficar no final de contas, quando eu for privado de todos os meus bens e do uso deles?

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