segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

MISSA DA SANTA MÃE DE DEUS - Lucas 2,16-21


1o de janeiro de 2011
MISSA DA SANTA MÃE DE DEUS
Lucas 2,16-21
Autor: Pe. Carlos Henrique
Mais um ano se inicia! E com a fé nas bênçãos que vêm de Deus, não temos necessidade de fazer mais nada para ter um ano de paz, saúde, amor e prosperidade! Muitos deixam de ter fé em Deus para se dedicar à leitura de horóscopos, a simpatias. Mas o que são estas superstições diante do poder de Deus? Absolutamente nada! Temos que confiar em Deus e isso já nos basta. Se Deus está o tempo todo com o seu rosto voltado para nós, do que mais precisamos?
A celebração de hoje nos convida a venerar Maria, a Santa Mãe de Deus Salvador; a venerar aquela que acolheu e carregou no seu ventre o Filho de Deus. Por ela, Deus entrou no mundo e veio ao nosso encontro. Agora, somos nós quem devemos ir ao encontro dele. Somos nós quem devemos acolher essa Luz que ilumina os nossos passos. Maria é a mulher que escutou a voz de Deus, acolheu e obedeceu a vontade do Senhor; sempre atenta a acolher os sinais de Deus, renovava diariamente o seu “sim”.
O Evangelho desta liturgia que é uma continuação daquele lido na noite de Natal, coloca Maria numa posição central. Como anunciado no texto anterior, os pastores “encontraram Maria e José, e o recém-nascido deitado na manjedoura”; depois, “voltaram, glorificando e louvando a Deus por tudo o que tinham visto e ouvido”. O mais interessante deste relato, é que há um corte bem no meio do texto para nos dar uma preciosa informação: “quanto a Maria, guardava todos esses fatos e meditava sobre eles em seu coração”.
Maria, que hoje invocamos como Mãe de Deus Salvador, é a Rainha da Paz. Ela é rainha de uma paz que não depende das circunstâncias. Mas, uma paz que brota do coração, uma paz que existe mesmo em meio às provações da vida. Ela guardava a Palavra de Deus em seu coração e a Palavra traz paz.
Hoje também é o dia da paz. Não devemos esquecer que a paz não é somente a ausência de guerras, de violência, é também ausência de qualquer desentendimento, discussão, desunião. E como existe isso nas nossas famílias! A paz que o mundo oferece é um sentimento que temos quando tudo corre bem na nossa vida ou quando as pessoas se comportam como nós queremos. Porém, quando as coisas não acontecem do jeito como esperamos, quando queremos mudar as pessoas e não conseguimos, isso nos frustra e o sentimento de paz nos deixa e a impaciência e o aborrecimento tomam conta de nós.
A paz que Jesus nos dá é uma paz diferente da que o mundo nos dá. Em cada missa, pedimos essa paz, e às vezes repetimos tão mecanicamente que nem nos inteiramos do seu verdadeiro significado: “livrai-nos de todos os males, ó Pai, e dai-nos hoje a vossa paz”, “Senhor Jesus Cristo, dissestes aos vossos apóstolos: Eu vos deixo a paz, eu vos dou a minha paz”. E logo em seguida, desejamos a paz do Senhor ao nosso próximo.
Se lembrarmos bem, Jesus não perdeu a paz nem no meio da tempestade. Ele continuou dormindo tranquilamente na popa do barco, enquanto seus discípulos estavam apavorados e indignados porque Ele não se mostrava preocupado com eles. Temos que aprender a receber essa paz de Jesus, essa paz que nos faz esperar no tempo de Deus com paciência, essa paz que nos faz respeitar e tratar bem o próximo.
É preciso que aceitemos na nossa vida a salvação oferecida por Jesus. De fato, este nome contém todo o significado da vinda de sua vinda ao mundo. Oito dias depois do nascimento do Filho de Deus, no momento da circuncisão, símbolo de aliança entre Deus e o povo de Israel, o menino recebe o nome de Jesus. Em aramaico, Yeshua significa “Deus salva”. Ele veio ao mundo para fazer uma aliança conosco, para nos salvar e nos conceder a sua paz.
Que neste ano que se inicia, o Senhor volte para nós o seu rosto, abençoe a nós todos e nos dê a paz. Que tenhamos liberdade religiosa, caminho para a paz! Feliz 2011!

domingo, 26 de dezembro de 2010

SAGRADA FAMÍLIA – Mt 2,13-15.19-23

Jesus, Maria e José: modelo para a família cristã

Um bebê é um ser muito frágil e sem força. Não pode se defender. Para sobreviver, depende totalmente do cuidado e da ajuda dos pais. Muitas crianças têm sido vítimas da própria incapacidade de se defender. Umas não chegam nem a nascer, são abortadas; outras, são jogadas em rios, no lixo, de prédios altos, são maltratadas, são vendidas. Também Jesus depois de ter nascido num lugar tão incômodo, correu risco de vida.
No Evangelho de hoje, lemos o drama do exílio e da imigração que teve de experimentar a Sagrada Família para escapar da matança cruel que Herodes tinha ordenado a fim de matar Jesus, a quem considerava um grande rival apesar de sua pouca idade. Tal drama nos mostra que o texto em questão quer mostrar justamente que ameaçado Jesus, fica ameaçada também toda a sua obra de salvação. Mas, Deus o protege.
José recebe de Deus a responsabilidade de marido e pai, de tomar o menino e sua mãe e fugir para salvar-lhes a vida e assim o faz. Ele foge para o Egito (África). Desta forma, José se apresenta como o homem responsável para com a sua família e cuida dela totalmente, desempenhando o papel de protetor, exemplo para tantos pais que já não se preocupam com os seus filhos.
De igual modo, José também obedece a Deus quando deve retornar às suas origens. Depois da morte de Herodes, volta para Israel, sinal evidente de que o seu esforço é para deixar crescer o filho na terra onde nasceu. Ele não se deixa levar pelos seus próprios interesses, mas enfrenta todas as situações pelo bem do seu filho. Até sob este ponto de vista, José é exemplo para todos aqueles pais que ao invés de defender as próprias origens, sobretudo no campo da fé, frequentemente trocam Deus por outras coisas e outros lugares, influenciando negativamente os seus filhos, às vezes até são responsáveis pela falta de fé dos filhos quando não transmitiram a fé a estes.
Com José, temos a reafirmação da cultura das próprias origens que ninguém deveria esquecer. Jesus teve de ir ao Egito, porque de lá saiu o povo escravo do faraó para a liberdade no Senhor. Também ele deveria sair do Egito e entrar na Terra prometida, aqui representada por Nazaré, o que pode ser uma alusão a Is 11,1, onde é anunciado um rebento do tronco de Jessé como Príncipe da Paz (nezer). Já o fato de Maria nunca ser chamada pelo nome neste texto, mas sempre por mãe, enfatiza sua função materna da qual Jesus dependeu para crescer.
Pois bem! Como a família atual se afastou desta concepção de família que acabamos de tratar! Os pais e as mães estão sempre mais ocupados, estressados, maltratados, esquecidos, e até mesmo humilhados pelos próprios filhos, o que causa um dano enorme à família, pois se há falta de amor dentro dela, como podemos experimentá-lo em outro lugar?
É uma verdadeira lição o que lemos hoje na I leitura. O autor do Eclesiástico lembra o mandamento da lei mosaica que pede claramente para honrar o pai e a mãe e ainda esclarece que para isso é necessário que também os pais honrem os filhos. Hoje, a família caminha insensivelmente para a autodestruição, principalmente quando se confunde maternidade e paternidade graças ao egocentrismo.
O estilo de uma vida familiar com princípios cristãos se encontra expresso na carta de Paulo aos colossenses (II leitura). É preciso levar uma vida virtuosa em família para salvá-la da sua destruição ou implosão. Os vários sentimentos que Paulo acena na leitura deveriam ser patrimônio de todos os membros de todas as famílias cristãs.
Infelizmente, sabemos muito bem que não é assim, sobretudo hoje. Daí, a necessidade de reforçarmos as experiências positivas da vida familiar em prol da educação dos nossos filhos para combater o mau exemplo sempre mais forte das “falsas” famílias que são propostas na mídia, especialmente nas novelas com sua degradação geral. Estas sempre fazem mais ou menos sucesso de acordo com o maior ou menor número de traições, abandonos, separações, divórcios, filhos ilegítimos, e tantos outros atentados à vida familiar. Jesus, José e Maria nos indicam a estrada melhor para revitalizar às nossas famílias frágeis. Só o amor que vem de Deus é capaz de salvar a família, justamente porque o mistério de Deus Uno e Trino é o maior exemplo de família.

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

MISSA DO NATAL DO SENHOR – Lucas 2,1-14

É Natal de Jesus! O Evangelho que a liturgia desta festa nos propõe nesta noite narra o maior acontecimento esperado por toda a humanidade: o nascimento do Salvador, o Cristo Senhor. O texto bíblico é fortemente caracterizado por um grande contraste. Enquanto os judeus esperavam a vinda de um rei majestoso, político, nacional, eis que tal Messias se apresenta ao mundo de uma forma totalmente inesperada. É neste contraste, pois, que vamos descobrir um dos maiores ensinamentos que o Natal do Senhor nos pode oferecer.
Logo no início do Evangelho, lemos as seguintes informações históricas: em primeiro lugar, aparece o imperador César Augusto, dominador do mundo Mediterrâneo da época, o qual impõe a realização de um censo em toda a terra (a que eles conheciam na época), ou seja, de todos os habitantes submetidos ao império romano, entre os quais se encontravam os da Palestina. Em seguida, o texto diz que quando ocorreu este censo, o governador da Síria era Quirino, procurador de Augusto na tetrarquia que compreendia a Idumeia, a Samaria e a Judeia, onde está localizada Belém.
Longe, porém, de ter provas para estes dados históricos, além de uma diferença notável entre o relato do nascimento do Messias narrado neste texto e aquele no evangelho de Mateus, ficamos com o que nos interessa: este decreto é o que liga José e Maria, residentes em Nazaré da Galileia a Belém da Judeia. De fato, Lucas sublinha que Belém é a cidade natal de Davi, de onde descende José. Desta maneira, temos uma referência à promessa e à espera messiânica ligada a Belém e a família de Davi: “Grande será o seu reino, e a paz não há de ter fim sobre o trono de Davi e sobre o seu reinado” (Is 9,6).
Chegando o tempo devido, Maria dá a luz o seu “primogênito” (este termo não quer indicar que Maria teve outros filhos, mas que Jesus é o primeiro filho de Maria, e por isso, tem todos os direitos da primogenitura; para se ter uma ideia da importância da primogenitura, basta lembrar as incansáveis trapaças feitas por Jacó contra seu irmão Esaú para tomar-lhe este direito).
Maria, como toda mulher, passa naturalmente por essa experiência: nem pode escolher o momento, nem esperar uma circunstância melhor. Ela não encontrou um lugar adequado para o seu menino, por isso, deu à luz num estábulo, pondo o menino numa manjedoura. São pobres e sem pretensões. É verdade! O primeiro lugar a receber o Salvador foi um lugar simples e com todas as características de qualquer estábulo, ou seja, incluso as necessidades fisiológicas dos animais.
Assim, o que, imediatamente, chama a nossa atenção neste acontecimento é a simplicidade. Na sua grandeza infinita, o Altíssimo se abaixa não só à condição humana, mas em qual condição Seu Filho veio ao mundo!? O Salvador entrou na nossa condição humana, a partir da fraqueza de um menino enrolado em panos, deitado em palhas e está do nosso lado e nos acompanha.
Em contraste com essa pobreza, aparece o esplendor da luz celeste e a aparição do anjo de Deus aos pastores que tomavam conta de seus rebanhos; mas o sinal que recebem é simplesmente este: “encontrareis um recém-nascido envolvido em faixas e deitado numa manjedoura”. Aos pastores que estão com muito medo, o anjo anuncia uma grande alegria. Realmente, eles têm um grande motivo para se alegrarem: nasceu para eles e para todo o mundo o Salvador.
A maravilha do Natal reside neste contraste: sem a revelação dos anjos nunca entenderíamos que aquele menino na manjedoura é o Senhor. E sem o menino na manjedoura nunca entenderíamos que a glória do verdadeiro Deus é diferente da glória a que estamos acostumados.
Que possamos ser humildes e simples para que o Senhor, neste Natal, venha ao estábulo do nosso coração e assim, possamos amá-lo na pessoa do próximo como nos ensina tão bem Madre Teresa de Calcutá: “Da humildade sempre emanam a grandeza e a glória de Deus. Devemos estar vazios do orgulho se quisermos que Deus nos preencha com a sua plenitude. No Natal, vemos Deus como um recém-nascido, pobre e necessitado, que veio para amar e ser amado. Como podemos amar a Deus no mundo de hoje? Amando-o em meu marido, em minha mulher, nos meus filhos, nos meus irmãos, nos meus pais, nos meus vizinhos, nos miseráveis, nos bêbados, nos presos, nos enfermos, nos excluídos, nas prostitutas, em todos aqueles que encontramos”
Feliz Natal!

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

4º DOMINGO DO ADVENTO - Mt 1,18-24

O grande sonho de José

Às portas do Natal, a liturgia nos faz refletir sobre a figura de José, um homem simples, carpinteiro, de um pequeno povoado desconhecido da Galileia chamado Nazaré. José é aquele que aparece na genealogia de Jesus narrada em Mt 1,1-17. Esta liga Jesus a Davi e a Abraão. Porém, o que chama a atenção é que em Mt 1,16, lemos que José é o esposo de Maria e que Maria é a mãe de Jesus, mas nunca que Jesus seja filho de José. De fato, Mt 1,18.20 diz que é o Espírito Santo quem está na origem da vida de Jesus.
José vivia sua vida tranquilamente, e, segundo o costume, foi-lhe prometida em casamento, uma adolescente do povoado, Maria, com a qual ele tinha o sonho de casar e ter filhos. Naquela época, o casamento era feito em duas etapas. A primeira era a “promessa” ou noivado (
kidushin): um compromisso moral que tinha a validade do matrimônio, mas não concedia direito algum aos envolvidos, inclusive o de ter relações sexuais. Só algum tempo após o noivado, isto é, um pouco antes da jovem completar os 14 anos, realizava-se a segunda etapa, a celebração (nissuin), onde a noiva era conduzida à casa do marido por duas testemunhas (se a jovem completasse os 14 anos e não fosse prometida, era livre para escolher o noivo, coisa quase impossível, pois os pais da moça escolhiam o noivo para assegurar-lhe um futuro).
Segundo o direito judaico, já no noivado, os prometidos em casamento, são considerados marido e mulher. Por isso, José é chamado o esposo de Maria em Mt 1,16.19, e, Maria, a esposa de José em Mt 1,20.24.
Tudo corria tranquilamente entre o noivado e a passagem para a casa do noivo, quando um dia, o mundo de José revirou. Aquele sonho parecia que tinha acabado com tudo. Ele soube que sua mulher estava grávida. E só ele sabia com certeza que aquele filho não era seu. Num caso destes, a lei judaica dizia que o homem deveria deixar a mulher. Sendo José um homem justo, ou seja, que cumpria a vontade de Deus presente nas escrituras judaicas, sendo traído, tinha que repudiar Maria, com todas as consequências civis e penais que ela deveria sofrer, aparecendo aos olhos de todos como uma adúltera, rejeitada e excluída não só pelos parentes, mas por todos os habitantes de Nazaré.
José, porém, agindo com muita prudência, e, porque amava Maria, decidiu repudiá-la secretamente, para não expô-la a esta situação penosa. Não lhe restava nada a não ser refletir sobre aquela situação amarga. Que drama este homem deve ter enfrentado, quantos pensamentos podem ter passado em sua mente! Mas Deus não o deixou sozinho com seus pensamentos. Exatamente quando se perguntava amargurado, José teve um sonho bem maior que o primeiro. Neste, apareceu um anjo do Senhor que lhe disse: “José, filho de Davi, não tenhas medo de receber Maria como tua esposa, porque ela concebeu pela ação do Espírito Santo”. Assim, José fez como o anjo lhe tinha ordenado: tomou consigo Maria e reconheceu o menino como filho diante da lei. Por mandato de Deus, José tornou-se perante a lei o pai de Jesus; assim, Jesus é inserido legalmente na genealogia de José. Deus entra naquela história começada desde Abraão e Davi.
O sonho de José é um sinal de Deus. Uma criança salvará o mundo inteiro dos seus pecados, uma criança libertará o mundo de todas as escravidões; seu nome Yeshua (Jesus) significa Deus salva. Hoje, José está diante de nós para nos exortar a escutar o Evangelho, a acolher a palavra do anjo que estava dentro do seu sonho. José não está entre os personagens principais do Evangelho, mas, mesmo assim, tomou parte daquela grandeza e alegria: acolheu consigo Maria e o menino. A cada um de nós é pedido de tomar consigo o Evangelho e de abandonar seu individualismo. Também nós, devemos tomar parte no grande desígnio de amor que Deus tem pelos homens. Com José, nos aproximamos da Santa Noite para acolher o Senhor e para caminhar com ele. Em Jesus, o “Emanuel”, Deus está conosco.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

III ADVENTO - Mt 11,2-11

Feliz aquele que não se escandaliza por causa de mim

Depois de termos ouvido no domingo passado o testemunho de João Batista, agora é a vez de escutar o testemunho que Jesus dá dele. João tinha falado que Jesus era o Messias: o Cristo que vem com a santidade de Deus e sua missão de purificar e renovar os corações das pessoas.
O Messias se revela publicamente e a sua luz Divina evidencia as sombras da culpa nas consciências; e, assim, João se esforça para convencer a maior quantidade de pessoas possível para que tirem os obstáculos morais para acolher sem impedimentos o Salvador. Rapidamente a pregação de João se torna um acontecimento clamoroso; tanto que iam até ele fiéis judeus de todas as partes, e é aqui que o profeta se desencontra com o rei Herodes.
O prestígio de João vinha de sua franqueza. Na sua pregação ele não temia alargar o convite à conversão também ao soberano por causa de sua situação familiar irregular (vivia em adultério com a mulher de seu irmão Filipe). Aquilo que valia para a vida particular de cada um, também devia valer para quem era revestido de um cargo público. No entanto, o rei Herodes temendo que as palavras de João pudessem dar início a uma revolta popular, mandou jogá-lo na prisão. E, finalmente, como diz o Evangelho em outra passagem que Herodes ouvia com prazer as palavras de João, mesmo assim a força autoritária vence e João, prisioneiro na fortaleza de Macheronte, na Transjordânia (segundo Flávio Josefo) paga com a própria vida a fidelidade à sua missão.
Alguns discípulos, graças ao constante contato com o seu mestre João, continuam a visitá-lo e tê-lo como seu guia espiritual. João já tinha mostrado abertamente que Jesus era o Salvador enviado por Deus. Mas, se como nem todos estavam convencidos da sua indicação, da cela da prisão, João Batista manda alguns dos mais fiéis discípulos para interrogar Jesus a respeito da sua pessoa: “és tu aquele que há de vir ou devemos esperar um outro?”
Estes se dirigem a Jesus não porque João tivesse dúvidas, mas justamente porque João reconhecia o seu nada diante de Jesus, e portanto, aquele que só queria diminuir, pede que os discípulos comprovem pela boca do próprio Jesus que este é o único que pode falar com plena autoridade.
Pois é, o João que encontramos hoje é bem diferente daquele do domingo passado: está impedido na sua liberdade de expressão e segregado num presídio de segurança máxima, mas mesmo assim, nem Herodes é capaz de cancelar a sua força testemunhadora. Os seus discípulos, de fato, permanecem fiéis e são por ele educados a aceitar o novo e definitivo mensageiro de Deus: Jesus de Nazaré.
João, enquanto profeta, fala em nome do Senhor, e, se torna assim o verdadeiro modelo de suportação e constância, a que se refere Tiago na segunda leitura. Neste tempo de Advento, convém sempre repetir que a Palavra de Deus não pode ficar muda. Como afirma Bento XVI na exortação Verbum Domini 7: “o cristianismo é a religião da Palavra de Deus, não de uma palavra escrita e muda, mas do Verbo encarnado e vivo”. João já passou o testemunho a Jesus e este levará adiante a sua missão publicamente até ser completada.
A fé da Igreja desde o seu início é pública, não é privada nem secreta. Para provar a sua qualidade de Messias, Jesus não encontra nada melhor do que indicar aos discípulos do primo João os fatos: a salvação que Jesus traz se manifesta também através de curas físicas, sinal da onipotência de Deus do qual ele é pleno. Não se pode encontrar motivo de obstáculo nele porque tudo que diz respeito a ele se manifesta. Só a sua simplicidade pode ser motivo de escândalo para quem é sempre propenso à vanglória: “Feliz aquele que não se escandaliza por causa de mim”.
Reconhecendo a sua pequenez, Jesus diz que João é grande: este tinha feito da radicalidade evangélica a sua marca de reconhecimento. Não havia lugar na sua pessoa e na sua conduta de vida para o supérfluo nem tanto menos para o luxo. Todos podiam dar-se conta imediatamente da seriedade de sua pessoa e da solidez dos seus argumentos. Aquilo que João recomendava a todos eram a sobriedade e a penitência que ele há muito tempo praticava. Os poderosos de então, mas também de todos os tempos, costumam enfatizar a sua autoridade com sinais externos que lhe qualifiquem. João não tinha necessidade de nada disso. Sua mensagem, sua vida, valia muito mais do que tudo isso, era autêntico.
Ele não tinha nada a esconder. Nem mesmo tentava procurar um fácil consenso da parte do seu público, daqueles rumores que hoje chamamos opinião pública. João era credível porque se apelava a um princípio superior e por isso era procurado e estimado. Investido de uma missão grande como a dele, antes de Jesus, não houve nenhum maior como João, concluiu o próprio Jesus. Mas, agora que o Messias se apresentou e o Reino de Deus foi inaugurado o importante é deixar toda incerteza de fora.
Este reino continua a viver na Tradição pública da Igreja, que se expressa sobretudo na Liturgia. Aquilo que a Igreja celebra é aquilo que ela acredita: não há dissociação entre as duas coisas e todos podem fazer uma ideia, seja da sua doutrina que dos seus ritos.
Não há cursos ou níveis a superar para se tornar um cristão, nos quais sejam reveladas verdades escondidas. Ou se é cristão ou não se é: porque a salvação para os cristãos não depende do saber alguma verdade escondida para a maior parte das pessoas, mas a salvação depende do acolher ou não a pessoa de Jesus. O Senhor Jesus é “aquele que veio e não devemos esperar por um outro”.
São Tiago na segunda leitura propõe o exemplo do agricultor que é cheio de perseverança e de bom senso. Também para a fé cristã serve o bom senso de quem olha os fatos e não se deixa encantar pelas palavras. Para crédito da fé da Igreja falam os fatos, dos seus frutos se pode reconhecer a árvore e a planta da Igreja sempre produziu frutos bons porque brota de Cristo, o seu Salvador. Se a Tradição da Igreja é pública também nós não devemos ter medo de declará-la e difundi-la publicamente.
São João Batista agiu assim, façamos também nós. Possibilitemos ao Natal o seu verdadeiro significado cristão que é o nascimento do Salvador e não somente festa de presentes e de consumos. Tenhamos ânimo, não tenhamos medo! Pois é Deus que vem para nos salvar. Exultemos de Alegria!

domingo, 28 de novembro de 2010

II DOMINGO ADVENTO - Mt 3,1-12

CONVERTAM-SE, PORQUE O REINO DOS CÉUS ESTÁ PRÓXIMO!

No domingo passado, refletíamos sobre o risco real de não nos darmos conta da vinda de Jesus Cristo por causa das preocupações deste mundo. E, por isso, hoje, nos perguntamos: de que modo este tempo de Advento nos adverte para a chegada do Messias?
Ligamos a TV ou checamos o nosso e-mail e vemos um exagero de propagandas de produtos em promoção; junto a isso, um sem fim de anúncio de programas televisivos “especiais” de fim de ano. Muitas luzes brancas ou coloridas piscam enfeitando ruas, igrejas, lojas. Nas casas, árvores de natal, presépios, guirlandas. Começam as festas com a brincadeira de amigo oculto e distribuição de presentes.
São sinais que deveriam dizer pra nós com força: é tempo de preparar o interior para acolher o Salvador do mundo. Convertam-se! Mudem de mentalidade! Mas parece que tais sinais nos estimulam a fazer exatamente o contrário: preocupem-se só com os prazeres materiais, comprem, bebam, esqueçam quem na realidade deve ser lembrado.
O cristão autêntico vive neste mundo, e, apesar das dificuldades, deve considerar estes sinais precursores para que aqueçam o nosso coração para esperar, desejar e acolher aquele que está para chegar. Assim, ninguém poderá dizer: “ah, eu não sabia que o Natal estava próximo”.
A liturgia de hoje apresenta um precursor, aquele por excelência: João. Aparece no deserto vestindo pele de camelo e cinturão de couro. Ao mostrar João vestido dessa forma, Mateus quer nos dizer que ele é profeta ao modo de Elias; tal profeta conduziu o povo de volta ao Deus verdadeiro. Além da roupa simples, se alimenta de gafanhotos (alimento próprio dos beduínos pobres) e de mel. Esta fuga de popularidade é explicada pelo fato de que “aquele que vem depois de mim é mais forte do que eu. Eu nem sou digno de carregar suas sandálias”; ele não quer chamar a atenção, nem está preocupado com o próprio prestígio, interesse ou sucesso, mas encaminha tudo exclusivamente a Jesus.
Uma das tarefas principais do AT era denunciar os desvios do caminho do Senhor. Por isso, João é o precursor definido pelo profeta Isaías como “a voz daquele que grita no deserto: preparai o caminho do Senhor, endireitai suas veredas!”.
João Batista tem uma voz forte, clara e decidida porque sabe muito bem quem está para chegar, ele faz de tudo para que as pessoas se preparem de modo justo para esta chegada. Ele convida a conversão: “convertei-vos, porque o reino dos céus está próximo”. A conversão é simbolizada aqui pelo tempo no deserto, tempo de prova, tempo de transformação, assim como o povo liberto do Egito foi conduzido por Deus até a terra prometida, alcançando-a finalmente pela travessia no Jordão.
Quem escuta João, se batiza no Jordão, confessando os próprios pecados. O batismo de João era algo tão raro que ele ficou conhecido como João, o Batista. De fato, através do batismo nas águas do Jordão, a pessoa confessava os pecados, purificando-se para se aproximar do Messias. Um ponto importante é que não devemos identificar esta conversão com o comportamento farisaico. Ser fariseu é fazer a coisa certa pelo motivo errado. Somos fariseus quando fazemos algo correto por medo, por interesse, pela busca da aprovação e admiração. O fariseu vive naquele que apresenta uma boa imagem, sem de fato ser bom. Podemos chegar a ser tão orgulhosos que ouvindo a mensagem de Jesus, fingimos acreditar ser pecadores, e, consequentemente, fingimos acreditar ser perdoados.
“Raça de cobras venenosas, quem vos ensinou a fugir da ira que vai chegar? Produzi frutos que provem a vossa conversão”. Eles cumpriam a lei, mas desprezavam os fracos, condenando-os ao castigo divino. João deixa bem claro que quem não produz frutos bons será cortado e jogado no fogo. Estes frutos bons são fáceis de entender, é simplesmente o modo como tratamos uns aos outros: com amor.
“Acolhei-vos uns aos outros, como também Cristo vos acolheu”, diz a II leitura. Acolher é uma parte do amor, quem sabe, a mais difícil. Quantas vezes na nossa família não nos suportamos, discutimos, ofendemos com palavrões o próximo ou mesmo com o desprezo. Como Cristo acolheu a nós: a ovelha perdida, o bom ladrão, com o amor misericordioso, assim devemos acolher o próximo. Para isto, somos batizados com o fogo e com o Espírito Santo na totalidade de seu amor e de seus dons.


domingo, 21 de novembro de 2010

1º DOMINGO DO ADVENTO - Mt 24,37-44

ESPERE!

Com o 1º Domingo do Advento, damos início a mais um ano litúrgico que se abre com a espera da vinda futura do Senhor. Marana tá! Diziam os primeiros cristãos. Nós, não mais primeiros cristãos, quase perdemos o significado desta invocação: Vem Senhor! Hoje, portanto, entramos no tempo da memória e da espera pela vinda do Senhor, mistério anunciado pelos profetas, nossa profissão de fé que rezamos no Credo. Neste Tempo, a Igreja nos convida a nos convencermos da vinda futura do Senhor. Por isso, devemos perder a ideia consumista do Natal: uma das épocas que mais damos valor a vinda das coisas materiais e supérfluas (não é a toa que é quando mais se gasta). Esta ideia seria sem sentido se não conseguíssemos entender que há uma outra vinda: a do Senhor na glória. Por isso, vigilamos e não percamos este tempo de graça assumindo uma atitude coerente com o batismo recebido.

Há duas semanas, vimos no evangelho de Lucas os sinais que antecedem a vinda definitiva de Nosso Senhor Jesus Cristo; e, sendo este um momento desconhecido, a liturgia nos convidava a se afastar de qualquer comportamento cego, enquanto o esperamos.

Neste novo ano litúrgico, vamos ler o Evangelho de Mateus; e, hoje, a liturgia retoma o tema da vinda de Jesus, pois o Advento é tempo de espera e preparação para ela. O Evangelho de hoje se encontra em Mt 24; todo o capítulo fala desta vinda, e acrescenta um outro sinal não presente em Lc: “a maldade se espalhará tanto que o amor de muitos esfriará” (Mt 24,12).

Algo semelhante encontramos já no Antigo Testamento: “o Senhor viu o quanto havia crescido a maldade das pessoas na terra e como os projetos de seus corações tendiam unicamente para o mal” (Gn 6,5). Eram os contemporâneos de Noé, completamente esgotados pelas preocupações da vida terrena: só pensavam em comer, beber, casar, ou seja, sempre preocupados em tirar o máximo de vantagem e prazer desta vida.

Olhando para a realidade atual, percebemos como esta maldade está cada vez mais viva e incontida: a propagação do sexo livre como algo extremamente normal; o aborto defendido como um direito; a ganância pelo dinheiro provocada pela falsa ideia de que este traz a felicidade, mesmo depois de tantas pesquisas provando o contrário; o tráfico de drogas que promove furtos, roubos, assaltos, sequestros, corrupção, assassinatos, balas perdidas, prostituição.

Também as armas biológicas sofisticadas dos países ricos; a troca constante de religião, em outras palavras, o sacrifício de Jesus sendo trocado por uma crença que diz serem necessárias várias e difíceis reencarnações para expiar as nossas culpas; sem falar no secularismo, no consumismo desenfreado e no ateísmo propagado abertamente nas escolas e na mídia. Todos estes sinais da vida moderna produzem uma atmosfera tão sobrecarregada de problemas que muitas pessoas ignoram totalmente o que seja mais importante para as suas vidas. Só tem olhos para si mesmas, não há brecha para enxergar que o horizonte é bem maior.

O exemplo de Noé e do dilúvio nos chama atenção pra tudo isso. Chegando o dilúvio anunciado, só Noé estava pronto e foi salvo das águas porque ouviu o Senhor. É preciso abrir os olhos! Somos tão cabeças-duras e acomodados que muitos de nós, até dizemos acreditar, mas levamos uma vida que refuta a nossa fé. Ou então, vemos como algo tão longe, pra que se preocupar agora? É como disse certo autor uma vez: “os homens perdem a saúde para juntar dinheiro e depois perdem o dinheiro para recuperar a saúde. Por pensarem ansiosamente no futuro, esquecem o presente, de tal forma que acabam por nem viver o presente nem o futuro. Vivem como se nunca fossem morrer e morrem como se nunca tivesse vivido”.
Entretanto, inesperada e surpreendente será a vinda de Jesus. Com um exemplo tirado do cotidiano, Jesus mostra que as circunstâncias da vida terrena são iguais para todos (os homens trabalham nos campos e as mulheres moem no moinho). Com a vinda do Senhor, haverá uma radical separação: aqueles que estão preparados para ela serão acolhidos na sua comunhão, os outros serão excluídos. A mensagem do Evangelho nos motiva a amar. É uma mensagem encorajadora e não ameaçadora. Devemos levar em conta que o nosso destino final depende do nosso comportamento, que não é o de desperdiçar a graça de Deus, mas de preservá-la com a nossa prática do amor.

Se pelo menos soubéssemos o dia e a hora da vinda do Senhor, poderíamos nos preparar mais adequadamente. Mas o Senhor virá como um ladrão: inesperado, de surpresa. Portanto, devemos estar preparados para sua vinda sempre.

É preciso amar. Recuse deixar que o seu amor esfrie. Aqueça o amor em sua vida para com o seu cônjuge, a sua família, amigos, vizinhos, e colegas de trabalho. Estenda a mão para os que estão sofrendo e na necessidade. Reze pelas pessoas e as abençoe. Cultive a ideia de que você deve ter sempre no seu coração o desejo ardente de amar e abençoar mais alguém.

domingo, 14 de novembro de 2010

NOSSO SENHOR JESUS CRISTO, REI DO UNIVERSO C

Com a festa de Cristo Rei, chegamos a mais um final de ano litúrgico. Durante este, a cada domingo acolhemos os ensinamentos de Jesus através dos escritos do evangelista Lucas. A festa que celebramos tem a finalidade não tanto de nos dizer que Jesus é Rei, mas de nos mostrar que a natureza do seu reinado é completamente diferente daquela com as quais nós estamos habituados.

Jesus durante toda a sua atividade pública falava do seu Reino. E o apresentou como uma pedra preciosa e um tesouro num campo: bens preciosos escondidos; o que torna bastante interessante e desafiadora a busca deste reino, e não impossível a sua descoberta para quem o procura.

O tesouro, obviamente, é o próprio Jesus; e, no Evangelho de hoje, vemos claramente como este tesouro está escondido, pois, é preciso ver com os olhos da fé para entender que um homem pendurado numa cruz, que sofre por horas a condenação à morte com uma das penas mais humilhantes, parecendo nada mais que um derrotado, um perdedor, rejeitado e desprezado, seja verdadeiramente um Rei.

Para a lógica do mundo, isto é um absurdo. Esta lógica é a dos chefes judaicos. Enquanto o povo observava tudo aquilo com grande dificuldade de compreensão, os chefes do povo caçoavam de Jesus, dizendo: “a outros ele salvou. Salve-se a si mesmo, se, de fato, é o Cristo de Deus, o escolhido!”; mas, no fundo, não acreditavam naquilo que diziam, por isso mesmo, o provocavam e o insultavam.

Também os soldados faziam algo semelhante, mas como não eram judeus, até o chamavam de “rei dos judeus”, e pediam que ele se salvasse por si só. Pediam para que ele mostrasse o seu poder. Até mesmo a escrita colocada sobre a cruz: “este é o rei dos judeus”, era uma maneira de ofensa. Nesta mesma direção, um dos malfeitores que estava sendo crucificado junto com Jesus, o insultava pedindo com ironia pra que Jesus salvasse a si mesmo e a eles também, os dois malfeitores.
Realmente, a cruz põe uma grande interrogação sobre toda a obra precedente de Jesus, pois parece desmentir claramente tudo aquilo que ele fez e disse. Uma pessoa que está pendurada numa cruz preste a morrer, como pode salvar a outros? Quem depende da sua ajuda, vendo aquela cena, só poderia rir, encontrar uma outra ajuda ou se desesperar. É uma imagem bem diferente da que temos de rei na nossa mente. E agora?

Aparece, então, uma última fala que parece até um milagre. Pelo menos um dos presentes, diretamente envolvido na situação, já que também está sendo crucificado, compreende estar pertinho do tesouro da sua vida. É o outro malfeitor, que nós o chamamos “bom ladrão”, o qual consegue compreender aquele tesouro de graça, mesmo só nos últimos momentos de sua vida. Ele reconhece que aquele homem crucificado, que não desce da cruz, mas morre nela, é o seu Rei salvador. Ele tem fé em Jesus Cristo. Sua oração testemunha isto: “Jesus, lembra- te de mim quando entrares no teu reinado”; é o que pede a Jesus condenado ao seu lado, que está sofrendo a mesma terrível morte vergonhosa. Ele está convencido de que Jesus não fez nada de mal e por isso, não merece morrer; e, que, por isso, Jesus não acaba com a morte, mas que é através dela que ele entrará no seu reino.

Assim, Jesus, com um último “decreto real” afirma, e assegura ao malfeitor que pediu o seu amor que ele provará da alegria do seu reino: “em verdade eu te digo, ainda hoje estarás comigo no paraíso”. Jesus entrou no paraíso com um malfeitor, que na cruz conseguiu a fé. Que imagem forte! É uma imagem como esta que nos conscientiza claramente que nunca devemos condenar ninguém, nem a nós mesmos, mas sempre estar dispostos a aceitar o tesouro de Deus: o seu amor incondicional por nós.

Na cruz, a obra de Jesus chega ao ponto mais alto. O crucificado mostra não ser um rei que garanta o bem estar terreno. Não salvou a si mesmo da cruz. Não nos preserva nem das enfermidades nem da morte. O seu poder refere-se a nossa vida com Deus. Jesus salva da queda do afastamento de Deus e reconduz à comunhão com ele. Quem busca isto nele, será salvo por ele, mesmo que seja um malfeitor. A festa de Cristo Rei, é a festa do deste amor que se doou por toda a humanidade.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

XXXIII DOMINGO COMUM - Lc 21,5-19

Cuidado para não serdes enganados!

A liturgia deste domingo lança um olhar para o futuro. O futuro que está diante de nós, escondido e desconhecido. Vivemos na esperança de que nos traga o bem e que mude sempre para melhor a nossa situação. Mas também é verdade que estamos sujeitos a muitas coisas ruins: doenças, acidentes, luto, desemprego, fome, perca da nossa casa, catástrofes naturais, etc.

É esta situação de insegurança que favorece o aparecimento das muitas tentativas de saber o futuro e a busca cada vez maior por parte das pessoas por elas; basta pensar no número de pessoas que diariamente leem horóscopos e recorrem a simpatias e outras práticas do ocultismo proibidas por Deus em várias passagens do AT com o intuito de mudar o seu destino.

O Evangelho de hoje é somente a primeira parte de um longo discurso onde Jesus, recorrendo a uma linguagem cheia de imagens fortes e paradoxais (apocalíptica), anuncia o fim do homem e do mundo, fim este que coincidirá com a vinda do Cristo. Este discurso, que aparece antes do relato da paixão, é um verdadeiro testamento: Jesus, conhecendo que estava próxima sua morte, revela o que nos espera no final da história, quando ele vier na glória.

Em Lucas, este discurso, além dos discípulos, é dirigido também à multidão do templo. É o discurso de despedida de Jesus a Jerusalém, da qual anuncia a destruição. Jesus começa sua fala partindo do entusiasmo com que alguns dos presentes se deleitam com a imponente construção do templo e a sua beleza. Para os hebreus, o templo era motivo de orgulho e sinal de poder e segurança: quem ousaria profanar um lugar sagrado e demolir uma semelhante obra de arte? Jesus anuncia: o templo será reduzido a ruínas: não ficará pedra sobre pedra.

E isto aconteceu de fato pela ação das tropas romanas do general Tito no ano 70 d.C., quase 40 anos depois desta profecia. Jesus quer nos dizer que toda grandeza artificial, todo símbolo e fortaleza de poder, mesmo sendo religioso, onde somos tentados a por a nossa segurança, estão sujeitos a cair.
Os ouvintes pedem, indignados e sem acreditar, quando esta profecia seria realizada e quais eram os sinais que precederiam aquele trágico acontecimento. Mas, Jesus não está interessado em falar nem sobre os sinais do fim do mundo nem da sua vinda nem muito menos da queda de Jerusalém; mas sim no destino dos seus e como deve ser a conduta destes durante o tempo não breve da espera.

Um perigo contra o qual Jesus adverte seus discípulos é com relação aos falsos profetas que anunciam próxima a sua vinda. A fé dos discípulos desde o início será sempre ameaçada por supostos libertadores da humanidade, por pretensiosos representantes de Deus, sedutores de toda espécie. Basta lembrarmos as várias seitas fundamentalistas que afirmam saber com certeza o dia exato do fim do mundo.
É necessário vigiar para não se deixar enganar. O curso da história é marcado por todas estas coisas terríveis. É perigoso interpretar todos estes acontecimentos como sinais de um próximo fim do mundo, semeando alarmismos infundados. Assim mesmo, a ruína de Jerusalém e do templo é considerada pelos judeus como uma tragédia sem proporções, são inconformados com isso até hoje, e choram essa destruição no famoso muro das lamentações.

Para Jesus, porém, tal acontecimento faz parte do desígnio de Deus, mas não tem uma relação direta com o fim do mundo. Jesus nos pede, por isso, aceitar com coragem o tempo em que vivemos. Ele quer que saibamos olhar a realidade e enfrentá-la sem medo, mesmo se for dolorosa e cheia de incógnitas. A coragem é requisito frente ao ódio e à perseguição que acompanharão sempre os discípulos. É esta uma constante no caminho da Igreja e na existência dos cristãos. Jesus quer que quando nos encontremos perseguidos, não percamos a confiança e não nos deixemos sufocar pelo medo e pelas preocupações.

Ele ainda nos motiva: este tempo difícil é ocasião para darmos testemunho. É preciso perseverança: paciência, constância, coragem, confiança, e sobretudo resistência de frente a todas as provas até o fim. Trata-se de permanecer fiéis a Palavra e à vontade de Deus que nos pede de viver cotidianamente no amor. Daquilo que o futuro traz Jesus leva em consideração somente aquilo que cria dificuldade e pode colocar em perigo a fé nele e na sua palavra.

O mal continua a fazer parte da história humana e a atormentar os homens, mas não devemos ficar desorientados por isto, nem devemos pensar que estes acontecimentos como o aquecimento global e suas consequentes tragédias sejam sinais de que o fim está próximo, mas ter consciência que somente permanecendo firmes, no fim ele nos concederá a plenitude da vida eterna e da salvação.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

TODOS OS SANTOS - Mt 5,1-12

A SUPREMA FELICIDADE

A suprema felicidade da qual vamos falar não se refere ao novo filme do crítico e cineasta Arnaldo Jabor, que nada tem a ver com nosso tema, mas vamos falar da “verdadeira” suprema felicidade que é a santidade.

“Esses são os que vieram da grande tribulação. Lavaram e alvejaram as suas roupas no sangue do cordeiro”. Com esta imagem, o livro do Apocalipse indica todos aqueles que participaram do sacrifício expiatório de Cristo, cordeiro sem mancha. Estes, agora, formam a multidão imensa, simbolizados pelo número 144.000 (12 tribos de Israel x 12 apóstolos x 1.000 = ideia de multidão, abundância). São todos aqueles que conseguiram a visão eterna de Deus depois de ter atravessado o tempo da prova, lutando constantemente contra as ciladas do mal, animados pela coragem e segurança que vem do Senhor. Estamos falando dos santos.

Os santos são aquelas pessoas canonizadas pela Igreja, depois de uma minuciosa investigação da vida destas. Mas, os santos canonizados constituem uma pequena parte. Há milhares de outros que celebramos hoje, uma multidão que ninguém pode contar, diz o livro do Apocalipse. São aqueles que com humildade se submeteram à vontade de Deus durante a sua vida, e estão na presença do Senhor para sempre. Dentre estes, podem constar nossos amigos e familiares já falecidos. São os santos anônimos, e são santos tanto quanto os canonizados. A única diferença é que estes são declarados oficialmente como modelos de santidade para nós que ainda estamos caminhando.

Também nós não devemos nem duvidar que possamos participar desta comunhão. Cristo não exclui ninguém da salvação. Ele veio para procurar, encontrar e salvar o que está perdido. Porém, Cristo não impõe, ele só propõe. Cada um é livre para aceitar ou rejeitar esta salvação.

O Evangelho de hoje nos apresenta um caminho de santidade humana que abraça todas as etapas da nossa vida, abarcando cada situação e considerando os desafios que a cada dia estamos sujeitos: Deus não quer que fiquemos passivos, há um caminho a seguir. As bem-aventuranças indicam que caminho é este, mostrando o caráter do cristão enquanto herdeiro do Reino de Deus, da suprema plena, da alegria perfeita.
Ser pobre em espírito é ser humilde. É quando reconhecemos nossa necessidade, nossa insuficiência e nossa dependência, nossos limites, e, nos dirigimos a Deus na oração com confiança. Para tal, é necessário arrancar de nós toda soberba, orgulho, presunção, egoísmo, autossuficiência, superioridade, intolerância. Esta bem-aventurança não diz respeito só aos que são pobres materialmente: um milionário pode reconhecer e confessar que a riqueza material não é tudo para ele e que ele depende de Deus; enquanto, um pobre materialmente pode ser cheio de ganância e esperar tudo da riqueza terrena.

A segunda bem-aventurança parece contraditória, pois o pranto é o contrário de alegria. Os motivos podem ser vários: a morte, a doença, as desgraças, o pecado e a fraqueza, as mudanças drásticas da vida. O aflito é aquele que sofre por sua situação ou pela dor alheia, movido pela compaixão. O pecado contrário é quando somos indiferentes e almejamos uma “vida boa”, cheia de prazeres, confortos, tranquilidades; é o pecado da indiferença com o próximo, da dureza de coração.

Jesus era manso. Ele chama felizes os mansos, que deixemos toda grosseria, desrespeito, desamor, agressões. A santidade deve mostrar-se no modo como tratamos as pessoas. É preciso trabalhar o autocontrole, aceitar o próximo, não querer dominá-lo, controlá-lo, humilhá-lo nem impor-lhe nossas ideias.
Fome e sede são uma necessidade natural, fundamental para vivermos. Felizes são os que tem fome e sede de justiça: ser justo significa ser reto, honesto, correto com relação ao próximo, a Deus e às coisas materiais.
Ser feliz significa ser misericordioso. Significa não ficar indiferente perante o sofrimento alheio nem mostrar um coração duro perante as ofensas que nos foram causadas. Sentir a miséria do outro e perdoá-lo. Só perdoando, seremos perdoados.

O que busca a santidade busca a pureza. Humanamente falando, nos damos conta que é impossível ser totalmente puro, mas o sangue de Jesus nos lava de todo o pecado. O caminho da santidade é uma busca constante de paz. Deus é um Deus da paz. Ele quer que nós também sejamos pessoas de paz. Temos que aprender a lidar com o pecado da maledicência, da intriga, da vingança, da provocação. Somos felizes quando não só fizermos as pazes com os outros, mas também quando formos instrumentos de paz entre duas pessoas ou grupos etc.

Ser bem-aventurado implica ser perseguido ou até morrer por causa de Jesus Cristo. Talvez seja esta uma questão das mais difíceis da santidade: conviver com isto enquanto se segue a Jesus. Talvez alguém possa se enganar pensando que quanto mais próximos a Deus estivermos, mais amados seremos por todos. Errado! Pois, seremos cada vez mais invejados, contrariados, insultados e perseguidos. O diabo fica desconcertado com os que, sinceramente, buscam seguir Cristo. O próprio Jesus Cristo foi odiado e crucificado.
Enfim, o caminho indicado por Jesus para nossa felicidade parece ser uma restrição, uma limitação da liberdade humana. Mas, Jesus não veio prender, veio libertar. Na verdade, as bem-aventuranças são um caminho para a liberdade, para a salvação, para a suprema e eterna felicidade que todos sem exceção poderão herdá-la.

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

XXXI DOMINGO COMUM - Lc 19,1-10

O Filho do Homem veio procurar e salvar o que estava perdido

O evangelista Lucas, também neste domingo, continua a nos relatar a viagem que Jesus está fazendo rumo a Jerusalém. Há três semanas, ele estava na Samaria, quando curou os dez leprosos. Agora, continuando o seu caminho, chega a Jericó, uma grande cidade, uma cidade importante. Entre a multidão que procura ver Jesus se encontra Zaqueu, o chefe dos publicanos. Os publicanos eram os cobradores de taxas para o império romano. E, se como tais publicanos pegavam em muito dinheiro, sempre aproveitavam para roubar um “pouco”, para enriquecerem num curto espaço de tempo. Por isso, o povo não suportava os publicanos: chamava-lhes traidores porque colaboravam com a opressão do império romano, e os considerava trapaceadores, que sabiam por meio do engano roubar dinheiro para ficarem ricos.

Assim, este homem chamado Zaqueu era o chefe dos publicanos de Jericó, portanto um homem importante por causa de suas riquezas adquiridas de forma desonesta, e enfim, era o chefe desse sistema de enriquecimento. De fato, o evangelista faz questão de lembrar que Zaqueu era muito rico. Mas este Zaqueu desejava ver Jesus. Mas tinha um problema: era baixo de estatura e com tanta gente que havia em volta de Jesus não consegue ver nada. Por isso, fica nas pontas dos pés, mas vê só as cabeças do povo. Tenta se infiltrar entre as pessoas para ir um pouco mais adiante, mas não consegue. Não o deixam passar. Tá difícil!

Então tem uma ideia: se como sabe que Jesus está atravessando a cidade, Zaqueu sabe também qual caminho o Mestre de Nazaré percorrerá! Assim corre na frente e sobe numa árvore. Entendamos bem: sobe numa árvore, num sicômoro (é um tipo de figueira de raízes profundas e galhos fortes e dá boa sombra), diz o Evangelho, porque assim, do alto, poderá ver Jesus bem! Tentemos imaginar a cena: um homem importante, inclusive chefe dos publicanos, que sobe numa árvore como um menino, para esperar Jesus que passa. Pode parecer um pouco ridículo e os outros que o veem poderiam caçoar dele... mas a Zaqueu, neste momento, não importa nada: só quer ver Jesus. E ainda não sabe o que está para acontecer!!! Assim, quando Jesus chega embaixo do sicômoro, levanta os olhos, vê o cobrador de impostos e diz: “Zaqueu, desce depressa! Hoje eu devo ficar na tua casa”.

Que maravilha! Podemos imaginar a alegria de Zaqueu. Quem pode imaginar quanta emoção descer da árvore para encontrar-se com o Mestre que lhe faz a honra imensa de entrar na sua casa. Zaqueu se sente pleno de felicidade e salta da árvore, apressadamente, diz Lucas, porque quase ainda não acredita que uma coisa tão bela esteja acontecendo com ele.

Não consegue dizer nenhuma palavra, só se encaminha para conduzir Jesus para a sua casa e enquanto isso pensa: “O Mestre de Nazaré me chamou pelo nome, chamou exatamente a mim, como se fôssemos amigos há muito tempo, e eu ouvi bem: quer ficar mesmo na minha casa”.

Quando o povo viu que realmente Jesus estava indo a casa de Zaqueu, quando o veem entrar e sentar-se à mesa altamente arrumada para a refeição, começa a murmurar escandalizado. Mas como? Com tantas pessoas honestas, com tantas pessoas importantes e respeitáveis que existem em Jericó, este mestre vai comer justamente na casa do chefe dos ladrões? Uma vergonha! Uma coisa deste tipo não podia ser aceita. Zaqueu se dá conta do escândalo dos seus conterrâneos e é ele mesmo que cala todos os comentários, porque se levanta e diz em alta voz: “Senhor, eu dou a metade dos meus bens aos pobres e, se defraudei alguém, vou devolver quatro vezes mais”. Zaqueu reconhece não ter agido sempre honestamente, por isso está pronto a restituir quatro vezes mais aquilo que roubou com o engano.

Não só isso: de tudo o que possui, dará a metade aos pobres. A sua riqueza não será mais só para ele, mas para todos. Será uma riqueza partilhada com as pessoas que não têm nada. Zaqueu compreendeu perfeitamente o ensinamento de Jesus e quer começar imediatamente a viver segundo o Evangelho.

Jesus verdadeiramente fica feliz e assegura diante de todos: “Hoje a salvação entrou nesta casa”. E depois, dirigindo-se a quem tem sempre algo pra rir e pra criticar, acrescenta a todos: “com efeito, o Filho do Homem veio procurar e salvar o que estava perdido”.

Lembremos a parábola do pastor e da ovelha perdida que a procura incansavelmente até encontrá-la. Pronto, com Zaqueu, Jesus se comporta exatamente como o pastor da parábola. Jesus sabia que Zaqueu estava só, perdido, com uma vida cheia de erros, cheio de dinheiro roubado, talvez, sem amigos verdadeiros, sem alegria e com um grande desejo no coração de encontrar o sentido da vida. E então vai ao encontro dele, vai a sua casa, fala com ele, faz refeição com ele com amizade. E a vida de Zaqueu muda completamente. Agora, tornou-se um verdadeiro discípulo de Jesus. Agora, quer viver segundo o Evangelho: não é mais perdido nem só, agora está com o seu Mestre.

Também nós sempre somos chamados pelo nosso nome por Jesus, que quer estar com cada um de nós, que quer ficar na nossa “casa”. Como disse a Zaqueu, assim Jesus diz a todos nós: abra a tua casa, abra o teu coração, eu quero estar com você. Isso é belo. Nos faz saborear a mesma felicidade que provou Zaqueu naquela manhã, em Jericó, sobre o sicômoro.

Mas será que eu abro mesmo o coração ao Senhor que pede para entrar? Permito ser alcançado pela sua Palavra, pelo seu ensinamento? Como Zaqueu, quero experimentar viver segundo o Evangelho? Alegremo-nos com este convite de Jesus e respondamos com a mesma prontidão e alegria com a qual Zaqueu desceu da árvore.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

XXX DOMINGO COMUM - Lc 18,9-14

A prece do humilde atravessa as nuvens

No domingo passado, Jesus nos falava da necessidade de rezar sempre sem desanimar. Hoje, nos revela o segredo de uma oração verdadeira e também eficaz. Ele nos conta uma parábola sobre a oração de dois homens que pertencem a duas categorias completamente opostas. Na verdade, o Evangelho quer provocar em nós a pergunta: com qual dos dois me identifico? Com o fariseu ou com o publicano?

Prestemos bem atenção a como cada um dos homens reza e assim iremos descobrir. Podemos nos encontrar no lugar do publicano (pecador), que foi justificado; mas também com muita probabilidade, podemos nos encontrar no lugar do fariseu, que por sinal, não foi justificado; este último é aquele que regularmente vai ao templo, ou seja, pode ser que sejamos nós, que regularmente vamos à igreja.

Enfim, a parábola em questão é direcionada para todos aqueles que julgam ser bons e desprezam os outros, diz o evangelista Lucas. O fariseu é aquele que se acha justo, certinho, pelo fato de conseguir frequentemente cumprir os preceitos da lei: “eu jejuo duas vezes por semana e dou o dízimo de toda a minha renda”. A atitude dele é aquela de uma pessoa egoísta, cheia de si mesmo. Usa sempre o pronome “eu”. E o que agrava a sua presunção é o fato de desprezar os outros. Não se pode rezar e, ao mesmo tempo, desprezar; dialogar com Deus e ser duros com as pessoas; no fundo, nos deleitamos com os defeitos dos outros para agradar a nossa presunção (Nossa! Comparando-me com fulano de tal, como eu sou bom e correto!). Uma vida assim é cheia de suspeitas e de medos, uma vida triste num mundo corrompido. A oração do fariseu, no final das contas, é um julgamento.

De fato, esta parábola é muito inquietante! Mostra como na oração podemos nos separar de Deus e dos outros quando falsificamos a nossa consciência, enganando-nos quanto a Deus e ao nosso próximo.
Quando estamos falando coisas negativas sobre os outros como aquele fariseu (“não sou como os ladrões, desonestos, adúlteros, nem como este cobrador de impostos”); na verdade, estamos envenenando as nossas vidas. Deus está interessado no nosso interior e não naquilo que aparentamos ser. Precisamos nos conscientizar que não é impressionando uns aos outros que interessa a Deus, mas é nossa vida interior que interessa a ele.

O orgulho é uma cegueira que nos impede de ver nossos próprios erros. É difícil ser humilde. Se nos consideramos humildes, isso já pode ser uma presunção. Ser humilde significa nunca pensar que somos melhores que as outras pessoas, mas que somos humanos, e por isso, limitados tanto quanto os outros. Esta consciência é o que nos estimula a sempre buscar o amadurecimento espiritual.

Às vezes, a única maneira pela qual aprendemos a tratar bem as pessoas, é quando somos maltratados, para que possamos ver como isso machuca e aprender a não fazer com os outros. A pessoa orgulhosa nunca acha que é orgulhosa, porque o orgulho facilmente se esconde. O orgulho é uma máscara que encobre realmente quem somos. O orgulho é um julgamento: julgamos porque somos orgulhosos; julgar, na realidade, é tentar achar um caminho para nos sentirmos melhores em relação a nós mesmos, apontando os erros dos outros. E Deus é um juiz que não faz discriminação de pessoas (I leitura). Deus não discrimina ninguém; como isto deve doer ao ouvido orgulhoso do presunçoso!

Outra coisa também muito frequente existir é um entendimento errado da humildade: quando ficamos passivos diante de tudo ou quando sempre estamos dizendo que não somos capazes para isto ou para aquilo. Esta é a falsa humildade. A humildade é uma das virtudes mais difíceis de se obter, mas também é uma das mais necessárias. O publicano é realmente um pecador; ele não arranja uma desculpa para o que fez. Uma transgressão típica dos publicanos era trapacear os outros e ser conivente com as tramoias do império romano. A oração simples do publicano é reconhecer-se pecador. Não julga ninguém, nem mesmo o fariseu, por quem já foi julgado, insultado e excluído.

Deus “jamais despreza a súplica do órfão, nem da viúva, quando desabafa suas mágoas”. Mas, temos que nos entregar totalmente a ele. O publicano foi perdoado não porque fosse melhor que o fariseu, pensar isso seria cair na mesma atitude do fariseu, mas porque com sinceridade mostrou e admitiu sua fraqueza e abriu seu coração a um Deus que é imensamente maior que o seu pecado, a um Deus que nos acolhe, que nos abraça com a sua misericórdia infinita. “Quem se eleva será humilhado e quem se humilha será elevado”. Que nossa oração humilde atravesse as nuvens e chegue ao Altíssimo.

terça-feira, 12 de outubro de 2010

XXIX DOMINGO COMUM - Lc 18,1-8

O meu socorro vem do Senhor

Pode acontecer que na nossa vida nos questionemos: será que a oração funciona mesmo? Será que Deus escuta mesmo quem reza? Estas perguntas aparecem quando Deus parece não reagir diante da nossa súplica ou quando não nos damos conta de sua ação, como por exemplo, quando fazemos uma oração fervorosa, e depois de obtida a graça, não a consideramos como fruto da oração. E isto nos leva a pensar que se a oração for realmente inútil, para que perdermos tanto tempo com ela?

Justamente por causa dessas dúvidas, é que a liturgia dominical insiste tanto em tratar o tema da oração. O Evangelho quer mostrar o quanto a oração é essencial na vida do cristão, através de relatos onde o próprio Jesus reza ou quando ele nos orienta na prática da oração. Ele diz que pra que nossa oração seja eficaz, nós devemos: amar os nossos inimigos e rezar pelos que nos perseguem, rezar ao Pai “no segredo”, perdoar do fundo do nosso coração a quem nos ofendeu, rezar com audácia na certeza do obter e com plena adesão à vontade de Deus.

Na I leitura de hoje, vemos o esforço de Moisés em manter a mão levantada para vencer a batalha; no Evangelho, com a parábola da viúva importuna, Jesus nos exorta à paciência da fé, necessária quando nossa oração parece não ouvida e inútil.

No tempo de Jesus, a mulher viúva ficava numa situação muito difícil, sem meios para viver e sem proteção. A viúva do relato de Jesus tem necessidade de ser defendida e por isso, se dirige ao juiz. Mas, o juiz de sua cidade não tem interesse algum em ouvi-la. Pois, ele sabe que aquela pobre mulher não pode lhe pagar um preço alto e ele não quer perder seu tempo por uma causa que não dê muito lucro. Ele não se importa de maneira alguma com a situação da viúva, é totalmente indiferente, e recusa ouvi-la.
A viúva, porém, não perde a esperança: todos os dias, volta a se apresentar ao juiz, repetindo sempre a mesma coisa: “faze-me justiça contra o meu adversário!”. Os dias passam e o juiz já não agüenta mais aquela viúva importuna. Por um tempo, ele até faz de conta não se incomodar, mas um dia ele cansa de ouvir aquele aborrecimento e pensa: “mesmo não temendo a Deus nem respeitando ninguém, não suporto mais esta viúva me torrando a paciência, e por isso, vou fazer-lhe justiça para que ela me deixe em paz”.
Muitas vezes nos comportamos exatamente como esse juiz, e por isso, entendemos bem a parábola: a quem nos pede um favor que não queremos fazer, damos um sim pra ficarmos livres, que no final das contas, fazemos pensando em nós mesmos. Um comportamento destes não é próprio do coração de Deus.
Jesus termina de contar a parábola e pergunta aos discípulos: “vocês ouviram o que diz este juiz injusto? Pois bem, se até mesmo um juiz desonesto decide atender uma viúva para não ser mais incomodado por ela, como pensam que se comportará Deus que é Pai com relação aos filhos que imploram a ele? Eu lhes digo que Deus fará justiça bem depressa”.

Se não rezarmos, estamos dizendo a Deus que ele é impotente. É necessário que rezemos pacientemente, incessantemente. Entretanto, nós temos de ser conscientes de que não podemos prescrever quando e como ele nos atenderá. Uma coisa sabemos: ele nos fará justiça. Deus pode nos provar por um longo tempo, mas também pode intervir de modo rápido e inesperado.

Temos que ser pacientes no esperar. Esperar não é opção. Todos vamos ter que esperar e não sabemos por quanto tempo. É como nós esperamos o que faz a diferença. Muitas vezes, ficamos esperando em Deus, quando na realidade é Deus quem está esperando por nós. Deus não vai mudar de ideia nunca com a nossa teimosia. Há um tempo pra tudo, Deus faz as coisas conforme o pensamento dele, nunca conforme o nosso. Somos viciados na satisfação imediata. Hoje em dia não queremos esperar por nada.
Por isso, Jesus faz a pergunta: “mas o Filho do homem, quando vier, será que ainda vai encontrar fé sobre a terra?” com esta pergunta, Jesus quer dizer que Deus é sempre fiel, menos segura é a capacidade que nós seres humanos temos de mantermos a fé em Deus em todas as provas. Se não formos pacientes no esperar, então não poderemos ser alcançados pelo socorro do Senhor. A pergunta de Jesus é um convite a ficarmos unidos a Deus por meio da oração confiante.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

XXVIII DOMINGO COMUM - Lc 17,11-19

CADÊ OS OUTROS NOVE?

No tempo de Jesus, a lepra era uma doença que excluía duramente a pessoa enferma do lugar onde vivia e de sua própria família. A pessoa era condenada a viver na periferia das cidades. Um leproso só podia conviver com outros leprosos justamente para evitar o contágio em pessoas “sadias”. Se uma pessoa sadia se aproximasse do lugar onde os leprosos ficavam, estes eram obrigados a gritar para informar que eram contagiosos, impuros, e, além disso, deviam se afastar.

É nesse contexto que Jesus, numa zona de fronteiras entre a Galileia e a Samaria, encontra dez pessoas com lepra na periferia de um povoado; elas se aproximam dele, mas a uma certa distância, param e gritam: “Jesus, Mestre, tem piedade de nós!”. Estes leprosos pedem ajuda a Jesus. Eles não podem fazer nada por si mesmos, mas podem receber ajuda de alguém que tem poder sobre a sua enfermidade.
Mas o texto parece mostrar que Jesus quer se livrar deles também. Manda eles irem aos sacerdotes, sem ter feito absolutamente nada para curá-los. Segundo as leis do AT, os sacerdotes têm a competência de verificar a cura de um leproso, e, assim, reintegrá-lo na sociedade.

Na I leitura, do II Livro dos Reis, quando o sírio Naamã é curado por Deus, vai apresentar-se imediatamente a Eliseu e agradece ao profeta. Os dez leprosos devem ser, antes de tudo, curados para que possa haver sentido irem se apresentar aos sacerdotes; mas, Jesus, simplesmente os põe a caminhar; e é aí, que vemos a fé e a confiança daqueles leprosos em Jesus, na esperança de que, cumprindo seu mandamento, conseguirão aquilo que desejam.

Um deles, ao perceber que estava curado, toma uma atitude diferente da dos outros nove que correram apressadamente para serem readmitidos na sociedade; este tal retorna a Jesus para agradecê-lo. Aqueles nove olham só para seus próprios interesses, só para o futuro, já não se lembram de quem os livrou daquele destino miserável; e, Jesus, se decepciona com eles: “onde estão os outros nove?”
Todos gritavam por Jesus quando estavam no momento do sufoco, mas por que só um gritou de agradecimento: glorificando a Deus? Na realidade, é que só para este, a cura foi um verdadeiro encontro com Deus.
E quanto a nós? Quando recebemos uma graça de Deus na nossa vida, o que vale mais para nós? O dom ou aquele que nos concedeu o dom? Quando ganhamos um presente, se a nossa atenção se restringe ao bem material, somos egoístas; se, pelo contrário, se a experiência do presente nos leva a colocar a nossa atenção no amor e na benevolência daquele que nos presenteou, isto torna-se um encontro novo e pessoal com o nosso benfeitor.

Ganhar um presente é muito bom. Mas, nos dá mais felicidade ainda reconhecer a benevolência e a ajuda daquele que nos presenteou e poder agradecê-lo. Junto com o pedido, a ação de graças deve ser a forma fundamental da nossa oração e da nossa relação com Deus. Quantas vezes durante a nossa vida pedimos, imploramos a Deus por uma série de coisas e quando ele finalmente nos concede a graça, esquecemos completamente dele. Desta forma, perdemos a chance de reconhecer e experimentar o amor de Deus.
A lepra tinha levado a um primeiro encontro com Jesus, mas um encontro à distância. Movido pela fé em Deus, o samaritano foi curado, sua relação com Deus tornou-se mais íntima, o que lhe rendeu uma fé mais firme.

Assim, podemos dizer que não basta a saúde para ser feliz. Ela é um bem precioso, e deve ser conservada, procurada, com um estilo de vida saudável, com exercícios físicos, reeducação alimentar, é preciso ter paz no coração de quem encontra Deus e descobre o próprio projeto de vida, para ter um bem estar psicofísico profundo. Mas não basta só a saúde, precisamos da felicidade. Jesus nos diz que a saúde não é tudo, mais que a saúde, precisamos nutrir constantemente a esperança e a fé na salvação. E a felicidade consiste no abrir o coração à gratidão de um Deus que nos cura no profundo de toda solidão, de toda a dor.

Que nós também tenhamos a coragem de gritar por socorro ao Senhor para que ele cure a nossa lepra, especialmente, aquela espiritual, a fim de que reconhecendo as maravilhas que ele opera na nossa vida, possamos cada vez mais ter uma fé firme e contagiante.

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

XXVII DOMINGO COMUM - Lc 17,5-10

Somos meros servos de Deus

A Palavra de Deus que hoje nos é dirigida fala de dois temas: a fé e a atitude correta que o homem deve assumir perante Deus. As leituras são um convite a reconhecermos nossa pequenez e a acolher com gratidão os dons que Deus nos concede.

Na primeira parte do Evangelho, vemos um pedido por parte dos apóstolos ao Senhor: “aumenta a nossa fé!”. Não sabemos precisamente o que tenha feito os apóstolos pedirem ao Senhor para que aumentasse a fé deles; podemos imaginar que seja algo ligado ao perdão ilimitado (texto imediatamente anterior): por ser uma tarefa muito difícil, principalmente quando se tem que perdoar o próximo que nos magoa constantemente; às vezes, a paciência e o amor querem fraquejar. Por isso, é necessária muita fé.

Os apóstolos e nós, hoje, nos damos conta como é fraca a nossa fé em Deus. Mas, como eles, não abandonamos a luta nem diminuímos os nossos trabalhos, mas pedimos ao Senhor uma fé mais firme. E é o que devemos fazer mesmo! Só Deus pode vir em nosso auxílio.

Jesus não responde diretamente ao pedido dos apóstolos. Mas, com a sua resposta, ressalta a importância da fé. Somente se tivermos uma autêntica confiança em Deus, acontecerá aquilo que para a razão humana é impossível. Esta impossibilidade é exemplificada através da imagem do “transportar montanhas” (aqui uma amoreira). Não há limites para o poder de Deus. Mesmo que Deus nos peça coisas aparentemente impossíveis, ele pode nos tornar capazes de realizá-las. E mesmo que esta fé seja microscópica como uma pequena semente de mostarda, se for verdadeira fé, Deus fará com que ela desenvolva. (contraste entre a pequenez da semente de mostarda de 2mm de diâmetro e a altura dessa árvore de até 5 metros de altura).

Na I leitura, vemos o profeta Habacuc que discute com Deus: como fazer pra acreditar em Deus se as coisas estão indo mal? E Deus responde: “o justo viverá por sua fé”. Talvez estejamos na mesma situação de Habacuc? Quanta violência, injustiças, tragédias, e quanta falta de fé. É preciso termos fé, é necessário confiar.

Em tudo aquilo que Jesus faz, ele encoraja os apóstolos a crerem. Ele diz a Pedro: “eu orei por ti para que tua fé não desfaleça” (Lc 22,32). Desta forma, o Senhor cumpre o pedido feito por seus apóstolos de aumentar a fé deles. Também nós devemos contar com a oração de Jesus e pedir esta forma de relação fundamental com Deus: a confiança nele.

Com a parábola do servo, Jesus nos indica um outro aspecto essencial da nossa relação com Deus. Esta parábola não pretende mostrar o comportamento de Deus com relação ao homem, mas quer indicar qual a justa atitude em que nos encontramos perante ele. Jesus não quer passar a ideia de um Deus como um patrão que manda, é servido sem agradecer, e alimenta os seus servos só com o resto! Não! O que importa aqui é: qual a justa visão que os apóstolos devem ter de sua relação com Deus: os servos devem fazer tudo aquilo que o seu patrão ordena. Observando estas ordens, fazem somente o seu dever e não merecem nada por isso. Devem aceitar esta realidade.

Reconhecer a nossa relação de dependência a Deus significa entender que não somos independentes. Ninguém veio à existência sozinho. Também não somos autônomos, não podemos viver a nossa vida a nosso bel prazer sem prestarmos contas a Deus. Temos deveres para com Deus. Mas também devemos estar conscientes de que ele nunca nos pede nada de arbitrário ou absurdo. O dever é aquele de nos comportarmos como administradores fiéis: da nossa vida, das nossas capacidades, dos nossos dons.

Nunca devemos pensar que cumprindo a vontade do Senhor temos direitos e privilégios perante Deus. Devemos ser conscientes que o que fazemos não é outra coisa que o nosso dever. Às vezes, podemos pensar que o fato de rezarmos, de fazermos caridade, de cumprir a vontade de Deus represente um favor a ele e que por isso, ele deve ser grato a nós. Há muita gente que pensa assim. Pois, saibamos que Deus se alegra pelo nosso esforço. Mas, ele não precisa disso. De jeito nenhum. Nós é que precisamos dele sempre. De nossa relação com Deus devemos excluir qualquer pretensão.

Assim, com humildade e modéstia, a nossa condição perante Deus é fazer tudo aquilo que é nosso dever, e por isso, o Evangelho nos chama de simples servos, não de “servos inúteis”. A palavra grega utilizada aqui traduzida por inútil indica a falta de mérito, a humildade, a pequenez, e não a inutilidade: a ideia de não servir para nada. Não somos servos inúteis, pois trabalhamos no arado de Deus, mas nem por isso deixamos de ser somente simples servos que devem cumprir a sua missão com amor.

domingo, 19 de setembro de 2010

XXVI DOMINGO COMUM - Lc 16,19-31

Um grande abismo chamado indiferença

Neste XXVI Domingo do Tempo Comum, o que a liturgia nos propõe é claramente uma continuação do tema do domingo passado sobre o não servir ao dinheiro como um ídolo.

Muitas pessoas apostam que a plenitude da vida e da felicidade se encontra na riqueza; basta olhar a correria de pessoas por empregos ou negócios que ofereçam enormes salários, e sempre insatisfeitas com o que vão conquistando. É a diabólica pedagogia que tem dividido o nosso mundo em milhões de “lázaros”, obrigados a catar lixo, a comer sobejos que caem das mesas dos ricos, ou morrer de fome. Uma pedagogia que, infelizmente, parece ter se transformado em religião no nosso mundo e que é uma das razões dos piores males da humanidade. Que, pelo menos, temos uma notícia boa este ano, segundo a ONU, o número de famintos crônicos diminuiu 9,6%. Em 2009, eram mais de 1,02 bilhão de pessoas que sofriam de fome crônica, a este são 925 milhões. Ainda assim, é uma vergonha não ter se extinguido por completo a fome e a miséria num mundo cada vez mais cheio de cifras bilionárias.

O ser rico não é mais um sonho de alguns que ficavam observando a fabulosa vida que leva quem chegou a ser um “tio patinhas” da vida, mas se tornou uma verdadeira obsessão, que ameaça cancelar os verdadeiros desejos do coração, aqueles que Deus inspira e tem como sonho “amar até doar-se em plenitude”. Infelizmente, parece que é a fábula do momento: uma fábula cultivada de tantas revistas e livros especializados em como “enriquecer juntos”, “o segredo das mentes milionárias” etc, sem por um único momento, pensar que atrás da fachada de luxo e ostentado bem estar, muitas vezes está uma tristeza que é sinal do vazio do coração. Nada pode dar a verdadeira felicidade se não o amor que se faz dom e não posses.

A estes, e a quantos querem ser como eles, escreve o profeta Amós na I leitura, quando faz uma forte denúncia à injustiça daqueles que levam uma vida luxuosa à custa da exploração dos pobres, sendo totalmente indiferentes ao sofrimento e miséria destes. Para eles, Amós anuncia que Deus não vai tolerar este egoísmo, reservando-lhes um final infeliz: serão deportados de seu país “na primeira fila”.

Também Lucas continua a denunciar o mau uso do dinheiro por parte de alguns à custa da miséria de tantos. Na parábola do homem rico e do miserável Lázaro, Jesus descreve a vida terrena de ambos: os dois extremos da sociedade. O rico tem um estilo de vida alto, suas roupas são das grifes mais caras, elegantes e luxuosas. Ele usa a sua riqueza para levar uma vida cheia de prazeres. O sentido da vida pra ele é o prazer das coisas materiais. O que o separa do miserável Lázaro é apenas a porta de sua casa. Ele não acolhe o pobre. Este leva uma vida dura; não só é desprovido de bens, mas se encontra doente e desabrigado. Seu corpo não é coberto de roupas finas, mas de muitas feridas. Ele quer matar sua fome com o sobejo da mesa do rico. Sua companhia são os cães sujos que se aproximam dele para lamber-lhe as feridas. Faminto e doente, vive na sujeira das ruas. Mas, diferentemente do rico, Jesus faz questão de lembrar o seu nome: Lázaro (Deus ajuda).

Na extrema pobreza, ele não perde a confiança, mas é convicto de que Deus o ajuda.
Morre o miserável, único instrumento de salvação do rico. Morre também o rico. A morte os torna iguais. Não há como escapar dela. E a este ponto, o destino deles se inverte completamente. O que é descrito sobre a vida depois da morte dos protagonistas da parábola não quer ser uma descrição precisa da vida eterna; mas quer caracterizar a radical diversidade entre a vida daquele que um tempo foi rico e a do que foi pobre. Lázaro é levado para o seio de Abraão, para o banquete festivo. Quanto ao rico, dois elementos mostram como mudou a sua situação. Ele que vivia no luxo, agora é rodeado de fogo e grandes tormentos. Ele que tinha a sua disposição comidas finas e bebidas importadas, agora implora por uma simples gota d’água. Na vida terrena, Lázaro faminto tinha lhe pedido os restos da sua mesa sem receber nada. Agora, é o rico que pede uma gota d’água na ponta do dedo de Lázaro e não pode recebê-la. Tarde demais! O modo no qual empregou sua riqueza e consumou a sua vida o reduziu a uma condição na qual sofre dor e tormento.
O rico reconhece tanto que o modo que conduziu sua vida estava errado que queria que Lázaro fosse avisar aos seus irmãos para mudarem de vida a fim de evitar aquele trágico destino. Mas, Abraão não permite e responde: “Eles têm Moisés e os profetas, que os escutem” Pra evitar esse destino, é necessário escutar a Palavra de Deus, pois ela mostra a vontade de Deus, a orientação para uma vida justa. Nela, é expressa a nossa responsabilidade social com relação aos mais pobres. Mas somente seremos capazes de praticá-la se tivermos um coração bom e aberto. O coração cego é endurecido pelo egoísmo e não se interessa por Deus nem pelo próximo. Jesus nos convida sempre a tomar consciência dos verdadeiros problemas do mundo e a atuar num empenho cristão, que não se limita a alguma esmola, mas procura ir às causas da desigualdade, das injustiças, com obras de partilha e de solidariedade. Quantas coisas supérfluas nós temos? Quanto tempo da nossa vida desperdiçamos com coisas inúteis? Quantas coisas podemos fazer pelos mais necessitados e não o fazemos? Ele não nos condena se usarmos coisas materiais boas, o que ele denuncia é se isso significa egoísmo e indiferença para com os nossos irmãos mais necessitados.

Nota: Observe bem que este texto evangélico também é um dos mais fortes na argumentação de que uma vez tendo morrido, nenhum de nós “tem permissão” de Deus para voltar a este mundo, nem que seja para dar um bom conselho a um familiar.

terça-feira, 14 de setembro de 2010

XXV DOMINGO COMUM - Lc 16,1-13

“Não podeis servir a Deus e ao Dinheiro

As palavras do profeta Amós (I leitura) e aquelas de Jesus nos convidam a refletir sobre a amarga realidade das coisas que hoje em dia é muito difícil poder fugir e na qual nos encontramos continuamente lutando contra todo tipo de manifestação sua: a realidade da injustiça, da maldade, da corrupção, da desonestidade. Ora, se a própria Bíblia cita em vários livros episódios de opressão, de exploração, é porque esta sempre foi uma constante na história da humanidade e não é de se admirar que ainda hoje experimentemos algo igual.

Estranhamente, no Evangelho de hoje, Jesus se utiliza de uma pessoa corrupta para ensinar algo útil para nossa vida de cristãos. Mas como é possível ser elogiado um homem que se apropria indevidamente de bens alheios e faz amigos à custa do patrão?

“Havia um homem rico que tinha um administrador, e este foi acusado...”: é assim que começa a parábola do Evangelho deste domingo, o relato de um administrador que, durante anos, cometia fraudes contra o seu patrão, até que não conseguiu mais. É uma história que se repete desde há muito tempo até hoje, semelhante a tantas histórias dos nossos dias que continuamente lemos nos cotidianos e escutamos nos telejornais: histórias de fraudes e furtos, arquitetadas com perfeição, por pessoas, talvez muito notáveis, que roubam grandes quantias de dinheiro, prejudicando grandes e pequenos. Não é uma novidade, e digamos logo, nem mesmo é raro: tá cada vez mais comum ouvir e ver casos assim; mas sempre chega o momento da verdade, quando descobertas as fraudes, começa a caça ao ladrão, que obviamente, nunca está sozinho e faz de tudo pra escapar. Desonestidade, engano, fraude: é a lógica do “mundo”, a lógica dos espertalhões que não têm escrúpulos em enriquecer às custas dos principalmente mais pobres; contra essa lógica, só aparentemente vencedora, a liturgia repropõe as palavras duras do profeta Amós, o “pastor, cultivador de sicômoros” chamado por Deus a admoestar todos, pertencentes às altas classes da cidade da Samaria que exploravam os pobres e oprimiam os fracos.

A parábola fala precisamente de um homem rico que soube que seu empregado estava lhe roubando, e, por isso, ele exige uma prestação de contas antes de demitir tal empregado; este, por sua vez, com muita esperteza, raciocina: ‘vou ser demitido, não tenho como me defender. Como vou me sustentar? Não posso encarar um trabalho braçal e tenho vergonha de pedir esmolas. Já sei o que vou fazer. Vou diminuir as dívidas que as pessoas têm com meu patrão; assim, elas ficam me devendo este favor e por isso, vão me ajudar com algo enquanto eu estiver desempregado’.
Muito espertinho o empregado! Na época, a cobrança de juros era proibida pela Lei, assim, para obter o máximo dos outros, os vendedores diminuíam medidas para ganhar mais, aumentavam pesos quando vendiam, adulteravam balanças, compravam os pobres com um par de sandálias (ou hoje com uma prótese dentária ou um exame de vista), nada diferente do que existe por aí em todos os âmbitos da sociedade. Então, aquele empregado resolve reduzir as contas devidas ao seu valor real, perdendo os juros para o patrão e fazendo amigos para si mesmo. Usou o presente para providenciar o futuro.

Jesus com esta parábola constata: “realmente, os filhos 'deste mundo' são mais espertos em seus negócios do que os filhos da luz”. Somo filhos da luz, seguimos a luz do mundo que é Jesus; mas, muitas vezes, como cristãos, nos faltam a prontidão e o zelo daquele administrador da parábola em vez de ficarmos nos lamentando e reclamando.

Por isso, Jesus com base nessa verdade, dá três orientações com relação ao uso do dinheiro. Primeiramente, que devemos usar o dinheiro em favor do nosso próximo. Os bens que Deus confia a nossa administração não devem ser gastos de maneira egoística em vista de uma “boa vida”, mas devem ser usados conforme à vontade de Deus. Ou seja, sendo uma bênção para o outro. Jesus fala de dinheiro, mas aí devemos incluir tudo o que é bem terreno: as nossas capacidades, talentos, educação recebida etc. Tudo deve ser administrado fielmente e não pode ser esbanjado para engrandecer a nós mesmos e para o bem da nossa pessoa. A maneira como nos relacionarmos com o dinheiro contará muito para o nosso bem espiritual.

Em segundo lugar, ele nos ensinou que em tudo o que fizermos devemos ter bem claro na mente a honestidade: quem é fiel, quem é honesto no pouco, será no grande. Quem é desonesto nas pequenas coisas, também o será nas grandes; não podemos nos enganar e pensar que nas grandes coisas nos comportaremos de modo diferente. É como quando conseguimos um emprego de vendedor numa loja. Somente, se o patrão estiver seguro da nossa honestidade nas pequenas coisas, ele nos eleva de cargo. Até mesmo nas mínimas coisas da nossa vida, devemos ser honestos, principalmente com Deus.

Por fim, Jesus nos alerta para o perigo do dinheiro atrapalhar a nossa relação com Deus. Pois, estando envolvidos somente com lucro, corremos o risco de o colocarmos no lugar de Deus, já que não se pode servir ao mesmo tempo a dois senhores.

Às vezes, pensamos que ser cristãos significa ser ingênuos; que o cristão deve rejeitar as espertezas do mundo, deve opor-se aos compromissos do mundo e às astúcias da sociedade, deve evitar a ambiguidade e a vida dupla dos prepotentes: numa palavra deve ser simples. É! Mas devemos entender que não podemos ser ingênuos. Jesus não elogia quem age de maneira desonesta, mas ele nos convida a usarmos da esperteza como aquele empregado desonesto que viu que aqueles bens estavam prestes a acabar e se tocou que com eles poderia buscar valores mais duradouros, como os amigos que fazemos quando praticamos o amor ao próximo.

Não podemos servir absolutamente a dois senhores, devemos escolher: ou Cristo ou o dinheiro; e é uma escolha radical, uma escolha urgente, ontem e hoje mais do que ontem, exatamente porque no nosso tempo, prevalece a cultura do ter e a mentalidade que vale mais quem tem. Portanto, não podemos nos intitularmos cristãos e seguir a lógica do mundo, não podemos nos considerar discípulos de Cristo e viver de um egoísmo ávido e insaciável. O ser discípulo de Cristo, não admite compromissos nem acomodações; e se, como filhos da luz, escolhemos segui-lo, como Ele devemos fazer-nos dom de amor ao próximo, aquele próximo que um dia nos acolherá nas moradas eternas.

domingo, 5 de setembro de 2010

XXIV DOMINGO COMUM - Lc 15,1-32

O Amor de Deus: o mais belo e desejável

O Evangelho de hoje nos apresenta três parábolas. Cada vez que lemos e relemos a mesma parábola, e este ano já é a segunda vez que lemos a do “filho pródigo”, descobrimos novos significados que nos guiam em nosso amadurecimento humano. A novidade das parábolas de Jesus é aquela de enxergar sempre as coisas do ponto de vista de Deus; Jesus nos revela o modo de pensar de Deus que frequentemente é completamente diferente do modo como nós, apesar de ouvirmos tantas vezes as mesmas parábolas, insistimos em não assumir o caráter de Deus em nós.

Por exemplo, diante do pecador, Jesus nunca dá ênfase a este apontando o seu erro, mas ele sempre ressalta a beleza do amor de Deus que busca o pecador para perdoá-lo. E a grande beleza proveniente destas parábolas é que cabe a cada um de nós em primeiro lugar reconhecer-se pecador para sentir esse amor incondicional e em segundo lugar ir atrás das “ovelhas perdidas, da moeda perdida, do filho pródigo” para que também experimentem desse amor que nos preenche completamente. Essa tarefa é exatamente o contrário do gesto de apontar o defeito do outro, de julgar e de condenar.

Já expliquei o evangelho do filho pródigo este ano durante a quaresma e ressaltei que nas duas primeiras parábolas de Lc 15, a iniciativa é sempre de Deus, já que nem a ovelha nem a moeda têm como voltar pra seus donos por si só. Já a parábola dos dois filhos, é o filho pródigo quem começa o caminho de volta, mas antes que chegue, é o pai que quando o avista, corre ao seu encontro, o abraça e o cobre de beijos. Esta iniciativa do filho de retornar é para mostrar que somente é possível receber este amor de Deus se deixarmos de ser cabeças-duras e nos abrirmos a este amor. Já a reação do filho maior revela ainda a atitude dos fariseus: inveja, raiva, presunção, superioridade em relação aos outros. Ele chega a dizer ao pai: “este teu filho”, como se não fosse irmão dele.

Com as parábolas de hoje, Deus nos chama a pararmos de nos esconder, de reconhecermos abertamente o impostor que vive em nós (filho mais velho) e nos aproximarmos dele como o filho mais novo.

Por isso, a partir daqui cito algumas frases de livros do padre Brennan Manning, que dá o seu testemunho acerca de seus problemas com o alcoolismo e sua dificuldade em aceitar ser aceito por Deus:

“Uma das contradições mais chocantes da Igreja é a profunda aversão que muitos discípulos de Jesus nutrem por si mesmos. Estão mais insatisfeitos com as próprias falhas do que jamais imaginariam estar em relação às de qualquer outra pessoa.

Nos meus oito anos de idade, nasceu em mim, como forma de defesa contra o sofrimento, o impostor, ou o falso eu. O impostor que vive em mim sussurrava: "Brennan, jamais seja quem você de fato é, porque ninguém gosta de você como é. Invente um novo eu a que todos admirem e ninguém conheça". Tornei-me assim um bom menino: cortês, educado, discreto e respeitoso. Estudei com afinco, tirei as melhores notas, granjeei uma bolsa de estudos para o ensino médio, e a cada momento fui perseguido pelo pavor do abandono e da sensação de não ter ninguém ao meu lado.

Minha mente e meu coração, divorciados um do outro, arrastaram-se profundamente por todo o meu ministério. Durante dezoito anos proclamei as boas notícias do amor apaixonado e incondicional de Deus — completamente convicto na mente, mas sem senti-las no coração. Nunca me senti amado. Por fim, porém, após um intenso retiro em que busquei sondar o meu interior, vim a perceber que era verdadeiramente amado. No instante em que compreendi essa verdade monumental, comecei a prantear e a soluçar. Depois de esvaziar o cálice da minha dor, algo notável aconteceu: ouvi ao longe som de música e dança. Eu era ali o filho pródigo voltando para casa, manco; não um espectador, mas um participante. O impostor desvaneceu, e entrei em contato com o meu verdadeiro eu, como o filho de Deus que havia retornado. "Venha para mim agora", diz Jesus. "Pare de projetar sobre mim o que sente a seu respeito. Neste momento sua vida é um caniço rachado que eu não quebrarei, um pavio fumegante que não apagarei. Você está num lugar seguro". Você é amado.

De fato, se eu preciso buscar uma identidade que não esteja em mim mesmo, o acúmulo de riqueza, poder e fama me fascina. Ou, então, posso encontrar meu centro de gravidade nos relacionamentos sociais. Ironicamente, a própria Igreja pode afagar o impostor conferindo ou retendo honrarias, oferecendo o orgulho de uma posição baseada no desempenho e criando a ilusão de status pelo escalão e pela ordem de importância. Quando pertencer a um grupo de elite eclipsa o amor de Deus, quando tiro vida e significado de qualquer outra fonte diferente da minha condição de amado, estou morto espiritualmente. Quando Deus é relegado a segundo plano, atrás de quaisquer bugigangas ou ninharias, troquei a pérola de grande preço por fragmentos de vidro pintado.

"Quem sou eu?" "Sou aquele que é amado por Cristo". Isso é a base do eu verdadeiro. A condição indispensável para desenvolver e manter a consciência de que somos os amados é reservar tempo a sós com Deus. Nossa identidade repousa na ternura implacável de Deus por nós, revelada em Jesus Cristo. Nosso frenesi controlado cria a ilusão de uma existência bem ordenada. Movemo-nos de crise em crise, reagindo ao urgente e negligenciando o essencial. Andamos continuamente em círculos. Ainda fazemos todos os gestos e praticamos todas as ações identificadas como humanas, mas nos assemelhamos a pessoas levadas por esteiras rolantes de aeroportos

…Levou apenas algumas horas de silêncio antes de começar a ouvir minha alma falar. Demorou pouco até descobrir que não estava sozinho. Deus estava tentando gritar mais alto do que a barulheira da minha vida, contudo, eu não podia ouvi-lo. Mas, na calmaria e na solitude, seus sussurros gritaram de dentro da minha alma: "Estou aqui. Tenho-o chamado, mas você não me escutou. Consegue me ouvir? Eu amo você. Sempre o amei. Esperava que você me ouvisse dizê-lo. Mas você tem estado tão ocupado tentando provar para si mesmo que é amado, que nem me ouviu". Eu o ouvi, e minha alma sonolenta encheu-se com a alegria do filho pródigo. Minha alma foi despertada por um Pai amoroso que tem procurado e esperado por mim. Finalmente aceitei minha transgressão... Nunca tinha me acertado com isso. Deixe-me explicar. Eu sabia que estava quebrado. Sabia que era pecador. Sabia que decepcionava Deus continuamente, mas nunca consegui aceitar esse meu lado. Era uma parte que me envergonhava. Sentia continuamente a necessidade de me desculpar, de fugir da minha fraqueza, de negar quem eu era para me concentrar em quem deveria ser.

Estava quebrado, sim, mas tentando continuamente nunca mais me quebrar de novo ou, pelo menos, chegar a um lugar em que raramente estivesse quebrado. Cheguei a perceber que Jesus me fortalecia em minha transgressão, impotência e fraqueza. Era na aceitação da falta de fé que Deus poderia me dar fé. Era ao acolher minha transgressão que poderia me identificar com a transgressão dos outros. Meu papel era identificar-me com a dor de outros, não aliviá-la. Ministrar era compartilhar, não dominar; entender, não teologizar; cuidar, não consertar. O que isso tudo significa? Não sei... e sendo bem grosseiro, esta não é a questão? Sei apenas que em momentos específicos de nossa vida, ajustamos seu curso. Esse foi um desses momentos, para mim. Se você olhasse o mapa da minha vida, não perceberia nenhuma diferença notável, a não ser por uma ligeira mudança de direção. Só posso dizer que tudo parece diferente agora. Há uma expectativa, uma energia por causa da presença de Deus em minha vida que nunca experimentei antes. Só posso dizer-lhe que, pela primeira vez em minha vida, posso ouvir Jesus sussurrar todos os dias: "Eu te amo. Você é o amado". E por alguma estranha razão, isso parece ser suficiente. E você? Acredita realmente que Deus te ama incondicionalmente? (Citações das obras: “O Evangelho Maltrapilho”, “O impostor que vive em mim”, “O amor obstinado de Deus”).

Brennan Manning é ex-padre, escritor, e conferencista americano. Depois de ordenado padre franciscano, fez uma experiência contemplativa com os Pequenos Irmãos de Jesus que vivem a espiritualidade de Charles de Foucauld na Espanha. Voltando aos Estados Unidos, em 1970, depois de enfrentar uma crise pessoal, o alcoolismo, problema que enfrenta até os dias de hoje, escreve e ministra palestras, sempre com o objetivo de comunicar o amor incondicional de Deus em Jesus: “Aprendi de um sábio franciscano que, para quem conhece o amor de Cristo, nada mais no mundo é tão belo e desejável”.