domingo, 28 de fevereiro de 2010

III DOMINGO DA QUARESMA - Lc 13,1-9

LECTIO DIVINA
DEUS NÃO CASTIGA E É PACIENTE

Estamos vivendo o terceiro domingo da Quaresma e o Evangelho deste domingo nos faz lembrar as notícias trágicas que diariamente chegam até nós através dos telejornais e tantos outros meios de comunicação: como o terremoto do Haiti que deixou milhares de pessoas na miséria absoluta ou notícias como as enchentes que destroem casas, sem falar na violência de todos os tipos que assola o mundo.
Mas por que tudo isso acontece? O que vem a nossa cabeça quando nos damos conta dessas más notícias? Ficamos chateados, indignados, tristes, chocados, assombrados e nos perguntando o porquê de ter acontecido esta ou aquela situação? Será que nos preocupamos mesmo porque aconteceu este ou aquele fato trágico para alguém, ou ficamos chocados pelo simples fato do medo de que aconteça também conosco? Enfim, amamos o próximo a ponto de nos preocuparmos com ele ou somos insensíveis e indiferentes a ele? Será que no fundo não sentimos um pouco de alegria por que não fomos nós as vítimas? Ou estas coisas já nem chamam mais a nossa atenção porque já nos acostumamos com a quantidade de desgraças que acontecem diariamente? Enfim, Deus castiga ou não castiga o ser humano por seus pecados?
O Evangelho de hoje apresenta uma discussão entre Jesus e algumas pessoas vão até Ele para lhe dar uma notícia de um crime: a notícia dos galileus mortos por Pilatos, enquanto ofereciam seus sacrifícios. Pilatos bem antes da morte de Jesus é apresentado como um governador violento. O massacre deve ter acontecido no templo de Jerusalém, porque só ali era costume a prática de ofertar animais em sacrifício; e, por isso mesmo, além de ser um homicida, ele comete um grande sacrilégio (dentro do Templo).
Além disso, estes informantes de Jesus dão um juízo negativo sobre as pessoas mortas, já que naquele tempo, pensava-se que a morte violenta fosse consequencia de algum pecado. Pensava-se que se alguém morresse assim era porque havia feito algo errado. Segundo a mentalidade do tempo e ainda muito difundida hoje, baseada na doutrina da retribuição, qualquer desgraça era tida como castigo divino devido a um pecado: “Mestre, quem pecou, este ou seus pais para que nascesse cego?” (Jo 9,2). desta forma, pela morte dos galileus, chegava-se à conclusão de que estes eram pecadores e por isso, mereceram a morte como castigo. Mas, no fundo, o que querem saber é qual seria a resposta, a reação de Jesus diante de tudo isso, já que Jesus era um Mestre que ensinava com autoridade.
O interessante é que Jesus aproveita esta situação para passar a sua mensagem de conversão, de mudança de mentalidade. Ele diz a estas pessoas que não devem chegar a falsas conclusões pelo que podem pensar a primeira vista e ainda diz o que elas devem fazer. Assim, Jesus responde primeiramente que a morte violenta não é consequência de um pecado. A salvação é aberta a todos. Todos devem se salvar.
E mais, que os outros que não tinham sido assassinados, não eram culpados, e, por isso, poderiam se sentir “certinhos”, seguros e levarem a vida como bem entendessem. No entanto, Jesus se opõe radicalmente a este modo de pensar e sublinha com força que todos devem se converter. Jesus diz que ninguém tem que pagar nada, ou melhor, todos são culpados, todos têm uma relação equivocada com Deus, todos têm algo de errado, todos devem mudar de vida. Mas essa culpa não traz como consequência que deva acontecer algo de mal na vida. Se acontecer, é porque aconteceu. Se fôssemos acreditar na lógica da retribuição, quantas pessoas deveriam ter tragédias em suas vidas e não têm e vice-versa.
Para facilitar ainda mais a compreensão daquilo que quer transmitir, Jesus acrescenta outro caso, no qual dezoito homens foram mortos em Jerusalém na queda da torre de Siloé. Neste segundo caso, ele se dirige aos habitantes de Jerusalém, ou seja, o que ele adverte vale para todos, sem exceção, todos precisam se converter. Jesus quer abolir a ideia de que Deus castiga. Deus nos ama, Deus quer nos salvar. “Se não vos converterdes, ireis morrer todos do mesmo modo”. Ou seja, Jesus transfere o centro do discurso. Não se ocupa mais com os ausentes, mas com os que estão ali presentes. Jesus diz que não devemos nos preocupar se aquelas pessoas eram ou não culpadas, mas que nós tenhamos um coração que se converte, da necessidade de se converter. As tragédias humanas são um alerta e um convite à aceitação do projeto libertador iniciado por Jesus Cristo. Rejeitar este projeto é rejeitar a vida. Para aceitar este projeto, é necessária uma mudança de mentalidade. Se nós não aceitamos este convite de Jesus, seremos construtores da nossa própria desgraça.
É preciso não tanto preocupar-se com o que está fora, mas com o interior. É preciso alimentar o interior para receber a salvação de Deus. Isso acontece através da conversão. Metanoia em grego significa mudar modo de pensar. Se percebemos que nossa vida está numa direção errada, mudemos o rumo. E a palavra grega metanoia não quer dizer somente mudança de mentalidade, de rota. Mas vai mais além. Não devemos gastar nosso tempo em calcular as coisas com a nossa razão, pois a matemática de Deus é bem diferente da nossa, vejamos com que paciência Ele nos espera através da parábola da figueira.
A parábola da figueira que não dá frutos é uma parábola muito interessante. Com ela, Jesus confirma seu pensamento. A figueira é uma das plantas mais comuns e generosas da Palestina. Geralmente, dá boa sombra e produz frutos durante dez meses por ano. A figueira representa o povo de Israel e não só. Representa todos os que ouvem a Palavra de Deus. Jesus é o Agricultor. Ele plantou a figueira e espera a abundância dos frutos. Não encontrando frutos, o patrão emite uma dura sentença: já que Israel é uma figueira ociosa, não faz sentido que continue a viver. Talvez Lucas estivesse pensando na rejeição do Evangelho praticado pelos chefes religiosos daquele tempo.
No entanto, a grande novidade acontece pela ação do agricultor: ele aduba o terreno: sinal de uma dedicação especial. Os camponeses sabiam que a figueira não tinha necessidade de adubo. Mas, Jesus vai além das expectativas. Aposta no ser humano até onde possa parecer absurdo. Esta é a solidariedade de Deus. Frequentemente, esquecemos o trabalho do Agricultor. Exigimos bons frutos das pessoas como se fôssemos os mais perfeitos em fazer boas obras. O adubo da paciência, ensinado a nós pelo agricultor é a oportunidade que cada pessoa deveria merecer. Jesus nos ensina que a misericórdia divina não conhece limites: pode ser que o próximo ano produza! Uma planta comum se torna para nós símbolo de conversão. Mas, sem a nossa cooperação, tornamos estéril a solidariedade divina. O nosso agricultor espera de nós bons frutos. E estes frutos não são um imposto que devemos pagar pelo direito de existir, mas são a nossa própria realização pessoal, que dá sentido a nossa vida.
Portanto, vamos parar de justificar as desgraças alheias com atitudes orgulhosas para demonstrar a nossa superioridade ou presumida boa consciência. Todos nós precisamos de conversão. À figueira sempre é dada uma nova chance: não temos tempo a perder. O momento é agora. É muito triste olhar pra trás e constatar que temos sido uma figueira que não soube produzir frutos. Se for o caso, é agora o momento de arregaçar as mangas e crer firmemente na paciência do Agricultor.

domingo, 21 de fevereiro de 2010

II DOMINGO DA QUARESMA - ANO C - Lc 9,28b-36


DO ROSTO TRANSFIGURADO AOS ROSTOS DESFIGURADOS

No Evangelho deste II Domingo da Quaresma, somos convidados a subir a montanha em companhia de Pedro, Tiago e João, seguindo os passos de Jesus que se afasta da multidão e se recolhe para rezar. Lucas nos conta o que se passou naquele episódio: enquanto Jesus estava rezando, “seu rosto mudou de aparência e sua roupa ficou muito branca e brilhante”.
Eu penso que cada um de nós tenha sua própria imagem de como tenha acontecido isto; até porque Lucas não nos dá muitos detalhes para compreendermos bem essa mudança na aparência de Jesus. Se formos pesquisar as exegeses existentes sobre o relato, encontraremos uma imensa variedade de interpretações.
Esta mudança no rosto de Jesus que o torna luminoso é o que chamamos “Transfiguração”. Transfigurar, segundo o Aurélio, é mudar a figura ou a feição. Pensando e repensando como poderíamos entender melhor a transfiguração de Jesus, lembremos o rosto de algumas pessoas que nos passam essa idéia: o rosto de uma mãe que amamenta seu filhinho, o de um adolescente apaixonado, o de um pai que se emociona ao ver seu filho fazendo uma apresentação na escola, ou no dia da sua primeira comunhão. O que caracteriza todos eles é o olhar brilhante. E o que faz iluminar a expressão destas pessoas? O amor. É o amor que transparece do rosto deles e os torna luminosos.
Com certeza, foi o amor que tornou o rosto de Jesus resplandecente. Enquanto estava rezando, ele entra em contato com o Pai, e o amor entre eles é tão grande que chega a alterar a aparência de Jesus. Os três apóstolos que o acompanhavam certamente ficaram perplexos ao verem esta mudança. E ainda mais quando viram que “dois homens conversavam com Jesus: Moisés e Elias”. Moisés, que guiou o povo de Israel da escravidão do Egito à libertação dada por Deus; e Elias, que foi assunto ao céu numa carruagem de fogo (2 Rs 2,11). Os dois, que representam toda a história de Israel, aparecem na montanha para conversarem com Jesus.
Mas, qual era mesmo o assunto da conversa deles? “Conversavam sobre a morte que Jesus iria sofrer em Jerusalém”. Eles falavam da paixão de Jesus, o que estamos, neste tempo de Quaresma, nos preparando para celebrar.
Entretanto, quando os apóstolos perceberam que Moisés e Elias estavam se afastando, Pedro faz uma bela proposta: “Mestre, é bom estarmos aqui! Vamos fazer três tendas! Uma para ti, outra para Moisés e outra para Elias”. Pedro tem razão: deve ter sido muito bom mesmo estar ali imersos na luz do amor entre o Pai e o Filho, escutando o diálogo com Moisés e Elias. Era tão bom que Pedro queria que aquele momento nunca acabasse. É por isso que ele propôs fazer três tendas. Normalmente, quando as pessoas vão a uma montanha para acampar, ou seja, querem passar mais tempo lá, levam e armam suas barracas.
Porém, enquanto Pedro fazia a sua proposta, saiu uma voz do céu com outra indicação: para saborear aquele momento extraordinário, não era preciso armar as tendas, mas ter um coração atento para ouvir a Palavra de Jesus. De fato, o Pai diz: “Este é meu Filho, o escolhido. Escutai o que Ele diz”. Não faz muito tempo que ouvimos a mesma declaração no Batismo de Jesus. E este é um detalhe muito interessante, pois o Pai está dizendo que aquele Filho que começou o ministério no Jordão é o mesmo que está prestes a morrer crucificado. A força da voz do Pai deve ter sido um dom belíssimo para os apóstolos, a ponto de não quererem falar por muito tempo este episódio, guardado no coração.
A força da voz do pai deve ter sido um dom belíssimo para os apóstolos, a ponto de não quererem falar por muito tempo este episódio, guardado no coração: “Escutai!” Escutar! É a melhor maneira para se preparar para a Páscoa: escutar a Palavra que Jesus veio nos dar. Escutar com os ouvidos, mas, sobretudo, escutar com o coração. Só assim podemos ficar com o nosso rosto transfigurado.
Infelizmente, hoje, o rosto de Jesus aparece mais desfigurado que transfigurado. Desfigurado em tantos rostos humanos por causa da pobreza extrema. Jesus sofredor aparece desfigurado no rosto de crianças doentes, abandonadas, desfrutadas; no de jovens desorientados, perdidos; no dos excluídos da sociedade; no de desempregados, no de idosos abandonados até mesmo pela família. São muitos os desafios que os missionários de Jesus têm de enfrentar. Coragem!

sábado, 20 de fevereiro de 2010

I DOMINGO DA QUARESMA - ANO C - Lc 4,1-13


LECTIO DIVINA

No Evangelho deste I Domingo da Quaresma, a Palavra de Deus nos convida a refletir sobre as tentações de Jesus, a ver como se comporta Jesus perante às armadilhas do diabo, este que aparece sempre como afastamento e oposição a Deus. E, ao mesmo tempo, vemos a relação que Jesus tem com Deus e que é essencial para esse enfrentamento. E, por sinal, uma relação sólida que faz Jesus rejeitar a tentação, a prova com determinação, firmeza, certeza, segurança, tranquilidade, coragem.
A cada proposta do tentador, Jesus dá uma resposta segura, demonstrando assim a certeza e a clareza de sua relação com o seu Pai. E, justamente, por ter sido posto à prova e ter sofrido pessoalmente, é que ele está em grau de ajudar àqueles que estão na provação (2,17s). E aqui o relato das tentações tem tudo a ver com o Batismo, onde Jesus sem mancha alguma é solidário com a humanidade sendo lavado dos pecados desta e que atingirá o seu cume na cruz, término também das tentações que não aparecem só aqui, mas ao longo de todo o Evangelho, quando lemos que os fariseus em muitos momentos querem pô-lo a prova como os soldados romanos .
Tudo aquilo que o Pai havia dito dele é confirmado aqui pelo seu comportamento. De fato, precedente a este texto, separado apenas pela genealogia, está o momento em que ao ser batizado, o Pai declara: “Tu és o meu Filho predileto, em quem me comprazo”; onde ele é revestido como o Ungido pelo Espírito, o qual conduz Jesus ao deserto e permite que ele seja tentado pelo diabo. E, logo, após estas tentações, Lucas inaugura o ministério público de Jesus em seu Evangelho.
O deserto é o lugar da reconciliação e da salvação; foi atravessando o deserto com muitas dificuldades e provações que o povo de Israel depois do êxodo finalmente chegou a terra prometida. Lucas narra as três tentações mostrando a luta interior de Jesus para se manter fiel a sua missão, mas ao mesmo tempo, joga a pergunta sobre o que afinal de contas, tem mais valor para o homem. De modo que o núcleo de cada tentação é o tirar Deus, que diante de tudo aquilo que na nossa vida parece ser mais urgente, pareça em segundo lugar, quando não supérfluo ou cansativo.
Viver a vida sem contar com Deus, mas só com as próprias forças, deixando Deus de lado, é a tentação que nos aparece sob várias formas: as tentações do diabo querem a todo instante nos mostrar que o que vale nessa vida é ter dinheiro, ter poder e aparecer; mostrando assim que Deus é irreal e que suas palavras não cabem.
Bom, mas vamos as tentações que aconteceram num prazo de 40 dias (tempo de transformação e que recordam os 40 anos que Israel passou no deserto, tempo de provação, mas de especial contato com Deus). Assim, Jesus faminto, o diabo diz: “Se és Filho de Deus, manda que esta pedra se mude em pão”.
Na primeira tentação, Jesus é tentado a fazer uso de seus poderes já que é Filho de Deus em seu próprio benefício para ser acreditado, mas sem que isto tenha nada a ver com a missão que lhe foi confiada; a tentação, portanto, consiste em buscar alimento para sua própria sobrevivência, prescindindo da vontade do Pai.
A prova da existência de Deus que o tentador propõe consiste em transformar pedra em pão. E, Jesus responde ao diabo, citando Dt 8,3: “Não só de pão vive o homem”. A citação de Dt remete à experiência vivida por Israel durante o êxodo, quando no deserto, faminto, lembrava o Egito, o que levou a reclamarem de Moisés e Aarão; mas, apesar desse desejo de procurar alimento fora dos planos de Deus, Israel foi nutrido com o “maná” do céu. E aí, teve que passar pela humilhação de reconhecer sua falta de fé em Deus.
Ainda hoje somos tentados algumas vezes a dirigir a Deus a frase: “se és mesmo Deus, mostre seu poder”. O problema da fome no mundo pode nos tentar a desacreditar da figura do Salvador. Mas, mais adiante vemos que Jesus multiplica pães para milhares de pessoas no deserto. E aí faz sentido, porque aquele povo não foi atrás do alimento físico, mas de alimento espiritual, da palavra de Jesus. De fato, Mateus adiciona a não só de pão vive o homem, mas de toda palavra que sai da boca de Deus (Mt 4,4). E esta palavra quando acolhida com amor leva a descobrir a necessidade do próximo. Daí, a gente chega à conclusão que a fome no mundo é justamente porque Deus é colocado em segundo lugar, enquanto o dinheiro se torna um deus.
A segunda tentação não se dirige ao homem que luta para ter o mínimo necessário para sobreviver, mas ao homem que mira além da própria pessoa humana e aspira ao domínio do mundo. Aqui entra em jogo o fascínio do poder, do domínio. Jesus do alto do Templo de Jerusalém, é tentado a aceitar o domínio sobre todos os reinos do mundo com todo o seu esplendor oferecido por um tal que não é o seu Deus. O desafio não põe diretamente à prova sua qualidade de filho, mas o fato de reconhecer como dom e senhor a alguém diferente de seu Pai. Mas, Jesus responde que há um só Deus. A busca exclusiva do poder não combina com o reconhecimento da senhoria de Deus. Jesus reconhece a autoridade no âmbito humano: porém, que não deve ser exercitada como domínio sobre os outros, mas vivida como serviço. De fato, ele responde ao diabo, citando Dt 6,13: “Adorarás o Senhor teu Deus e só a ele servirás”. Esta resposta de Jesus se refere novamente a uma das diretrizes dadas por Moisés ao povo, que o Deuteronômio recapitula. No que se trata de Moisés pede que o povo se policie sobre a sedução que exercerá sobre ele os cultos cananeus (Dt 12,30-31) e o intima que não se deixe levar por deuses estranhos ou ponha sua confiança em poderes estrangeiros. Assim, Jesus rejeita a tentação de se submeter a outro que não seja seu Deus e seu Pai, e deixa definitivamente claro que a sua missão consiste unicamente em esforçar-se para que o reino de Deus se estabeleça definitivamente em todo o mundo. Portanto, o único rei de toda a terra é o Senhor, e só a ele há que render serviço.
Só o poder que está sob a autoridade de Deus é confiável. O reino de Cristo não é de caráter político, aliás, ele deixou tudo. Quando a nossa fé se coloca sob o comando do poder, fica sufocada e obrigada a obedecer a critérios injustos. Desta segunda tentação, sempre surgira a nós uma pergunta: o que Jesus trouxe verdadeiramente, se não trouxe paz no mundo, um mundo melhor? Trouxe Deus. Governos vivem em guerra.
Finalmente, a terceira tentação é a de um Messias mirabolante: atira-te daqui abaixo! Um gesto que teria assegurado fama e espetáculo. Porém, Jesus não tem necessidade de uma prova de que Deus o ama, ele confia no Pai. Jesus supera as tentações: escolhe respeitar o senhorio de Deus, confia no Pai e no seu plano salvífico pelo mundo. Renuncia instrumentalizar egoisticamente as coisas materiais para o próprio proveito (não muda as pedras em pão para si; mais tarde multiplicará para a multidão faminta); rejeita dominar as pessoas e prefere servir: mantém sempre uma relação filial com Deus, confiando na sua fidelidade. Aceita a cruz por amor e morre perdoando: somente assim, quebra o espiral da violência e tira da morte o seu veneno. Enfim, vale lembrar que Jesus supera as tentações porque está cheio da força do Espírito Santo. Nós também somos convidados a pedir auxílio ao Espírito Santo para que nos ajude a vencer as tentações, pois o tentador sempre está prestes a retornar no momento oportuno.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

QUARTA-FEIRA DE CINZAS - Mt 6,1-6.16-18





Com a Quarta-feira de Cinzas, iniciamos o tempo da Quaresma e a Campanha da Fraternidade que este ano tem como tema: Economia e Vida. E como lema: "Vocês não podem servir a Deus e ao Dinheiro" (Mt 6,24).
A Quaresma são 40 dias até a celebração da maior festa cristã: a Páscoa de Jesus. São 40 dias que lembram os 40 anos da marcha do povo de Deus pelo deserto em busca de libertação como também os 40 dias de jejum de Jesus também no deserto. É um tempo de deserto, de interiorização, de transformação. O Evangelho desta quarta-feira de cinzas é tirado do sermão da montanha do evangelho de Mateus e quer nos oferecer um ensinamento sobre a prática das três obras de piedade fundamentais do cristão: a esmola, a oração e o jejum. Embora ao longo dos séculos, tenha mudado o modo de praticar as obras de piedade, permanece a obrigação humana e cristã de partilhar os bens com os mais pobres, com o próximo (esmola), viver em comunhão com Deus (oração), e saber reconhecer e controlar os nossos desejos, relação com nós mesmos (jejum). As palavras de Jesus que meditamos podem fazer surgir em nós à criatividade necessária para encontrarmos novas formas de viver estas três práticas tão importantes para a vida cristã. A esmola, a oração e o jejum eram as três práticas de piedade dos judeus. Jesus critica o fato de que eles as pratiquem somente para serem vistos e elogiados pelas pessoas. Ele não permite que a prática da justiça e da piedade seja usada como um meio para a promoção social na comunidade. Nas palavras de Jesus, aparece um novo tipo de relação com Deus que se desfecha para nós. Ele diz: “o teu Pai, que vê o que está escondido, te dará a recompensa”. Jesus nos oferece um caminho de acesso ao coração de Deus. A meditação das suas palavras com relação às práticas de piedade poderá ajudar a descobrir este novo caminho. “Ficai atentos para não praticar a vossa justiça na frente dos homens, só para serdes visto por eles. Caso contrário, não recebereis a recompensa do vosso Pai que está nos céus”. Ao ler esta frase, não devemos pensar somente aos fariseus do tempo de Jesus, mas, sobretudo ao fariseu que sobrevive em cada um de nós. Devemos construir a nossa segurança desde dentro, não naquilo que fazemos para Deus, mas naquilo que Deus faz por nós. É este o ponto chave para entender o ensinamento de Jesus sobre as práticas de piedade. Desta forma, Mateus explica este princípio geral à prática da esmola, da oração e do jejum, dizendo antes como isto não deve acontecer e logo em seguida, como devemos fazer. Como não dar esmola? O modo errado, seja naquele tempo, como hoje, é usar um modo vistoso, para ser reconhecido e aclamado por todos como faziam os hipócritas que tocavam as trombetas nas praças. Jesus diz, aquele que age assim, já recebeu a sua recompensa. Como devemos dar a esmola? O modo correto é “que a tua mão esquerda não saiba o que faz a tua direita”. Ou seja, devo dar a minha esmola de modo que nem eu mesmo devo ter a sensação de estar fazendo uma coisa boa, que mereça uma recompensa da parte de Deus e elogio da parte dos outros. A esmola é uma obrigação. É uma forma de partilhar algo que eu tenho com aqueles que não têm nada. Lembre-se da viúva que dava até mesmo o que lhe era necessário. Como não rezar? Falando do modo errado de rezar, Jesus menciona alguns usos e costumes estranhos daquela época. Quando a trombeta tocava para as orações, tinha gente que rezava solenemente na rua para ser considerada piedosa. Como rezar? Para não deixar sombra de dúvidas, Jesus exagera sobre o modo de rezar. Diz que é necessário rezar, no escondido, somente diante de Deus Pai para que ninguém nos veja. fazendo isto, talvez nos considerem como alguém que não reza. Não importa. Até de Jesus caçoaram: “Não é de Deus!”. E isto porque Jesus rezava muito à noite em lugares afastados e não se importava com a opinião dos outros. Aquilo que importa é ter a consciência em paz e ter a certeza que Deus é o Pai que nos acolhe, e não a partir da satisfação que procuro no fato que outros me apreciem como uma pessoa piedosa e que reza. Como não jejuar? Jesus critica as práticas erradas do jejum. Havia gente que fazia cara de tristeza, não tomavam banho, usavam roupas enxovalhadas, não se penteavam, de modo que todos pudessem ver que estavam jejuando de modo perfeito. Como fazer o jejum? Jesus recomenda o modo contrário. “Quando jejuares, perfuma a cabeça e lava o rosto” de modo que ninguém perceba que você esteja jejuando, mas só teu Pai que está nos céus. Hoje uma maneira muito válida de jejuar é evitar o consumismo desenfreado. Enfim, Jesus apresenta um caminho novo de acesso ao coração de Deus aberto a cada um de nós. A esmola, a oração e o jejum não são dinheiro para comprar a graça de Deus, mas são a resposta da gratidão ao amor recebido e experimentado.

domingo, 7 de fevereiro de 2010

VI DOMINGO COMUM - ANO C - Lc 6,17.20-26

LECTIO DIVINA

Domingo 14 de fevereiro de 2010

VI DOMINGO COMUM – ANO C

TEXTO BÍBLICO: Lc 6,17.20-26

Autor: Pe. Carlos Henrique

FELIZ É O HOMEM QUE CONFIA NO SENHOR

A mensagem principal da liturgia deste domingo se concentra numa contraposição que encontramos quer na Leitura do profeta Jeremias quer no Salmo como no Evangelho segundo Lucas. Somos convidados a acolher com fé essa Palavra de Deus e a experimentar em nossa vida a verdade profunda que ela contém.

“Maldito o homem que confia no homem e faz consistir sua força na carne humana, enquanto seu coração se afasta do Senhor... Bendito é o homem que confia no Senhor...” (Jr 17,5-8).

“Feliz é todo aquele que não anda conforme os conselhos dos perversos; que não entra no caminho dos malvados nem junto aos zombadores vai sentar-se; mas encontra seu prazer na lei de Deus e a medita dia e noite, sem cessar... eis que tudo o que ele faz vai prosperar... mas bem outra é a sorte dos perversos... a estrada dos maus leva à morte” (Sl 1).

Quanto ao Evangelho, é o das bem-aventuranças. Enquanto em Mateus, Jesus apresenta oito bem-aventuranças no chamado Sermão da Montanha (Mt 5,1-7,29), Lucas cita apenas quatro no chamado Discurso na planície (Lc 6,17-7,1). Mas em compensação, Lucas reforça estas quatro, contrapondo a cada uma delas uma maldição correspondente, iniciada por um “ai”.

Além disso, enquanto o discurso de Mateus é apresentado de forma indireta e a ênfase cai na pobreza espiritual, Lucas é totalmente direto e acentua a pobreza material: “Bem-aventurados, vocês, os pobres!” Entretanto, trata-se de detalhes que não mudam em nada o essencial da mensagem. Cada um dos evangelistas, a seu modo, apresenta o significado profundo do ensinamento de Jesus como veremos a seguir.

As quatro bem-aventuranças que correspondem em ambos os evangelhos, mostram situações de necessidade (pobreza, fome, choro e perseguição). As outras quatro que Mateus acrescenta dizem respeito a um comportamento positivo (mansidão, misericórdia, pureza, pacificação). Mas, por sua vez, só Lucas mostra que Jesus anuncia quatro “ais” claramente em oposição às bem-aventuranças. E desde já, é bom lembrar que os “ais” de Jesus não são uma sentença de condenação, mas uma lamentação, ele apenas está dizendo: é uma pena que vocês tenham preferido o caminho que não leva a nada.

Como público do seu discurso, Jesus tinha muitos dos seus discípulos, como também uma multidão de judeus e pagãos. Entretanto, olhando diretamente para seus discípulos, Jesus começa a dizer as bem-aventuranças, mostrando com este gesto que tais palavras não valem para todos, mas para aqueles que acolheram o seu chamamento e o estão seguindo, já que para quem ainda não o acolheu, ou seja, para quem vive a vida se matando por dinheiro, fama e poder, as bem-aventuranças soam ridículas, sem nexo e de uma chatice total; pois quem já viu alguém se alegrar por ser odiado, expulso, insultado, amaldiçoado, pobre, faminto?

Mas, Jesus é seguro no que diz: “Bem-aventurados, são vocês, os pobres, porque de vocês é o Reino de Deus” (6,20). E a esta corresponde o “mas ai de vocês, os ricos, porque já têm o seu conforto!”.

O que Jesus quer anunciar é a Boa Notícia de que o Reino de Deus é dos pobres; a verdadeira felicidade se consegue, participando desse reino através da fé e da acolhida a este reino que se traduz em bons frutos. Jesus como Rei é o responsável total pela vida, pela salvação e a felicidade de seus seguidores, e estabelece de forma definitiva o seu reino que está acima de todos os outros reinos, tais como o do dinheiro que com seus aspectos negativos como o consumismo desenfreado, a mesquinhez, a indiferença, a ganância etc prejudicam a felicidade do homem e o levam finalmente à morte.

Jesus oferece uma vida com sentido. Provou no próprio corpo a dor da morte violenta e injusta para que tivéssemos direito a esta herança que é o seu Reino de salvação e de felicidade plena. E somente os pobres estão preparados para acolher este reino, pois são aquelas pessoas conscientes de que as suas próprias forças e os bens materiais não são suficientes nunca para trazer o sentido pleno de suas vidas, para serem felizes. Pelo contrário, sabem que mesmo que não arredem o pé dos seus bens, o cemitério está sempre se aproximando.

E os discípulos são assim, deixaram tudo para seguir o Mestre: “Quem de vocês não renunciar a tudo o que tem, não pode ser meu discípulo” (Lc 14,33). Teve aquele outro caso daquele rapaz rico a quem Jesus disse: “uma coisa ainda lhe falta: venda tudo o que você tem, dê aos pobres e terá um tesouro nos céus; depois, vem e segue-me (Lc 18,22). Mas o homem ficou muito triste porque era riquíssimo e não queria se desapegar dos seus bens. O que fez Jesus afirmar a famosa frase: “como é difícil para os que têm riquezas entrarem no Reino de Deus”. E deve ser mesmo, não por causa da riqueza em si, mas por causa do apego à riqueza que impede de ver a miséria e a necessidade do outro, como devem existir no atual momento, pessoas que têm muito e dormem tranquilamente, enquanto milhares morrem de fome no Haiti e em muitos outros lugares também.

Assim, Jesus considera o apego aos bens materiais um seriíssimo obstáculo para herdar o Reino de Deus, pois ele não pode concordar com tamanha injustiça, já que a grande riqueza de alguns sempre acontece graças às injustiças que eles cometem, como a corrupção escancarada e um emaranhado de situações injustas que visam somente o lucro como um mau patrão que trata os seus empregados como verdadeiros escravos sem lhes dar nenhum direito.

O lema da Campanha da Fraternidade deste ano que começa na quarta-feira de cinzas é justamente: “vocês não podem servir a Deus e ao Dinheiro” (Mt 6,24). Dinheiro aqui até aparece com D maiúscula porque realmente aparece como um concorrente contra Deus. Devemos ter uma relação justa e equilibrada com o dinheiro. Viver a vida de modo apenas horizontal, batalhando dia após dia para conseguir coisas nessa vida, é ser constantemente infeliz, é sofrer, é nunca chegar. Esta vida só conhece uma linguagem: a do “mais”. E interessante, sempre está vazia, sempre é mendiga. Por mais que você chegue à posição mais elevada, sempre há uma ilusão e uma insatisfação. Por isso que Jesus pede que busquemos as coisas do alto. A linha vertical que é a do menos. A do ser cada vez menos e menos, a ponto de não ser ninguém. Renunciar ao mundo, sem sair do mundo, mas se reconhecer um nada diante de Deus para que Ele possa encher a ponto de transbordar com a sua graça.

Claro que se eu dou tudo o que tenho, eu fico pobre também. E aí? Como vou viver? O caso de Zaqueu é um exemplo desta relação justa com o dinheiro, onde Jesus elogiou a atitude de Zaqueu de dar aos pobres a metade de seus bens (Lc 19,1), pois com a outra metade, daria para viver tranquilamente, isto numa época em que não havia bancos, nem aposentadorias, nem seguros, nada disso. Agora pra que uma pessoa quer bilhões de dólares e às vezes nem desfruta desse dinheiro para arrecadar mais um dinheirinho como se fosse viver não sei quantos mil anos? Jesus tem razão, o mais traz insatisfação.

Na verdade, não há texto bíblico melhor para ilustrar o comentário de evangelho de hoje como a parábola do rico e do pobre Lázaro. Nela, aparece o rico, a quem se destina o “ai” de Jesus e que não pode mais esperar por nenhuma consolação. É o rico que vive no conforto, na abundância, no egoísmo, na ganância (Lc 16,19), é rico, tem fartura, ri e é bajulado (6,24-25). Mas esquece de algo fundamental: conhece um pobre homem que reside à sua porta e numa total indiferença e mesquinhez, não lhe dá de comer de modo algum, nem com as migalhas que caem da mesa.

Já Lázaro, pelo contrário, é miserável, enfermo, tem como companheiros os cachorros; em qualquer necessidade sua, confia em Deus e sabe que pode contar com Ele, como fazem ainda hoje milhões de miseráveis que não tem o que comer. Para encurtar a história, depois da morte, Lázaro é levado à felicidade eterna, à plena comunhão com Deus, enquanto o rico se auto-excluiu de tal comunhão.

Mas, enfim, Jesus não condena as riquezas materiais nem os ricos nem os confortos da vida terrena. O que ele quer dizer é que a vida terrena não é tudo. Portanto, ele quer nos dizer que aspirar só aos bens materiais, ao sucesso, ao poder, e principalmente às custas da desgraça alheia, é errado e isso nos deixará infelizes e sem sentido sempre. E isso é uma prova de que ele não é o nosso Deus, mas sim o dinheiro. Essa vida de ganância só deixa o mundo mais injusto. Já as coisas mais elevadas, o amor, a caridade, a partilha dessas riquezas deixaria o mundo mais justo, mais solidário, mais humano.

Perguntas para a meditação:

1.O que significa dizer que Jesus anuncia o Reino de Deus aos pobres?

2.O que a mensagem do Evangelho de hoje diz sobre a sociedade de consumo, do entretenimento, o uso sem controle dos bens materiais, a estrema diferença entre os países ricos e os pobres, e enfim, a nós brasileiros que vivemos no país mais injusto do mundo?

3.Na hora da verdade, que é a morte, o que vai ficar no final de contas, quando eu for privado de todos os meus bens e do uso deles?

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

V DOMINGO COMUM - ANO C - Lc 5,1-11

CORAGEM DE AVANÇAR PARA O ALTO-MAR

Certo dia Jesus estava na praia do lago da Galiléia, e a multidão se apertava em volta dele para ouvir a mensagem de Deus. Ele viu dois barcos no lago, perto da praia. Os pescadores tinham saído deles e estavam lavando as redes. Jesus entrou num dos barcos, o de Simão, e pediu que ele o afastasse um pouco da praia. Então sentou-se e come-çou a ensinar a multidão. Quando acabou de falar, Jesus disse a Simão: - Leve o barco para um lugar onde o lago é bem fundo. E então você e os seus companheiros joguem as redes para pescar. Simão respondeu: - Mestre, nós trabalhamos a noite toda e não pescamos nada. Mas, já que o senhor está mandando jogar as redes, eu vou obedecer. Quando eles jogaram as redes na água, pescaram tanto peixe, que as redes estavam se rebentando. Então fizeram um sinal para os compa-nheiros que estavam no outro barco a fim de que viessem ajudá-los. Eles foram e encheram os dois barcos com tanto peixe, que os barcos quase afundaram. Quando Simão Pedro viu o que havia acontecido, ajoelhou-se diante de Jesus e disse: - Senhor, afaste-se de mim, pois eu sou um pecador! Simão e os outros que estavam com ele ficaram admirados com a quantidade de peixes que haviam apanhado. Tiago e João, filhos de Zebedeu, que eram companheiros de Simão, também ficaram muito admirados. Então Jesus disse a Simão: - Não tenha medo! De agora em diante você vai pescar gente. Eles arrastaram os barcos para a praia, deixaram tudo e seguiram Jesus.

O evangelista Lucas hoje descreve o episódio da pesca milagrosa e com isso, nos mostra a relação entre Jesus e os seus colaboradores: tudo começa por iniciativa de Jesus e termina com a experiência que Pedro fará dele mesmo. Pedro era um simples pescador, e, naquela ocasião, vinha de uma pesca falida. Tinha trabalhado toda a noite no mar (lago) de Genesaré, o qual ele conhecia perfeitamente. Ser pescador era a única escolha de vida que ele poderia fazer naquela região da Galiléia. E um bom pescador nunca se lança ao mar se não tem quase certeza de retornar com as redes se não cheias, mas ao menos, com uma boa quantidade de peixes que lhe permita viver. É o desejo de viver com dignidade: “Mestre!” Disse Pedro a Jesus que lhe pedia a barca para pregar o Evangelho, “nós trabalhamos a noite inteira e nada pescamos”. Que terrível aquele “nada”; significa um fracasso total. Jesus, entretanto, quer dar um sinal de sua divindade a Pedro, justamente na área de competência deste; e, sem lhe dar nenhuma motivação nem esclarecimento, ele diz: "Avança para o alto-mar e lançai as vossas redes para a pesca”. Incrivelmente, Pedro com seus companheiros de trabalho, deixa de lado o seu fracasso e põe toda a confiança nas palavras de Jesus: “em atenção a tuas palavras vou lançar as redes”. É admirável esta atitude de Pedro. Tinha mil e uma razões para ficar irado consigo mesmo, com o mar e contra toda esperança por achar-se de mãos vazias depois de uma noite de cansaço. No entanto, Pedro supera a si mesmo e com a docilidade de uma criança, confia na palavra de alguém, que ele conhecia pela cura de sua sogra, experimentando o poder de Jesus; assim, aventura-se no alto-mar, onde se mede capacidade e coragem de esperar. “Assim fizeram e apanharam tamanha quantidade de peixes, que as redes se rompiam”.É aí que Pedro experimenta quem é Jesus e experimenta quem é ele mesmo. Ele atira-se aos pés de Jesus e confessa a sua pobreza de homem, que é também a nossa pobreza diante de Deus e do seu amor. "Senhor, afasta-te de mim porque sou um pecador". Ótima confissão. Precisamos cada vez mais reconhecer e admitir isto diante de Deus. A experiência do Senhor lhe abriu os olhos para reconhecer a real situação de sua própria pessoa. Tantas coisas nele estão erradas. Entretanto, o comportamento de Jesus não é aquele de se afastar dos pescadores e de lhes abandonar no pecado. Ele não veio converter os justos, mas os pecadores. A consciência de Pedro é justa, mas a sua solução do problema não é aceita por Jesus, o qual não se afasta dele, mas o acolhe e o chama para a sua missão: “de hoje em diante tú serás pescador de homens”. É um pouco a história de todos aqueles que Deus chamou para ser pescadores de homens. Ou seja, é a história de cada batizado. Todos somos convidados a nos lançarmos em alto-mar. O resultado desta ação nunca virá da nossa capacidade de “pecadores”, mas unicamente da fé na Palavra de Jesus. A Palavra de Jesus é um convite que nos diz: “você tem que deixar de lado todas as experiências e considerações humanas. É verdade, que, do ponto de vista humano, não há nenhuma esperança de sucesso pra você. É verdade que você é pecador. Mas, tudo isto é nada diante da minha Palavra. Você será meu apóstolo e pescador de homens”. O inteiro episódio da pesca milagrosa é orientado a infundir coragem para o serviço apostólico, não obstante as dificuldades. E esta coragem só pode vir da Palavra e da pessoa de Jesus. É fácil ser tomado pelo medo ou pelo desencorajamento. Quantas vezes dizemos: “Não sei mais o que fazer por meu marido, por minha esposa, pelos meus filhos, pelos meus amigos, pela minha comunidade”. É as confissões de tantos esposos. É a confissão de tantos pais que vêem os próprios filhos, não obstante a grande fadiga de uma educação que parecia boa, escolher estradas que não levam a lugar nenhum ou pior, levam muito longe... como se todo o trabalho feito resultasse em “nada” como a pesca de Pedro. Quantos padres ou educadores, vendo suas fadigas frutificarem pouco ou nada, entraram no desânimo. Têm-se a impressão que tudo está indo mal. E pode acontecer que realmente esteja.
Porém, é maravilhoso o tempo de coragem de ir para o alto-mar, ou seja, o tempo dos desafios que o Evangelho sugere e a Graça favorece. É tempo de abandonar-se à Palavra do Mestre que nos chama e convida a ir “além”, confiando em Deus, que não tem certamente medo da pobreza do homem. Não é lícito a quem tem boa vontade, ficar na janela, contemplando acomodado os tantos males de cada dia. É tempo de ter a coragem dos mártires. Estar com as mãos dadas só para expressar indignação não serve. O homem, juntamente com sua pobreza, espera que quem se aproxime dele e seja companheiro dele na barca de Pedro, encontre coragem na Palavra de Jesus.