sábado, 20 de fevereiro de 2010

I DOMINGO DA QUARESMA - ANO C - Lc 4,1-13


LECTIO DIVINA

No Evangelho deste I Domingo da Quaresma, a Palavra de Deus nos convida a refletir sobre as tentações de Jesus, a ver como se comporta Jesus perante às armadilhas do diabo, este que aparece sempre como afastamento e oposição a Deus. E, ao mesmo tempo, vemos a relação que Jesus tem com Deus e que é essencial para esse enfrentamento. E, por sinal, uma relação sólida que faz Jesus rejeitar a tentação, a prova com determinação, firmeza, certeza, segurança, tranquilidade, coragem.
A cada proposta do tentador, Jesus dá uma resposta segura, demonstrando assim a certeza e a clareza de sua relação com o seu Pai. E, justamente, por ter sido posto à prova e ter sofrido pessoalmente, é que ele está em grau de ajudar àqueles que estão na provação (2,17s). E aqui o relato das tentações tem tudo a ver com o Batismo, onde Jesus sem mancha alguma é solidário com a humanidade sendo lavado dos pecados desta e que atingirá o seu cume na cruz, término também das tentações que não aparecem só aqui, mas ao longo de todo o Evangelho, quando lemos que os fariseus em muitos momentos querem pô-lo a prova como os soldados romanos .
Tudo aquilo que o Pai havia dito dele é confirmado aqui pelo seu comportamento. De fato, precedente a este texto, separado apenas pela genealogia, está o momento em que ao ser batizado, o Pai declara: “Tu és o meu Filho predileto, em quem me comprazo”; onde ele é revestido como o Ungido pelo Espírito, o qual conduz Jesus ao deserto e permite que ele seja tentado pelo diabo. E, logo, após estas tentações, Lucas inaugura o ministério público de Jesus em seu Evangelho.
O deserto é o lugar da reconciliação e da salvação; foi atravessando o deserto com muitas dificuldades e provações que o povo de Israel depois do êxodo finalmente chegou a terra prometida. Lucas narra as três tentações mostrando a luta interior de Jesus para se manter fiel a sua missão, mas ao mesmo tempo, joga a pergunta sobre o que afinal de contas, tem mais valor para o homem. De modo que o núcleo de cada tentação é o tirar Deus, que diante de tudo aquilo que na nossa vida parece ser mais urgente, pareça em segundo lugar, quando não supérfluo ou cansativo.
Viver a vida sem contar com Deus, mas só com as próprias forças, deixando Deus de lado, é a tentação que nos aparece sob várias formas: as tentações do diabo querem a todo instante nos mostrar que o que vale nessa vida é ter dinheiro, ter poder e aparecer; mostrando assim que Deus é irreal e que suas palavras não cabem.
Bom, mas vamos as tentações que aconteceram num prazo de 40 dias (tempo de transformação e que recordam os 40 anos que Israel passou no deserto, tempo de provação, mas de especial contato com Deus). Assim, Jesus faminto, o diabo diz: “Se és Filho de Deus, manda que esta pedra se mude em pão”.
Na primeira tentação, Jesus é tentado a fazer uso de seus poderes já que é Filho de Deus em seu próprio benefício para ser acreditado, mas sem que isto tenha nada a ver com a missão que lhe foi confiada; a tentação, portanto, consiste em buscar alimento para sua própria sobrevivência, prescindindo da vontade do Pai.
A prova da existência de Deus que o tentador propõe consiste em transformar pedra em pão. E, Jesus responde ao diabo, citando Dt 8,3: “Não só de pão vive o homem”. A citação de Dt remete à experiência vivida por Israel durante o êxodo, quando no deserto, faminto, lembrava o Egito, o que levou a reclamarem de Moisés e Aarão; mas, apesar desse desejo de procurar alimento fora dos planos de Deus, Israel foi nutrido com o “maná” do céu. E aí, teve que passar pela humilhação de reconhecer sua falta de fé em Deus.
Ainda hoje somos tentados algumas vezes a dirigir a Deus a frase: “se és mesmo Deus, mostre seu poder”. O problema da fome no mundo pode nos tentar a desacreditar da figura do Salvador. Mas, mais adiante vemos que Jesus multiplica pães para milhares de pessoas no deserto. E aí faz sentido, porque aquele povo não foi atrás do alimento físico, mas de alimento espiritual, da palavra de Jesus. De fato, Mateus adiciona a não só de pão vive o homem, mas de toda palavra que sai da boca de Deus (Mt 4,4). E esta palavra quando acolhida com amor leva a descobrir a necessidade do próximo. Daí, a gente chega à conclusão que a fome no mundo é justamente porque Deus é colocado em segundo lugar, enquanto o dinheiro se torna um deus.
A segunda tentação não se dirige ao homem que luta para ter o mínimo necessário para sobreviver, mas ao homem que mira além da própria pessoa humana e aspira ao domínio do mundo. Aqui entra em jogo o fascínio do poder, do domínio. Jesus do alto do Templo de Jerusalém, é tentado a aceitar o domínio sobre todos os reinos do mundo com todo o seu esplendor oferecido por um tal que não é o seu Deus. O desafio não põe diretamente à prova sua qualidade de filho, mas o fato de reconhecer como dom e senhor a alguém diferente de seu Pai. Mas, Jesus responde que há um só Deus. A busca exclusiva do poder não combina com o reconhecimento da senhoria de Deus. Jesus reconhece a autoridade no âmbito humano: porém, que não deve ser exercitada como domínio sobre os outros, mas vivida como serviço. De fato, ele responde ao diabo, citando Dt 6,13: “Adorarás o Senhor teu Deus e só a ele servirás”. Esta resposta de Jesus se refere novamente a uma das diretrizes dadas por Moisés ao povo, que o Deuteronômio recapitula. No que se trata de Moisés pede que o povo se policie sobre a sedução que exercerá sobre ele os cultos cananeus (Dt 12,30-31) e o intima que não se deixe levar por deuses estranhos ou ponha sua confiança em poderes estrangeiros. Assim, Jesus rejeita a tentação de se submeter a outro que não seja seu Deus e seu Pai, e deixa definitivamente claro que a sua missão consiste unicamente em esforçar-se para que o reino de Deus se estabeleça definitivamente em todo o mundo. Portanto, o único rei de toda a terra é o Senhor, e só a ele há que render serviço.
Só o poder que está sob a autoridade de Deus é confiável. O reino de Cristo não é de caráter político, aliás, ele deixou tudo. Quando a nossa fé se coloca sob o comando do poder, fica sufocada e obrigada a obedecer a critérios injustos. Desta segunda tentação, sempre surgira a nós uma pergunta: o que Jesus trouxe verdadeiramente, se não trouxe paz no mundo, um mundo melhor? Trouxe Deus. Governos vivem em guerra.
Finalmente, a terceira tentação é a de um Messias mirabolante: atira-te daqui abaixo! Um gesto que teria assegurado fama e espetáculo. Porém, Jesus não tem necessidade de uma prova de que Deus o ama, ele confia no Pai. Jesus supera as tentações: escolhe respeitar o senhorio de Deus, confia no Pai e no seu plano salvífico pelo mundo. Renuncia instrumentalizar egoisticamente as coisas materiais para o próprio proveito (não muda as pedras em pão para si; mais tarde multiplicará para a multidão faminta); rejeita dominar as pessoas e prefere servir: mantém sempre uma relação filial com Deus, confiando na sua fidelidade. Aceita a cruz por amor e morre perdoando: somente assim, quebra o espiral da violência e tira da morte o seu veneno. Enfim, vale lembrar que Jesus supera as tentações porque está cheio da força do Espírito Santo. Nós também somos convidados a pedir auxílio ao Espírito Santo para que nos ajude a vencer as tentações, pois o tentador sempre está prestes a retornar no momento oportuno.

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