quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

6º Domingo Comum - Ano B - Mc 1,40-45


O AMOR NÃO EXCLUI NINGUÉM

O que diz o texto?
As categorias: puro/impuro são estranhas à mentalidade moderna, mas de grande importância na literatura bíblica, sobretudo nos escritos sacerdotais como o livro do Levítico. Em tal obra, há uma série de proibições a serem observadas a fim de que as pessoas não fiquem impuras; pois, para que alguém se aproxime daquilo que é santo é necessário ser puro.
“Santo” é tudo aquilo que é divino ou pertencente a Deus, aquilo que é separado de todo o resto; “puro” é o que pode entrar em contato com o “santo”. O estado de pureza torna possível a comunhão com o mundo da santidade divina; já o da impureza o impede. Assim, fica claro que a distinção entre puro e impuro não diz respeito necessariamente à situação moral de uma pessoa, isto é, não equivale ao fato de ela ser boa ou má, mas se refere principalmente à sua dimensão física.
Mas por que certas coisas são impuras e outras não? Encontrar uma explicação racional para esta pergunta nem sempre é fácil, provavelmente nem mesmo possível. Muitas vezes, são tabus ancestrais ligados a um modo de ver as coisas totalmente diferentes de como conhecemos o mundo hoje em dia. De um modo geral, podemos dizer que a pureza está ligada à integridade do ser. O contato com qualquer coisa que esteja no âmbito da morte, como um ser humano ou um animal morto, moribundo, mutilado, contaminado, deformado, traz impureza.
Tudo isto é bastante claro nas leituras deste 6º Domingo Comum. O Antigo Testamento reúne várias enfermidades de pele que correspondem somente em parte, e talvez muito pouco, àquilo que hoje chamamos lepra (hanseníase). Quando a pele mostra qualquer “inflamação, erupção ou mancha branca”, fala-se do mal da lepra. E, uma vez declarado pelo sacerdote oficialmente impuro, é dever do leproso andar “com as vestes rasgadas, os cabelos em desordem e a barba coberta”, revelando a todos o seu estado de proximidade com a morte, gritando: “impuro, impuro!” para que ninguém se aproxime dele e fique impuro.
Talvez pra nós hoje isso soe ridículo, mas para a época bíblica não era. Para facilitar a nossa compreensão, basta assistir a um capítulo da nova novela das oito: “Caminho das Índias”, e perceber o grau de humilhação e de exclusão total que sofre um “dalit” (Os dalits ou os intocáveis ou impuros são os indianos que não descendem de nenhuma casta, coisa necessária para se ter direitos, são excluídos e vivem uma vida lamentável). O dalit tem que ter o cuidado para que nem mesmo a sua sombra alcance alguém para não torná-lo impuro.
Com a cura do leproso, Jesus muda tudo. Mas vejamos agora o que diz o relato. São três os momentos fortes: primeiro, o fato do leproso descumprir a lei. Em vez de se revelar impuro para Jesus, o leproso se aproxima e professa a sua fé no poder de Jesus. Depois, também Jesus viola a lei e toca o leproso. Finalmente, as consequências da cura prodigiosa.
O aproximar-se do anônimo enfermo de lepra é introduzido pelo evangelista com “um leproso chegou perto de Jesus””. É um modo de Marcos ligar este episódio ao versículo imediatamente precedente no qual Jesus, depois de ter curado muitos doentes e expulsado muitos demônios, andava anunciando o Evangelho em toda a Galiléia. Assim, o evangelista quer explicar aos leitores aquele fato estranho e desconcertante: contra todo tabu, o leproso pode se aproximar de Jesus porque no seu lar chegou a boa notícia de que também para ele, que vivia isolado da aldeia, o Mestre oferecia uma esperança de cura que tinha como finalidade reintegrá-lo na comunidade.
É interessante notar o pedido explícito do enfermo para receber a cura. Normalmente, os enfermos é que são levados a Jesus. Aqui é o próprio quem procura a Jesus. Já que foi expulso, não há ninguém que o ajude. O leproso suplica de joelhos, a sua oração é um exemplo de fé pura, reconhecendo sem reservas a vontade e o poder de Jesus: “se queres, tens o poder de curar-me”. Para este homem, que Jesus tenha poder é evidente; mas, que possa fazer algo por ele, depende da sua vontade; por isso, o leproso acredita no poder de Jesus e se submete a sua vontade. Aquele homem ousa apresentar-se a Jesus, diante de quem apresenta a condição miserável de sua pessoa, tornado assim graças a uma discutível organização religiosa e social.
Jesus é consciente de tudo isto, e é tocado profundamente pela compaixão. A palavra hebraica para compaixão significa mover as vísceras maternas, e aqui quer expressar o amor comovente de Deus para com o homem. O Senhor se comove diante de nosso sofrimento como uma mãe que não pode não comover-se pelo fruto de suas vísceras (Os 11,90). E a compaixão não deixa Jesus parado, mas o leva a agir com grande determinação. Estende a mão, sinal do agir poderoso de Deus e toca o leproso.
Jesus toca o leproso e não fica impuro, pelo contrário, torna-o puro. De ter o direito de tocar e de estar sobre a lei, Jesus demonstra mediante o poder com o qual livra o enfermo da lepra. Eis a conseqüência de sua ação. Ele retoma ao mesmo tempo as palavras com as quais o leproso confessou a própria fé: “eu quero, fique curado”. E imediatamente a lepra desaparece.
O que Jesus cumpre com tanta emoção tem uma finalidade: o homem deve obter a alegria plena pela pureza recuperada. Qualquer coisa ulterior deve ser evitada: deve calar-se sobre o que Jesus operou nele. Ele deve fazer o procedimento fixado pela lei e confirmar sua integridade através da oferta ritual. Mas, o homem não se cala. Espalha a notícia. Não pode ficar calado diante da mais bela experiência que teve na sua vida.

O que me diz o texto? O que nos diz o texto?
No Evangelho de hoje, vemos a passagem do Antigo para o Novo testamento, a passagem da lei à graça. De fato, Jesus vai contra toda polêmica dos escribas e fariseus prontos a fazerem escândalo para não entrarem em contato com pessoas impuras. Jesus se expõe fisicamente ao contágio de nossas enfermidades. Assim, nossos males se tornam o ponto de contato: ele toma de nós a nossa humanidade enferma e nós tomamos dele a sua divindade curadora.
Jesus nos diz o que Deus faz diante de nosso mal: em Jesus, Ele não vem eliminar completamente o sofrimento e a morte, mas vem encontrar-se conosco, manifestar o amor do Pai pelos pequenos e pobres, pelos enfermos e excluídos. E, assim, podemos nos perguntar?
Quem são os “leprosos” da minha comunidade? Como tratamos estas pessoas? Com amor, compaixão e ação ou com preconceito, desprezo, e indiferença? Como posso imitar hoje a atitude de Jesus para com os excluídos? Sou consciente de que também eu possuo as minhas “lepras”? Que Jesus tem compaixão de mim e que quer me curar? Aproximo-me dos Sacramentos que Jesus instituiu para receber a cura completa? Aprendo com Jesus a cumprir os preceitos da lei sempre para libertar as pessoas e nunca para prendê-las ainda mais na sua condição de miséria?
Oração de Madre Teresa, ícone da compaixão de Deus pelos mais pobre de entre os pobres de Calcutá, tais como leprosos, intocáveis e carentes de amor:
“Quem é Jesus para mim?
Jesus é o Verbo Encarnado
Jesus é o Pão da Vida
Jesus é a Vítima oferecida pelos nossos pecados na cruz
Jesus é o Sacrifício oferecido na Santa Missa pelos pecados do mundo e pelos meus
Jesus é a Palavra a ser dita
Jesus é a Verdade a ser revelada
Jesus é o Caminho a ser percorrido
Jesus é a Luz a ser acesa
Jesus é a Vida a ser vivida
Jesus é o Amor a ser amado
Jesus é a Alegria a ser partilhada
Jesus é o Sacrifício a ser oferecido
Jesus é a Paz a ser doada
Jesus é o Faminto a ser alimentado
Jesus é o Sedento a ser saciado
Jesus é o Despido a ser vestido
Jesus é o Desalojado a ser recolhido
Jesus é o Doente a ser curado
Jesus é o Solitário a ser amado
Jesus é o Indesejado a ser querido
Jesus é o Leproso a quem limpar as chagas
Jesus é o Pedinte a quem dar um sorriso
Jesus é o Bêbado a quem ouvir
Jesus é o Retardado mental a quem proteger
Jesus é o Pequenino a quem abraçar
Jesus é o Cego a quem conduzir
Jesus é o Mudo por quem falar
Jesus é o Deficiente com quem caminhar
Jesus é o Dependente de drogas de quem ser amigo
Jesus é a Prostituta a quem afastar do perigo e de quem ser amigo
Jesus é o Preso a quem visitar
Jesus é o Idoso a quem servir”
(Madre Teresa em Venha, seja minha luz. A história e os impressionantes escritos da Santa de Calcutá)

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