quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

EPIFANIA DO SENHOR - Mateus 2,1-12

LECTIO DIVINA

03 de Janeiro de 2010

MISSA DA EPIFANIA DO SENHOR

Mateus 2,1-12

Autor: Pe. Carlos Henrique

Celebramos a festa da Epifania: essa palavra estranha vem do grego e significa "manifestação". A manifestação é um ato onde algo é revelado, mostrado, dado a conhecer, tornado público. Quando queremos protestar algo, ou fazer uma campanha em prol de uma causa, ou fazer uma apresentação artística, fazemos uma manifestação pra que o máximo possível de pessoas tomem conhecimento da coisa.

No que diz respeito à festa que a Igreja hoje celebra, estamos diante de uma manifestação de Deus. É a festa na qual Deus se manifesta a todos os povos. Ele quebra o vínculo com o povo de Israel para estendê-lo a toda a humanidade.

A manifestação de Deus em Jesus não é destinada a um grupo restrito de pessoas, mas inclui todo o mundo como confirma o texto evangélico. Nele, aparecem três grupos de pessoas e sua relação com o recém-nascido em Belém: os magos, Herodes e os doutores da Lei e os escribas.

O termo "mago" é muito vago, mas de certo modo, refere-se aos espertos na observação dos astros, eram astrólogos. Tinham conhecimento da espera messiânica pelos judeus e tendo recebido uma indicação do nascimento do Messias, põem-se a caminho. Conhecem a direção, mas não sabem exatamente o que os espera. Estão a caminho. Vêm do Oriente e enfrentam todos os incômodos de uma viagem cansativa até Belém em busca do rei que nasceu.

Com relação à astrologia, com relação à influência dos astros no comportamento humano e no planeta de uma forma em geral, acho que há ainda muito o que se estudar. Pois, não basta proibir nem dizer que é tudo mentira, é preciso argumentar, esclarecer.

O papa Bento XVI na sua encíclica Spe Salvi de 2007, cita um texto de São Gregório Nazianzeno, no qual, ele diz que “no momento em que os magos guiados pela estrela adoraram Cristo, o novo rei, deu-se por encerrada a astrologia, pois agora as estrelas giram segundo a órbita determinada por Cristo. De fato, nesta cena fica invertida a concepção do mundo de então, que hoje, de um modo distinto, aparece de novo florescente. Não são os elementos do cosmo, as leis da matéria que, no fim das contas, governam o mundo e o homem, mas é um Deus pessoal que governa as estrelas, ou seja, o universo; as leis da matéria e da evolução não são a última instância, mas razão, vontade, amor: uma Pessoa. E se conhecemos esta Pessoa e Ela nos conhece, então verdadeiramente o poder inexorável dos elementos materiais deixa de ser a última instância; deixamos de ser escravos do universo e das suas leis, então somos livres”.

São belas e verdadeiras as palavras de Gregório Nazianzeno, mas também continua muito forte entre nós as crenças em torno da lua cheia: influência na agricultura, nas marés, no crescimento dos cabelos, no nascimento de bebês, no fato de pessoas ficarem “lunáticas”, ou que são de “lua”. Eu mesmo cresci, ouvindo meu pai dizer que era necessário deitar as galinhas chocas de modo que os pintos saíssem da casca antes da lua cheia, mas nunca entendi o porquê.

Mas, enfim, estes astrólogos representam todos os pagãos, chamados a crer em Cristo. Representam todos nós. Representam a caminhada de todos os povos, anunciada pelo profeta Isaías: "os povos caminham à tua luz e os reis ao clarão de tua aurora" (Is 60,1-6). A viagem dos magos é imagem do caminho de fé e de esperança que o homem de cada tempo realiza até Deus. A fé é sempre uma busca. Aquele que crê está sempre a caminho.

Chegando em Jerusalém, são mandados a um outro lugar. Agora, sabem com mais precisão, onde podem encontrar o rei. De fato, os escribas são espertos na Sagrada Escritura e dela deduzem o lugar de nascimento do Messias, Belém da Judéia: "E tu, Belém, terra de Judá, de modo algum és a menor entre as principais cidades de Judá, porque de ti sairá um chefe que vai ser o pastor de Israel, o meu povo".

Os magos, que são pagãos, perseveram na busca do rei, pondo-se de novo a caminho. Por sua vez, os escribas para quem nasceu o rei, ficam indiferentes. Assim, o texto bíblico apresenta um grande contraste: os de fora (magos) buscam e encontram o Salvador e os de dentro (Herodes e os habitantes de Jerusalém) ficam indiferentes, rejeitam, têm medo. Herodes que defendia seu reino com violência e era odiado pelos judeus porque favorecia o império romano, agora, sente-se incomodado pela notícia do nascimento do rei dos judeus. Ele queria matar o menino, como demonstra a matança dos inocentes. Herodes significa todos aqueles que são tão apegados aos próprios interesses que não deixam nenhum espaço para este menino; pelo contrário, este é importuno e ameaçador.

Finalmente, a luz guia os magos até o menino; essa luz é símbolo de Cristo, luz do mundo. Ele nos chama a si através de uma grande variedade de sinais e indicadores luminosos, como a Palavra de Deus.

Os magos vêem o menino, dão-se conta que Ele não apresenta nenhum poder externo, nenhum esplendor; mas mediante a fé, o reconhecem como rei, senhor e pastor da humanidade. Seus presentes também são uma forma de reconhecimento: ouro, incenso e mirra. Ouro destinado aos reis, incenso destinado a Deus e mirra, planta medicinal de onde se extrai uma resina, que misturada a óleos, era usada como óleo curativo, cosmético e unções religiosas: Jesus é o Messias, o Cristo, o Ungido.

Os magos do Oriente não eram nem reis, nem três, nem se chamavam Gaspar, Melquior e Baltazar como apresenta a tradição popular. Isto não corresponde ao texto bíblico. Porém, corresponde ao espírito do Evangelho. São representados por um jovem, um adulto e um ancião; um asiático, um europeu e um africano (o mundo de então, já que as américas e a oceania não tinham sido "descobertas".). Tudo isto para significar que todas as idades e todas as pessoas caminham em direção a esta estrela que é Cristo, luz do mundo.

Jesus veio para todos nós: para os jovens e os idosos, para os sábios e os simples, para as pessoas de qualquer cor e de qualquer forma de vida, a fim de mostrar-nos Deus como Nosso Pai e ser uma Luz para a nossa vida. Como magos, não devemos deixar nos desviar do caminho que é Jesus, e sim sermos guiados por Deus, até atingirmos a meta. Podemos estar muito longe ou podemos estar perto, mas o bom é podermos ter a consciência tranquila de que estamos a caminho e perseverarmos nesse caminhar! Rezemos pelos que estão pra lá e pra cá e ainda não acharam nem o começo da estrada!

Nenhum comentário: